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sábado, agosto 08, 2026

HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Fábula hodierna... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascínio por Pandora que se assanhava toda por Epimeteu que paquerava Io que sonhava com o primeiro. O vértice do quarteto oscilava circulante, quem o alvo virava e o outro alheio girava a roda viva vagava e demorou pra dar certo a dança do amor. Não foi bem assim, mais ou menos, o resumo da ópera. Os irmãos eram ferreiros empregados na oficina do poderoso tirano Barão. E pelo façanhoso labor, eles conquistaram tanto a estima do déspota, como da população sempre agraciada por ações levadas e tidas por heroicas. As irmãs órfãs de mães diferentes carregavam o materno luto de terem sido ceifadas misteriosamente, suspeitando-se remoção de óbices diante das ameaças que representavam para o próprio desumano Barão. Nem se conheciam direito: uma fugiu quando a outra ainda crescia. Por conta da situação de abandono das meninas, elas foram providentemente apadrinhadas pelo influente, deixando-as no convívio da distinta Baronesa Puxencolhe, um álibi, afastava qualquer suspeita. Até aí, tudo bem. A mais velha, Io, ao debutar ganhou uma festa dionisíaca, Beltane – um carnaval fora de época e sem data fixa em Alagoinhanduba, realizada conforme a veneta do autocrata, no qual premiava homenageados, anunciava decisões e benfeitorias, condenava desafetos (quem caísse na antipatia de suas raivosas psicoses era introduzido num manequim de vime, o famoso crematório e saudava queimadas), às brasas escaldantes, aos ruídos atroadores do corifeu aeropagita dos horríveis rituais dos Bitus com todos os Sibitos, Rebitos & outros Priquitos animando a função estrambólica, entoando solfejos regados a urros, espasmos, tosses, esturros, estaladas de língua, peidos, arrotos, sovacadas, toc toc, marcação de pés nas pisadas e fricção dos instrumentos inusitados e fumegantes: Vamos tocar fogo! Foda-se! O evento infernal era colorido com a dança das parcas, das fúrias, das ninfas e das harpias. As erínias atiçavam os esponsais levados pelas eumênides, as moiras conduziam a maratona das lampadofórias, as górgonas abriam as narrativas de Hesíodo, os espetáculos de Ésquilo encenando a titanomaquia e o confronto olímpico, os louvores do centauro Quirão, os plangentes e denunciadores ditirambos de Frínico, e o povo ouriçado com as atrações de suas ordálias, Panem et circenses, tudo presidido pelo convidado juiz, o eminente famigerado doutor Teje-preso, gestor das pendengas. Era o maior regabofe e os dois acoloiados combinavam: Qual o crime deste? Não fui com a cara. Sacrifiquem! Em polvorosa, a multidão embriagava-se com o festival de horrores. Posso sacrificar todos? Deve! E enquanto o juiz sentenciava, o Barão dava uma escapulida, livrando-se da vigilância ciumenta da consorte e, às escondidas, encontrava Io na penumbra, prometendo-lhe presente desejado, pelo qual ela se viu ultrajada, maculada pelo asqueroso abuso, condenada a ser perseguida e tão marcada de jamais esquecer em toda sua vida de fugitiva eterna. A mais nova, Pandora, também de mãe apedrejada por suposta ordem do próprio Barão, tornara-se a queridinha da madrinha. Ao debutar, os olhos do usurpador caíram sobre sua graça, malogrando a cada investida. E ao flagrá-la receptiva com um sujeito desconhecido, logo interviu: Ah, minha afilhada preferida! Ô padrinho. Quem é esse? Sou, Epimeteu, seu servil, majestade. Ah, tenho que lhe premiar pelos bons serviços; por isso, você terá a mão dessa minha protegida e a cerimônia será amanhã na abertura dos festejos de Beltane, meus presentes de núpcias! Epimeteu não cabia em si e logo correu para dar as boas novas ao irmão, Prometeu: Cuidado, nunca aceite presentes do Barão, são de grego, todos. Está com ciúmes, você tem uma caidinha pela Pandora! Não é isso. Quase se estranharam às ofensas, mas deixaram pra lá, porque logo amanheceria e era o dia da festa. Feliz Epimeteu dava tudo que tinha até ficar de mãos vazias, o coração inchado de amor. No final da tarde, ele lá, os esponsais foram convocados ao tablado nobre, o juiz os declarou marido e mulher por força da sua lei, e o Barão os presenteou: para ele, uma salamandra de fogo – Que coisa mais bonitinha! E, pra ela: um jarro hermético para sacralizar o matrimônio eterno e que nunca deveria ser aberto. Quando os dois felicitaram os presentes aos beijos, o Barão cobrou: A jus primae noctis. Hum? Desconsolados, depois dessa noite o casal perdeu paz. Foi durante o cerimonial que o Barão já refeito de sua arrogância flagrou a aproximação de Prometeu e Io e partiu para desavença. Estava furioso porque Prometeu desconfiava do seu fatum e tinha caído nas graças de todos dando com a língua nos dentes, a ponto de ser mais bem quisto que o próprio absolutista, o que seria um desagravo funesto, e, ainda por cima, Io era desertora: Aquela vaca me paga! E veio o traiçoeiro golpe: Hefesto aprisionou Prometeu no rochedo do Cáucaso, lá no monte Etna na inóspita Cítia, estraçalhando aos poucos seu fígado de herói decaído, enquanto Argos Panoptes vigiava com seus 100 olhos, e assumia a paternidade da prisioneira sacerdotisa Io, martirizando-a num cativeiro com o ataque de insetos picantes. Foi preciso a intervenção de Heracles na agonia dos vitimados e fuga dos casais pelo Bósforo, Ilíria, Trácia, Micenas, Eubeia, Síria afora até sumirem para lugar incerto e não sabido e serem esquecidos pela fúria do ditador. Anos se passaram e no apogeu doutra festa, fez-se escuridão: Pandora abriu o jarro. Curiosa: será o fim do mundo? O diabo veio cobrar a conta. A praga e a revolta da pilombeta, a escuridão contaminava, atormentados pelo beijo homicida do amor letal. O tempo passa rápido e o esquecimento, a vida muda muito, as histórias ficam. Até mais ver.

 

Martha Nussbaum: Ao contarmos histórias sobre a vida de outros, aprendemos a imaginar o que outra criatura poderia sentir em resposta a diversos acontecimentos. Ao mesmo tempo, identificamo-nos com essa outra criatura e aprendemos algo sobre nós mesmos... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Charles Bukowski: Todos nós vamos morrer, todos nós — que circo! Só isso deveria nos fazer amar uns aos outros, mas não faz. Somos aterrorizados e esmagados por trivialidades; somos consumidos pelo nada... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Fernando Arrabal: À luz da questão chamei imagens/fantasmas - o que estava vendo e me senti apaixonado pelo resultado final... Turbulência mais uma vez me cercou tanto que eu poderia ter algumas utopias... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Se te pareço noturna e imperfeita \ Olha-me de novo. Porque esta noite \ Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. \ E era como se a água \ Desejasse \ Escapar de sua casa que é o rio \ E deslizando apenas, nem tocar a margem. \ Te olhei. E há tanto tempo \ Entendo que sou terra. Há tanto tempo \ Espero \ Que o teu corpo de água mais fraterno \ Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta \ Olha-me de novo. Com menos altivez. \ E mais atento.

Poema extraído da obra Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974), da escritora e dramaturga Hilda Hilst (Hilda de Almeida Prado Hilst – 1930-2004), destacando em sua lírica o amado e a amada, dos quais nasce o encontro e as expectativas direcionadas um ao outro. Veja mais aqui.

 

MOMENTO CERTO - […] A beleza da escrita é que você compete consigo mesmo, não com outra pessoa. [...] A inveja é algo muito feio e muito perigoso. Você precisa se proteger dela todos os dias. [...] Ele queria todos os prêmios e elogios para si, mas não queria trabalhar para conquistá-los. Ela se perguntava quantas pessoas como ele existiam no mundo, invejando os outros pelo que tinham e não podiam... […] A angústia é algo maravilhoso para os escritores e levará você a escrever seus melhores livros. Mas a felicidade o deixará preguiçoso e acomodado. Você se esquecerá de suas prioridades e ficará aí parado, sem fazer nada... [...]. Trechos extraídos da obra The Right Time (Palgrave Macmillan, 2017), da escritora estadunidense Danielle Steel (Danielle Fernandes Dominique Schuelein-Steel), autora de obras tais como: The Duchess (2017), Against All Odds (2017), Steel, Friends Forever (2012), Happy Birthday (2011), The Wedding (1997), The Gift (1994), No Greater Love (1991) e Wanderlust (1986), entre outros.

 

A CIÊNCIA DO TRABALHO COLETIVO - [...] Nossos cérebros produzem 20 watts de potência a qualquer momento. Em todo o mundo, isso representa mais de 155 bilhões de watts de capacidade humana para resolução de problemas, conexão e inovação. Imagine o que poderíamos alcançar se pudéssemos acessar esse poder coletivo? Imagine os projetos que poderíamos realizar, as criações que poderíamos conceber, os problemas que poderíamos resolver, como poderíamos transformar nossos mundos para melhor? Como espécie, nunca nos deparamos com problemas tão complexos ou difíceis quanto os que enfrentamos agora. Recorrendo à neurociência, podemos identificar estratégias que nos permitam reunir nossa capacidade cerebral e desenvolver soluções à altura desses desafios – juntos. [...]. Trecho do ensaio The Science of Collective Working - The interconnected working methods of the future and how we can harness the power of collective intelligence (Selfridges Group, 2023), da neurocientista, escritora, radialista e pesquisadora britânica Hannah Critchlow, que sobre inteligência coletiva e o pensamento de "nós" expressa: […] Quando fazemos a transição do pensamento centrado no 'eu' para o centrado no 'nós', nossa visão de mundo se transforma, nossa imaginação se liberta e cada um de nós é capaz de contribuir com sua perspectiva única para o acervo de inteligência da humanidade. [....] Estamos em um momento crucial de nossa evolução. A abrangência e a complexidade dos problemas que enfrentamos... exigem o engajamento de todas as mentes. Sobre o cérebro, o destino e o livre-arbítrio: As pessoas nascem com um cérebro que molda sua percepção e aquilo que estão biologicamente programadas para considerar gratificante... Nossos cérebros apresentam falhas que levam a suposições e erros... Sobre o cérebro no século XXI e a incerteza: É fundamental encararmos a incerteza e a ambiguidade com uma mentalidade voltada para as possibilidades — em vez de medo ou pessimismo — e enxergarmos oportunidades nessas situações... Embutido em nossos cérebros, existe um mecanismo extraordinário conhecido como plasticidade sináptica.... Ela é autora das obras Consciousness: A Ladybird Expert Book (2018) e The Science of Fate: The New Science of Who We Are - And How to Shape our Best Future (2019) e sua pesquisa acadêmica tem se concentrado em neurociência celular e molecular.

A ARTE DE ONILDO ALMEIDA

[...] Eu costumo dizer que toda cidade tem feira e toda feira é igual. Mas, na verdade, não é. A de Caruaru, quando você procura uma coisa no comércio que não encontra, vai para a feira. É uma feira que tem tudo [...].

Trecho da matéria entrevista da jornalista Cibelle Tenório, Conheça Onildo Almeida, o homem que levou a Feira de Caruaru ao mundo (Agência Brasil, 2025), com o compositor, poeta, músico e radialista Onildo Almeida, que lançou os álbuns A feira de Caruaru nº 2 (1957), Casamento antigo (1957) e Zé Dantas e Vaquejada (1962), autor de mais de 530 canções escritas e gravadas por diversos artistas, com gêneros que vão desde o forró, xaxado e xote, interpretadas por Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Chico Buarque, Gilberto Gil, entre outros. Veja mais aqui.


 

TUNGA, TUNGANDO A VIDA – Destaque da trajetória do premiado O escultor, desenhista e artista performático Tunga (Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão – 1952-2016), um dos artistas mais emblemáticos e representativos da arte contemporânea. Trata-se de uma síntese de sua vida, principais obras, prêmios nacionais e internacionais, exposições no Brasil e no mundo. Confira aqui.


O PLANETA & A QUESTÃO AMBIENTAL – Os debates atinentes à temática do planeta e a questão ambiental na contemporaneidade transitam entre as reflexões que incidem sobre crescimento econômico e a sustentabilidade socioambiental, a governança global, as mudanças climáticas e a transição energética, justiça socioambiental e a conservação, a biodiversidade e o desenvolvimento sustentável, notadamente a respeito da sobrevivência humana, o equilíbrio ambiental e as projeções escatológicas de extinção diante ação predatória humana. Nesta postagem reflexões de Lorraine Daston, Alexandria Villaseñor, Tim Marshall, Carlo Rovelli, Caroline Dean, Carolyn Porco, Sophia Kianni, Jamie Margolin, Xiye Bastida, Kaka Werá, entre outros. Veja aqui.


NITOLINO NO VALUNA - Uma historieta infanto-juvenil que marca o início das aventuras do Nitolino, na companhia de Pai Lula & toda trupe Falange, Falanginha, Falangeta, pelo Valuna. O objetivo da turma é chegar na Serra do Quati, local indicado como a nascente do Rio Una. Acompanhe aqui.



 

CONSTISTÓRIA, POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS (Imagem: Acervo ArtLAM) – Da série Colam, uma reunião do meu trabalho autoral, unindo arte visual e musical, por meio de poemagens & versagens construídas com as obras O Livro das Janelas e da Crônica de Amor, com o tema musical Nênia de Abril. Verifique aqui.


AS TRELAS DO DORO (Imagem: arte de Rollandry Silvério) – Reunião das principais presepadas do arteiro Doro, dando conta de suas iniciativas mais extraordinárias, situações mais periclitantes e propósitos malabaristas, ocorridos desde a sua participação no Big Shit Bôbras, no Fecamepa com sua candidatura a presidente e do seu exótico cotidiano na cidade de Alagoinhanduba. Observe aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui & aqui.



 



terça-feira, janeiro 09, 2024

FLORENCIA ABADI, DORIS DÖRRIE, ISABEL SALAS DOMÍNGUEZ & A TRILOGIA DE VILMAR

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som da ópera Afət, Poema de Z. Ziyadoglu: hino "Petroleiros" para solista e orquestra, Canções e romances para poemas e Gecələr bulaq başi , além dos filmes Nəğməkar torpaq (1981), Bağişla (1983), Qayıdış (1992), Yalçın (2004) e Sən yadima düşəndə (2013), da compositora azerbaijana Elza Ibrahimova. Veja mais aqui.

 

ANÔNIMO, VIDA TORTA & MALOGRO... – Manhã olhabro, agoronde gritalmas quandoutros às disjunções, natureza pujante, desgraça iminente. É duro ter de encarar este mundo. Dobrar a primeira esquina é o que resta; intrépido quase, irrequieto talvez, esquecer certas coisas não é fácil, tem de ser. Mesmo na radiância dos ideais com a impetuosidade do Etna, entre o esquecimento e a morte: verdadeiro sangue vivo entre o fugaz e o permanente. Qual nada. O que sobra, noves fora deu zero. Não fosse Elena Ferrante: Toda relação intensa entre seres humanos é cheia de armadilhas e, caso se queira que dure, é preciso aprender a desviar-se delas... O que seria de mim, nem me vitimizo, cara e coração: sou lá de me arrear pelos cantos. Outragora, pertali apareceram dançantes caruás de Conceição das Crioulas às hipálages, ataraxias e atavios, de quase me levar à polução apodítica porque a dor do amor apertava-me o coração - como se eu fosse Caliban em busca de um par de seios robustos ao abrigo, porque jaziam longe os sonhos mais excitados. A gente sabe: o que é bom dura nadinha, não adianta pernadas a três por tanto. Ainda bem Abbas Kiorastami: Eu me sinto como uma árvore. Uma árvore não se sente obrigada a começar a fazer algo pela terra de onde ela vem. Uma árvore só precisa dar frutos, folhas e flores. Não parece grata à terra... Assim sou Anteu do meu chão. Quão miserável quandoutros amargamores na salescura. Ainda há gente, muita gente, que não resiste à oferta de um molho de cédulas, afã patrimonial, suntuosidade. E estes ocupam cargos lá pras alturas nas três esferas do poder e ademais até quem nem sabe. Fiz minha opção Bukowski: Descubra o que ama e deixe-se matar por isso. Você tem de morrer algumas vezes antes que você possa realmente viver... Assim vai o sonho, foi-se o dia, a mão ao peito, a boca íntima, amareluz, pálidolhar. Longe versamanhã, olhos de velacesa na escuridão. Um só instante para o insulto e a repulsa. Breve grito para mudez das grandes palavras. Pela portaberta eis quem chega, a brisa na franja a roubar-lhe pestanas dos fogolhos, lábios reluzentes, enquanto dócil portescancarada afagando meu prepúcio vigoroso a porfiar blandícias errabundas, à espera da ejeção da massa coronal. Aí sou o Sol. Ela pagava o preço e não me devia nada. Venhaqui! Exprobrou porque queria saldar pecados como quem fareja focinho escondido a remoer moinhos às cuspidas saltitantes e a cambalear derruída. Nem saí de perto, acho que enlouqueceu. Deixei que fizesse, tirei partido por mim nessa hora. Ela e os regalos, nada melhor. Manuscravia-me nela em choque pela noite pecaminosa e eu em xeque, ela retardatária a revolver minhas entranhas com seus ombros caídos a semear ademanes por seus grãos no inframundo sem fim. Também sou vivo e merecemos. O que da vida torta, só anônimo & malogro. Agora não, tiramos proveito de tudo que der. Até mais ver.

 

UM POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu abro minha boca em glória abençoada para você \ Abra a boca acumulada \ nu o verso sábio \ verso inchado que preenche meu verbo de saída \ lambido verbo que molha a sua garganta \ fruta melodiosa \ Queridos minhos que sobem a boca pelos dedos \ Quando você os caminha através da flor quente \ banhando-os em brethbine \ Dedos entregues entre as dobras \ Mel sustentado nas pontas \ Os meis que abrem a boca \ bocas saciadas com mel \ Eu abro minha boca com alegria encantada com você \ Estou procurando a mordida forte \ Eu abro o sexo em sua boca \ Acomodar o verbo servido \ Eu posso em sua boca minha mordida incitada.

Poema da psicóloga e poeta venezuelana Isabel Salas Domínguez.

 

PARA ONDE VAMOS A PARTIR DAQUI – [...] Ah, diz ela gravemente, quando uma campainha toca ou um telefone toca, simplesmente aproveitamos a oportunidade para desligar e abandonar todos os nossos planos e emoções - todos os nossos pensamentos sobre outras pessoas e sobre nós mesmos. Abandonar todas as nossas percepções humanas? Eu pergunto indignado. Nesse caso, o que resta para nós? Não, diz ela balançando a cabeça, refiro-me apenas à nossa concepção do mundo. Gosto da maneira como ela pronuncia a palavra “concepção” com seu sotaque holandês, como se estivesse quente e ela pudesse queimar os lábios. Eu gostaria de poder falar uma língua estrangeira tão fluentemente quanto você, digo a ela. Por favor, diga ‘concepção’ novamente. Explique-me isso. Qual é a diferença entre minhas percepções e minhas concepções? Resolutamente, ela vai até um café sob alguns plátanos cujas folhas lançam sombras decorativas nas toalhas brancas. Ela se senta e me olha com ceticismo, como se avaliasse se sou inteligente o suficiente para merecer uma resposta. Na maioria das vezes, diz ela, formamos uma opinião sobre as coisas sem realmente percebê-las. Ela aponta para uma senhora idosa andando pela praça carregada de sacos plásticos. Por exemplo, ela continua, eu olho para aquela mulher e penso: Como ela tem as pernas arqueadas e aquela saia! Uma cor medonha e curta demais para ela. Ninguém deveria usar saias curtas nessa idade. Minhas pernas ainda são boas o suficiente para saias curtas? Eu costumava ter uma saia azul. Onde está, eu me pergunto? Eu gostaria de estar usando aquela saia azul. Onde está, eu me pergunto? Eu gostaria de estar usando aquela saia azul agora. Mas se eu fosse como aquela mulher ali... Ela apoia a cabeça nas mãos e me olha com brilho nos olhos. Eu ri. Na verdade, não “percebi” a mulher, diz ela, apenas pensei nas saias, nas pernas e no processo de envelhecimento. Sou prisioneiro das minhas próprias ideias – em outras palavras, das minhas concepções. Veja o que quero dizer? Eu digo que sim, mas diria sim para uma série de coisas quando ela me olha desse jeito. Uma garçonete da idade de Franka anota nosso pedido. Ela está usando um suéter branco de crochê sobre os seios enormes e um avental branco bem amarrado em volta da barriguinha proeminente. Suas sandálias com sola plataforma, que lembram cascos, dão-lhe uma aparência desajeitada de potro. Agora é a sua vez, diz Antje. Adolescente francês, eu digo. Provavelmente foi intimidada para deixar de fazer um aprendizado e trabalhar no café dos pais. Sonha em ser esteticista. Não, protesta Antje, isso não serve. Você tem que dizer o que realmente está passando pela sua cabeça. Eu hesito. Vamos, quinta-feira. Eu suspiro. Por favor, ela diz. OK, mas não assumo nenhuma responsabilidade pelos meus pensamentos. Negócio! Mamãezinha sexy, eu digo. Peitos lindos, provavelmente fáceis de transar, não recusariam alguns francos por um suéter novo. Ela certamente se sentiria bem e gritaria Maintenant, viens! Aquela música da Jane Birkin, não ouço há anos. Eu me pergunto o que Jane Birkin está fazendo atualmente. Ela costumava ser a mulher dos meus sonhos. Mesmo assim, tenho certeza de que aquela garota não gosta de homens alemães e, além disso, eu poderia facilmente ser o pai dela, tenho uma filha da idade dela. Eu me pergunto o que minha filha está fazendo neste momento... Eu seco. Ufa, eu digo. Desculpe, essa era minha cabeça, não eu. Antje acena com a cabeça satisfeita. Ela se inclina para trás e suas tranças ficam penduradas nas costas da cadeira. Nada nos atormenta mais do que a cabeça, diz ela, fechando os olhos. Você tem que reconhecer que os budistas têm o dom de se desligar. É simplesmente maravilhoso. [...]. Trecho extraído da obra Where Do We Go From Here? (Bloomsbury, 2002), da escritora e cineasta alemã Doris Dörrie. Veja mais aqui.

 

O SACRIFICIO DE NARCISO – [...] Longe do amor próprio Narciso continua o destino do amante Aminias [...] Embora dói admitir, o desejo e o amor dependem não apenas de mecanismos diferentes, mas opostos [...] A crueldade, embora seja perturbadora admiti-la, está intrinsecamente ligada à vida [...] Quando termina a guerra do desejo começa a paz do amor [...] a confiança amorosa interrompe o impulso curioso e possessivo do desejo e deixa a alteridade ser […] o desejo e o amor trabalham com lógicas opostas [...]. Trechos extraídos da obra El sacrificio de Narciso (Punto de Vista, 2020), da filósofa e escritora argentina Florencia Abadi, que noutra obra, O Nascimento do Desejo (Pólvora, 2023), expressa: [...] Não desejamos o que queremos, o que nos é conveniente, ou o que nos dá bem-estar ou felicidade. O desejo se impõe fora da vontade e nos deixa na dolorosa situação de nos defendermos dele inutilmente [...]. Dela a frase: O narcisista acredita que não atingir o ideal é uma humilhação.

 

TRILOGIA PALMARES DE VILMAR

A viagem do afeto de partir e voltar é a linguagem rememora...

Trecho do poema Bagagens, extraído da obra Ruína e alfabeto: poemas acima da decadência (CriaArte, 2023), do poeta e professor Vilmar Carvalho, autor das obras Tirinetes e Espelhos: poemas da cidade pequena e Casa Imemorial: poemas da casa imemorial, todos recém lançados. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 



segunda-feira, março 06, 2023

MARIA RESSA, MACLEISH, FILIPA MELO, CHANTAL THOMAS & TEJUCUPAPO

 

 Ao som de Umbrales (2018), Le Repas du Serpent (2004), Retour a la Raison (2004), Espectros de Água (2021), Rabeca (2021), Céu da Boca (2021) e Ronín (2021), da premiada violoncelista, compositora, musicista, pesquisadora e docente Iracema de Andrade.

 

TRÍPTICO DQP: - Cio do amanhecer... - O que é da vida (vem de, vai pra) outra! E eu com as perguntas de Gauguin nos lampejos do dia em plena madrugada. Que segunda ou sei lá relógio ou calendário, sem hoje nem onde, tudo se consome em erros e enganos. Quanta rebordosa na lição de Archibald MacLeish: Só existe uma coisa pior do que aprender com os erros - é não aprender nada com eles... Mesmo assim entoei o Hino de Akhenaton ao ver a estrela de Bandeira, como se vivesse no campo de Auta de Souza ou na palidez do inverno de Pessoa. E na do futuro de Sophia Breyner fui pelas quatro e meia de Bukowski e por toda de Affonso Romano de Sant’Anna, pensando com José Godoy Garcia e tecendo com João Cabral. Mudagora: destampou chuva de enxurrada lavando o meu país, enquanto assobiava as estranhezas dos lugares, a ligeireza do tempo e sentia o que jamais entendi. Sim, o sorriso se tornou espasmo com Maria Ressa: Sempre faça a escolha de aprender... Durante toda a minha vida, quando me deparo com uma decisão difícil, sempre me pergunto - onde posso aprender mais. Faça a escolha de aprender... E eu só pedia que não arrancassem minhas pálpebras, não fincassem dores no meu peito, não vazassem meus olhos, nem triturassem minhas unhas e dedos, não me dissessem de adeuses, nem fustigassem cem por cento meu coração, senão, sóis e lás, larilarás, bemóis, frases sem aspas, hemistíquios no impasse: nada cessava tampouco, pelo menos precisamos viver um pouco de paz...


 

A todo vapor... – Imagem: Report from Rockport (1940), do artista estadunidense Stuart Davis. - Maneiroutra: tinaceso, espreitubíqua; senão, cochilo de cachimbo entre pequenidades, era quase meio dia. Bem o diz Filipa Melo: Morremos todos de excesso ou falta de amor, que morremos todos do coração, acreditem!... Sim e isso porque o humano morre em cada um, essa a surpresa no meio do flagelo: todo o mundo vasto de desunião fundamentalista, feições desafinadas, os escarros da sorte se mantem tanto de besta e miserável, mais do que nunca. Melhor a tirada de Chantal Thomas: Na sociedade moderna há muito lazer e pouco prazer... Sim, todas as carências na supremacia, como se fossem dilacerados sábados pelas esquinas medievais, com suas palavras estranguladas e nenhum nome ficou ao exorcizar a história infame no charco silencioso, ocos ouvidos pelas labaredas dos pesadelos e eu apenas viver no que resta, sem querer saber o que será de mim...

 


Ares de Tejucupapo... – Imagem: arte de Tereza Costa Rêgo. – Quandepois, a vida triunfa de tarde. Afinal, nem só de inferno se vive, vezoutra o paraíso pouquinho, mas vale a pena. E era Clara entre outras anônimas Marias, jeito pontual, havido e devido, um sorriso de quem solta balões em festa. Olhou-me de seu, marisqueira unhas na terra: livrou-se da pilhagem holandesa apenas com pedras, pano, chuços e água quente com pimenta no Monte das Trincheiras, era a insurreição do Porto do Ferreira, muito tempo atrás. Hoje não, agora dia de sururu, ostra, aratu, mariscos outros no chão da maré, as cacimbas em que só eram abris recorrentes, alma senão feliz, satisfeita. E me dizia Langston Hughes: Agarre-se a seus sonhos, pois, se eles morrerem, a vida será como um pássaro de asa quebrada, incapaz de voar... A vida é para os vivos. A morte é para os mortos. Deixe a vida ser como música. E morte uma nota não dita... Ajeitou os afazeres, lavou as mãos e com afeto redobrado deitou os ombros ao poente enquanto eu apenas fagulhas das narinas de setembro, os suores lascivos e ela se enramava imantada com as ancas ondulantes de sibila ungida. Sorvia seu jeito, servo a servia. Lá pras tantas tudo descansava boquinha da noite, foi aí um lance na paisagem escura e seu púbis orvalhado abriu meu cofre fálico com um beijo no crepúsculo da garganta. Ah, perdi meu rosto no solfejo brando dela e me fiz por suas pálpebras celestes, o seu delíquio tirando fino à beira do Aqueronte, a vida breve e vã, os prazeres ficaram na promessa da eternidade, nada esqueceria. E dela a hestória e o amor. Até mais ver.


 Veja mais aqui.

segunda-feira, agosto 16, 2021

ELENA PONIATOWSKA, MARIO ARREGUI, LOUISE FARRENC & HELENA LOPES

 

 

TRÍPTICO DQP – UM SÁBADO & OUTRO... Imagem: Artes de Priscila Artes – Priscila Silva, ao som das Symphonies 1 & 3, da compositora francesa Louise Farrenc, na interpretação da Insula Orchesta & Laurence Equilbey. – O primeiro, um sábado ensolarado. A praça estava invadida pela barulhada de um dia de feira. No centro, gente; na verdade, artistas ou quase, ao menos. Um grupo oriundo do Recife dava o tom do evento: eram os renomados. Da terra, outros tantos, cada qual, seus apetrechos e expressões. Estava bonito, como sempre: era dia de homenagear Murillo La Greca! Tudo muito bom. No segundo, outro dia azulado na Biblioteca de Fenelon, a gente conversava sobre Planejamento e elaboração de projetos. Era uma promoção da ABI e as ideias rolando sobre o que fazer desta uma outra cidade mais humana, mais artística, mais Palmares. Assim foram estes e que outros destes sábados possam acontecer.

 


DOIS OLHOS NOS MEUS - Imagem da pintora, gravadora e professora Helena Lopes, ao som da canção Seu olhar do álbum Dia Dorim Noite Neon (WEA, 1985), de Gilberto Gil: - A magia do olhar de quem chega... – Entre a praça e a biblioteca, o olhar dela pousou no meu: faíscas, relâmpagos, o coração era a Terra convulsa. Aproximou-se e o espanto como um raio de Sol, era a premiada escritora, ativista e jornalista mexicana Elena Poniatowska Amor: Hoje não quero ser meiga, calma, decente, submissa, compreensiva, resignada, qualidades que os amigos sempre valorizam. Nem quero ser maternal... As mulheres são desprezadas, consumidas, descartadas, estigmatizadas, enforcadas para sempre na árvore patriarcal e enforcadas lá... Sim, eu sei. Olhou pros lados e, de repente, um sorriso só dela, seus olhos de novo nos meus e...: Pela primeira vez em quatro longos anos, sinto que você não está longe, estou cheio de você, isto é, de tinta... Para esquecer, você deve primeiro lembrar... Você começa a saber o que é um governo, você percebe o que é, quando este governo joga os tanques na rua. Sim, sei, mesmo que seja só escárnio ou impotência, tudo está muito difícil. Deveras, tudo me parece um filme horroroso que na verdade vivi na infância, por toda minha adolescência e quase nem adulteci direito por isso: a revolta no peito pela injustiça de todos os mandos. Por um instante senti um gosto de sangue na boca, como se ouvisse Isaac Asimov: Examinem fragmentos de pseudociência e encontrarão um manto de proteção, um polegar para chupar, umas barras de saia para se agarrar. E o que oferecemos nós em troca? Incerteza! Insegurança! Ela percebeu o tanto de injuriado fiquei naquele momento e voltou a sorrir com um olhar meigo e parecia me dizer aquela frase extraída d’A vassoura da bruxa nos Cavalos do Amanhecer (L&PM, 2003), do escritor uruguaio Mario Arregui (1915-1985): Muitas coisas foram ditas, repito, mas não houve quem fosse capaz sequer uma aproximação daquela frase antiquíssima (nascida na costa oriental do Mar Egeu há quase vinte e cinco séculos) que asseverava que ninguém fica tão unido a ninguém como o homicida a sua vítima. Sim. E é como se o mato queimasse dentro mim, labaredas amazônicas e pantaneiras, e eu tostasse atávica herança como espólio de cinzas.

 


TRÊS VEZES ME FALOU ELA... - E era ela na tarde renascida da manhã sonhada na noite anterior, e eu pudesse vê-la sorrir desnudada entre meus braços e suas outras almas, a me dizer do que lera outro dia e que estava escrito Nas suas veias corria tinta de jornal (AIP, 1980), de Múcio Borges da Fonseca, sobre a trajetória do jornalista Josimar Moreira de Melo (1927-1865), ecoando como se lesse no meu íntimo: Nunca me senti tão cansado em minha vida... Há os que esperam o meu fracasso – um esforço de quatro anos, no decorrer dos quais quase fui largado no meio do caminho e pude contar com a ajuda, a amizade e o apoio de um amigo que agora espera de mim esse esforço... E me sorria como se soubesse o que eu pensava, a me dizer Millôr: Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem. Não devemos resistir às tentações: elas podem não voltar. E gargalhou no meio do tempo com meu tronco entre seu sexo, coxas e pernas. E me fitou enviesada como se quisesse dizer exatamente o que dissera outras vezes Bukowski, e me fazendo de gangorra rodopiante: Não, eu não odeio as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto. Se você vai tentar, vá até o fim, caso contrário, nem comece. Cheguei numa fase da minha vida que vejo que a única coisa que fiz até agora foi fugir, fugir de mim mesmo, do meu nada, e agora não tenho mais para onde ir, nem sei o que vou fazer, fui péssimo em tudo. Adivinhei? E perguntou outras vezes e tantas como se quisesse saber para onde vou, e refaz a indagação com ar de enigmática, como se eu soubesse de algo além daquele momento que ela me premiava e eu só tinha a minha vida e ela para me amparar ali no seu abraço e corpo, nada mais. Até mais ver.

 

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terça-feira, junho 01, 2021

MARIO PERNIOLA, ROSANA MONNERAT, PATRÍCIA MELO & NASH LAILA

 

 

TRÍPTICO DQP – Uma: à sombra de diferentes lugares... - Ao som de Alfonsina y el mar, do compositor argentino Ariel Ramírez (1921-2010). Ah, se não perdi a memória errei o caminho, estava no fim da estrada. Sabia que ali era do litoral, mas para onde eu me virasse só dava no canavial de um lado a outro. E se não era miragem, havia aqui e ali um sinal de resto de oásis que dava para matar a sede e limpar as vistas. De fato, estava perdido ou prestes. Na cabeça martelava o frevo do amor imortal que dizia do Pontal de Coruripe só céu e mar. De onde eu vinha, nem sabia direito, quase esquecia já ter passado pela Lagoa do Pau e, pelo que já andei, ainda faltava muito no destino, parece. Do que pude saber, tinha que passar por Piaçabuçu, era o que diziam os poucos passantes solícitos que cruzavam meu trajeto. Talvez fosse possível dar Boa noite, Penedo, cantando às margens do Velho Chico. Talvez. Antes disso, não havia mais a faixa do asfalto. Ué? Olhei direito, não me haviam dito que a faixa recomeçava do outro lado, depois de um pedaço de rodagem no areal. Segui e depois de tantos passos e paisagens, um povoado. O coração bateu mais forte, dei fé nas passadas, logo vencer a distância e passar pelas edificações todas com suas janelas e portas abertas, procurando no interior delas um pé de gente para remédio. Às ruas não havia a quem perguntar, acho ser ali uma localidade fantasma. De vivo mesmo só a cana ao redor e intermitentes pés de coco. Ou uns pedaços de taboa da entrada à saída do local. Deu-me uma sensação Rimbaud: De manhã, eu tinha o olhar tão perdido e a postura tão morta, que aqueles que encontrei talvez não me vissem. Só que todos, ninguém. Acho que enlouqueci, mas não. Não, não era fantasma aquelas paragens, já distante do lugar um menino me dissera que ali em abril ocorrera um dilúvio de dois dias, causando muita destruição e desabrigados. Onde estão todos? Não sei, em casa. Não vi ninguém. Ah, o povo vive entocado. Que lugar é este? Feliz Deserto. Vi-lhe o beiço virado apontar por ali para lá longe aonde eu deveria ir. Lembrei Bukowski: Não é morrer que é ruim, é estar perdido que é ruim. Sim, procede. Mais assustado fiquei ao ouvir Mário Perniola: Não é necessário sermos grandes viajantes para perceber que o mundo contemporâneo oferece um panorama no qual está dissolvida a rígida contraposição entre sagrado e profano, entre simbólico e pragmático, entre selvagem e racional... Procurei girando as vistas ao redor, não havia ninguém. Estou, deveras, perdido.

 


Duas: A festa do fim de ano... – Imagem: arte da escultora, gravadora e artista visual Rosana Monnerat. – Ali não era uma miragem. O menino brincava no oitão da casa. Ouvimos estalidos, ou melhor, disparos. E ele: São fogos da festa! Abriu bem os olhos de alegria e correu em desabalada para um cajueiro, subindo por seu tronco, pés nos galhos e lá em cima, olhava para um lado e outro. Sabia que não eram fogos de artifícios, eram tiros. E ele, mão sobre os olhos, procurava inquieto descobrir de onde vinham. Dali a pouco ouvi uma correria e no meio dela, uma mulher desesperada chamando por Nino! Tou aqui, mãe, olha os fogos da festa! Desce daí menino, não é fogo de festa, desce já! Peraí, mãe, deixa eu ver! Desce já! Outros estampidos cruzavam o ar, procurei me proteger escondendo-me, deitado, ao lado de uma mangueira. A mulher aos gritos deitou-se, nem deu tempo insistir pela descida do menino: ele despencou lá de cima, entre galhos e folhas, caindo com um baque no chão, de costas, braços abertos, jorro de sangue na testa e no peito direito. Ao meu lado, Patrícia Melo falava de Inferno: ...o pior veio depois, um silêncio longo, um nada, nem mesmo os cachorros latiam. Agua até o nariz. É a pior parte... não há nada pior na guerra do que o silêncio. E eu já não sabia o ponto de partida, muito menos de chegada, tudo estava perdido.

 


Três: Onde o deserto feliz... - Estava desolado e caminhei a esmo, se não perdido já havia esquecido o destino e mais ainda ao me deparar com uma jovem que chorava à beira da estrada. Prudentemente procurei saber se precisava de alguma coisa e ela me escorraçou aos gritos. Está bem, se precisar de alguma coisa é só falar. Peraí. Sim? Estava desorientada, procurava por um alemão, acho. E desabafou sobre a ruina da família, a fuga para o Recife e se desdizia desesperada, a prostituição, a loucura do amor, o tráfico de animais, a dureza da vida, o sofrimento. Não sabia o que fazer, ela não tinha mais que uns quinze anos de idade e fora violentada pelo padrasto e era o que mais a repugnava, a ponto de esmurrar meu peito e deitar a cabeça ao meu ombro aos prantos. As pessoas apareceram e se reuniam interrogativas ao redor, nem tinha tempo de me explicar direito, não sei se me acusavam ou se compreendiam o que estava ocorrendo. Havia uma hostilidade no ar. Para minha salvação, ela se recompôs e era a atriz Nash Laila a me dizer: Tanta coisa… A gente está vivendo um momento muito sensível. O mundo está muito caretão. A gente tem que quebrar tudo, para ter um pouco de afeto. No nosso trabalho, mexemos com fogo. Gente é uma coisa que amo e odeio. Admirado fiquei com sua desenvoltura. Era como se ela atuasse na Valsa nº 6, do Nelson Rodrigues. Cada vez mais não sabia o que fazer. À minha cabeça cenas, frases, desencontros, tudo desconexo, mal conseguia fazer uma leitura do momento. O que sei, melhor dizendo, quem tem o amor ao alcance, tem outra chance de ouvir todos os seus sentimentos para a pluralidade real da vida. O amor ainda faz sentido hoje?

 


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SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

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