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domingo, julho 11, 2021

SEI SHÔNAGON, TAMARA KAMENSZAIN, NINA MORAES & ARMANDO LÔBO

 

 

TRÍPTICO DQP –- Mais um dia... – Ao som da música Atrás das máscaras, do álbum Técnicas modernas do êxtase (Delira, 2011), no filme-ópera Último dia (2021), de Armando Lôbo, com Natália Duarte, Virginia Cavalcanti, Surama Ramos, Walmir Chagas e Marcelo Sena (Veja mais abaixo) – Acordei com o movimento do travesseiro e os sons da manhã. Procurei tomar pé da situação e qual não foi a minha surpresa: era O livro do travesseiro (34, 2013). Como assim? Isso mesmo. Estava inscrito na capa: Sei Shônagon - aquela mesma do The Pillow Book de Greenaway. Investiguei, desconfiado, como podia tal transformação. Ultimamente tem me ocorrido cada uma. Pois é, ajeitei-me na cama e comecei a ler. A cada página uma surpresa: ali estava tudo o que vivi e sou - devaneios, quedas, sucessões de idas e vindas. Atento a cada parágrafo, frase por períodos e, pelo volume, vi que era um tanto a vencer. Persegui e era como se estivesse procurando o começo ou o fim de O Livro de Areia de Borges e relesse mais curioso que antes: ... porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim... Se o espaço for infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo for infinito, estamos em qualquer ponto do tempo... Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta... Refleti. E depois surgiu um trecho de outro conto dele, O espelho e a máscara: ... A guerra é o belo tecido dos homens e a água da espada é o sangue. O mar tem seu deus e as nuvens predizem o futuro... E se misturava com trechos do Evangelho apócrifo da infâmia. O que é isso? Outros labirintos ou será que estou enlouquecendo, o que está acontecendo? Mais desconfiado que antes, esfreguei os olhos e lá estava inscrito o que me tocou profundamente: Quanto a pássaros, embora pertença a terras estrangeiras, é muito enternecedora a cacatua. Dizem que ela imita tudo o que falam as pessoas. O cuco-pequeno. A galinha d’água. A narceja. A gaivota, pássaro-da-capital. O pintassilgo-verde. A papa-moscas... Ah, sim, agora era ela como se me descobrisse um xexéu incorrigível. Cabreiro, além da conta, compreendi o que ela quis dizer: uma sensação inenarrável de quem não estava só ali. E não estava mesmo, logo a sua presença preencheu meu quarto e era ela mesma a me dizer: Um homem que não tem nada em particular para recomendá-lo discute todos os tipos de assuntos ao acaso, como se soubesse de tudo. Na vida, existem duas coisas confiáveis. Os prazeres da carne e os prazeres da literatura... Sim isso eu já tinha lido no outro livro dela. E o que está havendo? Ela sorriu, beijou-me as faces e saiu como nunca mais. E me fez pensar na vida. Era só mais um dia. Sim, mais um dia, agora é só viver.

 


A vida imita a arte... - Imagem da artista visual & grafiteira Nina MoraesA leitura do livro me trouxe outras cenas fora das suas páginas e ao meu redor aconteceram coisas estranhas. Tudo parecia muito real naquela hora e dali eu presenciava um fato ocorrido e tão lamentável como aquela triste situação em que foi detratado o tenente Gustl do Arthur Schnitzler: Deus do céu, tanto faz se outro sabe ou não!... eu sei, e isto é o que importa! Sinto que sou outro, já não sou o que fui há uma hora. – Sei que estou desqualificado e por isso devo estourar os miolos... Que vexame! E me sentia como se eu fosse ele diante daquilo tudo e não conseguia concatenar direito. Não sabia onde por os pés, as mãos, nem para onde ir. Da mesma forma aquela outra deplorável circunstância em que me vi na pele do Marlow da Juventude de Conrad a perorar: Lembro da minha juventude e de um sentimento que nunca mais haverá de voltar – o sentimento que eu poderia durar para sempre, mais do que o mar, do que a terra, do que todos os homens; o ilusório sentimento que nos atrai para alegrias, para perigos, para o amor, para o vão esforço – para a morte... O sentimento da desolação me trazia aqueles versos da Tamara Kamenszain: Quem por palavra fala de seus sonhos / quando a vigília os está vigiando ou / quando na tela do lençol se grafa / o que com esses sonhos vai envolto? Tudo me ocorria ao mesmo tempo, como se em mim outras pessoas trafegassem e ora eu me via na misériade Abel ou nos relampejos da borboleta Dinalva. Tudo me dava conta de que viver é muito difícil. Ou melhor, como repetia Guimarães Rosa: Viver é muito perigoso. Para mim nunca foi possível viver alheio ao horror, como se arrancasse os olhos, perdesse a audição, nenhum tato, paladar ou olfato, vivesse ao vento como se caísse no poço para nadar pelas águas, entre ondas e abismos oceânicos, alcançando grandes alturas atmosféricas, percorrendo distâncias de tudo isso. Não, não é possível, a tentação das contradições do mundo e as minhas instâncias se engalfinhavam, eu sabia, a vida é luta...

 


O último dia... – Não sei onde fui parar, sei que ouvi uma estrofe de Antero de Quental que eu esquecera com o tempo e tudo mudava claroscuramente para que eu visse uma porta e, atrás dela, um palco. Ao atravessá-la, cochichos nas coxias, agucei as ouças: Que nada, meu! Do pescoço pra baixo tudo é canela, deu-se as costas às punhaladas. Quem o otário para levar vantagem, o sabido pronto para a rasteira e a cama-de-gato! Não entendia direito a que se referiam e muito menos me dei conta da morte a rondar dançante com seus tamancos enormes. Êpa! Mais adiante mulheres solfejavam e eu não conseguia atinar. Uma voz irrompeu, era de um morto. O que ele disse era de si e de seus infortúnios. Ao silenciar, percebi os resmungos de uma mulher: o brasileiro só é solidário... Quem? Logo deu pra perceber que não era apenas uma mulher, mais. Sim, mais de uma, porque a morte passou por perto, acompanhei seus passos até um trio cantatriz que carpia - terços, novenas, lamúrias, o que Freud viu na festa dos sacrifícios. O defunto então se mexeu, eu vi, ninguém mais, acho. Depois se levantou e depôs: Todo mundo é bom, apesar do lulixo! Todos ouviram e se entreolharam questionadores. Nem eu, nem ninguém, quem explicasse. Logo a saudação dos que ali estavam era um misto de espanto e asco, razão pela qual comemoraram hesitantes: Ele está vivo, viva! Vivôoooo! Afetos e antipatias se deram, era o último dia e a paráfrase nelsonrodrigueana: o brasileiro só é solidário na desgraça! Tanto já era carnaval desde não sei quando. Assim, todo dia passa, evoé. Até mais ver.

 

Veja mais aqui e aqui.

 


sábado, abril 18, 2015

ARUNDHATI ROY, PAGU, GROTOWSKI, ALESHIA BREVARD & HIPÓLITA

 


LITERÓTICA: A PODEROÍSSIMA SEDUÇÃO DE HIPÓLITA... - Soube dela certo dia e sequer podia adivinhar a maldição de ser por ela movido. Fui possuído pelo poder de sua sedução e, por causa dela, empreendi o que seria a loucura da vida. Fui tomado e completamente obcecado naveguei até a foz do rio Termodonte e lá cheguei ao Ponto Euxino de Termiscira para dar de frente com suntuoso palácio. As portas todas se abrirão como se adivinhassem minha recepção. Adentrei e, naquele espaço colossal, fui recebido pela rainha das amazonas. Ela me sorriu impressionada porque não me atrevi a raptar nem vencer em combate a sua irmã Melanipe, nem exigi nenhum resgate, muito menos enfrentamento. Apenas queria vê-la cativado por sua extremada beleza. Destemida por sua personalidade forte, revelou-se altiva ao perceber que eu não seria um inimigo gárgaro e, de vontade própria, me deu por recepção todo o seu poder e autoridade do cinturão mágico – o cinturão da guerra do primeiro dragão. Abdiquei do presente porque só queria vê-la para satisfazer meu encantamento. Ela então correspondendo aos meus sentimentos tentou me abduzir confessando-se derrotada pela minha adoração. Então ofereceu-me o seu trono amazona. E, mais uma vez, renunciei a honraria, mas tudo fiz para que ela se tornasse o meu troféu amoroso. Então, enlevada de paixão com as vestes soltas, ela puxou a barra da saia, levantando-a a expor suas torneadas pernas, suas voluptuosas coxas e ofertando o mais cobiçado ventre em ebulição. Desnudei-a e ela dançou nua em mim a Ercole su'l Termodonte de Vivaldi, embriagando-me de prazeres inaugurais sucessivos do Sonho de Uma Noite de Verão, numa Ilha do Paraíso. Durante a volúpia confessou-me Jacinta e me convocou para a conjuração mineira. Revelou-se mais: a inconfidente da Fazenda Ponta do Morro. Era o seu feitiço para mim e que inadvertida foi também envolvida ao entregar-me a carta com as instruções dos conjurados para que montasse uma reação a partir do Serro. Provocou-me sedutora: Quem não é capaz para as coisas, não se mete nelas. Era a oferta entre as suas pernas da Vila Rica de todos os seus encantos, e me montou a cavalgar insaciável em meu ventre de alazão incansável por dias e noites infindas. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - É triste admitir que nenhuma palavra cautelosa de quase sabedoria poderia ter me impedido de me aventurar em ruas perigosas. Enquanto o ódio e a incompreensão existirem, o abuso também existirá... Quando alguém morre... você simplesmente coloca um pé adiante e segue em frente. Isso parece maldoso... mas, pense... que outra escolha realmente temos?... Eu nunca presumiria dizer aos outros como viver melhor suas vidas; só posso esperar que aqueles que assim se inclinam encontrem seus sonhos realizados... Pensamento da atriz, modelo, professora e escritora estadunidense Aleshia Brevard (1937-2017), autora do livro The Woman I Was Not Born to Be (Temple University Press, 2001).

 

ALGUÉM FALOU: Uma luta política que não tem mulheres no centro, acima, abaixo e dentro dela não é luta nenhuma... Pensamento da escritora e ativista indiana Arundhati Roy. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

HOJE É DIA DE MONTEIRO LOBATO – Quando li o livro Urupês (1918), do escritor Monteiro Lobato (1882-1948), fiquei impressionado. A razão disso? Uso as palavras do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), no seu Aos trancos e barrancos (Guanabara, 1985): Monteiro Lobato alcança enorme êxito, assumindo a liderança da vida intelectual do país com o livro de Urupês – mal ilustrado por ele próprio -, ambientado nas fazendas de café de São Paulo. Retifica, aí, seu célebre retrato do caipira, admitindo que seus males vêm da falta de saúde, de instrução e de assistência: “Perdoa, pois, pobre opilado e crê no que te digo ao ouvido: tens no sangue e nas tripas todo um jardim zoológico... és tudo isto sem tirar uma vírgula, mais ainda és a melhor coisa desta terra. Os outros, os que falam francês e, senhores de tudo, te mantêm nesta gueena infernal para que possam, a seu salvo, viver vida folgada à custa de teu dolorido trabalho, esses, meu caro Jeca Tatu, esses têm na alma todas as verminoses que tu tens no corpo. Doente por doente, antes tu, doente só de corpo”. Aí vieram as leituras de Problema Vital (1918), Cidades Mortas (1919), Ideias de Jeca Tatu (1919), Negrinha (1920), A Onda Verde (1921), Mundo da Lua (1923), O macaco que se fez homem (1923), Jeca Tatuzinho (1923), O choque das raças ou O Presidente Negro (1926), Mr. Slang e o Brasil (1927), Ferro (1931), América (1932), Na antevéspera (1933), O escândalo do Petróleo (1936), A barca de Gleyre (1944), Prefácio e entrevistas (1946) e o incrível livro Zé Brasil (1947), do qual destaco o trecho inicial: Zé Brasil era um pobre coitado. Nasceu e sempre viveu em casebres de sapé e barro, desses de chão batido e sem mobília nenhuma – só a mesa encardida, o banco duro, o mocho de três pernas, uns caixões, as cuias. Nem cama tinha. Zé Brasil sempre dormiu em esteiras de tábua. Que mais na casa? A espingardinha, o pote d´água, o caco de sela, o rabo de tatu, a arca, o facão, um santinho na parede. Livros, só folhinhas – para ver as luas e se vai chover ou não, e aquele livrinho do Fontoura com a história do Jeca Tatu. – Coitado deste Jeca! -, dizia Zé Brasil olhando para aquelas figuras. – Tal qual eu. Tudo que ele tinha, eu também tenho. A mesma opilação, a mesma maleita, a mesma miséria e até o mesmo cachorrinho. Pois não é que meu cachorro também se chama Joli?... [...]. Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.
  
Imagem: Indígena & População indígena do Cantagalo (1926), do pintor e desenhista francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848). Veja mais aqui.

Ouvindo: Tudo e todas as coisas (1984), do grupo instrumental Uakti, formado por Marco Antônio Guimarães, Artur Andrés Ribeiro, Paulo Sérgio Santos e Décio Ramos. Veja mais aqui e aqui.

EM BUSCA DE UM TEATRO POBRE – O livro Em busca de um teatro pobre (Civilização Brasileira, 1971), do diretor de teatro polaco e figura central do teatro experimental e de vanguarda, Jerzy Grotowski (1933-1999), o autor defende que: [...] Nossos postulados não são novos. Exigimos das pessoas as mesmas coisas que todo verdadeiro trabalho de arte exige, seja a pintura, a escultura, a música, a poesia ou a literatura. Não satisfazemos o espectador que vai ao teatro para cumprir uma necessidade social de contato com a cultura: em outras palavras, para ter alguma coisa de que falar aos seus amigos e poder dizer que viu esta ou aquela peça, que foi muito interessante. Não estamos no teatro para satisfazer sua “sede cultural”. Isto é trapaça. [...] Estamos interessados que sinta uma genuína necessidade espiritual, e que realmente deseje, através de um confronto com a representação, analisar-se. Estamos interessados no espectador que não para num estágio elementar de integração psíquica, satisfeito com sua mesquinha estabilidade espiritual, geométrica, sabendo exatamente o que é bom e o que é ruim sem jamais pôr-se em dúvida. Não foi para ele que El Greco, Norwid, Thomas Mann e Dostoiévski falaram, mas para aquele que empreende um processo interminável de autodesenvolvimento, e cuja inquietação não é geral, mas dirigida para uma procura da verdade de si mesmo e da sua missão na vida. [...] O teatro deve reconhecer suas próprias limitações. Se não pode ser mais rico que o cinema, então assuma sua pobreza. Se não pode ser superabundante como a televisão, assuma seu ascetismo. Se não pode ter uma atração técnica, renuncie a qualquer pretensão técnica. Dessa forma chegamos ao ator “santo” e ao teatro pobre. [...] Portanto, o teatro deve atacar o que se chama de complexos coletivos da sociedade, o núcleo do subconsciente coletivo, ou talvez do superconsciente (não importa como seja chamado), aqueles mitos que não constituem invenções da mente, mas que são, por assim dizer, herdados através de um sangue, uma religião, uma cultura e um clima [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

SONETOS DE ANTERO – Do livro Sonetos Completos (Portuense, 1886), do escritor português Antero de Quental (1842-1891), destaco, primeiramente, Mors amor: Esse negro corcel, cujas passadas /Escuto em sonhos, quando a sombra desce, / E, passando a galope, me aparece / Da noite nas fantásticas estradas, Donde vem ele? Que regiões sagradas / E terríveis cruzou, que assim parece / Tenebroso e sublime, e lhe estremece / Não sei que horror nas crinas agitadas? / Um cavaleiro de expressão potente, / Formidável, mas plácido, no porte, / Vestido de armadura reluzente, / Cavalga a fera estranha sem temor: / E o corcel negro diz: “Eu sou a morte! / “Responde o cavaleiro: “Eu sou o Amor!”. Também da sua lavra, destaco Mors liberatriz: Na tua mão, sombrio cavaleiro, / Cavaleiro vestido de armas pretas, / Brilha uma espada feita de cometas, / Que rasga a escuridão, como um luzeiro. / Caminhas no teu curso aventureiro, / Todo envolto na noite que projectas... / Só o gládio de luz com fulvas betas / Emerge do sinistro nevoeiro. / - «Se esta espada que empunho é coruscante / (Responde o negro cavaleiro andante), / É porque esta é a espada da Verdade: / Firo mas salvo... Prostro e desbarato, / Mas consolo... Subverto, mas resgato... / E, sendo a Morte, sou a liberdade. Veja mais aqui, aquiaqui.  

PAGU – No livro Parque Industrial (José Olympio, 2006), a escritora, diretora de teatro, desenhista, jornalista, militante comunista e musa do Modernismo brasileiro, Patrícia Galvão, ou simplesmente Pagu (1910-1962), encontro para destaque os seguintes textos: [...] As seis têm olhos diferentes. Corina, com dentes que nunca viram dentista, sorri lindo, satisfeita. É a mulata do atelier. Pensa no amor da baratinha que vai passar para encontrá-la de novo à hora da saída. Otávia trabalha como um autômato. Georgina cobiça uma vida melhor. Uma delas, numa crispação de dedos picados de agulha que amarrotam a fazenda. – Depois dizem que não somos escravas. [...] - Você pensa que vou desgostar mademoiselle por causa de umas preguiçosas! Hoje haverá serão até uma hora. – Eu não posso, madame, ficar de noite! Mamãe está doente. Eu preciso dar remédio pra ela! – Você fica! Sua mãe não morre por esperar umas horas. – Mas eu preciso! – Absolutamente. Se você for é de uma vez. A proletária volta para seu lugar entre as companheiras. Estremece à ideia de perder o emprego que lhe custara tanto arranjar. [...] - O voto para as mulheres está conseguido! É um triunfo! – E as operárias? – Essas são analfabetas. Excluídas por natureza. [...]. Para se ter uma ideia da importância dessa mulher, o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), no seu Aos trancos e barrancos (Guanabara, 1985), diz dela: Patrícia Galvão – Pagu -, moderna, bela, assanhada, a brasileira mais inteligente de sua geração, escreve e desenha, menina ainda, seu primeiro livro: Pagu. Um caderninho sacaníssino. Sua vida foi contada no filme Eternamente Pagu (1987), direção de Norma Benguel, protagonizado por Carla Camurati, afora ter sido tema de dois documentários: Patrícia Galvão – livre na imaginação no espaço e no tempo (Unisanta, 1988) de Lúcia Maria Teixeira Furlani, dirigido por Rudá de Andrade e Marcelo Tasara, e Eh, Pagu!, Eh!, do cineasta Ivo Branco. Também tema-título de uma parceria musical entre Rita Lee & Zélia Duncan, afora ter sido tema nos palcos teatrais, a exemplo do espetáculo Dos Escombros de Pagu, baseado no livro homônimo assinado por Tereza Freire, além da fotobiografia Viva Pagu, de Lúcia Maria Teixeira Furlani e Geraldo Galvão Ferraz. Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.






CHORO: APOIO AO PROJETO QUEBRA CABEÇA
O grupo instrumental Sacudindo Choro, formado por Bruno Vinci (Violão 7 Cordas), Rafael Mota Rodrigues (Percussão), Rafael Nascimento (Violão 6 Cordas) e Fabrício Rosil (Cavaquinho), está lançando o seu primeiro disco Quebra Cabeça, com composições autorais e voltado para difusão do choro. Confira e apoie o projeto aqui.


Veja mais sobre:
Uma canção de amor, a literatura de Geoff Dyer & Victor Hugo, a música de Miles Davis & O Jazz de New Orleans, a fotografia de Robert Mapplethoppe, a arte de Debra Hurd & Lisa Lyon, a pintura de C. Vernet & Pedro Cabral aqui.

E mais:
Corações solitários, Hipócrates, Isaac Newton & Catherine Barton Conduitt, O homem & pós-homem de Fernanda Bruno, a literatura de Carlos Castañeda, a poesia de William Wordsworth, a música de Elena Papandreou, O teatro do Bharata, a arte de Luis Fernando Veríssimo, a entrevista de Claudia Telles, a pintura de Cristina Salgado, o cinema de Júlio Bressane & Josie Antello aqui.
Solilóquio na viagem noturna do sol, A Educação no Brasil, o pensamento de Sêneca, a música de Maria Esther Pallares, a coreografia de Paula Águas, a pintura de Terry Miura & Amenaide Lima aqui.
Solilóquio das horas agudas, O mito de Sísifo de Albert Camus, Neurofilosofia & Neurociências, a música de Meg Myers, a pintura de José Manuel Merello, Hipócrates & Luciah Lopez aqui.
Solilóquio do umbigocentrismo, Rio São Francisco - Velho Chico, Richard Bach, Quando todo dia é segunda-feira, Chamando na grande & mandando ver no lero aqui.
O espectro da fome de Josué de Castro, Ilíada de Homero, a música de Mercedes Sosa & Martha Angerich, a pintura de Tamara de LempickaAna Botafogo, Eliezer Augusto & Genesio Cavalcanti aqui.
Quem desiste jamais saberá o gosto de qualquer vitória, A ciência da linguagem de Roman Jakobson, a literatura de Marcel Proust, a música de Secos & Molhados & Luiza Possi, a pintura de Henry Asencio, a arte de Regina José Galindo, a fotografia de Thomas Karsten & Tortura é crime aqui.
Boa noite, Penedo, às margens do São Francisco, a literatura de Adonias Filho & Georges Bataille, A história social do Brasil de Manoel Maurício de Albuquerque, a música de Bach & Rachel Podger, a arte de Marcel Duchamp, a pintura de Jaroslav Zamazal, a fotografia de Karin van der Broocke, Vanguard & Kéfera Buchmann aqui.
E a dança revelou o amor, a literatura de Manuel Scorza, A busca fálica de James Wyly, a música de Gabriel Fauré & Ina-Esther Joost, a pintura de Francisco Soria Aedo, a coreografia de Merce Cunningham, a arte de Yves Klein & a fotografia de Richard Rutledge aqui.
Três poemas & a dança revelou o amor..., a pintura de Andrew Atroshenko & Ton Dubbeldam, a fotografia de Klaus Kampert & a arte de Jeremy Mann aqui.
Quando ela dança tangará no céu azul do amor, A condição pós-moderna de Jean-François Lyotard, A estética da desaparição de Paul Virilio, a música de Anna-Sophia Mutter, a pintura de Alex Alemany & Eloir Junior, a arte de David Peterson & Luciah Lopez, Carlos Zemek & & Isabel Furini aqui.
A dança dos meninos, a poesia de Manuel Bandeira & Amiri Baraka, A bailarina de João Cabral de Melo Neto, O Kama Sutra de Vatsyayana, A dançarina de Yasunari Kawabata, a música de Isabel Soveral & António Chagas Rosa, a pintura de Jose Manuel Abraham, a fotografia de M. Richard Kirstel, Pas de deux & Ary Buarque aqui.
O voo da mulher, Dicionário de lugares imaginários, o teatro de Federico Garcia Lorca, a música de Duke Ellington, o cinema de Lars von Trier & Nicole Kidman, a arte de Tatiana Parcero & Caco Galhardo, Rô Lopes & Como veio a primeira chuva aqui.
Saúde no Brasil, O Fausto de Goethe, o pensamento de Terêncio, Ética & Fecamepa, Os sentidos da integralidade de Ruben Araújo de Mattos & Remexendo as catracas do quengo e queimando as pestanas com coisas, coisitas e coisões aqui.
Todo dia é dia de dançar o amor aqui.
O alvoroço do poema na horagá do amor & a pintura de Oscar Sir Avendaño aqui.
Literatura de cordel : quebra pau no STF, de Bob Motta aqui.
A pingueluda aqui.
A arte de Marcya Harco aqui.
O pensamento de Georg Lukács, A psicanálise de Jacques Lacan, o teatro de Samuel Beckett, a literatura de Henry James, a música de Morton Subotnick, o cinema de Jane Campion & Nicole Kidman, a pintura de Aurélio D'Alincourt, a arte de Fady Morris & As poesias pontilhadas de Dorothy Castro aqui.
Pindura aí, meu! O negócio tá ficando feio, Cidadania insurgente de James Holston, a poesia de Sérgio Frusoni, A cidadania de Maria de Lourdes Manzine Covre, a música de Sol Gabetta, a fotografia de Mara Saldanha, a arte de Stanley Borack & a pintura de Fernando Rosa aqui.
Lasciva da Ginofagia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
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sexta-feira, agosto 01, 2008

MELVILLE, KOESTLER, , NIKLAS LUHMANN, KOYRÉ, ANTERO DE QUENTAL & ZÉ-CORNINHO


ZÉ-CORNINHO: O PINTUDO MAIS GAIÚDO DO MUNDO!




Zé-corninho era a peste: motorista-de-prefeitura, guará-de-cana, cheleléu-de-seu-Palmeira, caseiro, vigia, garçon-de-bodega, desencaminhador-de-puta, anotador-do-pule-de-bicho, tirador-de-pé-coco, desentumpidor-de-pia-e-similares, aprumador-de-antena, pescador, puxador-de-âncora, sanfoneiro e triangulista, botador-de-gato-na-energia, de jacaré-na-água, de-macaco-no-telefone; desatador-de-nó-cego, atrepador-de-poste, desatolador-de-bug, carregador-de-trouxa-de-roupa e macho de dezesseis trepeças que lhe empenavam o juizo de tanta gaia bem botada, dele num poder ver fio de alta tensão, mode não causar curco-circuito e findar morrendo eletrocutado pela peruca-de-touro. Verdade! Onde passasse, sempre suspendia o fornecimento de energia elétrica. Pronto! Se faltou energia, foi ele! Juro! A ponto da companhia energética já andar doida para pegá-lo pelos gatos e pelas gaias. Um detalhe: é o corno mais bem servido de pêia, merecedor do alcunha Minino de Itu. Quer ver? Escuta só! Um dia seu Palmeira resolveu mandá-lo pra tomar conta da casa de praia. O Zé pra lá de satisfeito com o emprego, levou mulher e uma carreira de bruguelo de num ter mais fim. Uma prole escadinha de amarelinhos, tudo autenticado com as fuças do pai, cagado e cuspido. O sujeitinho agora no bem-bom, deu de pescar de cundunda a tubarão. E de mão. Só usava vara quando estava à sesta, e rede uma vez lá na vida. Seu Palmeira mesmo estava feliz por todo dia chegar peixe fresquinho em sua casa, enviado pelo eficiente empregado. E o patrão que não era besta nada, já tava com intenção de abrir uma peixaria pra dar vencimento ao pescado de casa e ganhar dinheiro com o desinfeliz-das-costas-ocas. Aí, nesse meio termo, eis que certo final de semana, seu Palmeira saiu da capital para a cidade do descanso na casa de praia, não antes acompanhar uma procissão dum santo desse de veneração. A certa altura do cortejo, não se sabe porque a imagem achou de se enganchar num fio-de-alta-tensão, causando o maior caga-raio na bunda dos fiéis. Um rebuliço dos grandes. Foi rabo-de-saia tostado que só, de vê-se a caçola estrupiada e a bunda quase que torrada de beata. O patrão que era sabido demais da conta ficou dando um dengo de compaixão, consolando as descaçoladas e tangendo as quase-pinguins até sua casa para se recomporem da tragédia. Foi quando mal cruzaram o portão se arranchando pelos cantos, eis que surge Zé-corninho providente com garapa na mão para todas, nu da cintura pra cima e expondo uma tanga minúscula com a metade dos culhões e o mondrongo quase todo de fora. Menino, vixe! Foi um deus-nos-acuda delas desmaiarem, uma a uma, ali na hora com tamanha afronta de pervertido. Foi preciso chamar bombeiro, enfermeira, vigilantes-da-fé-de-jesuisis, a cruz-vermelha, benzedeiros, a porra toda para socorrê-las. Quando já se davam por restabelecidas e que viam o volume da trouxa com o pra-te-vai do Zé, eram novos suspiros e desmaios com nova correria da tropa de choque. Foi aí que seu Palmeira se emputeceu e mandou o calhorda ajegado embora daquele jeito mesmo, sem direito nem a tirar nem um só cisco de dentro de casa. - Rua, seu depravado! Fora-daqui! Zé todo entristecido com a injustiça, havia, afinal de contas, prestado um bom serviço com a garapa para acalmar as doentinhas-da-bunda-queimada, mas, destá, juntou os mijados e partiu com sua prole. Ainda vi-lo semana passada atrepado na caçamba de um caminhão-de-lixo, deve de ser sua nova profissão. - E aí, Zé? - gritei. - Desmaiaram pelo culhão, imagine se emborcam em riba da pêia, iam morrer entaladas! Héhéhéhéhéhé! © Luiz Alberto Machado.
VEJA MAIS:


DITOS & DESDITOSJogamos o jogo da vida, obedecendo a livros de regras escritos com letra invisivel ou com um código secreto. Pensamento do jornalista, escritor e ativista húngaro Arthur Koestler (1905-1983). Veja mais aqui.

PENSAMENTO FILOSÓFICO & CIENTÍFICO - [...] O Zeitgeist não é uma fantasia. [...] A história não é inalterável. Modifica-se, à medida que nos modificamos.[...] A história do pensamento científico nos ensina portanto (pelo menos eu tentarei sustentar isso):1° Que o pensamento científico nunca foi inteiramente separado do pensamento filosófico;2° Que as grandes revoluções científicas foram sempre determinadas por subversões ou mudanças de concepções filosóficas;3° Que o pensamento científico –falo das ciências físicas –não se desenvolve in vácuo, mas está sempre dentro de um quadro de ideias, de princípios fundamentais, de evidências axiomáticas que, em geral, foram considerados como pertencentes exclusivamente à filosofia [...]. Trechos extraídos da obra Estudos de história do pensamento filosófico (Forense, 1991), do filósofo francês Alexandre Koyré (1892-1964).

COMPLEXIDADE – [...] Complexidade não é uma operação, não é nada que um sistema faça ou que nele ocorra, mas é um conceito de observação e de descrição (inclusive de auto-observação e autodescrição) [...] A distinção que constitui a complexidade assume a forma de um paradoxo: complexidade é a unidade de uma multiplicidade. Um fato é expresso em duas versões distintas: como unidade e como multiplicidade, e o conceito nega que se trate de algo distinto [...] a forma da complexidade é o limite para a ordem, onde ainda é possível que cada elemento se associe a cada tempo com outros elementos. O que excede a isso, necessita de seleção e produz, assim, um estado contingente, ou seja, toda ordem possível de ser reconhecida depende de uma complexidade, que deixa evidente, que algo diferente também seria possível […]. Trechos da obra A religião da sociedade (Die Gesellschaft der Gesellschft - Frankfurt am Main, 1999), do sociólogo alemão Niklas Luhmann (1927-1998), que em outra obra, Social Systems (Stanford University Press, 1995), expressa que: [...] O sistema da ciência pode analisar outros sistemas desde pontos de vista que não são acessíveis para eles mesmos. Neste sentido, pode descobrir e tematizar estruturas e funções latentes. Em oposição, freqüentemente nos encontramos - e especialmente na sociologia – com a situação na qual os sistemas, autoreferencialmente, desenvolvem formas de acesso a complexidade que não está acessível para a análise e simulação científica. Fala-se então, de “Black Boxes” [...].

BARTLEBY - [...] Apesar de toda sua engenhosidade mecânica, Nippers nunca conseguia fazer com que sua mesa ficasse de seu agrado. Ele usava lascas de madeira como apoio, assim como blocos de diferentes tipos e pedaços de papelão. Chegou ao ponto de tentar um delicado ajuste com restos de papel mata-borrão dobrados. Mas nenhuma invenção correspondia às suas expectativas. Se, para aliviar as costas, ele deixasse a tampa da mesa num ângulo reto em direção ao seu queixo e escrevesse ali como se utilizasse o telhado escarpado de uma casa holandesa como escrivaninha... dizia que aquilo lhe prejudicava a circulação nos braços. Se depois tivesse abaixado a mesa até a cintura e escrevesse inclinado, sentia uma forte dor nas costas. Em resumo, a verdade era que Nippers não sabia oque queria. Ou, se queria alguma coisa, era se livrar completamente da mesa de escriturário. Em meio às manifestações de sua ambição doentia estava o carinho com que recebia certos sujeitos de aparência ambígua em casacos puídos, a quem ele se referia como seus clientes. [...]. Trecho extraído de Bartleby, o Escrivão (Record, 1982), do escritor e aventureiro estadunidense Herman Melville (1819-1891). Veja mais aqui.

A UMA MULHER - Para tristezas, para dor nasceste. / Podia a sorte pôr-te o berço estreito / N'algum palácio e ao pé de régio leito, / Em vez d'este areal onde cresceste: / Podia abrir-te as flores — com que veste / As ricas e as felizes — n'esse peito: /Fazer-te... o que a Fortuna há sempre feito... / Terias sempre a sorte que tiveste! / Tinhas de ser assim... Teus olhos fitos, / Que não são d'este mundo e onde eu leio / Uns mistérios tão tristes e infinitos, /Tua voz rara e esse ar vago e esquecido, / Tudo me diz a mim, e assim o creio, / Que para isto só tinhas nascido! Poema do escritor português Antero de Quental (1842-1891), Veja mais aqui.




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