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domingo, maio 10, 2026

BIOGRAFIA DO BRASIL, TARANEH JAVANBAKHT, ÉDOUARD LOUIS & SEVERINO ARAÚJO

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Tanto Tempo (2000), Momento (2007), All in One (2009), Tudo (2014), Agora (2020) e João (2023), da cantora e compositora Bebel Gilberto (Isabel Gilberto de Oliveira). Veja mais aqui.

 


Miolo de pote, uma loa quase iniciática... - Era uma vez e só havia o quintal às costas do menino. À janela almejava quase longe o rio e o espelho do céu fluía: nuvens e sonhos. Alvoroçado escapulia muro afora e o mundo se descortinava, rente à margem. Das funduras um caleidoscópio emergia remoinho e nele uma efígie pueril, quase adolescente: Era eu? E me falava da morte subindo a escada, a goiaba nos galhos sobre a casa, lá embaixo o desejo das irmãs, a faca entre os dentes e, a cada degrau, a coragem e uma queda abissal. Era a primeira vez e nela revivia a cena: ainda bebê nos braços da empregada, embalado pelo gira girou da roda gigante, o circuito e os gritos do pavor dela no incêndio estouravam a vermelhidão na esclerótica. E o bom era o balanço do trem comendo chão na ferrovia, a saia das elegantes rodomoças no meio das paisagens da rodovia, o cheiro de sargaço do Recife, o bicho de pé na areia de Boa Viagem, os tombos na bicicleta do primo, a festa semanal na dolorosa consulta médica, o regresso com antibióticos e os temores do coração de Jesus pendurado na viga da sala, a vigilância com o interdito dos livros na biblioteca paterna, amarrado ao pé da mesa, as fechaduras insondáveis, a invasão dos espectros nas botas da prisão do meu pai e a solidão infantil não podia descalça pisar o chão, mesmo resistindo aos nãos das sandálias e a proteção era o preço a pagar, quando queria a escola, na fila da merenda, obrigavam a sopa e, um descuido, o achocolatado no desejo, o vômito e a hepatite. Fechava os olhos, rejeitava a revista. E ao reabri-los uma efigie deformada se fez num duplo inexato, a feição na superfície embaçada, o olho do falcão e o intenso impacto. Não gostava do que via, porque ouvia da segunda morte: atropelado num cruzamento da Imbiribeira e o turbilhão com todos os titubeios, os fracassos, felonias, os desperdícios de quem se sentia com a síndrome do alferes de Machado de Assis, como quem se perdera na experiência dos espelhos de Rosa e o coração refletido no museu de Hanói, envolvido pelo conto de fadas da Sais de Novalis, pelos versos do poema de Schiller e de tudo que cuspia a Herodíade do Mallarmé: Certas noites, em tua severa fonte \ conheci a nudez do meu sonhar disperso... Parecia o julgamento do que fui no espelho do Karma de Yama. Novamente recolhia às pálpebras, doía ver-se às cabeçadas na gritaria das tolices, o que dirão das doidices, mané! Ria das próprias leseiras, acrófobo voador entre contramão e vielas. Não havia como negar e envelhecia diante espelho mágico do Ts’in: o pó cobria a causa de atos passados. Ah, se pelo menos aparecesse a bela deusa Sarasundari no espelho octogonal com os oitos trigamas do Amaterasu, uma alma polida pela ascese. Nada, aspirava desfrutar ao lado dela o Kagami Mochi e aprender da Tábua de Esmeralda: aquilo que está no alto é como aquilo que está embaixo. Não havia lógica nem sentido, pudera. Cadê a estrela da sorte? Nada, sobrevivia ao reflexo reativo às ameaças, o sangue esquentado, as feridas, o que se dissipou no jogo de espelhos, o arrebatamento e tudo tão disperso, atroz e inútil. A vida se alongava insinuante no sorriso fugidio, não escondia as cicatrizes, melhor era depor logo, bastava, não havia escolha: era a vacuidade primordial do shunyata. Queria demais, ignorava o merecimento e tantas coisas, não havia mais passado: esquecia para não perder a razão, a compreensão se ampliava com o passar do tempo. De resto, simplesmente vivia como uma causa perdida e nada mais: o olhar fatigado, o rouco lamento, a resignada mudez. Não havia como voltar atrás diante da clarividência reveladora: era apenas um menino à beira do rio... Até mais ver.

 

Murilo Mendes: É necessário conhecer seu próprio abismo. E polir sempre o candelabro que o esclarece... Só não existe o que não pode ser imaginado... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Mônica Martelli: Precisamos nos olhar com mais generosidade... É muito cruel ter que decidir tudo aos 20 anos: o que fazer da vida, a profissão e com quem casar. Ninguém tem maturidade para isso... Veja mais aqui & aqui.

Alexandria Villaseñor: No futuro, a escola não terá mais importância, porque estaremos muito ocupados fugindo do próximo incêndio florestal ou furacão... Sempre que vejo um negacionista climático ou um troll, considero um bom sinal. Isso só mostra o quanto eles se sentem ameaçados... Veja mais aqui.

 

A MARGEM DO SILÊNCIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Resmungou novamente a onda cansada da viagem, \ encantada com a \ margem do silêncio. As reminiscências da \ escravidão eram os amargos mistérios de seu \ isolamento. Finalmente, em liberdade, pretendia \ não gostar de nada além das melodias tristes. Dirigiu \ -se ao solo sedento com seu clamor: \ "Ó! solo, minhas melodias para ti se tornaram \ as colisões da esperança, minhas gotas para ti \ as testemunhas da vida, eu só peço que \ penses como eu, tu te tornaste a parte silenciosa \ do meu zênite." \ A nobre costa respondeu assim: \ "Ó! onda, orgulho da minha estatura, espectadora \ do meu cativeiro, firmeza do meu corpo, \ teu seio é o meu céu, honra da \ mãe mar, heroína das águas! Os anos \ este silêncio aninharam-se em meu coração. A \ opressão da marca do sol, \ familiar da minha ferida, o céu \ já não é um amigo compassivo para mim, \ a história das estrelas não está na minha boca, \ o cativeiro da terra tornou-se a minha \ narrativa amarga."

Poema da escritora iraniana Taraneh Javanbakht.

  

MUDANÇA – [...] Eu escapei desse destino e trabalhei em uma padaria, como zelador, livreiro, garçom, recepcionista, secretário, professor particular, profissional do sexo, monitor em um acampamento de verão e cobaia para experimentos médicos. Milagrosamente, frequentei uma das universidades mais prestigiosas da Europa e me formei em filosofia e sociologia, enquanto ninguém mais na minha família havia estudado. Li Platão, Kant, Derrida, Simone de Beauvoir. Depois de crescer entre as classes mais pobres do norte da França, conheci a classe média provinciana, sua amargura, e, mais tarde, o mundo intelectual parisiense, as classes altas francesas e internacionais. Convivi com algumas das pessoas mais ricas do mundo. Eu fiz amor com homens que tinham obras de Picasso, Monet e Soulages em suas salas de estar, que viajavam apenas em jatos particulares e passavam todo o tempo em hotéis onde uma única noite custava o que toda a minha família ganhava em um ano quando eu era criança, para uma família de sete pessoas. [...] Eu escapei da morte por um triz, eu a experimentei, senti sua realidade, perdi o o uso do meu corpo por versa. Mais do que qualquer outra coisa, eu queria escapar da minha infância, dos céus cinzentos do departamento de Nord. de Nord e da vida fadada ao fracasso dos meus amigos de infância, a quem a sociedade havia privado de tudo, cuja única perspectiva de felicidade eram as duas noites por semana que passavam no ponto de ônibus da vila, bebendo cerveja e pastis em copos de plástico para esquecer, para esquecer a realidade. Eu sonhava em ser reconhecida na rua, sonhava em ser invisível, sonhava em desaparecer, sonhava em acordar uma manhã como uma menina, sonhava em ser rica, sonhava em recomeçar do zero. [...] Não sei se é assim para todos, mas para mim, quando o processo de transformação começou, foi mais do que um esforço consciente; tornou-se uma obsessão permanente. [...]. Trechos extraídos do livro Change (‎ Farrar, Straus and Giroux. 2024), do escritor e tradutor francês Édouard Louis (Eddy Bellegueule), que na obra A Woman’s Battles and Transformations (Harvill Secker, 2022), expressou que: […] Comecei este livro querendo contar a história de uma mulher, mas percebi que a sua é a história de um ser humano que lutou pelo direito de existir como mulher, em oposição à inexistência que lhe foi imposta pela sua vida e pela vida com meu pai. [...] Eu já estava tão acostumado a vê-la infeliz em casa que a alegria em seu rosto me parecia escandalosa, um engano, uma mentira que precisava ser exposta o mais rápido possível. [...]. Também no seu livro Qui a tué mon père (Seuil, 2018), ele expressou que: [...] Para a classe dominante, em geral, a política é uma questão de estética: uma forma de se verem, de verem o mundo, de construírem uma personalidade. Para nós, era uma questão de vida ou morte. [...] Entre aqueles que têm tudo, nunca vi uma família ir à praia só para comemorar uma decisão política, porque para eles a política quase nada muda. Foi algo que percebi quando fui morar em Paris, longe de você: a classe dominante pode reclamar de um governo de esquerda, pode reclamar de um governo de direita, mas nenhum governo jamais lhes causa problemas digestivos, nenhum governo jamais lhes causa sofrimento, nenhum governo jamais os inspira a ir à praia. A política nunca muda suas vidas, pelo menos não muito. O que é estranho também é que são eles que se envolvem na política, embora ela quase não tenha efeito algum em suas vidas. Para a classe dominante, em geral, a política é uma questão de estética: uma forma de se verem, de verem o mundo, de construírem uma personalidade. Para nós, era uma questão de vida ou morte. [...]. Já no seu livro Histoire de la violence (Points, 2016), ele assinala que: […] As coisas de que nos lembramos com mais clareza são sempre aquelas que nos causam vergonha. [...] Tenho tentado construir uma memória que me permita desfazer o passado, que o amplifique e o destrua, para que quanto mais eu me lembre e mais me perca nas imagens que restam, menos elas tenham a ver comigo. [...] As pessoas sempre acham que suas próprias vidas são fascinantes, e sim, elas sabem que todo mundo pensa igual, mas mesmo assim dizem a si mesmas que todos os outros estão errados e elas estão certas. [...]. Noutro de seus livros, The End of Eddy (Farrar, Straus and Giroux, 2017), ele expressa que: […] Existe uma vontade, um esforço desesperado, contínuo e constantemente renovado para colocar algumas pessoas num nível inferior ao seu, para não as colocar no degrau mais baixo da hierarquia social. [...] Talvez o que ela quisesse dizer era que, obviamente, ela não era uma dama, porque não havia como ela ser. Ser comum, como se o orgulho não fosse a primeira manifestação da vergonha. [...] Ela não entendia que sua trajetória, o que ela chamava de seus erros, se encaixava perfeitamente em um conjunto de mecanismos lógicos praticamente preestabelecidos e inegociáveis. Ela não percebia que sua família, seus pais, seus irmãos e irmãs, até mesmo seus filhos, praticamente todos na aldeia, tinham tido os mesmos problemas, e o que ela chamava de erros eram, na verdade, nada mais nada menos do que a perfeita concretização do curso normal das coisas. [...].

 

BRASIL:UMA BIOGRAFIA - [...] Evidentemente deslumbrado, o relato de Caminha inaugurava, também, outro mito recorrente. O da natureza pacífica, de uma conquista sem violência, uma comunhão que unificou a todos, num mesmo coração e religião. Estranho processo que definiria o Brasil como um país da ausência de conflito, como se os trópicos — por algum milagre ou dádiva — tivessem o poder de aliviar tensões e inibir guerras. Na Europa as lutas dividiam e sangravam nações; já no Novo Mundo, se guerras existiam, elas eram, segundo os relatos europeus, só internas. O encontro havia de ser sem igual e entre iguais, por mais que o tempo mostrasse o oposto: genocídio de um lado, conquista de outro. A essas alturas, os portugueses já iam se julgando donos e senhores dos destinos da nova terra, de seus limites e nomes. No entanto, a descoberta não alterou de imediato a rotina e os interesses dos lusitanos, que então só tinham olhos para o Oriente. Por isso, durante certo tempo, a vasta área ficou reservada para o futuro. Mas a concorrência internacional, ameaças estrangeiras e os questionamentos acerca do bilateral Tratado de Tordesilhas não permitiriam que a calmaria ali fosse eterna. Espanhóis já estavam na costa nordeste da América do Sul, e ingleses e franceses, contestando a divisão luso-espanhola do globo, logo invadiriam diferentes pontos do litoral. Francisco i da França, ao questionar o famoso acordo, deixou frase lapidar: “Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que dividiu o mundo entre Portugal e Espanha e me excluiu da partilha”. [...] A ilha do “Brazil” dos irlandeses é originalmente uma ilha fantasmagórica que sofre um deslocamento e reaparece no século xv próxima aos Açores e ao mito da ilha dos Bem-Aventurados de São Brandão. A perfeição do lugar descrito por Caminha aproxima-se da utopia da ilha do “Brazil”. Essa explicação daria conta, também, do nome “Obrasil”, encontrado em vários mapas do início do xvi. A inspiração irlandesa era religiosa e de tradição paradisíaca, e perseguiria com teimosia os cartógrafos do período. Apareceria pela primeira vez em 1330 designando uma ilha misteriosa, e ainda em 1353 estaria presente numa carta inglesa. De toda forma, existia na época do “achamento” mais essa clara associação, entre indígenas — de vida longa e edênica — e outras terras misteriosas. E o mistério se manteria intocado por muito tempo, assim como a ambivalência que deixava irresolvida a disputa entre o pau vermelho (em brasa) e o lenho de Cristo. O melhor mesmo era acender uma vela para Deus e soprar outra para o Diabo. [...] Nenhuma forma de escravidão é melhor ou pior do que outra. Todos os tipos de escravidão têm algo em comum: geram sadismo, a naturalização da violência e a perversão da sociedade. [...] O tempo inflexível, o tempo que, como o moço é irmão da Morte, vai matando aspirações, tirando perempções, trazendo desalento, e só nos deixa na alma essa saudade do passado, às vezes composto de fúteis acontecimentos, mas que é bom sempre relembrar. [...] Padre António Vieira – orador e filósofo português da Companhia de Jesus, e grande defensor dos “direitos dos índios”101 – tentou, em um de seus famosos sermões, descrever os nativos que conhecera no Brasil. Após lamentar o modesto sucesso da missão evangelizadora, comparou a diferença entre europeus e índios à diferença entre mármore e um arbusto de murta. Os europeus, disse ele, eram como o mármore: difíceis de esculpir, mas, uma vez concluída a estátua, permaneciam intactos para sempre. Os ameríndios, por outro lado, eram o oposto. Eram como um arbusto de murta: à primeira vista fáceis de esculpir, apenas para depois retornarem à sua forma original. [...]. Trechos extraídos da obra Brasil: uma biografia (Companhia das Letras, 2015), da historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz e da historiadora, professora, escritora e pesquisadora Heloisa Starling, na qual abordam temas como O Brasil fica bem perto daqui, Primeiro veio o nome, depois uma terra chamada Brasil, Tão doce como amarga: a civilização do açúcar, Toma lá dá cá: o sistema escravocrata e a naturalização da violência, É ouro!, Revoltas, conjurações, motins e sedições no paraíso dos trópicos, Homens à vista: uma corte ao mar, D. João e seu reino americano, Quem foi para Portugal perdeu o lugar: vai o pai, fica o filho, Habemus independência: instabilidade combina com Primeiro Reinado, Regências ou o som do silêncio, Segundo Reinado: enfim uma nação nos trópicos, Ela vai cair: o fim da monarquia no Brasil, A Primeira República e o povo nas ruas, Samba, malandragem e muito autoritarismo na gênese do Brasil moderno, Yes, nós temos democracia, Os anos 1950-1960: a bossa, a democracia e o país subdesenvolvido, No fio da navalha: ditadura, oposição e resistência, No caminho da democracia: a transição para o poder civil e as ambiguidades e heranças da ditadura militar e História não é conta de somar. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE SEVERINO ARAÚJO DE OLIVEIRA

A arte do músico clarinetista, compositor e maestro Severino Araújo de Oliveira (1917-2012), regente da legendária Orquestra Tabajara e um dos pioneiros da fusão de elementos do jazz e do choro na música brasileira. É autor de inúmeros sucessos, entre eles Espinha de Bacalhau (1937), Gafanhoto Manco (1937), Um Chorinho Modulante (1937), Mumbaba (1943), Um Chorinho Delicioso (1947), Um Chorinho pra Você (1947), Simplesmente (1948), Mirando-te (1950), Além do Horizonte (1952), Pensando em Você (1953), Um Chorinho em Montevidéu (1955) e Nivaldo no Choro (1956), entre tantos outros. Veja mais aqui.

 

Darel Valença Lins aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Débora Ferraz aqui.

Urariano Mota aqui, aqui & aqui.

Ágnes Souza aqui.

Pernambuco do Pandeiro (Inácio Pinheiro Sobrinho - 1924-2011) aqui.

Laís de Assis aqui.

José Teles aquí & aquí.

Thalyta Monteiro aqui.

Nelson Barbalho aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque aqui.

 



domingo, julho 11, 2021

SEI SHÔNAGON, TAMARA KAMENSZAIN, NINA MORAES & ARMANDO LÔBO

 

 

TRÍPTICO DQP –- Mais um dia... – Ao som da música Atrás das máscaras, do álbum Técnicas modernas do êxtase (Delira, 2011), no filme-ópera Último dia (2021), de Armando Lôbo, com Natália Duarte, Virginia Cavalcanti, Surama Ramos, Walmir Chagas e Marcelo Sena (Veja mais abaixo) – Acordei com o movimento do travesseiro e os sons da manhã. Procurei tomar pé da situação e qual não foi a minha surpresa: era O livro do travesseiro (34, 2013). Como assim? Isso mesmo. Estava inscrito na capa: Sei Shônagon - aquela mesma do The Pillow Book de Greenaway. Investiguei, desconfiado, como podia tal transformação. Ultimamente tem me ocorrido cada uma. Pois é, ajeitei-me na cama e comecei a ler. A cada página uma surpresa: ali estava tudo o que vivi e sou - devaneios, quedas, sucessões de idas e vindas. Atento a cada parágrafo, frase por períodos e, pelo volume, vi que era um tanto a vencer. Persegui e era como se estivesse procurando o começo ou o fim de O Livro de Areia de Borges e relesse mais curioso que antes: ... porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim... Se o espaço for infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo for infinito, estamos em qualquer ponto do tempo... Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta... Refleti. E depois surgiu um trecho de outro conto dele, O espelho e a máscara: ... A guerra é o belo tecido dos homens e a água da espada é o sangue. O mar tem seu deus e as nuvens predizem o futuro... E se misturava com trechos do Evangelho apócrifo da infâmia. O que é isso? Outros labirintos ou será que estou enlouquecendo, o que está acontecendo? Mais desconfiado que antes, esfreguei os olhos e lá estava inscrito o que me tocou profundamente: Quanto a pássaros, embora pertença a terras estrangeiras, é muito enternecedora a cacatua. Dizem que ela imita tudo o que falam as pessoas. O cuco-pequeno. A galinha d’água. A narceja. A gaivota, pássaro-da-capital. O pintassilgo-verde. A papa-moscas... Ah, sim, agora era ela como se me descobrisse um xexéu incorrigível. Cabreiro, além da conta, compreendi o que ela quis dizer: uma sensação inenarrável de quem não estava só ali. E não estava mesmo, logo a sua presença preencheu meu quarto e era ela mesma a me dizer: Um homem que não tem nada em particular para recomendá-lo discute todos os tipos de assuntos ao acaso, como se soubesse de tudo. Na vida, existem duas coisas confiáveis. Os prazeres da carne e os prazeres da literatura... Sim isso eu já tinha lido no outro livro dela. E o que está havendo? Ela sorriu, beijou-me as faces e saiu como nunca mais. E me fez pensar na vida. Era só mais um dia. Sim, mais um dia, agora é só viver.

 


A vida imita a arte... - Imagem da artista visual & grafiteira Nina Moraes – A leitura do livro me trouxe outras cenas fora das suas páginas e ao meu redor aconteceram coisas estranhas. Tudo parecia muito real naquela hora e dali eu presenciava um fato ocorrido e tão lamentável como aquela triste situação em que foi detratado o tenente Gustl do Arthur Schnitzler: Deus do céu, tanto faz se outro sabe ou não!... eu sei, e isto é o que importa! Sinto que sou outro, já não sou o que fui há uma hora. – Sei que estou desqualificado e por isso devo estourar os miolos... Que vexame! E me sentia como se eu fosse ele diante daquilo tudo e não conseguia concatenar direito. Não sabia onde por os pés, as mãos, nem para onde ir. Da mesma forma aquela outra deplorável circunstância em que me vi na pele do Marlow da Juventude de Conrad a perorar: Lembro da minha juventude e de um sentimento que nunca mais haverá de voltar – o sentimento que eu poderia durar para sempre, mais do que o mar, do que a terra, do que todos os homens; o ilusório sentimento que nos atrai para alegrias, para perigos, para o amor, para o vão esforço – para a morte... O sentimento da desolação me trazia aqueles versos da Tamara Kamenszain: Quem por palavra fala de seus sonhos / quando a vigília os está vigiando ou / quando na tela do lençol se grafa / o que com esses sonhos vai envolto? Tudo me ocorria ao mesmo tempo, como se em mim outras pessoas trafegassem e ora eu me via na misériade Abel ou nos relampejos da borboleta Dinalva. Tudo me dava conta de que viver é muito difícil. Ou melhor, como repetia Guimarães Rosa: Viver é muito perigoso. Para mim nunca foi possível viver alheio ao horror, como se arrancasse os olhos, perdesse a audição, nenhum tato, paladar ou olfato, vivesse ao vento como se caísse no poço para nadar pelas águas, entre ondas e abismos oceânicos, alcançando grandes alturas atmosféricas, percorrendo distâncias de tudo isso. Não, não é possível, a tentação das contradições do mundo e as minhas instâncias se engalfinhavam, eu sabia, a vida é luta...

 


O último dia... – Não sei onde fui parar, sei que ouvi uma estrofe de Antero de Quental que eu esquecera com o tempo e tudo mudava claroscuramente para que eu visse uma porta e, atrás dela, um palco. Ao atravessá-la, cochichos nas coxias, agucei as ouças: Que nada, meu! Do pescoço pra baixo tudo é canela, deu-se as costas às punhaladas. Quem o otário para levar vantagem, o sabido pronto para a rasteira e a cama-de-gato! Não entendia direito a que se referiam e muito menos me dei conta da morte a rondar dançante com seus tamancos enormes. Êpa! Mais adiante mulheres solfejavam e eu não conseguia atinar. Uma voz irrompeu, era de um morto. O que ele disse era de si e de seus infortúnios. Ao silenciar, percebi os resmungos de uma mulher: o brasileiro só é solidário... Quem? Logo deu pra perceber que não era apenas uma mulher, mais. Sim, mais de uma, porque a morte passou por perto, acompanhei seus passos até um trio cantatriz que carpia - terços, novenas, lamúrias, o que Freud viu na festa dos sacrifícios. O defunto então se mexeu, eu vi, ninguém mais, acho. Depois se levantou e depôs: Todo mundo é bom, apesar do lulixo! Todos ouviram e se entreolharam questionadores. Nem eu, nem ninguém, quem explicasse. Logo a saudação dos que ali estavam era um misto de espanto e asco, razão pela qual comemoraram hesitantes: Ele está vivo, viva! Vivôoooo! Afetos e antipatias se deram, era o último dia e a paráfrase nelsonrodrigueana: o brasileiro só é solidário na desgraça! Tanto já era carnaval desde não sei quando. Assim, todo dia passa, evoé. Até mais ver.

 

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domingo, junho 27, 2021

EDWIN ROBINSON, JUAN SAUER, MARIA VELHO, HARRY PARTCH, ROB GONSALVES & SOM DA MADEIRA

 

 

TRÍPTICO DQP –- O espelho no travesseiro... - Ao som de Castor & Pollux - A Dance for the Twin Rhythms of Gemini (1952), do compositor estadunidense Harry Partch (1901-1974), na performance do Prism Quartet (2016) - Despertei, acho; ou não, sonhando, talvez. A cena, um libelo a céu aberto e eu não entendia o motivo para tanto, as causas desconhecidas, as ações injustificadas. O que é isso? Ali diante de mim militares truculentos desabrigavam desvalidos. Havia um rumor unânime: a pobreza é suspeita, dela sai latrocidas e outros facínoras. Será? Talvez não, alguém asseverou que era a secular proteção ao patrimônio criminoso dos suntuosíssimos privilégios dos deuses do mundo de hoje. Também acho. Sim ou não, no meio do pandemônio emergiu Bertha von Suttner: A organização militar da nossa sociedade foi fundada sob a negação da possibilidade de paz, desprezando o valor da vida humana e aceitando o desejo de matar. E passou a gritar: Abaixem suas armas: falem para todos, para todos! A guerra é a negação da evolução em todas as direções… Uma imensa ofensa cometida pelo homem de hoje contra o homem de amanhã! Apareceu quem a puxasse livrando-a de uma coronhada, de raspão. Afastei-me para não atingido. A tudo via: resmungos, estapeamentos, arrastados e ordens, uma desordem. Logo, ao lado, apareceu Voltairine de Cleyre engrossando as demandas gritantes: Deuses do Mundo! Suas bocas são idiotas! Suas armas falaram e são pó. Queimem as palavras vivas dos mortos escritas em vermelho. Escrito em vermelho, seu protesto está para os Deuses do Mundo verem! A classe trabalhadora tem de aprender, que seu poder não está necessariamente na força do voto! Empurrões e gestos obscenos, armas em riste. Era tudo muito confuso e eu sabia ali o espelho e o travesseiro: o que de mim diante da crueldade daqueles que pisam seus semelhantes, abrindo caminho às cotoveladas, tudo miseravelmente sujo pelas privações calamitosas, a cidade cheia de conjurações secretas e corrupção ubíqua desvelada fabulosamente, a desintegração da comunidade e a população derrotada pelos desmandos, esmagada entre belicosos, este o porvir. Sei mais nada. Foi Ambrose Bierce quem me alertou: A política é a condução dos negócios públicos para proveito dos particulares. Trouxe-me para um canto e confidenciou: Prudente: um homem que acredita em dez por cento daquilo que ouve, num terço daquilo que lê e em metade daquilo que vê. Assenti como se entendesse e nem ouvia direito a cena atroz, cotidiano para o noticiário. E cá comigo: quantos eus, quantas vidas.

 


Dois mundos aterram-me... - Imagem: arte do artista canadense Rob Gonsalves (1959-2017) – O que de real parece sonho, confundo datas e momentos. A vida é quase a mesma desde que nasci: loucura minha na confusão de outrora e agora - o mundo e seus imperativos ásperos. Restava-me ao menos só e, ao que parece, quase feliz, talvez. Inventei o diário nas minhas horas intermitentes: garranchos rascunhados, nem sei para o que servia. Foi a escritora portuguesa Maria Velho da Costa (1938-2020) quem me deu o mote: Sabe, durante muitos anos mantive um diário. Não que o tenha estudado ou pensado muito, mas uma coisa de que estou convencida é que ao registar por escrito os dias, é como se a memória se desobrigasse. Ouvi e a ela disse da intuição, simples associação livre e isso enquanto eu me via na pele do poeta estadunidense Edwin Arlington Robinson (1869-1935): O mundo não é uma prisão; é um jardim espiritual de crianças, onde milhões de pequenos desnorteados procuram formar a palavra “Deus” com letras erradas. E eu claudicava entre étimos, enquanto elucubrava no meio de solecismos. Estava deveras perdido. Nessa hora o escritor Juan José Sauer (1937-2005) me socorreu: O momento presente não tem outro fundamento a não ser seu parentesco com o passado. E eu não sabia como lidar com tudo isso, havia de fugir na invisibilidade.

 


O defunto LAM... - Imagem: arte da pintora e escritora estadunidense Bunny Pearlman & ao som de Paradoxo, do álbum De ponta cabeça (2015), de Renato Bandeira & Som da Madeira - Ah, seguinte: morri há uns cinco anos, por aí; na verdade, quase seis: um golpe no meu país varou meu coração. Só anteontem me dei conta: não era invisível coisa nenhuma. Era a certidão: bati as botas, de mesmo. Tá. Ainda bem que não tenho mausoléu, nem túmulo algum, muito menos necrológio ou epitáfio: como dissolvi no éter, não sobraram nem cinzas, graças – menos trabalho pros familiares. Como tudo se parecia como se eu estivesse nas páginas do Agá de Hermilo, fiz tal H. G. Wells e lavrei meu auto-obituário ou faz de conta, já tinha ido pro saco mesmo, ora. Era coisa tipo as memórias de Brás do Machado, só que sem valia alguma. Pudera, do que fiz durante a existência, na prova dos nove, dava nada. Além do mais, eu passava e ninguém me via – razão pela qual me achava invisível. Entretanto, mesmo assim, saudava a todos: Bom dia para os defuntos de Scorza. E, com o Literatura: primeiro território livre da América (Mariátegui, 2006), foi ele mesmo quem me disse: As estruturas de poder repousam na infraestrutura da palavra e, ao revés, somente a palavra pode corroer a estrutura de poder. Nenhuma mudança, nenhuma revolução é possível sem imaginações redutíveis às palavras. Para conquistar o paraíso requer imaginá-lo. Ah, do que imaginei, tudo se apagou. E fiquei mudo – logo eu que tinha a língua pelo cotovelo -, tímido, lacônico, esquivo. Relegado ao esquecimento, fugia das palavras hostis, mergulhado em nenhuma contrição de meus fracassos transpassados por sonhos triunfantes. E se parecia tudo muito penoso, não era: quem eu via parecia mais morto que eu. Como durante toda a vida me valia das encontradiças ninfas e bacantes, era o que havia de bom ou sobrava por troco, enquanto gozava da reputação de anarquista por dias sombrios, degenerado pelos detratores. Passou. O que tirei de mim foi a verificação de, mesmo tendo andado mundo afora, jamais transpus os muros do jardim. E foi justamente por isso que voltei à terra natal: um insuportável regresso, qual convalescente. E se fui recusado pelas minhas ilusões mais vãs, não podia mais dormir nem trabalhar, aterrorizado pelo passado que sequer lembrava e temendo o futuro que jamais verei. Coisa de doido. Apesar de tudo, mantenho minha férrea força de vontade diante das adversidades, afinal, como já estiquei as canelas faz tempo, ainda me rio de tudo isso. Até mais ver.

 

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sexta-feira, junho 25, 2021

JULIA KRISTEVA, SHAN SA, JANE SMILEY & EZTER LIU

 

 

TRÍPTICO DQP –- Era manhã e anoitecia... Imagem: arte da artista etíope Julie Mehretu & ao som de show do violonista francês Nicolas Krassik & Cordestinos - Era quem o menino senão eu diante do espelho pela primeira vez: uma esperança voava e pousou em meu peito, a alegria da infância de todas as manhãs. E eu crescia a sorrir. Com o passar dos anos, fizeram dela um gafanhoto predador e tornou o dia na noite do horror eterno, um minuto feito de século de nunca acabar. Nestes últimos de dor, tirei as sandálias e pisei o chão do quintal para a rua, abri o portão e ganhei o mundo peito aberto. Na carreira ouvi a estadunidense escritora, Jane Smiley, a me dizer: Uma criança protegida de todas as idéias controversas é tão vulnerável quanto uma criança protegida de todos os germes. A infecção, quando vier - e virá - pode sobrecarregar o sistema, seja o sistema imunológico ou o sistema de crenças. Se nada entendia, ela insistia na primavera: Todo primeiro rascunho é perfeito, porque tudo o que um primeiro rascunho precisa fazer é existir. E adolescia como o pé de planta que se tornava árvore pronta para frutos brotar. E se seguia errava e nada era melhor que aprender aos escorregões, porque ela insistia: Como a maioria dos educados, nutro uma predileção pelos pecados do meu passado ignorante. Pleno homem feito com o menino no coração, eu sonhava olhos abertos e mais me veria em pleno verão. Só agora sabia o que era a infecção e o que outra vez ela disse: Um romancista tem duas vidas - uma vida de leitura e escrita e uma vida vivida. Ele ou ela não pode ser entendido de forma alguma fora disso. E o que eu lia e vivia das tantas vidas com ela ao outono, previa o inverno de nada escapar: escombros no quintal e toda redondeza. Hoje a esperança voou e piso os destroços do meu país.

 


Duas noites a mais na escuridão... - Imagem: arte do artista estadunidense Robert Rauschenberg. - Era a tragédia instalada, sim, antevia e a meninice pulava do travesseiro como se ainda houvesse carnaval, festejos juninos e carrosséis de natal. Não mais. Outro o cenário devastado. Procurei do outro e tentei ajudá-lo; indiferente, não me reconhecia – era como se eu fosse estampado algoz. Ao falar não me ouviu ou fez que não. Em mim o eco de Julia Kristeva: Só conhecemos o outro quando o amamos. O amor é o apogeu da subjetividade. Só somos pessoas quando enfrentamos o outro, nunca isolados. O que nos torna pessoas é o vínculo com o outro, a relação de amor. Disso sabia meu coração, careca de saber; o outro que não e eu não era ninguém: um fantoche entre tantos outros e não me deixavam com eles. E me negava excluído, não podia ser, mesmo que aquela escritora chinesa, Shan Sa repetisse aos borbotões: A felicidade é algo que você sitia, é uma batalha como um jogo de bola. Vou segurar toda a dor e apagá-la. A vida tem sua vingança da vida. A morte prematura é o segredo da juventude eterna. E as vi como se fossem Filhas da Dor de um tempo sombrio tão escuro delas e tantas outras torturadas, desfalecidas, esquartejadas dos pedaços em minhas mãos e insepultas na memória de décadas. Só que eu não queria saber da morte porque a criança pulava em meu peito, mesmo que os meus e todos os demais me considerassem tão apenas uma paisagem desbotada.

 


Estava vivo, as fogueiras no coração... - Atravessei quantas noites e a solidão, a minha fogueira no meio de tantas outras e só me diziam de dor e sofrimento. Ficou tão difícil respirar, precisava seguir para viver. Logo, coisa boa: alguém se aproximou e me alegrei repentinamente - como era bom o prazer da companhia. E era Ezter Liu trazendo Breves fogueiras: Tem as que nascem azuis. As que morrem cinzas. Tem as que morrem cedo e as que nascem antes. As que derretem lâminas. E as que mal aquecem. Depois de um certo tempo, toda fogueira entardece. Até as mais intensas com percussão de estalos. As cavadas no terreiro e as pousadas na pedra. As do meio da mata. As da encosta gelada. E ao redor: a roda. E ao redor: bandeiras. Acalentando os frios e defumando as fomes. Quentes. Ardidas. Ligeiras. Aqui dançamos em torno de algumas breves fogueiras. E foi outra a hora porque instalou o aroma da brisa possível, eu vivia e como, ela trouxe o que estava perdido. Como era bom vê-la de perto, sorria eu de graça e a desconhecer o cenário de agora, como se por um momento tudo fosse diferente e pudesse ser feliz ali, ao seu lado. Isso me fez novamente a criança que nunca soprou nem deixou apagar a vela de quem quer que seja das fogueirinhas andantes de Galeano, porque eu queria brincar aos pulos e mãos nas mãos e pés por aí até nunca chegar e a desconhecer do escárnio e das trevas escondidas lá no fundo de cada gente esquecida de viver. Como era bom, eu podia sorrir e estar ao lado dela. Até mais ver.

 

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quinta-feira, junho 24, 2021

YVES BONNEFOY, ZELDA MISHKOVSKY, KAFŪ NAGAI, PLÍNIO MARCOS & CARLOS VASCONCELOS


  

TRÍPTICO DQP –- Tantos sangram na indiferença... - Ao som do concerto Espelho no espelho (2021), da Orquestra do Theatro São Pedro - No travesseiro o meu país é Stultifera Navis no desgovernado Fecamepa Coisonário, onde será que vai parar, ninguém sabe, já estamos no fundo do precipício. De lá ouço Mary McCarthy: Na violência, esquecemos quem somos. Na ciência, todos os fatos, por mais triviais ou banais que sejam, gozam de igualdade democrática. Isto meu país ignora, meu povo olvida. De repente, assim do nada, me aparece aquele filósofo austríaco suicida, o Otto Weininger (1880-1903), a me censurar pelo culto recorrente às mulheres, jogando-me na cara o seu polêmico Geschlecht und Charakter – Eine prinzipiellen Untersuchung (Severus, 2014): Nenhum homem que pense profundamente sobre as mulheres mantém uma opinião elevada sobre elas. Ou os homens desprezam as mulheres ou nunca pensaram seriamente a respeito delas. Hem? Ela se afasta, contorna a minha cama e fica um pouco distante, de um lado da porta do quarto. Fita-me com severidade e divido olhar entre ambos. Penso comigo: ora, como um próspero jovem judeu, no auge dos seus 23 anos, recebe seu doutoramento, torna-se cristão e publica um estudo científico-filosófico, em que distingue entre todas as coisas vivas a combinação de proporções variáveis de elementos masculinos e femininos, com denúncias que o levam a se matar, como é que pode? Ele mantém o olhar sisudo sobre mim. Neste mesmo instante vejo Wittgenstein atravessar a entrada da sala e, cabisbaixo, encosta-se à parede. Com meu olhar indago o que está havendo e ele dá de ombros: Com meu escrito não pretendo poupar aos outros o pensar. Porém, se for possível, incitar alguém aos seus próprios pensamentos. Olho para um e outro, ela está inquieta e mais quando sou surpreendido com a aproximação do dramaturgo e escritor japonês Kafū Nagai (1879-1959) que me entrega autografado o seu Histórias da Outra Margem (Estação Liberdade, 2013), a me dizer: Eu não tinha mais aonde ir. As pessoas que eu queria rever estavam todas mortas. Ele tomou pé da situação, saudou a todos com um gesto na cabeça e ancorou nela o seu olhar. Entreolhamo-nos uns aos outros e éramos então todos lídimos solitários, dividindo cada qual e ao mesmo tempo, a solidão.

 


A noite escura no espelho... - Imagens do fotógrafo Carlos Vasconcelos - Não sei quem era ao espelho, apenas seu olhar firme em mim e não era eu, isto eu sabia. Ficamos assim por um bom bocado de tempo, interrompidos pela chegada da poeta israelense Zelda Schneurson Mishkovsky (1914-1984): Eu pensei que era uma alma livre como um homem morto... E abraçou-me desamparada, deitando sua cabeça ao meu ombro. Nada mais disse e assim ficamos a desconhecer tudo ao redor. Até que se assustou com a chegada de alguém. Imediatamente, afastou-se como se me perguntasse quem era com um gesto aturdido e mãos espalmadas. Sei lá. Seguiu até a porta e cruzou olhar com a poeta Marceline Desbordes-Valmore, que a viu com ar desconfiado, mas ao me ver, apressou os passos e me abraçou apaixonadamente com um verso de sua lavra: Esta noite minhas roupas ainda estão perfumadas ... Venha e inspire em mim sua fragrância chamada. E me puxou com um beijo na escuridão.

 


Ela & Homens de papel - Ao abrir os olhos, despertando do profundo beijo, ela era outra, a Maria-Vai: Nós, todas as noites, enchemos a cara de cachaça. É o jeito. A vida é uma merda mesmo. Só com cachaça a gente escora... Era como se dividíssemos a cena de Dois perdidos numa noite suja, mas não era e ela retomava o seu texto: Ninguém está com a ganância pega. Nós sabe das coisas. Com trabalho ninguém se ajeita nessa merda de vida. Pra que dar duro? Pro Berrão ficar mais rico? Aqui, ó! Na verdade estávamos realmente perdidos e me beijou avidamente, enquanto se desnudava. Aí me largou, afastou-se desabotoando o sutiã para deixar seus seios rijos à mostra, acendeu o Abajur Lilás e a cobiça no meu sexo, enquanto me falava da Navalha na Carne que era a sua vida e me perguntou se eu soube a respeito do Assassinato do anão do caralho grande. Que coisa! E com um puxão me deitou sobre o seu corpo para que amássemos a noite madrugada afora, sem culpa nem fim. Deu-me a sua carne suculenta e misturamos nossas peles, lábios e sexos. Ao despertarmos fomos surpreendidos com a presença do Plínio Marcos, o repórter de um tempo mau, a nos dizer: Se eu não for sincero, estou para sempre perdido. O que foi? E ele debulhou Os dez mandamentos! Ele sabia que eu sabia há muitos anos atrás, quando eu pesquisava sobre o Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP) e as peças teatrais de Hermilo Borba Filho, e o vi bem próximo do absurdo e da miséria. Foi na mesma época que o poeta francês Yves Bonnefoy (1923-2016) me disse em um verso de crepúsculo estival: Tudo isso eu vi acontecer quando minha alma explodiu em mistério e inspiração. Era tudo como se fosse num redemoinho de eventos e eu quase esqueci que esperava Pinheiros no Largo da Paz. Até mais ver.

 

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terça-feira, junho 22, 2021

ANNE MORROW LINDBERGH, NORBERT ELIAS, EMMANUELLE SEIGNER, ZÉ DO CARMO, CÂMARA DE ESPELHOS & CATENDE

 

 

TRÍPTICO DQP –- Uma vez mais vou danado de novo pra Catende... - Ao som de Vou danado pra Catende, no álbum Molhado de suor (Som Livre, 1974), de Alceu Valença - Ao travesseiro, bastou-me deitar a cabeça e lá estava eu nas paradisíacas paragens da Serra da Prata, aquela mesma que me deu a ideia do Bacuna pra me levar de novo danado pra Catende, nos versos de Ascenso pelo açude de Santa Rita, até a bica de Monte Alegre. De lá passar pelo casarão de Curupaiti no Roçadinho, depois a casa grande Tabaiaré, chegar nas águas dos rios Panelas ou Pirangi, timbungar o dia todo e comer uma pituzada na festa de Santana pra poder participar do concurso de Batida, Licores e Doces, ao som da pipocada estrondosa dos bacamarteiros de Miguel do Pirajá, lá na frente do Tiro de Guerra. Não era pouco, se eu caia solto, lá vinha o bumba-meu-boi do Matadouro, enquanto ouvia dos alto-falantes da Voz de Catende a sessão que ia passar no cinema Diamante. Enquanto isso, eu me maravilhava com as talhas de Zé Fernandes, a arte de Nelson José e Gabriel, a pintura de Jether Peixoto, Socó, Adgerton e José Adir; ao som da música de Tarcisio Accioli, Deo do Baião, Marcelo Montenegro e Zé Ripe. Era como se eu vivesse inteirinho nas páginas do romance Outro sol se levanta (Autor, 2007), do escritor Pelópidas Soares: As pessoas pelas calçadas, portas e janelas, achavam graça dos bêbados... A inveja e os delatores estão em toda a parte... E eu escapando ou saindo da estação para frevar no meio dos blocos da Filopança, Ferro e Fogo puxado pela Maria Fumaça, ou na Mulher da Sombrinha do saudoso amigo Marcos Catende, que me foi trazido à memória com os versos do poema recolhido do romance de Carlos Gaiza: Na calçada da igreja / fica ela a esperar / um homem da usina / que por lá vai passar... Eu não era da usina, mas era doido pra me travar com ela no meio dos versos de Bartyra, como quem recitasse nos braços da mulher amada dali, e despertar agoniado porque não passava de sonho e fizesse minhas as palavras do trecho de Mel de engenho, de Luiz Maia, extraído da obra Memória histórica de Catende (Autor, 2014), de Eduardo Menezes: Hoje, distante daqueles faustos e áureos anos sessenta, mais que nunca a saudade daquela cidade e de sua gente me faz morada, deixando-me uma dor no peito por saber que nada daquilo, absolutamente nada, mais existe... Pois é, eu escapulia dos sonhos para mandar ver na vida.

 


Dois pinotes diante do espelho... - Agoniado, levantei-me às pressas e nem deu tempo saber que horas seriam ou onde é que eu estava, porque era Déa Ferraz, câmara e luzes e ação, numa rua do Recife, a me perguntar a respeito das mulheres na Câmara de Espelhos. Vôte! Como é que pode, hem? Sabia lá como responder porque fui pego de surpresa. Além do mais, apareceu de repente Emmanuelle Seigner que me sorriu e disse: Tudo na vida, bom ou bom, faz você mudar e crescer - felizmente, porque se não mudasse, seríamos máquinas. Coisas muito piores acontecem às pessoas: câncer, doença, elas perdem um filho. Você pode encontrar uma força inesperada ou pode desmoronar. Eu não sou do tipo que desmorona. Nem eu que perdi meu filho e a vida me levou passarinho até agora sem saber o que fazer de tudo que vivi. Mas a estonteante lindeza dela me dava outro fôlego, aquele que jamais tivera. Estava embevecido, ela ali e mais seria, não fosse a intervenção de Anne Morrow Lindbergh: Se você se render completamente aos momentos que passam, enriquece a sua vida. Pessoas demais, requisitos demais, muito a fazer; pessoas competentes, ocupadas, apressadas - isso não é viver. Só o amor pode ser dividido infinitamente e ainda assim não diminuir. Sim, mas eu nunca caí, ou fiz que não, levei o tombo como se fosse empurrão e assim era porque o tanto era só viver. Aliás, cá comigo: quem me salva do espelho, eu não sei.

 


Três anjos cangaceiros...- Se não estava no céu, era perto: de primeira parecia bonecos de barro. Mas, não. E se eram anjos, não sei o que mais seriam. Na verdae, eram como se fossem. Foi aí que dei de cara com o Mestre Zé do Carmo (José do Carmo Souza – 1933-2019), que mangava de mim por ser mais um a ignorar os seus anjos cangaceiros. Aí ele me contou que Dom Hélder havia encomendado uma imagem do papa e ele prontamente atendeu; contudo, sua arte não foi aparovada pela autoridade eclesiástica: onde já se viu um papa com cara de cangaceiro? Caímos na gaitada, hehehehehe. Enquanto estourávamos de rir, apareceu Norbert Elias apareceu que me deu um toque esclarecedor: O crescente tabu da civilização em relação à expressão de sentimentos espontâneos e fortes trava suas línguas e mãos. E os viventes podem, de maneira semiconsciente, sentir que a morte é contagiosa e ameaçadora; afastam-se involuntariamente dos moribundos. Mas, para os íntimos que se vão, um gesto de afeição é talvez a maior ajuda, ao lado do alívio da dor física, que os que ficam podem proporcionar. Fiquei sério na hora, queria entender. Mas o quê? Ele também se ria e eu fui na dele. Afinal, de sério mesmo quero distância. Até mais ver.

 

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NÊGO BISPO, IA GENBERG, JOUMANA HADDAD & FUXICO CULTURAL

  Imagem: Acervo ArtLAM . Bródio na pareidolia do perdulário pendular... - Alagoinhanduba estava em polvorosa com os estardalhaços causad...