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segunda-feira, março 06, 2023

MARIA RESSA, MACLEISH, FILIPA MELO, CHANTAL THOMAS & TEJUCUPAPO

 

 Ao som de Umbrales (2018), Le Repas du Serpent (2004), Retour a la Raison (2004), Espectros de Água (2021), Rabeca (2021), Céu da Boca (2021) e Ronín (2021), da premiada violoncelista, compositora, musicista, pesquisadora e docente Iracema de Andrade.

 

TRÍPTICO DQP: - Cio do amanhecer... - O que é da vida (vem de, vai pra) outra! E eu com as perguntas de Gauguin nos lampejos do dia em plena madrugada. Que segunda ou sei lá relógio ou calendário, sem hoje nem onde, tudo se consome em erros e enganos. Quanta rebordosa na lição de Archibald MacLeish: Só existe uma coisa pior do que aprender com os erros - é não aprender nada com eles... Mesmo assim entoei o Hino de Akhenaton ao ver a estrela de Bandeira, como se vivesse no campo de Auta de Souza ou na palidez do inverno de Pessoa. E na do futuro de Sophia Breyner fui pelas quatro e meia de Bukowski e por toda de Affonso Romano de Sant’Anna, pensando com José Godoy Garcia e tecendo com João Cabral. Mudagora: destampou chuva de enxurrada lavando o meu país, enquanto assobiava as estranhezas dos lugares, a ligeireza do tempo e sentia o que jamais entendi. Sim, o sorriso se tornou espasmo com Maria Ressa: Sempre faça a escolha de aprender... Durante toda a minha vida, quando me deparo com uma decisão difícil, sempre me pergunto - onde posso aprender mais. Faça a escolha de aprender... E eu só pedia que não arrancassem minhas pálpebras, não fincassem dores no meu peito, não vazassem meus olhos, nem triturassem minhas unhas e dedos, não me dissessem de adeuses, nem fustigassem cem por cento meu coração, senão, sóis e lás, larilarás, bemóis, frases sem aspas, hemistíquios no impasse: nada cessava tampouco, pelo menos precisamos viver um pouco de paz...


 

A todo vapor... – Imagem: Report from Rockport (1940), do artista estadunidense Stuart Davis. - Maneiroutra: tinaceso, espreitubíqua; senão, cochilo de cachimbo entre pequenidades, era quase meio dia. Bem o diz Filipa Melo: Morremos todos de excesso ou falta de amor, que morremos todos do coração, acreditem!... Sim e isso porque o humano morre em cada um, essa a surpresa no meio do flagelo: todo o mundo vasto de desunião fundamentalista, feições desafinadas, os escarros da sorte se mantem tanto de besta e miserável, mais do que nunca. Melhor a tirada de Chantal Thomas: Na sociedade moderna há muito lazer e pouco prazer... Sim, todas as carências na supremacia, como se fossem dilacerados sábados pelas esquinas medievais, com suas palavras estranguladas e nenhum nome ficou ao exorcizar a história infame no charco silencioso, ocos ouvidos pelas labaredas dos pesadelos e eu apenas viver no que resta, sem querer saber o que será de mim...

 


Ares de Tejucupapo... – Imagem: arte de Tereza Costa Rêgo. – Quandepois, a vida triunfa de tarde. Afinal, nem só de inferno se vive, vezoutra o paraíso pouquinho, mas vale a pena. E era Clara entre outras anônimas Marias, jeito pontual, havido e devido, um sorriso de quem solta balões em festa. Olhou-me de seu, marisqueira unhas na terra: livrou-se da pilhagem holandesa apenas com pedras, pano, chuços e água quente com pimenta no Monte das Trincheiras, era a insurreição do Porto do Ferreira, muito tempo atrás. Hoje não, agora dia de sururu, ostra, aratu, mariscos outros no chão da maré, as cacimbas em que só eram abris recorrentes, alma senão feliz, satisfeita. E me dizia Langston Hughes: Agarre-se a seus sonhos, pois, se eles morrerem, a vida será como um pássaro de asa quebrada, incapaz de voar... A vida é para os vivos. A morte é para os mortos. Deixe a vida ser como música. E morte uma nota não dita... Ajeitou os afazeres, lavou as mãos e com afeto redobrado deitou os ombros ao poente enquanto eu apenas fagulhas das narinas de setembro, os suores lascivos e ela se enramava imantada com as ancas ondulantes de sibila ungida. Sorvia seu jeito, servo a servia. Lá pras tantas tudo descansava boquinha da noite, foi aí um lance na paisagem escura e seu púbis orvalhado abriu meu cofre fálico com um beijo no crepúsculo da garganta. Ah, perdi meu rosto no solfejo brando dela e me fiz por suas pálpebras celestes, o seu delíquio tirando fino à beira do Aqueronte, a vida breve e vã, os prazeres ficaram na promessa da eternidade, nada esqueceria. E dela a hestória e o amor. Até mais ver.


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quinta-feira, setembro 23, 2021

CORDEL REPENTEANDO, LUA, UNGARETTI, BRÁULIO TAVARES & SALLIE NICHOLS

 

 

TRÍPTICO DQP – Popoesialar... - Ao som da vinheta Tataritaritatá. - Poesia Popular? Eita! Ah, era quando ia com mãe ou vó pra feira e lá dava de cara com dois repentistas com seu trabalho feito e descascando cada qual a honra e a feiúra um do outro, morria de rir, a ponto de ser arrastado pra casa, de nem poder vê-los rapar a viola. Coisa boa de ver, visse? Ou quando via aquela figura gigantesca do Ascenso cantando das suas, umas e outras, para lá e para cá, chega dava gosto! Lá em casa era pai achegado no meio das suas estantes. Ele até cometia uns sonetos bissextos, enrolado com as lições do Bilac, sapecando uns solos ao violão e a me falar noutras horas do romanceiro dos cordelistas, do cancioneiro popular. Eu que já era de ficar entretido com os trava-línguas, parlendas, pastoris e quadrinhas, ouvia dele coisas de Leandro Gomes de Barros, do Pavão Mysterioso, de Zé da Luz e doutros causos e graças das Literaturas ditas de Cordel. Era galope, martelo, oitava e mourão; era décima, ligeira, sextilha, parcela e quadrão. Era gabinete, toada, gemedeira e rojão pernambucano, quando uma dupla com bandeiro no coco da embolada, quando não outros com dez de adivinhação. Olhos grandes e todo espalhado. Se aprendia? Só Deus sabe o que eu não sei. Até que um dia, no meio da itinerância, lá fui eu noutras voltas, cheio de nó pelas costas a recitar outras Severinas do João Cabral.

 


Lunário perpétuo... – Ao som de Abusão. - De primeira foi assim: inadvertidamente dei de cara com um livrão, sabia lá o que era o Non plus ultra do lunário e prognostico perpetuo, geral e particular para todos os reinos e províncias. Vôte! Nunca tinha visto, apareceu assim do nada sobre a mesa. Estava lá, misterioso. Cá comigo: Que droga é nove? Não era só um livro. Bastou abri-lo assim do nada, logo dele, isso mesmo, das páginas dele uma coisa assim que meio evaporou e fez volume esfumaçado no ar. Só depois de muito tempo é que pude ver que era Vivagina – explico: era como se fosse aquela cabeluda de Bráulio Tavares e a da porteira de Courbet, entende? Pois é. Não demorou muito e a coisa foi ficando mais perturbadora. Logo ouvi a voz de Sallie Nichols: Todas as noites, a Senhora Lua reúne todas as lembranças jogadas fora e todos os sonhos esquecidos da humanidade, guardando-os em sua taça de prata até o despontar da aurora. A seguir, aos primeiros albores, continua a história, todos os sonhos esquecidos e todas as lembranças desprezadas são devolvidas à Terra como seiva da Lua ou orvalho. Misturado às lacrimae lunae, o orvalho nutre e retempera toda a vida sobre a Terra. Graças ao desvelo compassivo da deusa, nada de valor se perde para o homem. Além de precavido, estava cada vez mais curioso. Foi, então, que uma voz de um vulto que emergia do ventre, agigantando-se. E começou a falar de Plutarco: É a morada dos homens bons de sua morte. Levam aí uma vida que não é nem divina, nem feliz, mas, contudo, isenta de preocupação, até a sua segunda morte. Porque o homem deve morrer duas vezes. Danou-se! Procurava entender quando ouvi um poema de Giuseppe Ungaretti: Que estás fazendo, Terra, no / céu? / Diz-me, que estás fazendo, silenciosa / Terra? Entendia patavina! Pensei comigo: melhor fugir. Não deu, algo me trancava naquilo e ouvi do poeta árabe Ibn al-Mottaz (861-908): Olha a beleza do crescente que, acabando de aparecer, rasga as trevas com seus raios de luz. Como uma foice de prata que, entre as flores brilhando na obscuridade, colhe narcisos. A primeira lembrança que ocorre, quando se deseja descrever algo excessivamente belo e mostrar sua extrema perfeição, é dizer: uma face semelhante à Lua. Quanta doidice duma vez só! Era como se a imagem me dissesse tudo isso lido das páginas daquele volume misterioso. De repente a imagem foi ficando mais nítida, a ponto de identificar duas torres, um lago azul e nada mais que conseguisse distinguir no meio da névoa onírica que imperava no ambiente. E era Tales mencionando o corpo sem luz própria que apenas refletia a luz solar. Era Demócrito dizendo que ali era um mundo de montanhas e vales. Era Aristóteles falando das fases lunares. Eram Arisparco de Alexandria e Hiparco medindo a distância entre a Terra e a Lua. Era Newton descobrindo a relação gravitacional. Era Galileu com seu Siderius Nuncius, confirmando Demócrito. E tudo me assustava, nada entendia, impedido de retroceder. Cada vez mais visíveis as duas torres de ouro sedutoras, havia um caminho escuro, não sei se antes alguém já havia passado por isso, acho que sim. O caminho dava numa encruzilhada e eu precisei domar a besta fera que havia em mim – um lobo uivador, nada encoleirado -, e percebia que de um lado estava o dia claro e, do outro, o umbral das horas feiticeiras da noite. Uma imagem de mulher se insinuou mais nítida: em silêncio ela me contemplava – não alcancei suas fases, mas quando a vi, parecia ser a deusa da Lua na Noite Terrível, a me dar sonhos de mistérios ocultos. Só podia ser. Duma feita, ela era Ixchel, a deusa com seus quatrocentos coelhos astecas, a filha de Tialoc. Doutra, uma desconhecida irreconhecível que me mostrava a festa de Heng-Ugo, enquanto me falava que a noite era uma rocha que escondia a história patética dos ritmos da vida e que eu havia de descobrir a iluminação das profundezas, no Mapa da Jornada. Foi neste exato momento que me apareceram os tártaros de Altay, para me contar que ali se escondia um velho canibal que foi raptado da Terra pelos deuses, para poupar a humanidade: eu estaria na boca do lobo. Onde estou? Nem se deram ao trabalho de me responder. Um deles disse: O vir-a-ser - as águas, a chuva, a fertilidade, a vegetação, a fecundidade, os destinos humanos sob a lei da variação periódica. No meio disso, emergiu a raposa Yurugu dos dogons, que me trouxe a primeira palavra divina num sonho iniciático. Foi quando de uma das torres apareceu Ártemis, envolvida por um colar de arco-íris a me apontar o escaravelho e era como se ela dissesse que ele iria me devorar para regeneração moral. Na verdade, pelo que pude adivinhar, ela queria mesmo era me castigar com sua virgindade, a me fazer Hipólito destemido diante de seus cães devoradores, para depois me supliciar. Pensei no seu intento e me surpreendeu ao se tornar Selênia: mostrou-se ciumenta e dominadora, e que eu tinha que pagar pelo que fiz à rainha Artemisa. Eu? Ela tão pálida e fria quanto inconstante, com todo recato virginal, vingava-se sem que eu sentisse por alguma coisa que não sei nem jamais saberia. E ao perceber meu amedrontamento, tomou bruscamente a minha mão e voamos numa revolução elíptica por vinte e sete dias. E me contou da rotação de Domenico Casini, da órbita kepleriana, da carta de Riccioli, da selenografia de Ibn Al-Haytham e Leonardo da Vinci, até a alunissagem, quando me levou pela face oculta até me mostrar os onze mares dali. E me apontou para a outra torre que resplandecia. Sim, eu vi, estava cada vez mais viva e brilhante. Ao me voltar para ela, desaparecia como se morresse na passagem da vida pra noite e vice-versa. O que me esperava, sequer imaginava. Da outra torre, veio-me Hécate: era a Noite Negra da Alma – a Jornada Noturna do Mar. A deusa poderosa sobre o céu e a terra, pareceu-me mais amigável. Não era, engano meu: uma tocha em cada mão e acompanhada de fantasmas e sortilégios, o inferno vivo. Quando olhei pros lados buscando saída, ela mais se agitou e me sequestrou por vinte e oito dias e, ao final, me deu o Nirvana, para que os brâmanes me levassem pelos vinte e oito estados paradisíacos. Ao retornar, ela me abraçou, beijou-me e nos possuímos longa e demoradamente: ela estava insaciável. No horizonte a claridade dava sinal de que eu não havia morrido, prestes ao próximo dia. Foi quando ela me concedeu a propriedade material, o dom da eloquência, e a vitória no jogo e nas batalhas. Presenteou-me com tudo isso, um beijo demorado e voou. Vi-me sozinho, fechei o livro. Tudo desapareceu. Sabia lá que aquilo estava entre Los libros malditos (Edaf Antilhas, 2005), da historiadora Mar Rey Bueno, que, aproveitou o ensejo, e me mostrou o Malleus Maleficarum, o Necronomicon de Abdul Alhazred por Lovecraft de Cthulhu, o Código de Voynich da Lei de Zipf que ninguém conseguiu ler, e eu lá queria saber, dissimulando feliz pela exposição daquelas publicações. Ofereceu-me todos e mais outros volumes que nem tive tempo de sacar quais eram e se foi com um adeus para sempre.

 


Repenteando... – Ao som do cordel Tataritaritatá - Foi aí que tomei pé da situação, depois das muitas e tantas leituras e revivescências, me danei a afinar a viola sem saber direito se cebolinha, cebolão, quatro pontos ou oitavado, qual? Dei aperto na canotilha, ajustei a toeira, dei um grau na turina, já comparando com a requinta, para chegar na prima e me ajeitar pro melhor dedilhado. E fui logo de Manuel Bandeira: Como qualquer violeiro / bom cantador do sertão, / a todos os quais, humilde, / mando minha saudação. E saí repenteando até com um olho só! Isso no embalo da vida, embolando solto, mandando ver na enrolação. Pudesse vir quem quisesse e de qualquer jeito sapecando mote preu glosar de leixa-prem: Não sei se fico ou se corro. Se corro ou se fico. Não sei se fico aqui ou se corro prali. Assim começava, recomeçava e nada de findar. Tudo só para ganhar a simpatia de Iaravi, com coisas impossíveis de Sol e de Lua, presenteando um repente da mulher. Só queria era ver o sorrido dela, coisa mais linda! Afinal, o que é um peido para quem está cagado, hem? Por isso, vou de repente qualquer jeito para ver como é que fica. E feito xexéu: no ano passado eu morri, mas este ano eu não morro. Solto na buraqueira, Cantador no desnorteio & tatataritaritatá! Aí vou contando desde menino que tomou água de chocalho na beira do rio, do que viu da Mãe da Lua e do Urutau, do Lunário Perpétuo e da sua autoria, do que vi e não vi, do que fiz e não fiz, só de uma coisa eu sei: só a poesia torna a vida suportável. Até mais ver.

 

Neste sábado, dia 25, às 16hs, estarei no Ciclo de Poesia Brasileira do Bacellartes, comandado pela Renata Barcellos, contando ainda com a presença da professora e poeta Marcia Ruth Kanitz, do Severino Honorato da Caravana Tin Tin Alves, da pesquisadora Arusha Kelly Carvalho e da doutora Lia Testa.

 

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POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS

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sexta-feira, outubro 09, 2020

JOÃO CABRAL, JODY WILLIAMS, TAIGUARA, CORTELA, JORDAN PETERSON, ELZA BARROSO, RAÇA & JUSTIÇA


  

TRÍPTICO DGF – AQUELA DE... VALUNA, UM RIO, UMA MULHER - Ô de casa, dá licença!?! Nasci entre um rio e um sorriso de mulher! Para sempre Carma no meu coração, como as matas de não mais, só canaviais florados, pastos, loteamentos ou queimadas nos matagais. Como o rio, quase não mais, não mais acari, nem carito, nem ambulantes de Deus. Ah, o poema de João Cabral: A um rio sempre espera / um mais vasto e ancho mar. / Para a agente que desce / é que nem sempre existe esse mar, / pois eles não encontram / na cidade que imaginavam mar / senão outro deserto / de pântanos perto do mar. / Por entre esta cidade / ainda mais lenta é minha pisada; / retardo enquanto posso / os últimos dias da jornada. / Não há talhas que ver, / muito menos o que tombar: / há apenas esta gente/ e minha simpatia calada. Para mim só as visagens emolduradas na memória. Só com os detritos da invernada ou intermitência das enchentes ameaçadoras é que presenciam e revivem, logo depois nem se lembram de nada com varrições de ganância e egoísmo nos aterros, assolações, laivos e imundícies, muito lixo invade minha casa e Mário Sérgio Cortela me diz: Se não quiser uma cidade suja, não deposite lixo na urna. E Jody Williams reitera: Acredito que é meu direito e minha responsabilidade trabalhar para criar um mundo que não glorifique a violência e a guerra, mas que busquemos soluções diferentes para nossos problemas comuns. Então, invento e me reinvento: do meu peito a fonte a escorrer do corpo pelas mãos à foz dos meus pés, a singrar o mar que tudo banha no meu chão. Então brinco entre peixes e aguapés e algas que são aves e gorjeiam nos galhos das almas feitas abusões risíveis e amedrontadoras, enquanto faço a vida e sou Valuna, Bacuna, Diauna, Unadia, Rio Una.

 


DUAS HORAS: ONDE ESTOU QUE NÃO SEI... - Imagem: O luar (Dois Irmãos), do pintor Ismael Nery - Ah, assim tão só, sou indefinível. Afinal, fiz o melhor que pude e foi pouco, nem me satisfiz. Encaro o perigo e não me enquadro em regra nenhuma, nem uso chapéus ou máscaras, dou a cara nua à tapa. Nunca desisti e apesar de subterrâneo sempre estive longe da positividade tóxica, porque sei que não há pote de ouro algum no fim do arco-íris. Sou absurdo para todos os olhos, uns tantos paradoxos a mais. Ouvi o psicólogo canadense Jordan Peterson: A maneira apropriada de se consertar o mundo não é consertando o mundo; não há razão para se presumir que você sequer seja capaz dessa tarefa. Mas, você pode consertar a si mesmo; não causará nenhum mal a ninguém fazendo isso. E, nesse caso, pelo menos, você fará do mundo um lugar melhor. Assim, coração peito aberto, não sei onde estou: se perdido na Groenlândia ou tremendo de frio na Terra do Fogo, ou onde quer que seja, apátrida ex-humano, qualquer coisa entre seres vivos, voo para ser-me.

 


TRÊS MINUTOS & TODAS ELAS SÃO NELA... – Imagem: Art by Elza Barroso - Ah, é ela Calíope voz melíflua aos ouvidos do meu coração; é Clio proclamando a história do que foi e será, é Erato a versar a maior poesia; é Melpômene alisando minha pele para fechar as feridas cálidas do meu corpo; é Polímnia nua no meu corpo para iniciação de todos os mistérios da vida; é Tália em flor para a entrega perfumada do amor; é Terpsícore para dançar de Sol na minha escuridão; é Urânia esplendorosa para que eu seja o universo em seus domínios; é ela Euterpe para que eu cante Taiguara: Teu sonho não acabou... / Lá onde estive o sonho acabou / Cá onde eu te encontro só começou / Lá colhi uma estrela pra te trazer... / Ah! Eu preciso, eu preciso muito... Ah, beijo os lábios dela e o seu sexo é Deus irradiando vida no meu em festa cósmica de todos os renascimentos. E nela fervo por todos os céus dos paraísos e todos os infernos do mundo e sou mais que dia ao amanhecer. E ela luz&ar como se nem fosse ou nunca foi. Até mais ver.

 

RAÇA & JUSTIÇA

[...] Há uma dimensão antagonística, um “conflito racial” que não é redutível a um fundamento único, jurídico ou não, ou seja, a condição da verdadeira emancipação racial, como movimento da opacidade à transparência, fluxo de justiça, é uma opacidade constitutiva que nenhum fundamento jurídico, político, moral ou epistemológico pode erradicar. A construção da justiça e da democracia, racial ou não, será sempre habitada por uma incompletude e provisoriedade inultrapassáveis, assim como as identidades que as instituem. [...].

Trecho extraídos da obra Raça e Justiça: o mito da democracia racial e o racismo institucional no fluxo de justiça (Massangana, 2009), do sociólogo e professor Ronaldo Laurentino de Sales Júnior. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


 


quinta-feira, setembro 17, 2020

CLARICE LISPECTOR, JÚLIA LOPES DE ALMEIDA, LUÍS CRISPINO, ASTECA & NOS TEARES DA HISTÓRIA


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... A PERDA & A DESOLAÇÃO ANOITECIDA - A noite instalou-se de repente, perdi a noção das horas e do lugar. O ermo me fez atravessar o rio muitas vezes e o meu rosto estava em toda parte, como se os outros em mim fossem vivos e não havia como me livrar disso. Perdi meu nome e era um caeté sobrevivente diante da bela senhora asteca, Mictlancihuatl, que tomou minhas mãos para percorrer o teatro das apavorantes torturas das nove camadas de Mictlan, e me entregou um volume impresso cujo título era A civilização dos astecas (Ferni, 1975), de Jean Marcilly, no qual pude ler a indicação expressa do iminente quinto fim do mundo: nosso sol, tendo retomado seu curso, depois que as trevas desapareceram e as águas se retiraram, está atualmente em movimento naui ollin, mas terminará seu curso num despedaçamento de toda a terra. Ela leu-me em voz alta o trecho destacado de um modo ternamente incomum, acrescentando que os infernos são a planície divina e da morte nasce a vida. A cena no palco representava o fogo no canavial de João Cabral, o fogaréu no Pantanal de Monjardim, a Amazônia em chamas e a imagem do inferno de Hieronymus Bosch. A plateia inteira em mim assistia a tudo atônito. Se muitos, na verdade, eu não era ninguém e havia perdido até a mim mesmo.

DUAS PASSADAS & O CAMINHO DO CÉU – Havia uma reunião em que todos se preparavam para encenação da peça teatral O caminho do céu (Manuscrito-Campinas, 1883), primeira investida teatral da dramaturga, escritora e abolicionista Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). No tablado discutiam a situação atual com as outras peças da autora, tais como A herança, Doidos de amor, Nos jardins de Saul, Quem não perdoa, As urtigas, Os humildes, Laura, entre outras tantas do seu expressivo repertório, todas recolhidas da publicação A (in)visibilidade de um legado: seleta de textos dramatúrgicos inéditos de Júlia Lopes de Almeida (Intermeios/Fapesp, 2016), um estudo da socióloga e pesquisadora Michele Asmar Fanini. O debate acalorado entre atores e técnicos foi interrompido pela intervenção inopinada de um sacerdote indígena que aconselhou a todos prestarem bem atenção aos obstáculos do mundo subterrâneo, atentando inicialmente para as ondas largas do rio Chicnahuapan, que se prolongavam pelos mundos infernais até o repouso eterno da noite no nono e último mundo do Chicnahuatmictian. Os presentes se entreolharam interrogativos, ao passo que senti uma mão ao meu braço sussurrando que jamais encenariam seu texto: Quero escrever um livro novo, arrancado do meu sangue e do meu sonho, vivo, palpitante, com todos os retalhos de céu e de inferno que sinto dentro de mim; livro rebelde sem adulações, digno de um homem. Ela afugentou a todos com rispidez e zarpou dali sem se despedir. Não havia como tomar pé da situação, saí imediatamente, apressei o passo sem saber para onde ir. Fui.

TRÊS FOTOS ONÍRICAS - (Imagem: fotogravura do fotógrafo Luís Crispino) - Seria exagero considerar que me perdi na fuga pela sobrevivência, matar a fome, saciar os desejos e gozar realizações, qual nada, esqueci quem sou e folheei um dos supostos livros de Deus e não me encontrei nas suas infinitas páginas, acho que escapei delas para ruminar talvez na loucura. Crispino ao me encontrar assim diante de nada, então me disse: A ideia não é seduzir ninguém, no sentido literal, durante as fotos. Fazer uma boa foto demanda muita concentração. Não sobra espaço para isso. É claro que existe um movimento de “conquistar” quem está sendo fotografada, mas que é muito mais complexo do que a simples sedução, é mais uma “troca” que começa e termina ali, durante as fotos. E me entregou um envelope e lá estava meu coração despedaçado: a primeira, a amada nua em decúbito dorsal; a segunda, era eu desencontrado sem ter para onde ir; a terceira, Clarice n’A Paixão segundo GH: O mundo não tinha mais sentido nenhum, e o homem não me tinha mais sentido nenhum. Ao meu lado, não mais o fotógrafo, mas ela mesma que me chegou com um beijo para ensinar o que sou de todas as coisas. Até mais ver.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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NOS TEARES DA HISTÓRIA
[...] emergiu as reflexões associadas à intenção social e à valorização da arquitetura, a partir dos seus usuários, que passam a qualifica-la enquanto lugar [...].
Trecho extraído da obra Nos teares da história: entre fábrica e escola, uma restauração (CEHM, 2015), da professora e pesquisadora Juliana Cunha Barreto, tratando sobre a interpretação histórico-documental dos fios de tecidos da história de Pernambuco, a arquitetura da tecelagem, a declaração de significância e as leis de proteção, a Escola Técnica Estadual, as soluções arquitetônicas, entre outros assuntos. Veja mais aqui, aqui e aqui.


segunda-feira, agosto 19, 2019

DEBUSSY, JOÃO CABRAL, KATIA KIMIECK, LYSIA CONDÉ, IREMAR MARINHO, GABRIEL PETRIBÚ & LEANDRO VAZ


AS MULHERES DE DEBUSSY - Elas, sempre elas. Elas, todas elas, a razão da minha vida. Desde a mãe, menino que fui e me fiz procedendo de modo reservado, quieto, meditativo, não passava mesmo de um cínico, enojado do mundo dos homens e apaixonado por elas. Elas e a música. Não fosse a tia Clémentine, seria ninguém. Tudo começa em Cannes e ela me mostrando o mundo e todas as coisas. De lá o desfile com Antoinette, mãe de Charles, a segunda professora: Devo a ela o pouco que sei de música. A Nadyezhda, o encanto e o motor das artes: as harmonias orientais, a escala grega, as modulações chinesas, a música russa, ah, as ideias heterodoxas por estranhas combinações. Eu precisava de alguém para amar: a bela Marie, jovem soprano, esposa do riquíssimo arquiteto, a quem dei poemas de Banville e Leconte de Lisle. Também para ela as aulas de canto e ela me ensinou a arte do amor: o carinho, a sedução, escolhia minhas roupas e instruía na literatura e nos caminhos da vida. Para ela, melodias para cantar com sua boca de fada melodiosa. Insuportável a sua ausência, compunha tudo para ela. Eu amava com meus cabelos ao vento, anarquista rixoso, sonhador irrequieto, o cigarro e uma música rebelde no coração. Queria cadência nova, estranha sequência de cores, combinação sutil de sons, ecos de vozes encantadas vindas de mundos desconhecidos. A voz da sereia do amor: a Vascnier, para ela dediquei canções: Fêtes galantes e Quatre chansons de jeunesse. Tanta sedução teria de ser homenageada. Porém, tinha que escolher entre a bolsa do Prix de Rome ou ela. Sofrimento e solidão. No regresso à França, duas peças ao Conservatório foram consideradas pelos jurados como indignas de um homem de talento. Ao ser reprovado, exultei: Graças a Deus consegui, finalmente, escrever alguma coisa original. Foram os braços da dançarina Gaby e seus olhos verdes que me valeram: o queixo vigoroso, exalando sensualidade e exotismo, e o amor. Para ela o primeiro ato da ópera inacabada, Rodrigue et Chimène. A vanguarda boêmia e a cantora Thérèse me encantaram com todos os ornamentos românticos em Bruxelas. Para ela: um Quarteto de Cordas e o Prélude à L'après midi d'un faune. Ah, minha impaciência, ninguém publicava as composições, queriam-me que escrevesse música simples, popular. A estupidez dos alunos. Ainda bem que existia o Café Weber para distrair com copos de vinho e meus amigos Verlaine, Chausson, Mallarmé. Escrevia, o domínio das palavras e dos sons, epigramas. Desprezava o passo de ganso e elmo de ferro do Wagner: se tivesse sido mais humano, teria sido realmente divino. Massenet, um fabricante de perfume: cheiro agradável, mas artificial. Só por meus pais que aceitei a cruz da Legião de Honra, nada disso me interessava: menosprezo a humildade e a inveja mesquinha. Queria mesmo quebrar as regras, desafiar as convenções. Foi Lilly, a Lily-Lilo, a modelo e Pelléas et Mélisande, de Maeterlink: a princesa em busca da felicidade e a sua frágil saúde, incrivelmente bela como um personagem de uma antiga lenda. Eu me mataria se ela não casasse comigo. Para ela as Sirenes do Nocturnes. Contudo, era possessiva e, ao mesmo tempo, carinhosa. Não me poupou de uma tragédia. Adeus ao passado com um recitativo simples, calmaria de um rio profundo. Ondas que brincavam ao luar. O mar. Noturnos. O poema em prosa, Natal das crianças sem lar, era a 1ª Guerra Mundial, as criancinhas francesas que perderam o seu lar por causa da invasão alemã. Crianças refugiadas, perdidas no inferno do campo de batalha. Às vésperas do Natal não celebrado: o frio, a fome, o medo e a incerteza do futuro: Trazei a vitória, por fim, às crianças de França! Desdenhava o materialismo do mundo e os homens de negócio. Não conseguia evitar a companhia das mulheres. Para minha salvação, Chouchou, a Emma, mãe de um aluno, cantora sofisticada e brilhante. Fiquei obcecado. Para ela: Children's Corner. Na vida tropeço na menor pedra. A fuga, o escândalo, a tentativa de suicídio dela e o divórcio. As mulheres, uma hera na parede. Mas, sempre o medo de ficar sozinho. Ainda inquieto, lançava olhares cobiçosos em outras direções: o mundo, o universo, mulheres e mulheres, só mulheres. Só elas. A tortura do fim, um cadáver ambulante. O estralejar dos canhões alemães. Tornei-me um asteroide e uma cratera de Mercúrio. Não valeria nada se não fossem elas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] o poeta contemporâneo ficou limitado a um tipo de poema incompatível às condições da existência do leitor moderno, condições a que este não pode fugir. [...] o que os poetas contemporâneos obtiveram, foi o chamado “poema” moderno, esse híbrido de monólogo interior e de discurso de praça, de diário íntimo e de declaração de princípios, de balbucio e de hermenêutica filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico, escrito quase sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente para qualquer espécie de mensagem que o seu autor pretenda enviar. [...] Esse tipo de poema é a própria ausência de construção e organização, é o simples acúmulo de material poético, rico, é verdade, em seu tratamento do verso, da imagem e da palavra, mas atirado desordenadamente numa caixa de depósito.
Trechos de A função moderna da poesia, extraídos de Prosa (Nova Fronteira, 1998),
do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, escultora, ilustradora e arte-educadora Katia Kimieck. Veja mais aquiaqui & aqui.
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A ARTE DE GABRIEL PETRIBÚ
Desde muito novo meu pai desenhava e pintava, logo me interessei pela pintura por causa dele.
A arte do artista visual Gabriel Petribú. Veja mais aqui.

A MÚSICA DE LYSIA CONDÉ
A música sempre fez parte da minha vida. Eu sempre cantei. Na minha adolescência participei de grupo de teatro. Era selecionada em todas as peças que tinha alguma possibilidade de cantar. Alguns amigos me chamavam para cantar, esporadicamente, em casamentos. Já morando em Natal, eu fui fazer o curso básico de canto na Escola de Música. Participei dos recitais da escola e fiquei entrosada com os músicos da cidade. Então, surgiram convites para dar canja nos lugares e quando vi já tava envolvida profissionalmente. Antes de me reconhecer como cantora, as pessoas já me apresentavam dessa forma.
Curtindo a música de requintada delicadeza da talentosa cantora, socióloga e professora Lysia Condé, formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG) e estudou na Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal – RN, onde reside atualmente. Ela foi a ganhadora do Festival Música Potiguar Brasileira, da FM Universitária. Veja mais aqui.
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A MÚSICA DE LEANDRO VAZ
Amar é arriscar – se / Amar é entender / Amar é deixar ir / Amar também é perder.
A música do poeta, cantor e compositor Leandro Vaz, autor do livro Eugenia (2017) e do álbum autoral musical Madrigal (Cocar, 2018), viabilizado pelo Funcultura-PE, este último com arte do designer Guilherme Luigi e gravuras de Regina Carvalho. (Dica da cantora Maíra Moura). Veja mais aqui.

A OBRA DE DEBUSSY
Nunca encerrarei as minhas ideias musicais nos edifícios dos velhos modelos. Dar-lhes-ei espaço, liberdade, vida!
Umas poucas pessoas apreciarão as minhas obras. E quanto ao resto, ça m’est égal, não me importa o que possam pensar.
Faço o meu piano trabalhar tanto que ele transpira como um ser humano.
Não tenho feito outra coisa senão realizar experimentos a fim de satisfazer o meu gosto pelo inexpressível.
Eles queriam que eu lhes fizesse cortesias desengonçadas e os cumprimentasse como um dançarino.
O artista na civilização moderna será sempre uma criatura cuja utilidade só há de ser reconhecida após a sua morte.
A arte devia se divorciar do comercialismo... a ideia de negociar uma composição musical como uma lata de toucinho ou um barril de cerveja é, para mim, tão triste quanto ridícula.
O que temo é o resultado da paz que virá depois da guerra.
A obra do compositor francês Claude Debussy (1862-1918) aqui, aqui & aqui
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A POESIA DE IREMAR MARINHO
Lanço este manifesto / Do partido dentro / Manifesto meu partido / Comunista neste pranto / Não há mais o que falar de mim / Nem da carne / Nem dos ossos / Nem do sangue / Não há mais o que esperar aqui / Nem mais rumo / Nem mais rota / Nenhum horizonte / Já nasci diante / Sou menos valia / Já morri bem antes / Rosas amanhecem vermelhas.
A poesia do jornalista, publicitário, advogado e escritor Iremar Marinho de Barros aqui, aqui & aqui.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...