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domingo, julho 11, 2021

SEI SHÔNAGON, TAMARA KAMENSZAIN, NINA MORAES & ARMANDO LÔBO

 

 

TRÍPTICO DQP –- Mais um dia... – Ao som da música Atrás das máscaras, do álbum Técnicas modernas do êxtase (Delira, 2011), no filme-ópera Último dia (2021), de Armando Lôbo, com Natália Duarte, Virginia Cavalcanti, Surama Ramos, Walmir Chagas e Marcelo Sena (Veja mais abaixo) – Acordei com o movimento do travesseiro e os sons da manhã. Procurei tomar pé da situação e qual não foi a minha surpresa: era O livro do travesseiro (34, 2013). Como assim? Isso mesmo. Estava inscrito na capa: Sei Shônagon - aquela mesma do The Pillow Book de Greenaway. Investiguei, desconfiado, como podia tal transformação. Ultimamente tem me ocorrido cada uma. Pois é, ajeitei-me na cama e comecei a ler. A cada página uma surpresa: ali estava tudo o que vivi e sou - devaneios, quedas, sucessões de idas e vindas. Atento a cada parágrafo, frase por períodos e, pelo volume, vi que era um tanto a vencer. Persegui e era como se estivesse procurando o começo ou o fim de O Livro de Areia de Borges e relesse mais curioso que antes: ... porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim... Se o espaço for infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo for infinito, estamos em qualquer ponto do tempo... Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta... Refleti. E depois surgiu um trecho de outro conto dele, O espelho e a máscara: ... A guerra é o belo tecido dos homens e a água da espada é o sangue. O mar tem seu deus e as nuvens predizem o futuro... E se misturava com trechos do Evangelho apócrifo da infâmia. O que é isso? Outros labirintos ou será que estou enlouquecendo, o que está acontecendo? Mais desconfiado que antes, esfreguei os olhos e lá estava inscrito o que me tocou profundamente: Quanto a pássaros, embora pertença a terras estrangeiras, é muito enternecedora a cacatua. Dizem que ela imita tudo o que falam as pessoas. O cuco-pequeno. A galinha d’água. A narceja. A gaivota, pássaro-da-capital. O pintassilgo-verde. A papa-moscas... Ah, sim, agora era ela como se me descobrisse um xexéu incorrigível. Cabreiro, além da conta, compreendi o que ela quis dizer: uma sensação inenarrável de quem não estava só ali. E não estava mesmo, logo a sua presença preencheu meu quarto e era ela mesma a me dizer: Um homem que não tem nada em particular para recomendá-lo discute todos os tipos de assuntos ao acaso, como se soubesse de tudo. Na vida, existem duas coisas confiáveis. Os prazeres da carne e os prazeres da literatura... Sim isso eu já tinha lido no outro livro dela. E o que está havendo? Ela sorriu, beijou-me as faces e saiu como nunca mais. E me fez pensar na vida. Era só mais um dia. Sim, mais um dia, agora é só viver.

 


A vida imita a arte... - Imagem da artista visual & grafiteira Nina Moraes – A leitura do livro me trouxe outras cenas fora das suas páginas e ao meu redor aconteceram coisas estranhas. Tudo parecia muito real naquela hora e dali eu presenciava um fato ocorrido e tão lamentável como aquela triste situação em que foi detratado o tenente Gustl do Arthur Schnitzler: Deus do céu, tanto faz se outro sabe ou não!... eu sei, e isto é o que importa! Sinto que sou outro, já não sou o que fui há uma hora. – Sei que estou desqualificado e por isso devo estourar os miolos... Que vexame! E me sentia como se eu fosse ele diante daquilo tudo e não conseguia concatenar direito. Não sabia onde por os pés, as mãos, nem para onde ir. Da mesma forma aquela outra deplorável circunstância em que me vi na pele do Marlow da Juventude de Conrad a perorar: Lembro da minha juventude e de um sentimento que nunca mais haverá de voltar – o sentimento que eu poderia durar para sempre, mais do que o mar, do que a terra, do que todos os homens; o ilusório sentimento que nos atrai para alegrias, para perigos, para o amor, para o vão esforço – para a morte... O sentimento da desolação me trazia aqueles versos da Tamara Kamenszain: Quem por palavra fala de seus sonhos / quando a vigília os está vigiando ou / quando na tela do lençol se grafa / o que com esses sonhos vai envolto? Tudo me ocorria ao mesmo tempo, como se em mim outras pessoas trafegassem e ora eu me via na misériade Abel ou nos relampejos da borboleta Dinalva. Tudo me dava conta de que viver é muito difícil. Ou melhor, como repetia Guimarães Rosa: Viver é muito perigoso. Para mim nunca foi possível viver alheio ao horror, como se arrancasse os olhos, perdesse a audição, nenhum tato, paladar ou olfato, vivesse ao vento como se caísse no poço para nadar pelas águas, entre ondas e abismos oceânicos, alcançando grandes alturas atmosféricas, percorrendo distâncias de tudo isso. Não, não é possível, a tentação das contradições do mundo e as minhas instâncias se engalfinhavam, eu sabia, a vida é luta...

 


O último dia... – Não sei onde fui parar, sei que ouvi uma estrofe de Antero de Quental que eu esquecera com o tempo e tudo mudava claroscuramente para que eu visse uma porta e, atrás dela, um palco. Ao atravessá-la, cochichos nas coxias, agucei as ouças: Que nada, meu! Do pescoço pra baixo tudo é canela, deu-se as costas às punhaladas. Quem o otário para levar vantagem, o sabido pronto para a rasteira e a cama-de-gato! Não entendia direito a que se referiam e muito menos me dei conta da morte a rondar dançante com seus tamancos enormes. Êpa! Mais adiante mulheres solfejavam e eu não conseguia atinar. Uma voz irrompeu, era de um morto. O que ele disse era de si e de seus infortúnios. Ao silenciar, percebi os resmungos de uma mulher: o brasileiro só é solidário... Quem? Logo deu pra perceber que não era apenas uma mulher, mais. Sim, mais de uma, porque a morte passou por perto, acompanhei seus passos até um trio cantatriz que carpia - terços, novenas, lamúrias, o que Freud viu na festa dos sacrifícios. O defunto então se mexeu, eu vi, ninguém mais, acho. Depois se levantou e depôs: Todo mundo é bom, apesar do lulixo! Todos ouviram e se entreolharam questionadores. Nem eu, nem ninguém, quem explicasse. Logo a saudação dos que ali estavam era um misto de espanto e asco, razão pela qual comemoraram hesitantes: Ele está vivo, viva! Vivôoooo! Afetos e antipatias se deram, era o último dia e a paráfrase nelsonrodrigueana: o brasileiro só é solidário na desgraça! Tanto já era carnaval desde não sei quando. Assim, todo dia passa, evoé. Até mais ver.

 

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terça-feira, junho 01, 2021

MARIO PERNIOLA, ROSANA MONNERAT, PATRÍCIA MELO & NASH LAILA

 

 

TRÍPTICO DQP – Uma: à sombra de diferentes lugares... - Ao som de Alfonsina y el mar, do compositor argentino Ariel Ramírez (1921-2010). – Ah, se não perdi a memória errei o caminho, estava no fim da estrada. Sabia que ali era do litoral, mas para onde eu me virasse só dava no canavial de um lado a outro. E se não era miragem, havia aqui e ali um sinal de resto de oásis que dava para matar a sede e limpar as vistas. De fato, estava perdido ou prestes. Na cabeça martelava o frevo do amor imortal que dizia do Pontal de Coruripe só céu e mar. De onde eu vinha, nem sabia direito, quase esquecia já ter passado pela Lagoa do Pau e, pelo que já andei, ainda faltava muito no destino, parece. Do que pude saber, tinha que passar por Piaçabuçu, era o que diziam os poucos passantes solícitos que cruzavam meu trajeto. Talvez fosse possível dar Boa noite, Penedo, cantando às margens do Velho Chico. Talvez. Antes disso, não havia mais a faixa do asfalto. Ué? Olhei direito, não me haviam dito que a faixa recomeçava do outro lado, depois de um pedaço de rodagem no areal. Segui e depois de tantos passos e paisagens, um povoado. O coração bateu mais forte, dei fé nas passadas, logo vencer a distância e passar pelas edificações todas com suas janelas e portas abertas, procurando no interior delas um pé de gente para remédio. Às ruas não havia a quem perguntar, acho ser ali uma localidade fantasma. De vivo mesmo só a cana ao redor e intermitentes pés de coco. Ou uns pedaços de taboa da entrada à saída do local. Deu-me uma sensação Rimbaud: De manhã, eu tinha o olhar tão perdido e a postura tão morta, que aqueles que encontrei talvez não me vissem. Só que todos, ninguém. Acho que enlouqueci, mas não. Não, não era fantasma aquelas paragens, já distante do lugar um menino me dissera que ali em abril ocorrera um dilúvio de dois dias, causando muita destruição e desabrigados. Onde estão todos? Não sei, em casa. Não vi ninguém. Ah, o povo vive entocado. Que lugar é este? Feliz Deserto. Vi-lhe o beiço virado apontar por ali para lá longe aonde eu deveria ir. Lembrei Bukowski: Não é morrer que é ruim, é estar perdido que é ruim. Sim, procede. Mais assustado fiquei ao ouvir Mário Perniola: Não é necessário sermos grandes viajantes para perceber que o mundo contemporâneo oferece um panorama no qual está dissolvida a rígida contraposição entre sagrado e profano, entre simbólico e pragmático, entre selvagem e racional... Procurei girando as vistas ao redor, não havia ninguém. Estou, deveras, perdido.

 


Duas: A festa do fim de ano... – Imagem: arte da escultora, gravadora e artista visual Rosana Monnerat. – Ali não era uma miragem. O menino brincava no oitão da casa. Ouvimos estalidos, ou melhor, disparos. E ele: São fogos da festa! Abriu bem os olhos de alegria e correu em desabalada para um cajueiro, subindo por seu tronco, pés nos galhos e lá em cima, olhava para um lado e outro. Sabia que não eram fogos de artifícios, eram tiros. E ele, mão sobre os olhos, procurava inquieto descobrir de onde vinham. Dali a pouco ouvi uma correria e no meio dela, uma mulher desesperada chamando por Nino! Tou aqui, mãe, olha os fogos da festa! Desce daí menino, não é fogo de festa, desce já! Peraí, mãe, deixa eu ver! Desce já! Outros estampidos cruzavam o ar, procurei me proteger escondendo-me, deitado, ao lado de uma mangueira. A mulher aos gritos deitou-se, nem deu tempo insistir pela descida do menino: ele despencou lá de cima, entre galhos e folhas, caindo com um baque no chão, de costas, braços abertos, jorro de sangue na testa e no peito direito. Ao meu lado, Patrícia Melo falava de Inferno: ...o pior veio depois, um silêncio longo, um nada, nem mesmo os cachorros latiam. Agua até o nariz. É a pior parte... não há nada pior na guerra do que o silêncio. E eu já não sabia o ponto de partida, muito menos de chegada, tudo estava perdido.

 


Três: Onde o deserto feliz... - Estava desolado e caminhei a esmo, se não perdido já havia esquecido o destino e mais ainda ao me deparar com uma jovem que chorava à beira da estrada. Prudentemente procurei saber se precisava de alguma coisa e ela me escorraçou aos gritos. Está bem, se precisar de alguma coisa é só falar. Peraí. Sim? Estava desorientada, procurava por um alemão, acho. E desabafou sobre a ruina da família, a fuga para o Recife e se desdizia desesperada, a prostituição, a loucura do amor, o tráfico de animais, a dureza da vida, o sofrimento. Não sabia o que fazer, ela não tinha mais que uns quinze anos de idade e fora violentada pelo padrasto e era o que mais a repugnava, a ponto de esmurrar meu peito e deitar a cabeça ao meu ombro aos prantos. As pessoas apareceram e se reuniam interrogativas ao redor, nem tinha tempo de me explicar direito, não sei se me acusavam ou se compreendiam o que estava ocorrendo. Havia uma hostilidade no ar. Para minha salvação, ela se recompôs e era a atriz Nash Laila a me dizer: Tanta coisa… A gente está vivendo um momento muito sensível. O mundo está muito caretão. A gente tem que quebrar tudo, para ter um pouco de afeto. No nosso trabalho, mexemos com fogo. Gente é uma coisa que amo e odeio. Admirado fiquei com sua desenvoltura. Era como se ela atuasse na Valsa nº 6, do Nelson Rodrigues. Cada vez mais não sabia o que fazer. À minha cabeça cenas, frases, desencontros, tudo desconexo, mal conseguia fazer uma leitura do momento. O que sei, melhor dizendo, quem tem o amor ao alcance, tem outra chance de ouvir todos os seus sentimentos para a pluralidade real da vida. O amor ainda faz sentido hoje?

 


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sexta-feira, agosto 24, 2018

LEMINSKI, LUC FERRY, LYGIA CLARK, NELSON RODRIGUES, HELENA MEIRELLES, IOLE DE FREITAS, VALLY NAMIDOU & PENÉLOPE


BRINCOTOSENTILÓQUIO – Imagem: Glass pieces (1975-76), da artista visual e fotógrafa Iole de Freitas. - Sejalaqueforademais, diadia qualequale, ah cabiolharanatuhumesmo, quetudopossanessaterraviva seminguar nemperecer. Sabiacantoufaztempo, seieuxexeu, quenasabesabe, sabenão. Ontemesmo, tempatrás, tuderesquisito: delapralá, decapracá. Tinhadivinhadeser, laouloa, acertapostar, umaoutra, muitoutras erescondidas. Tomouma, discartoutra. Agoroutra, muitoutroutas. Tantadenesaberaqual: primeirultima, segundavez, terceiralgo, ah trintês, quarenquatro, tempespaço queviujamorreu. Mesmassim, assadassim, obrasilabrilandapratrazempre! Remoquemangar, hahahehe! Coisaquecoisa! Piadadeprimesemgraçabril! Tampabriu, valhamedeus! Esporcorrupada, tomaladacá, essemeuesseteuessemeu, porsicadaum, maisabidispõe, lesotario chorerorô, quebrazil! Cabecendoidada tudiviés, orora, quenejeitem, neném. Tronchabu, verana. Tudofalocentricamente, tempereitoralista, voteu choralguém, tuditudinho! Vendavoto, assinembaixo, façacordo, livreseuprocto, retroutros lasquemsejá. Tudeuhem! Justinjustiça festaseja, praquem, pingagatos, privilevianagiameiduzia, soesó, seimaginodava mafegafinhos fraudestorvo, judicaviloso sobrenevolente povatrasavai, salvaflogistico compadrinhos carniçurubuquaquá, arrevali! Seutivessabracomperformatividade, cordiscernimento, dizabotoaja meimundiverdiva, adiantanão, tãotão maso ciclunar catanabólicas lualada. Gluteandam educultural, denada, postidentes, protesilha, moletaipa, paliativalvula, placebundante, volvai volteluridente, quecoisamascoisa, golpeitonatimoraticadas, eoqa, flagrotemidamente governavalha. Tardagora? Nuncanunquinha! Ah voo nenhumedo, condecisão nenhumais passerela, trevilusão sentidalgum. Apenasei, solitamanhecente, olhoje bocantos ruabertráfego novisão globamadurecer vastidabertura divinessência hojamanhã, esoteritmo pulsangue misticonsciência, sentinaveclodivina. Enquantisso, salvaime, benzodeus, maisestavali, meninamada, choventos, umpunhadágua cominhoseco, saiatrás closesquiva obscenascida sexostensivo, pelamordedeus! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da violeira, cantora e compositora Helena Meirelles (1924-2005): Raiz pantaneira, Flor da Guavira, Ao vivo & Estreia álbum & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais  aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] quanto mais os valores tradicionais se corroem, mais ficamos dependentes e mais nos tranquilizamos consumindo. É o que já se chamava nos anos 1960 de ‘dessublimação repressiva’ [...] Como criar nossos filhos, como ‘equipá-los’ para que vençam na vida do melhor modo possível? O que significa, aliás, a expressão ‘vencer na vida’, se não a reduzirmos à dimensão puramente social e material? Que mundo nós queremos lhes deixar, legar às gerações futuras, não apenas em termos de ecologia, mas também de economia, de política, de cultura? [...]. Trechos extraídos da obra A revolução do amor: por uma espiritualidade laica (Objetiva, 2012), do filósofo francês Luc Ferry. Veja mais aqui.

CARTA A MONDRIAN - [...] a natureza me alimentou, me equilibrou quase que de uma forma panteística. Mas com o tempo, numa outra crise, já isto não adiantou e foi o “vazio pleno”, a noite, o silêncio dela que se tornou a minha moradia. Através deste “vazio-pleno” me veio a consciência da realidade metafísica, o problema existencial, a forma, o conteúdo (espaço pleno que só tem realidade em função direta da existência desta forma...). [...] não sonho porque não acredito. Não por excesso de realismo mas para mim o coletivo só existe na razão desta desordem de ordem prática e social. Se o homem não pode sentir como é importante esse desenvolvimento interior – chamemos de uma forma que nasce com a pessoa como um punho fechado, talvez se abrindo no primeiro tempo com o próprio nascimento – então ele jamais poderá atingir sua plenitude como a rosa que se abre dentro do seu próprio tempo e morre amorosamente realizada, inteligente e feliz... [...] um segredo eu vou te contar: às vezes me sinto tão desesperada, porque no momento em que “checo” este problema a solidão, o frio, “o medo do medo” me envolvem com todos os seus braços e procuram fechar este novo tempo que desabrocha na minha forma interior, amassando pétalas frescas e delicadas que levarão novo tempo para se abrirem como se abre um olho devagar, depois de ter levado um bom murro. [...] encarar esta realidade às vezes tão insuportável - "o artista é um solitário". Não importam filhos, amor, pois dentro dele ele vive só. Ele nasce dentro dele, parto difícil a cada minuto, só irremediavelmente só. [...] No momento em que o grupo foi formado havia uma identificação profunda, a meu ver. Era a tomada de consciência de um espaço-tempo, realidade nova, universal como expressão, pois abrangia poesia, escultura, teatro, gravura e pintura. Até prosa [...] Hoje a maioria dos elementos do grupo se esquecem desta afinidade (o mais importante) e querem imprimir um sentido menor a ele, quando preferem que ele cresça sem esta identidade para mim imprescindível, numa tentativa de dar continuidade superficial a este movimento. [...] Só o tempo a meu ver traria continuidade real a este movimento. [...] meu desejo é deixar o grupo e continuar fiel a esta minha convicção, respeitando a mim mesma, embora mais só que ontem e hoje, eu serei amanhã, pois as pessoas que se aproximaram um dia, há bem pouco tempo, se afastam desorientadas sem enfrentarem a dureza de estar só num só pensamento, sem resguardar o sentido maior, ético, de morrer amanhã, sozinha mas fiel a uma ideia. Diga, meu amigo: é duro, é terrível porque é deixar de ter, mesmo sem me afastar realmente do grupo, pois já se fragmentou a unidade, a verdade dura e terrível feita a sete para se multiplicar em realidades pequenas - reconfortantes por certo, às centenas. Hoje eu choro - o choro me cobre, me segue, me conforta e acalenta, de um certo modo, esta superfície dura, inflexível e fria da fidelidade a uma ideia. Carta da pintora e escultora Lygia Clark (1920-1988), extraída da obra Escritos de artistas: anos 60/70 (Jorge Zahar, 2006), organizada por Glória Ferreira e Cecília Cotrim. Veja mais aqui e aqui.

COMPLEXO DE VIRA-LATAS – [...] Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. [...] E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: “O que vem a ser isso?” Eu explico. Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. [...] Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas [...] Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Crônica do escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980). Veja mais aqui.

CESTA FEIRA - cesta feira / oxalá estejam limpas / as roupas brancas de sexta / as roupas brancas da cesta / oxalá teu dia de festa / cesta cheia / feito uma lua / toda feita de lua cheia / no branco / lindo / teu amor / teu ódio / tremeluzindo / se manifesta / tua pompa / tanta festa / tanta roupa / na cesta / cheia / de sexta / oxalá estejam limpas / as roupas brancas de sexta / oxalá teu dia de festa / mesmo / na idade / de virar / eu mesmo / ainda / confundo / felicidade / com este / nervosismo / eu / quando olho nos olhos / sei quando uma pessoa / está por dentro / ou está por fora / quem está por fora / não segura / um olhar que demora / de dentro do meu centro / este poema me olha. Poema extraído da obra Caprichos & relaxos (Companhia das Letras, 2016), do escritor, critico literário, tradutor e professor Paulo Leminski (1944-1989). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista grega Vally Namidou. 
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AGENDA
Penélope, videodança - exibição 29/agosto, 18hs, no sarau do Centro Cultural OAB Barra -  Av. das Américas, 3.959. Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ. Entrada franca & muito mais na Agenda aqui.
&
O Brasil às avessas na hora da crise, a literatura de Lewis Carroll, a poesia de Cesar Leal, a psicoterapia de Carl Rogers, A loucura do trabalho de Christophe Dejours, A ansiedade de Cecil A. Poole, o Ginásio Municipal de Brivaldo Leão de Almeida, Cidade & Mobilidade Urbana aqui.


quarta-feira, março 21, 2018

NAIPAUL, ROBERT FROST, DEWEY, POPPER, CLARICE & NELSON, ANA LUIZA REGO, GUSTAVO SANTAOLALLA & LISBETH SCOTT

A CABEÇA NA BANDEJA - Imagem: arte da artista visual Ana Luiza Rego. – Quando eu estava para nascer, havia uma expectativa. O que será que será? Ninguém previa o que pudesse surgir ali, naquela hora, se um monstro, um duende, um et, um vampiro, ou o saci Pererê, coisa que valha das abusões e terrores do mundo. Estavam todos prontos para tudo, eu poderia ser qualquer coisa, inclusive um aleijão, ou uma maldição, ou a besta do apocalipse. Fisionomias graves se confundiam com as da minha mãe que não sabia ao certo se estava com oito ou dez meses, atrapalhada com a contagem. A parteira lá a postos, conferindo as dilatações, as contrações, dizia: O bregueço vai nascer já já. Está quase na hora dele se mostrar! E tome espera. Ninguém ali dos presentes, parentes e aderentes sabiam se três da madrugada, dez da manhã ou cinco da tarde, sabe-se, apenas, que de repente pinotei do ventre da minha mãe pras mãos da parteira, com um berreiro macho de quem queria mesmo era azucrinar o mundo. Pronto, disse a parteira toda ancha, conferindo tudo: Dois olhos, dois buracos no nariz, uma boca, dois ouvidos, pescoço, dois braços, duas mãos e cinco dedos, dois pés e cinco dedos, duas pernas, virou, revirou, desvirou, tudo parece perfeito, pelas aparências não é bicho, nem coisa de outro mundo, parece mesmo que é gente, nunca se sabe. Pode ser que vire coisa ruim, vai depender das circunstâncias. Mas tem um detalhe! Ao dizer isso todos ficaram apreensivos. O detalhe é que esse menino será a perdição do mundo se não cortarem o mal pela raiz. Como assim? Esse menino será os pés da doida e se derem manha para ele, tudo estará perdido. Por quê? Se não cortarem logo as asas dele, esse menino quando crescer vai dar muito trabalho, vejam! Aí ela me futucou, eu dei um espirro e a terra tremeu caindo uma chuva torrencial. Como é? Ela buliu e eu arrotei. Nessa hora tudo virou de pernas pro ar. Ôôôô! Deu outra cutucada e eu peidei, pronto, trovões e relâmpagos abriam serras e morros! Ôôô! Estão prestando a atenção, né? Sim, todos afirmativamente. Pois bem, quando esse menino sorrir tudo vai desequilibrar, quando ele chorar os rios transbordarão a ponto das barragens romperem, quando ele tossir vai mudar a cor das coisas, quando estalar os dedos vai causar catabis que assustarão todo mundo, quando cagar as placas tectônicas se reacomodarão, quando ele mijar vai soltar sacarose de virar açúcar cristalizado, quando ele correr vai sumir, porque vai ficar invisível e só voltará quando bem quiser, mas não deixem ele cantar, será bastante desafinado, prefira as mentiras que ele conte porque será um grande mentiroso, mas nunca, sob hipótese alguma, deixe-o cantar, pois causará um desastre imprevisível. Estão avisados. Muitas outras coisas esse menino pode proporcionar para prejuízo de todos. Muitas mesmo. Cuidem dele em cima da risca, não deixem que viva solto, qualquer descuido será tarde demais, qualquer brecha ele foge, qualquer desatenção ele bota fogo na casa, tem de ser vigiado vinte e quatro horas por dia. Entendido? Sim, tudo nos conformes. Só não esperavam que eu começasse ali naquela hora a armar das minhas até hoje, premiado com a cabeça exposta na bandeja. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor argentino Gustavo Santaolalla: Pajaros, Biutifull & The Best; a cantora e compositora armênia Lisbeth Scott: Desert song, Globus Preliator & The Best; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Temos de reconhecer que a consciência ordinária do homem comum [...] é uma criatura de desejos e não de estudo intelectual, investigação e especulação. O homem vive num mundo de sonhos antes que de fatos, e um mundo de sonhos organizado em tono de desejos cujo sucesso ou frustração constitui sua própria essência. [...]. Pensamento extraído da obra Reconstrucion in philosophy (Beacon, 1962), do filósofo e pedagogo estadunidense John Dewey (1859-1952). Veja mais aqui.

A CIÊNCIA & A VERDADE - [...] A ciência não é um sistema de declarações certas e bem estabelecidas, nem tampouco um sistema que avança para um estado final. Nossa ciência não é conhecimento (episteme): ela nunca pode pretender haver atingido a verdade, nem mesmo um substituto para ela, como a probabilidade [...]. Trecho extraído da obra The logic scientific discovery (Harper & Bow, 1968), do filósofo austríaco Karl Popper (1902-1994).

SOBRE AMIGOS & AMIZADE – Você se sente um homem só? Do ponto de vista amoroso, encontrei Lúcia [...] Mas, diante do resto do mundo, sou um homem maravilhosamente só. Uma vez fiquei gravemente doente, doente para morrer. Recebi em três meses de agonia três visitas, uma por mês. Note-se que minha doença foi promovida em primeiras páginas. Aí eu sofri na carne e na alma esta verdade intolerável: o amigo não existe. [...]. Trechos da entrevista realizada por Clarice Lispector com Nelson Rodrigues, extraído da obra Clarice Lispector: entrevistas (Rocco, 2007).

O NASCIMENTO & O FUTURO DA CRIANÇA – [...] - O que é?, pergunta o velho. Menino ou menina? – Menino, menino, gritou a parteira. R wur mrnino! Tem seis dedos e nasceu virado! [...] Em primeiro lugar, falemos dos traços dessa infeliz criança. Ele terá bons dentes, mas muito largos e espaçados. Suponho que vocês saibam o que isso significa. O menino será devasso e pródito. Talvez, também, mentiroso. É difícil reconhecer tudo isso com precisão, com todos esses buracos entre os dentes. Eles podem pressagiar uma dessas coisas, ou todas as três ao mesmo tempo. – E os seis dedos, pandit? – Um sinal pavoroso, não é mesmo? Tudo o que posso aconselhar é que o mantenham longe das árvores e da água. Sobretudo da água. [...]. Trecho extraído da obra Uma casa para o Sr. Biswas (Companhia das Letras, 2010), do escitor britânico nascido em Trinidad e Tobago, Prêmio Nobel de 2001, Vidiadhar Surajprasad Naipaul. Veja mais aqui.

DOIS POEMAS – CONHECIDO DA NOITE – Da noite sou conhecido / sob a chuva vou e venho / além das luzes que tenho ido. / Visto os tristes becos tenho. / Mas, sem ver, passo o rondante / fechado em seu sobrecenho. / Paro, e para o passo errante. / Quando interrompido grito / vem de outra rua distante / não para chamar-me ou aflito / dar adeus. No ceu, polido / relógio, o tempo descrito / tem, sem bo, nem mau, sentido. / Da noite sou conhecido. FOGO E GELO – Alguns dizem que o mundo acaba em fogo / outros dizem que em gelo acabará / pelo que do desejo já provei / favoreço a versão da ignescência. / Mas se houver de acabar-se duas vezes / eu penso conhecer o ódio bastante / para afirmar que nessa destruição / o gelo também serve / e é mesmo suficiente. Poemas do poeta estadunidense Robert Frost (1874-1963).

A ARTE DE ANA LUIZA REGO
A arte da artista visual Ana Luiza Rego.
IV Colóquio Internacional de Literatura e Gênero & muito mais na Agenda aqui.
&
A lição de cada amanhecer, Lendas da Amazônia, a música de Anne Schneider, Edla Fonseca, a arte de Alice Soares & a escultura de Lorenzo Quinn aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

quinta-feira, abril 13, 2017

BEIJOS & BEIJARES, RODIN, NELSON RODRIGUES, SÉRGIO SAMPAIO & MUITO MAIS!

DOS BEIJOS E BEIJARES – Imagem: The Kiss of Love, art by Soaring Turkeys. - O beijo não é só um beijo, é entrega, benesse. Beijo de mãe que nos abriga, enternece, enche de afeto e delicadeza, desse nunca se esquece. Beijo de pai que nos faz ser gente e nos fortalece, nos faz pertencer e nos enaltece. Beijo de irmão que se solidariza beijo de tia que é a promessa e trouxesse o respeito da madrinha que de longe já resplandece. O beijo de quem chega e viesse com a alegria que é bem chegada. O beijo de partida, a despedida que não se quisesse. O beijo da sorte que livra da morte e oferece a ventura de dias melhores. O beijo partido que não tem nem sentido, melhor seria que nunca me desse. O beijo de Casablanca que segue A um passo da eternidade até a cena final de Cine Paradiso, feito o beijo de Rodin ou o de Francesco Hayez, e eu propusesse o dos amantes de Ain Sahkri ante o de Klimt ou de Magritte, e qualquer um daqueles que mais enfurece a paixão e nada adoece. O beijo guloso que muito apetece, em bocas de festas, beijus e beijinhos, doces e brigadeiros, melados sobejos e escorresse o desejo e muito soubesse a língua na ferida viva, nos lábios da vagina, a quermesse, um buquê de gerânio no botão desabrochado da flor do ânus e o que mais desse de mãos beijadas, como quem beija mão da fulaninha que acende a libido e me aquece, a felatriz e sua veneração que beija meus pés como se fosse prece e se fizesse como quem ama e adora, o beijo da mulher amada, a ternura, a finesse, o beijo bem dado que tudo arvora e nunca arrefece a aurora aos carinhos e mais beijos eu desse nos lábios do mundo, bocas da vida. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui & aqui.

 Cartaz da peça teatral O beijo no asfalto: tragédia carioca em três atos (1960 - Nova Fronteira, 1995), do escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980). Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
O beijo que se faz poema aqui.

E mais:
O beijo dela de sol na minha vida de lua aqui.
Itinerário do final de semana num lugar que não existe, O beijo de Théodore Géricault & Carla Carson, Cartografia Rumos, a pintura de Luis Rodolfo & James Ensor aqui.
O pensamento de György Lukács aqui e aqui.
O pensamento de Jacques Lacan aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
A arte de Samuel Beckett aqui e aqui.
Georg Lukács, Jacques Lacan, Samuel Beckett, a literatura de Henry James, a música Morton Subotnick, o cinema de Jane Campion & Nicole Kidman, a pintura de Aurélio D'Alincourt, o desenho Fady Morris & a poesia de Dorothy Castro aqui.
O Cravo & a Rosa, a literatura de Antônio Torres, Clitemnestra & Oréstia, A música de Elis Regina, Antônio Maria & Clara Redig, o cinema de Bernardo Bertolucci & Maria Schneider, a pintura de Antoine-Jean Gros & Pierre-Narcisse Guérin & Programa Tataritaritatá aqui.
Brincarte do Nitolino, a poesia de Stéphane Mallarmé, a literatura de John Updike, a música de Guerra-Peixe, o teatro de Ingrid Koudela, a pintura de Frank Frazetta, o cinema de Luc Besson & Scarlett Johansson aqui.
Pesquisa & Cia., O Big Bang de Marcelo Gleiser, a literatura de Fernando Sabino & Minna Canth, Juno/Hera, a música de Eliane Elias, a pintura de Alonso Cano, o cinema de Bigas Luna & Francesca Neri aqui.
A vida por uma peínha de nada, As mil e uma noites, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a crise da atualidade de Ivo Tonet, a violência de Necilda de Moura Santana, a pintura de Vincent van Gogh & Umberto Boccioni, o teatro de Caryl Churchill, a música de Eveline Hecker, a coreografia de Angelin Preljocaj, a escultura de Kaleb Martyn, o cinema de Christine Jeffs, Luciah Lopez & Sonho real amanhecido aqui.
Dia de São Nunca: tem dia pra tudo, até pro que eu não sei, A mulher fenícia & os fenícios, Uso e abuso histórico de Moses Finley, A era do globalismo de Octavio Ianni, A grande transformação de Karl Polanyi, a literatura de Antonio Tabuchi, o teatro de Sarah Kane, Béjart Ballet Lausanne, o cinema de Eliane Caffé, a música de Clara Sandroni, a entrevista de Mano Melo, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a arte de Sueli Finoto, a pintura de Shahla Rosa & Arthur Hunter-Blair aqui.
De perto ninguém é mesmo normal, O coração do homem de Erich Fromm, A civilização asteca de Jean Marcilly, a literatura de Edgar Allan Poe & Euclides da Cunha, a música de Maya Beiser, a escultura de Auguste Clésinger, o teatro de José Celso Martinez Corrêa, o cinema de Peter Greenaway & Federico Fellini, a entrevista de Geraldo Carneiro, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a pintura de Jean-Paul Riopelle & Beatriz Milhazes, a dança de Martha Graham, a fotografia de Luiz Garrido, a arte de Paul-Albert Besnard & As mil faces do disfarce aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
O beijo, gravura do escultor e pintor francês Auguste Rodin (1840-1917). Veja mais aqui, aqui e aqui.
  
CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Eu quero é botar meu bloco na rua (Phillips, 193/Mercury Universal Music, 2001), do cantor e compositor Sérgio Sampaio (1947-1994)
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.

segunda-feira, outubro 31, 2016

PORTINARI, BOWLBY, PLATÃO, IVAN ILLICH, NELSON RODRIGUES, IMAMURA, GERALDO AZEVEDO, BASTINHA JOB, RACHEL HOWARD, KOLBE, ZAP MAMA, KATHERINE LAWRENCE, MARIO TESTINO & PARA VIVER O PERSONAGEM DO HOMEM


INEDITORIAL: O QUE DEU, DEU; O QUE NÃO DEU, SÓ NA OUTRA – Imagem: Guerra & Paz, Cândido Portinari (1903-1962) - Salve, salve, gentamiga! Acorda Maria Bonita, acorda pra fazer café, o dia já vem raiando e a polícia já está de pé! Como a gente ainda está respirando o pleito eleitoral, já era tempo da gente eleger a pessoa mais importante da vida de cada um: aquela que, quando bate a fome, nos dá de comer; na sede, nos dá de beber; e na hora da precisão, está sempre por perto. Por isso já elegi: todo dia é Dia da Dona de Casa, aquela que, de segunda a sábado – sem contar certos domingos e feriados -, começa suas tarefas logo quando acorda e só para quando vai dormir. Um salve estrondoso pra todas elas. Vivaaaaaaaa! Hoje, também, é o Dia Mundial da Poupança: o que sobrou depois da crise golpista, dá pra poupar, ainda? Destá. No meu Pernambuco a coisa foi danada: de um lado, GePSBJú & uma tuia enganchada de siglas – inté pessedebê & demô engrossando o caldo do escambau anti-PT, tudo contra o JoãoPT & quatro gatos pingados. Não tinha como dar outra. Nas Alagoas, a maior baixaria levou o Ciuço pro saco com tudo que ele disse que fez que não fez! Infelizmente pros cariocas, ontem era dia de Freixo, mas o eleitorado daquele que Ri-na-Fivela-do-Edir que era só domingo que vem, contrariou tudo. Que coisa!?! Vale o dito! E como hoje é Dia do Saci, a coisa toda vai só à base do Brasil rachado em bandas e todo mundo assistindo o cavalo-mago entre o golpista TemerOsso & Aercio da Catinga – um no outro, nem quero torna e xô pra lá! -, diz o Doro que arremeda: in Sumpaulo é tudo ingrês, mas num é novainhóqui nem ninhuma capitá das zeuropia! Pro causa disso o saci, cumade Fulôsinha, Boitatá e todas adorávi abusão, tudim se lascô no raluruiiiim. Vai lá que ainda hoje se aprecie as imagens eróticas das deusas celtas Morrigan ou Beltane, mas o tarzinho do raloruim é mesmo que purgante! E vamos aprumar a conversa pras novidades do dia: na edição de hoje destaque para a educação e escolarização de Ivan Illich, a Teoria do Afeto de Bowlby, a educação de Platão, o teatro de Nelson Rodrigues, a entrevista de Geraldo Azevedo, o cinema de Shohei Imamura & Misa Shimizu, o Congresso Brasileiro de Direito Ambiental, a pintura de Rachel Howard, a fotografia de Mario Testino, a música do Zap Mama, a bailarina Katherine Lawrence, a escultura de Georg Kolbe, a poesia de Bastinha Job, A Notícia & Jamilton Barbosa Correia, o meu livro Para viver o personagem do homem & a croniqueta Depois das eleições. Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Despertar, Friedrich Perls, Ezra Pound, Paul Valéry, Hilary Hahn, Consuelo de Castro Lopes, Carlos Reichenbach, Lev Chitovsky, Aldine Muller & Bruno Braquehais aqui.

E mais:
Só porque hoje é sábado, Carlos Drummond de Andrade, John Keats, Raphael Rabello, Claude Lelouch, Marguerite Arosa, Larissa Maciel, Anouk Aimée, Helmut Newton & Atenção sistemática à saúde aqui.
O romance do pavão misterioso, de João Melchíades da Silva aqui.
A arte fotográfica de Andréia Kris aqui.
Biogênese, sadismo & outras loas tataritaritatá aqui.
Violência, Assírios & Sodoma, Antiguidades Judaicas, Alexandre, A guerra e a fé, O fantástico blitzkrieg, Colombo & as terras do Brasil aqui.
Literatura de cordel: História do capitão do navio, de Silviano Pirauá de Lima aqui.

DESTAQUE: EDUCAÇÃO & ESCOLARIZAÇÃO
[...] O aluno é ‘escolarizado’ a confundir ensino com aprendizagem, obtenção de graus com educação, diploma com competência, fluência no falar com capacidade de dizer algo novo. Sua imaginação é ‘escolarizada’ a aceitar serviço em vez de valor. Identifica erroneamente cuidar da saúde com tratamento médico, melhoria de vida comunitária com assistência social, segurança nacional com aparato militar, trabalho produtivo com concorrência desleal. [...].
Trecho extraído da obra Sociedade sem escolas (Vozes, 1985), do pensador da ecologia política e polímata austríaco Ivan Illich (1926-2002), reunindo uma série de críticas às instituições da cultura moderna, sobre educação, medicina, trabalho, energia, ecologia e gênero. Veja mais aqui.

DEPOIS DAS ELEIÇÕES - Alagoinhanduba parecia em paz naquela segunda feira. Parecia mesmo, depois de tantas bombas todas estouradas no dia das eleições. Como havia ficado em pé de guerra durante a campanha, finalmente parecia que reinava a mais absoluta tranquilidade: amigos que se tornaram inimigos dormiam, adversários acoloiados em novo vínculo de amizade roncavam, a cidade ficou rachada meio a meio e mais parecia que não havia nada acontecido. Se de um lado estava o padre Quiba, com o apoio do bispo Sardinha e toda cristandade católica com os conservadores patriarcas, moralistas, coronéis do açúcar e usufrutuários do poder; do outro, estava Zé Peiúdo, que pela milésima vez e depois de muito aprontar, era candidato com apoio dos evangélicos, neobarrabás, tucanos & demos, peemedebistas & outros cheleléus aproveitadores no maior balaio de gatos & gatunos. Pra dar maior condimento, nas outras candidaturas só fuxico, delas nem se ouvia falar, vez que sequer faziam cócegas na polarização que havia rachado o eleitorado geral no meio. Só se ouvia os esturros, malquerenças, tapas a granel, empurrões e dedadas, disse-me-disse e sai pra lá. O calor subiu pra coisa assim mais de 100º centígrados no dia da votação. O que houve de xingamentos, ameaças, bofetes, riscos de peixeira no chão, balas perdidas no meio do foguetório, não está no gibi. Animosidade espetacularizada maior que os sanguinolentos programas de radio e TV no maior zoadeiro. Em todo canto havia um risco no chão: cara dum, cara doutro, quem não pisar vira gafanhoto! Isso até o domingo. Na segunda, os ânimos descansavam. Parecia que ninguém dava conta da tragédia e que tudo voltara ao normal: o prometido jamais cumprido, novas arengas, novos deboches, novas desconsiderações e tome pano pras mangas dos linguarudos. No final, tudo findava no cemitério, seja de morte morrida, seja de morte matada. E Alagoinhanduba quando dava um passo pra frente, dava uns dez pra trás. Coisas do Brasil, assim caminha a humanidade. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

Curtindo o álbum ReCreation (2009), do grupo polifônico feminino de Afro-pop, Zap Mama, comandado pela artista belga Marie Daulne.

VÍNCULO, AFETO & APEGO - [...] O vínculo inc1ui 0 choro e 0 chamamento, que suscitam cuidados e desvelos, 0 seguimento e 0 apego, e também os vigorosos protestos se uma criança ficar sozinha ou na companhia de estranhos. Com a idade, a frequência e intensidade com que esse comportamento se manifesta diminuem gradativamente. No entanto, todas essas formas de comportamento persistem como parte importante do equipamento comportamental do homem. Nos adultos, elas são especialmente evidentes quando uma pessoa está consternada, doente ou assustada. Os padrões de comportamento de ligação manifestados por um indivíduo dependem em parte, de sua idade atual, sexo, e circunstâncias, e, em parte, das experiências que teve com figuras de ligação nos primeiros anos de sua vida. [...]. Trecho extraído da obra Apego: a natureza do vínculo (Martins Fontes, 1990), do psicólogo, psiquiatra e psicanalista britânico Edward John Bowlby (1907-1990). Veja mais aqui. 

Imagens: Ballet West principal Katherine Lawrence, in The Sleeping Beauty (photo by Ryan Galbrath)

PENSAMENTO DO DIA: LEI DA EDUCAÇÃO PLATÔNICA - [...] a cultura que tende à aquisição da riqueza ou uma cultura que tende ao vigor corporal ou bem, ainda, a algum talento, independentemente de toda inteligência e de toda justiça, essa cultura, digo eu, é sem dignidade nem liberdade, completamente indigna de ser chamada de educação. [...]. Trecho extraído da obra Leis (Edições 70, 2004), do filósofo e matemático grego racionalista, realista, idealista e dualista Platão (428-347aC), o último dos diálogos filosóficos do autor, que se ocupa da discussão acerca da conduta do cidadão da promulgação de leis, perpassando por elementos da psicologia gnosiologia, ética, política, ontologia, astronomia e matemática. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 Imagens: a arte do escultor alemão Georg Kolbe (1877-1947)

A POESIA DE BASTINHA JOB – I – Professora aposentada, / cordelista na ativa, / Assaré do Patativa / é minha terra amada; / Crato é a mãe idolatrada, / que me acolheu em seu seio, / aqui encontrei o veio / da joia da Educação, / da completa Formação /que me deu força e esteio. II – Eu faço poesias críticas / com pitadas de humor / e alfinetadas políticas, / mas também falo de amor; / meu poetar é a arma / que incita ou que desarma, / que faz rir, que faz chorar; / em suma ela é catarse / autêntica e sem disfarce / um compromisso a se honrar! Poesias da cordelista, professora e responsável pela inclusão da disciplina de Literatura Popular no curso de Letras da Universidade Regional do Cariri, Bastinha Job. Veja mais aqui, aqui e aqui. 


TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA –  [...] Escuta, você tem uma alma, meu filho outra e há uma ferida. Eu sou um bêbado que passou pela sua vida e sumiu [...] Eu tenho pena do teu filho, e quando tenho pena sou uma santa! [...]. Trechos extraídos da peça teatral Toda nudez será castigada (Nova Fronteira, 1990), do dramaturgo, jornalista e escritor Nelson Rodrigues (1912-1980), que conta a história sobvre a estreita ligação entre o puritanismo e a sexualidade exacerbada, através de um humor cheio de contundência e de um senso trágico transparente. Veja mais aqui.


UNAGI – O premiado filme Unagi (A enguia, 1997), dirigido por Shohei Imamura, é baseado no romance On Parole, do escritor Akira Yoshimura, conta a história de um homem que volta para casa mais cedo para flagrar sua esposa na cama com outro, razão pela qual ele a mata e se entrega à polícia. Ao ser libertado, torna-se barbeiro e cuida de uma enguia de estimação, quando salva uma bela jovem do suicídio. O destaque fica por conta da atuação da atriz japonesa Misa Shimizu. Veja mais aqui.

Publicação editada pelo artista plástico e gráfico Jamilton Barbosa Correia. Veja aqui e aqui.

AGENDA: CONGRESSO BRASILEIRO DE DIREITO AMBIENTAL – Acontecerá entre os dias 03 e 06 de junho de 2017, na Fundação Mokiti Okada (Rua Morgado de Mateus, 77 – Vila Mariana São Paulo), o XXII Congresso Brasileiro de Direito Ambiental, sobre a temática Direito e Sustentabilidade na Era do Antropoceno: Retrocesso Ambiental, Balanço e Perspectivas. Na ocasião também terão lugar o XII Congresso de Estudantes de Graduação e Pós-Graduação em Direito Ambiental, que acontecerá no dia 03 de junho de 2017, como também o XII Congresso de Direito Ambiental dos Países de Línguas Portuguesa e Espanhola, no dia 05 de junho de 2017, com a temática Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e Informação no Antropoceno. Informações: http://congresso.planetaverde.org/. Veja mais aqui e aqui.

 ENTREVISTA: GERALDO AZEVEDO – Quando assumi o Departamento de Jornalismo da Quilombo FM, e comecei a apresentar o programa Panorama – o inventário da música universal, a primeira entrevista que fiz pra seção Destaque, foi com o cantor e compositor Geraldo Azevedo, ocasião em que ele lançava o álbum Eterno Presente (RCA, 1988). Depois emplaquei outra exclusiva com ele, quando do lançamento do seu álbum Bossa Tropical (RCA, 1989). Por fim, uma terceira, para a edição do tabloide Nascente, nº 8, de outubro de 1997. Confira detalhes de tudo aqui, aqui e aqui. 

Imagens: a arte da premiada pintora, desenhista e ilustradora britânica Rachel Howard.

REGISTRO: PARA VIVER O PERSONAGEM DO HOMEM
Reuni os meus poemas da adolescência e publiquei o meu primeiro livro Para viver o personagem do homem (Nordestal, 1982), com capa do artista plástico Ângelo Meyer, apresentação do poeta e artista plástico Paulo Profeta e coordenação editorial de Juhareiz Correya. Veja detalhes aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagens: a arte do fotógrafo anglo-peruano Mario Testino.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...