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sábado, julho 18, 2026

CECÍLIA MEIRELES, BERNARDO ATXAGA, SUZANA HERCULANO-HOUZEL & SANTANNA O CANTADOR

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.


 

As guinadas de chué ao nababo de findar amundiçado pastafari... - Desde nascença Jeremulino apostava tudo pra dar certo. Fazia força, fincava pé e quanto mais pelejava, menos saía do lugar. Era voluntarioso, mas pé-frio, coitado. Décadas de miséria nos costados. Tudo isso durou até o dia em que conheceu Mary, que se dizia Butterworth e tratada por Mãe do Ouro: Ih, estrangeira, é? Sei lá. Tá lavando a jega, hem? E tanto afeiçoou-se, de segurar no cós da saia dela de não mais largar, pegado. Tão atarantado, enrolou-se de paixão. Estava um tanto deslumbrado: bem vestido, altas rodas, lugares granfinos, gente nos trinques - ela tinha muita grana e amigos, parecia -, a partir de agora, também eram seus nas portas escancaradas, recepções acaloradas, abraços efusivos, nunca tinha visto nada daquilo na vida: Ora, tô enturmado, meu! Agora vai! Logo no primeiro jantar associaram-se a uma dupla de magnatas, tratados por Charles e Bernie - pelo jeito estrangeiros e inseparáveis: agora era internacional, visse! E não muito tempo depois, o casal foi acompanhado por Frank, um fino médico que também era piloto de aviação. Que chique! Compadre, meu! E almoçavam num requintado restaurante com os achegados do dia, ou jantares, chás, encontros. Doutra vez era Alfred, um que descobriu um medicamento que era uma verdadeira panaceia pra cura da AIDS, câncer, lúpus e qualquer tipo de doença. Brindaram o futuro Prêmio Nobel de Química dele. Oh! Tamos juntos! E recepcionaram um ricaço hindu, o Mithilesh, recém-chegado duma negociação no Taj Mahal. Olha o requinte! Sua vida dera um giro estratosférico de 360 graus, desde que ela apareceu, pra ele se empanzinar no sofisticado, a se empolgar com os drinques, da cabeça nas nuvens e a vida no mundo da Lua, todo apurado. Foi. Apegou-se à tal largadona, os modos enxutos dela, toda recente e esvoaçante, inaugurava felicidade jamais vista: ela fascinante nos seus olhos, cativante no coração dele. Ao lado dela se sentia maior do que nunca foi. Autoconfiança ganha, dedicando a ela mais do que nem tinha. E assim foram dias movimentados, semanas agitadas, efemérides por meses ininterruptos, quase dois anos inesquecíveis, quando, de supetão e sem causa aparente, viu-se na clausura da solidão: liso, fodido e mal pago. Que foi que houve? Perdeu a boquinha: foi despejado do paraíso. Não tinha mais guarda-roupa para as ocasiões, nem comes e bebes, ninguém mais pra chamá-lo de doutor – que nem era, mal conseguira findar o ginasial, a pulso, avalie. Estava empalado pela escassez: Vida madrasta, essa, se eu fosse de passar a perna, ainda ia, embrulhava; mas perdi o crédito, soltaram os demônios pra festa do inferno. E com uma mão na frente e outra atrás, desvalido. Reparou melhor: Por que foi mesmo? Assuntou, a extravagância da punição bissexual. Como pode? Fosse gente ou bicho, assim era. Mas isso nem ligava, duas de quinhentos que fosse, nem aí; ser corno era pouco, vá lá; o pior mesmo era sentir-se rejeitado: a tragédia foi ter nascido -, só agora se dava conta disso. Passava mal, zonzo, claudicante, à beira da loucura, roendo unha de ressentimento pela dor de cotovelo: As gaias pesam fodendo tudo na cachola! Insistia em reatar a relação com ela, mas cadê-la, pronde foi, perdeu o contato. Foi-se. Bateu de porta em portão, todas sisudamente fechadas, havia ninguém pra recebê-lo: Destá, todos se passavam por amigos e agora? Quebrou a cara, lascou; alisou, fim de tudo e, sem ela, era ninguém, invisível desconhecido. Dobrava capenga a esquina da amargura e, inadvertidamente, trombou com um estranho, desculpou-se. Já seguia se escorando na parede, quando ouviu em alto e bom som: Rapaz, é você mesmo? Levantou a vista e era Marcelo, um amigo de infância que o reconhecera na hora. Como vai? Escapando. Que é que falta? Tudo. Vambora colocar o papo em dia, diga lá o que aflige! Jeremulino acompanhou o amigo, agora já bem de vida, elegante, nem parecia o maloqueiro com quem convivera na miséria décadas atrás. Agora não, arrotava contando que a mãe enviuvou e casou-se com um ricaço que o tratava por filho, herdeiro de uma companhia aérea e outros tantos bens e posses. Está precisando do quê? Rapaz. Diga! Tô f-o-fo-d-i-di-d-o-do! Ah, reencontrar e reatar com a namorada? Piongo. Como é o nome dela? Mary Butterworth! Ela? Sim. E você numa pindaíba dessa? Ela foi pior que a Rita: levou tudo, até a minha vida. Ora, tenho um amigo detetive aí que localizará ela na hora. Mesmo? Você está hospedado aonde? Na rua. Vamos pro meu hotel, vou ligar agorinha pro nosso investigador. E seguiram, atravessaram o saguão, entraram no elevador, subiram e foram bater numa suíte real, com múltiplos quartos, sala de jantar, cozinha compacta, segurança redobrada e serviços altamente personalizados. Este aqui é o meu quarto, escolha o seu, vá! Eita, agora sim, voltava a ventar favorável, sabia: a vida não ia deixá-lo na mão. Chega regozijou-se folgado, renovava as esperanças. Lá estava de novo revivendo nas alturas as coisas recém passadas. Foi se banhar e ouviu: O agente está chegando, vou ter que ir a uma reunião, fique à vontade, viu? Tá. Poucos minutos depois bateram insistente à porta. Já vai! Enrolou-se na toalha e abriu: Polícia! Ôpa! Você está preso! Eu? Algemaram-no do jeito que estava e arrastaram-no porta afora. Deram numa delegacia e, de lá, vamos por parte: chegou e foi logo empurrado pra uma sala com várias pessoas, sentaram-no à cadeira e um bafo na moleira: Vá, abra o bico? Sobre o quê? Fala! O quê? Foto! Quem é essa? Mary, minha ex-namorada. Quem? Mary Butterworth, não sei pronunciar direito! Desembucha! E contou que ela deu as costas pra ele, hoje de madrugada, num bar e sumiu. Fui na casa dela, bati, ninguém atendeu. Onde ela mora? No Sítio Groenlândia, Switzland. Hum, ricaça! Vão lá. E esses? Charles e Bernie, são estrangeiros. De quê? Não sei, são amigos dela, conheci o ano passado, só sei dos nomes. E esse? Frank. De quê? Também não sei, é amigo dela, disse ser médico e piloto, conheci pelos outros dois. E esse? Alfred. De quê? Não sei, ele está pra ganhar a qualquer momento o Prêmio Nobel pela descoberta de um medicamento aí. E esse? Ah, esse é Mithilesh, um bilionário hindu. De quê? Também não sei e é amigo dela. Todos são amigos e você no meio sem saber de nada? Sim. Fazia o que entre eles? Festas, passeios, viagens. Leve ele pra cela! Estava nu. Os outros presidiários comiseraram e já arrumaram umas vestes que foram entregues pelo carcereiro: Tomaí, porra! Era uma camisa já um tanto esfarrapada, um resto de bermuda e um par de meias furadas. Pronto, vestiu-se e quase sentiu um fiapinho de dignidade. No primeiro cochilo foi picado por uma aranha-armadeira, acometido por priapismo doloroso: Vou morrer! E ficou aos gritos. Que é que tá acontecendo? Foi levado às pressas pra enfermaria, logo levando fisgada de injeção por todo lado. Vou morrer que nem tábua de pirulito! Ê, furado! Lá pras tantas, ao sentir-se melhor, logo foi assolado por uma diarreia braba: Oxe, ele tá se acabando pelo fundo feito panela! Eita, caganeira macha! E fedorenta, meu! Catinga da peste! E tornou-se a diversão: o Zé Cagão. Nos dias seguintes foi levado pro delegado e um brabo agente mostrou uma foto e disse: Essa é sua ex-namorada? Sim, a Mary. Sabe quem é ela? Não, senhor. Passou a saber na hora: uma foragida balzaquiana, falsificadora de libra esterlina, que lavava o dinheiro num suposto bufê supostamente de sua propriedade. Esses são amigos dela? Sim. Eram Charles Ponzi e Bernie Madoff que criaram um sistema golpista, que ludibriaram muitos investidores com promessas de lucros astronômicos. Esse também amigo dela, né? É Frank. Era o mestre dos disfarces, Frank Abagnale, trambiqueiro que se passava por médico, piloto e até advogado. Esse? O Alfred. Era o curandeiro herbalista, Alfredo Bowman, picareta mais conhecido como Dr. Sebi, criador do O Cell Food e cultor de uma filosofia extravagante de vida. Esse? Mithilesh. Era o lendário caloteiro indiano, Mithilesh Kumar Srivastava, famoso por vender marcos históricos com documentos falsificados, inclusive o Taj Mahal. Minha nossa! E você não tem a ver com isso? Nem sabia quem eram! E esse? Ah, um amigo de infância. É? Sabe quem ele é? Não o via desde uns 15 ou 20 anos atrás. Era o trapaceiro Marcelo Nascimento da Rocha, piloto do crime, se passou pelo filho do dono da Gol, por VJ da MTV, por guitarrista do Engenheiros do Havaí, dono de edifícios e propriedades, está preso agora em Avaré, cumprindo pena de 16 anos. Minha nossa! E agora? Deus tenha pena de mim. O sonho de caça ao tesouro, era uma vez. Tudo vigarista e eu alesado, no meio da enrolação. Se liga no caô aí, véi! Tô frito! Anos se passaram e cumpriu pena. Ao sair da prisão não tinha pra onde ir, só tinha a roupa do couro e o terreno baldio por guarida. Fazer o quê? Juntar as bandas da bunda e sair uma rebatendo na outra. E calar a boca: quando penso, peido; quando falo, cago. E aos reclamos: Porra, fedeu, hem! Bagunçava a porratoda! Lá ia se arrastando. As horas demoravam, comovida mudez: Por onde recomeçar, não sabia. Solidão: Sou entre os que foram abandonados por Deus! Cuspiu sua palavra, seu dialeto próprio, sabia: sua hora ainda vai chegar, ah, se vai. Sua pele coriácia encorajava-o: Não foi a primeira vez, nem a última. E nem morri! Essa sua terrível sorte. A tristeza cansava no durado de semanas, sabia: a alegria tem seus perigos de vigia, convinha precaver. Amanhã ninguém sabe, tanto faz cair pra qualquer lado, a queda é uma só, até o dia em que o diabo levanta os braços, aí, já era, babau. Tá bom. É com o escorregão alheio que o povo se diverte. No mais, tudo era sempre depois de amanhã. Nas contas do dia, um perito em identificar pontos de fuga. Qual indulto naquela hora? Deu-se em estado de bicho, néscio instintivo, intensas sensações, a cólica dos intestinos, entortou-se às cuspidas, acossado por todas as culpas, pensou alto: precisava se perder para chegar aos lugares que não se acham! Ah, não há de ser nada, disse-lhe alguém. Hem? Perdido ou escorraçado? Uma e outra. Ah, tenho um santo remédio, venha! E foram até um recinto ali perto, deram-lhe banho, vestimentas e apreço. Ao redor, todos os presentes com uma caneca à mão, ofereciam: Cerveja? Já sai a comida sagrada pro nosso ritual. Animou-se com a travessa farta de espaguete. Uma ovação: Viva! Ramém! Encheu a pança e, depois das comemorações, deitaram-no numa espreguiçadeira num quarto do quintal, nem notando a presença de outros arranchados por ali. Ao amanhecer ouviu os 8 mandamentos do Evangelho do Monstro do Espaguete Voador. Meteu-se na risadagem, era sua redenção. Um escorredor de macarrão na cabeça e vestimenta de pirata: Ramén! Goles na rodada de cerveja. Ramém! Toda sexta é dia santo e feriado! Ramém! E assim simpatizou-se com os pastafari, mais um neófito, entre eles, na senda, sobrevivendo de bicos, cama e comida garantida. E toda sexta pirateando: Viva Ching Shih! Ramém! Viva o Barba Negra! Ramém! Viva Anne Bonny! Ramém! Viva Black Bart! Ramém! Viva Mary Read! Ramém! Viva o capitão bucaneiro Morgan! Ramém! E tome virada de copos, empanzinamentos com as massas e lambuzado pelos molhos e espumas. Foi assim que aprendeu o riscado, assoletrando: quem na vida muito quer, finda no baú de Davy Jones. Cuidado: se salve de andar na prancha. Aprenda: pegue o que puder, não devolva nada - os mortos não contam histórias. Até mais ver.

 

Elias Canetti: Todas as coisas que se esqueceram clamam por socorro nos sonhos... Não consigo ser modesto; muitas coisas ardem em mim; as velhas soluções estão ruindo; nada foi feito ainda com as novas. Por isso começo, em toda parte ao mesmo tempo, como se tivesse um século pela frente... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Joacine Katar Moreira: Andei sempre contra a maré que nos indicava quais as nossas hipóteses, até onde é que podia ir. E eu olhava para isso não como uma limitação mas como algo que eu iria provar que não era bem assim... Veja mais aqui.

Cassandra Clare: Leia tudo! Não basta ler coisas que estão em sua zona de conforto ou coisas que você acha que já vai gostar. Experimente; experimente coisas novas e experimente novos gêneros. Se você ler muito romance, então comece a ler mistério. Se você ler muito mistério, comece a ler fantasia... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ROMANCE X OU DA DONZELA POBRE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Donzelinha, donzelinha \ dos grandes olhos sombrios, \ teus parentes andam Longe, \ pelas serras, pelos rios, \ tentando a sorte nas catas, \ em barrancos já vazios! \ Donzelinha, donzelinha, \ mira os santos nos altares, \ que apontam, compadecidos, \ para celestes lugares, \ onde são de ouro e diamante \ quantas lágrimas chorares! \ Donzelinha, donzelinha, \ fecha esses olhos sombrios. \ As montanhas são tão altas! \ Os ribeiros são tão frios! \ O reino de Deus, tão Longe \ dos humanos desvarios!

Poema extraído do Romanceiro da inconfidência (Nova Aguilar, 1997), da poeta, jornalista, pintora, escritora e professora Cecília Meireles (Cecília Benevides de Carvalho Meireles – 1901-1964). Dela o verso: Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda... que inspirou curta-metragem dirigido por Jorge Furtado em 1989. O documentário utiliza esse trecho do poema épico Romanceiro da Inconfidência para encerrar sua crítica ao sistema capitalista e à desigualdade. O curta-metragem acompanha o ciclo de vida de um tomate, desde a colheita até ser descartado em um lixão na Ilha das Flores (1989), dirigido por Jorge Furtado, em Porto Alegre. O objetivo da obra é escancarar a desumanidade social ao mostrar que, no local, porcos têm preferência de consumo sobre os restos de lixo antes que estes sejam destinados aos seres humanos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

CASAS & TÚMULOS - [...] Feliz é aquele que, como Ulisses, viu cem paisagens. [...] Não existem palavras que sejam como água destilada, insubstanciais, alheias à vida e ao mundo. [...] Existem dois tipos de literatura: uma que propõe uma jornada para fora (crimes em Norlândia, paixões na corte chinesa do século XII, traições mortais em um campus americano…) e outra que inclui uma jornada adicional, aquela que o leitor deve fazer dentro de si. [...] Sei que os laços do amor não são iguais, e que um deles, o que vai de mãe para filha, deve ser mais forte do que o que vai de filha para mãe. [...], Trechos extraídos da obra Casas y tumbas (Alfaguara, 2019), do escritor espanhol, Bernardo Atxaga (Joseba Irazu Garmendia), autor de obras como The Accordionist's Son (2003), Memorias de una vaca (1991) e Obabakoak (1988), entre outros.

 

ALGUNS SÃO IDIOTAS MESMO!... - [...] Algumas pessoas SÃO idiotas e continuarão sendo, não importa o que você faça. Isso inclui os Mansplainers; pessoas de todos os gêneros que são tão convencidas de si mesmas que não ouvem (portanto, não é possível ter uma conversa); supremacistas de todos os tipos. Meu conselho? Se eles forem reincidentes, exponha-os, chame-os a atenção - mas com o idiota desconhecido ocasional que VAI incomodá-lo sempre que você começar a brilhar, não perca seu tempo tentando educá-los. Aprenda o que puder com eles: seus "argumentos" favoritos, sua "lógica", seus padrões de retórica - depois acene com a cabeça "obrigado" educadamente enquanto eles ainda estão bajulando sua superioridade intelectual sobre você e, em seguida, livre-se deles. Aprenda com a experiência, assim como você pode aprender ao assistir a uma palestra ruim. Algumas pessoas, entretanto, NÃO são idiotas (ainda), mas podem, ocasionalmente, agir como tal. Essas são salváveis e merecem seus esforços, SE você estiver disposto a isso. Você pode tentar perguntar educadamente: "Você percebe que está parecendo que está dizendo Y em vez de X e me insultando? Você realmente quis dizer isso? Porque você está parecendo um idiota, e eu não acho que você seja um" - ou algo nesse sentido. A parte importante é enfatizar como a pessoa está agindo como um idiota, quando você não acredita que ela seja um. As pessoas não esperam a franqueza, portanto, se não forem idiotas, a franqueza educada, não agressiva, não defensiva e puramente informativa as desarmará. E se, no fim das contas, elas forem idiotas... melhor que fiquem longe, não é mesmo? [...]. Trecho do artigo Algumas pessoas SÃO idiotas, e isso não vai mudar (Escritos em Neurociências,), da neurocientista e professora Suzana Herculano-Houzel, que noutro artigo, Todo mundo precisa ter problemas (Neurociências da vida comum), ela expressa: [...] Só com sensação de controle sobre a própria vida se deixam os outros em paz. [...] Eu hoje, neurocientista, entendo perfeitamente. Aprendi que a chave para o bem-estar está na sensação de controle sobre a própria vida, e que, por definição, só há “controle” onde existe algo a ser controlado: um problema ao alcance da nossa competência. Por isso os tempos de calmaria, teoricamente ideais, nem duram, nem são ideais de fato. Se não há problemas para resolver, criamos um, e ainda chamamos de “propósito”. Pode ser chamado de hobby, projeto de aposentadoria, mas também neto, nora, vizinho – ou imigrantes e outras pessoas estranhas em aparência, ideias ou religião. Acho que agora entendo a obsessão de cada vez mais gente mundo afora em controlar a vida dos outros, num flerte global com o autoritarismo que já descamba para a execução. Quem vive cronicamente estressado com subemprego e exploração socioeconômica, apanhando da vida, precisa da sensação de controle de poder baixar o cacete em alguma outra coisa ou alguém ainda mais na miséria. Para quem vive cheio de problemas, ir às redes sociais se meter nos direitos alheios oferece o alívio temporário tão necessário à sensação de impotência. E quem vive no estado oposto de afluência descansada precisa igualmente de um novo problema para resolver. Com a vantagem de gozar de tempo e dinheiro, parte dessas pessoas vão se meter a controlar os outros que vivem situações de merda tão profunda que requerem aborto, emigração ou novas chances, negando-lhes tudo apenas porque elas podem. Como fazer com que as pessoas parem de se meter na vida alheia? [...] Alguns problemas são insuperáveis, mas a vida é feita de todos os outros. [...]. Ela é autora da obra The Human Advantage: A New Understanding of How Our Brain Became Remarkable (The MIT Press, 2016). Veja mais aqui.

 

SANTANNA O CANTADOR

Eu acho que devemos ser eternos aprendizes, para podermos evoluir com mais consciência do que somos e do que queremos... Você tem que acreditar no seu jeito de fazer as propostas. Quando a coisa é verdadeira as pessoas notam e sentem. A verdade será sempre moderna e bem aceita, mesmo que doa...

Pensamento do parceiramigo, cantor e compositor Santanna, O Cantador. Veja a entrevista que ele concedeu pra mim e outras coisas a respeito do seu talento e carisma aqui.

 

LER BEM – O concurso Ler Bem 2026, iniciativa da Associação Pernambucana de Atacadistas e Distribuidores (ASPA) objetiva incentivar a leitura entre estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental de escolas municipais. Este ano o Observatório de Leituras da Semed-Palmares, acompanhou o estudante Zeus Vinícius Barbosa Holanda, da Escola Municipal Professora Maria Elizabete de Oliveira Calado, em Palmares, Pernambuco, em 3 encontros, contando com o apoio do professor Emerson José Oliveira da Silva e dos técnicos da Semed, comandados pelo professor Valmir Melo. A obra estudada foi A volta ao mundo em 80 dias (Le tour du monde en quatre-vingts jours - FTD, 2013), do escritor francês como Júlio Verne (Jules Gabriel Verne – 1828-1906), considerado o inventor do gênero de ficção científica. Veja o ocorreu durante os encontros e treinamentos aqui.

 


ARTE NA ESCOLA – O professor Emerson José Oliveira da Silva apresentou o artigo científico sob a temática A arte na educação infantil e desenvolvimento da criança na pré-escola, no Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia, da Faculdade de Formação de Professores da Mata Sul/PE (Famasul), de Palmares (PE), orientado pela professora Vanessa Ferreira dos Santos. Veja na íntegra aqui.


 

CENTENÁRIO DE DAREL VALENÇA LINS – Em 2024 comemorei o centenário do gravurista, pintor, desenhista, ilustrador e professor, Darel Valença Lins (1924-2017), com a publicação do livro Dareladas, lançado tanto em Palmares, sua terra natal, como também no Rio de Janeiro. Confira como ocorreu aqui.

 


SEMANA HERMILO BORBA FILHO - Em homenagem ao advogado, escritor, crítico literário, jornalista, dramaturgo, diretor, teatrólogo e tradutor Hermilo Borba Filho (1917-2017), acontecerá a Semana Hermilo, entre os dias 28 e 31 de julho, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, em Palmares (PE). Confira detalhes & muito mais aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui.

 


segunda-feira, julho 28, 2025

CLARE LESLIE HALL, FRANTZ FANON, MARJORIE AGOSÍN & CABOCLINHO PERNAMBUCANO.

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Vermes (2016), Ano (2018), Fibs (2019), Solavancos por minuto: 18 estudos para Dodgems (2021) e Nuc (2023), da compositora escocesa Anna Meredith (Anna Howard Meredith).

 

Rapsódia pícara tirada dum livro... - Zé Bunito não nasceu: foi achado. Como assim? Toda vez que a viúva beata Zodófila atravessava a esquina da matriz, um papagaio gritava: É ela! E um guenzo seguia seus passos, depois outro, uma matilha de vira-latas perseguida por preás, caçotes, cassacos, marrecos, saguis, lagartixas, tatus, marrãs, borboletas, cabritos, novilhos, zig-zig, até um urubu-da-asa-quebrada e um casal de cascavel se engalfinhando. Diziam as más línguas: Ela tá no cio! Aquela viuvinha sem filhos, aos 22 anos, quando deu fé do falatório, virou-se pra enxotá-los e o espanto foi dela: um bebê engatinhava imundo balançando a torneirinha como se perguntasse: Por que parou? Ela: Xô pra lá! Vixi, sai-te! Foi tangendo a bicharada pra pegar o bebê nos braços e seguiu pra casa: Coisa mais linda, meu Deus! Deu-lhe banho, manha, nome e maternidade: Bonito! Catou os piolhos, tirou os grudes do couro, desencardiu sua pele, avivou seus faces, comprou roupas decentes prele mijá-las e ganhar a alcunha de menino mijão. Era o xodó da casa. Com o tempo o colocou em pé e botou a falar, escrever e se expressar. Deu trabalho e ela não escondia seu regozijo, a sua exacerbada afeição cegava-a de não ter noção do come-come devorando tudo, muito menos percebera que seu jardim se tornara um zoológico, com amontoada fauna, até curiosos. Mas nem ligou: ele era a menina dos seus olhos. O bruguelo tinha mania de falar com os bichos e plantas: Será lelé? Dele cuidou, dengou e, aos 10 anos, ele botou as manguinhas de fora juntando todo tipo de cacareco e agarrado num coco às umbigadas. O que é isso? Redobrou os cuidados e manhas. Aos 11 queimou o púbis esfregando-se no cano de escape do fusquinha. Menino! Aos 12 foi pego aos carinhos achegados numa cadela. Pelo amor de Deus! Aos 13 flagrado fungando o cangote da empregada-babá. Ao invés de puni-lo pelas presepadas inesgotáveis, preferiu despachar a serviçal pra nunca mais. Tome jeito! Relevava, só injuriada ao vê-lo na micção com toda marra pelos cantos da casa. Será que não aprende? Ruborizada sapecava: adolescente imprestável! Admoestações levaram-no pra cama dela, tomando jeito de gente. Tudo ia bem até ele cair num marasmo entediante de só sair dele ao se alvoroçar com presença da indomável Lampioa pelas redondezas. Endoidou o cabeção de quase morrer duma paixonite braba. Perdeu o sono, o apetite, quase o juízo de vez e arrumou as trouxas a ganhar o mundo no encalço da destemida. Diante dela declarou-se, tornou-se capacho e apanhava todo dia: canário do bom. Um dia lá, ela arretou-se, chamou na grande e deu-lhe um chute na bunda de deixá-lo troncho ao deus dará. E agora? Sem ter pra onde ir, deu-se a volta do filho pródigo e sem avisar. Todo empulhado foi recebido aos bregues detratores mais cabeludos, a maior catilinária: todos os seus podres passados a limpo e fedendo brabo. Mas a complacência materna conteve os arroubos passionais: estava comovida com os trapos dele. Aí, tudo se dissipou. Viu-se a salvo da situação. Isso até o momento em que bateram à porta. Era Lampioa: Cadê aquele cabra safado? Zodófila, benzódeus, teve um troço e caiu morta na hora. Resumo da ópera: nem a cangaceira brava, nem nada – a família da finada expulsou-o, pro olho da rua! Voltou pra orfandade, batendo cabeça, tombando na penúria. Reatou-se consigo e foi pro trampo, às próprias custas. Fazia disso e daquilo, para errar feio perante uma cigana glutona: Alto lá! Qual era? Faca de dois gumes. Acuado, rendeu-se. Ela sorriu toda solícita e aos agrados, dele mergulhar na proboscídea de quase perder o fôlego numa congestão. Empanturrou-se de ficar com o bucho estropiado. Segurava a barriga enquanto o anódino era ministrado. Nada de curar. Soltou um peido e saiu feito louco com o boga às labaredas. Escafedeu-se, até ver-se uma semana depois aliviando-se com os fundilhos chiando dentro da água, atolado num rio raso embaixo da ponte. Saiu lasso absolvido, só não previa um estampido: Ploft! Tudo de novo, foi a praga! Sufocado pela catinga: Quase me mata! Foi checar as fezes assassinas: eram pedras preciosas! Vixe! Conferiu aquela revelação: um golpe de sorte! Tô cagando ouro! Logo viu pérolas, diamantes, topázios, rubis, esmeraldas, todas vivas e se arrastando, fugiam dele. Oxe! Seguiu as pistas e deu num ninho delas: Tô rico! Nessa hora deu um vento demolidor e o diabo veio cobrar a conta: Como é que é? Ah, não. Usou da malandragem, cuspiu e se borrou todo. Deu azo, pintou e bordou de deixar o malquisto caduco depois da trapaça. Escapou carregando o quanto pode na fuga, não aguentou o peso dos brilhantes que incharam esmagando-o. Depois de muito se arrastar exaurido, já imaginava o seu sudário com os sonhos recorrentes. Delirava e encontrou Deus. No primeiro dia a zombaria da tabica: Vamos prestar contas? Ele pegou o beco pela direita e, no segundo dia, deu-se o reencontro com a enciclopédia de pecados – começando pela infâmia adolescente num rosário de sandices pecaminosas. Apontou prum lado e saiu pelo outro esgueirando-se na carreira. No terceiro dia: Adianta fugir não. Aí abriu-se um buraco no chão e socou-se dentro, saindo não se sabe onde. No quarto dia: Vai pra onde? De novo, peraí! No quinto: Quer me enrolar é? Eita, esqueci ali. No sexto: Vai tapiar com mais o quê? Vixe! No sétimo descansou, era o seu escarmento: perdia tudo, quebrando o que tocasse e se viu na pele do Akaki de Gógol e da filha de Hébuterne. Finou reduzido às páginas dum livro esquecido numa prateleira de biblioteca longínqua. Muitos anos depois, eis que um leitor apareceu para lê-lo, oportunamente escapuliu e foi reviver as coisas como estavam. Arrojou-se rastejante por tudo quanto era canto apurando o noticiário: guerras, assaltos, atropelamentos, afundaram um navio da Marinha, derrubaram um teco-teco da Aeronáutica, roubaram as armas dum batalhão do Exército. Êpa! Como é que é? Oxente. E antes de qualquer infortúnio imprevisível pra sua banda, logrou forjar a própria morte definitivamente, às páginas do livro, ao esquecimento e a murmurar: Vale a pena não: o mundo continua o mesmo de sempre, mudou nada. Até mais ver.

 

Ann Brashares: Para escrever uma história, eu acho que você realmente tem que se abrir para o mundo... Como escritor, você vive em tal isolamento. É difícil imaginar que seu livro tenha uma vida além de você... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Isabel Allende: Você pode contar as verdades mais profundas com as mentiras da ficção... Escrever é como fazer amor. Não se preocupe com o orgasmo, concentre-se apenas no processo... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Lolita Pille: A monstruosidade virou padrão de beleza... Veja mais aquí.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

ELA DESEJAVA SER UMA ILHA - Ansiava por ser uma ilha, \ Ela amava a loucura desenfreada deles, as ilhas, \ Ela ansiava por chegar a uma ilha que, talvez, não fosse uma ilha. \ Despoje-se dos amores ruinosos e pedregosos \ Ela desejava ser uma ilha \ Só habitar a cintura do mar \ E não sair ou voltar \ Para ser apenas uma ilha \ A Ilha da Noite \ A Ilha do Amingau \ Ilhas.

SETE PEDRAS - Hoje eu peguei \ Sete pedras \ assemelhar-se a aves e órfãos \ na areia morta. \ Eu olhei para eles \ Como se fossem ofertas \ de tempos incomuns, \ Como se fossem \ sete viajantes ameaçados de extinção. \ Como uma feiticeira, eu me aproximei \ e muito gentilmente \ Umedeça-os a umedeçam \ contra a minha bochecha. \ Eu queria \ Para ser sete pedras \ Dentro da minha pele, \ ser, por um instante, muito redondo e suave \ Então alguém me pegaria \ e fazer fendas nos meus lados \ com a voz úmida do vento. \ Eu queria \ Você para me pegar, \ para me beijar, \ Então eu poderia ser uma pedra de rio \ na sua boca do estuário. \ Eu guardo as sete pedras \ - No meu bolso. \ Eles fazem um monte \ em minha mão \ E em minhas histórias \de ausências, \ Um som de musgo.

Poemas da premiada escritora chilena Marjorie Agosín (1955- 2025), autora das obras Conchali (Senda Nueva de Edições, 1980), Brujas Y Algo Más: Bruxas e Outras Coisas (Latin American Literary Review Press, 1984), Violeta Parra: santa de pura greda: un estudio de su obra poética (Planeta, 1988), La Felicidad (Editorial Quarto Propio, 1991), Sargazo (White Pine Press, 1993), La Alfareras (Editorial Quarto Próprio, 1994), Tapeçarias de esperança, fios de amor (University of New Mexico Press, 1996), O Olhar de uma Mulher: Artistas Mulheres Latino-Americanas (White Pine Press, 1998), O alfabeto em minhas mãos: uma vida de escritor (Rutgers University Press, 2000), Sempre de outro lugar: memórias do meu pai judeu chileno (Feminist Press, 2000), Mulheres, gênero e direitos humanos: uma perspectiva global (Rutgers University Press, 2001), Segredos na Areia: As Jovens de Juárez (White Pine Press, 2006), La Luz del Deseo (Swan Isle Press, 2010) e  Eu vivi em Butterfly Hill (Simon & Schuster, 2014).

 

PAÍS QUEBRADO – [...] Esta é uma história de amor com muitos começos. Recuso-me a pensar em como ela vai terminar. [...] Sinto meu rosto corar de raiva. Dia após dia, os homens são admirados por suas proezas sexuais, pelas "conquistas" gravadas em suas cabeceiras de cama. Já as mulheres, que ousam fazer o mesmo, são ridicularizadas, e, na maioria das vezes, são outras mulheres que distribuem o escárnio. [...] Você tem que se enganar pensando que já é aquilo que quer se tornar. [...] Esta é uma história de amor e é, de longe, melhor do que qualquer uma que já sonhei. Se me permitem um desejo, apenas um, é este: desejo que a nossa história tenha um final feliz. [...]. Trechos da obra Broken Country (Simon & Schuster, 2025), da escritora e jornalista inglesa Clare Leslie Hall.

 

ESCRITOS POLÍTICOS - [...] O racismo é uma praga na humanidade [...] O racismo não é um todo, mas o elemento mais visível, o mais cotidiano, para dizer o mínimo, às vezes, o mais grosseiro de uma dada estrutura. [...] As classes e as castas, o campesinato, o patronato, a classe operária, rejeitam o fardo. Estas contradições, estas lutas, repercutem-se naturalmente no Parlamento. Não só há um conflito entre partidos, como a crise é tal, que todos os partidos estão divididos, cindidos em clãs, segundo os jogos de interesses. É daqui que nascem as crises ministeriais, a causa da instabilidade governamental. [...] Colocar-se-ão os mesmos problemas: um esforço de guerra cada vez maior; uma hemorragia financeira cada vez mais dramática; conflitos sociais mais agudos e, no exterior, um isolamento mais completo. [...]. Trechos da obra Escritos Políticos (Boitempo, 2021), do psiquiatra e filósofo antilhano Frantz Fanon (Frantz Omar Fanon – Ibrahim Frantz Fanon – 1925-1961), que na sua obra Pele negra, máscaras brancas (EdUFBA, 2008), ele expressou que: [...] O que isso significa para mim, senão um desalojamento, uma extirpação, uma hemorragia que coagulava sangue negro sobre todo o meu corpo? No entanto, eu não queria ser esta reconsideração, esta esquematização. Queria simplesmente ser um homem entre outros homens. Gostaria de ter chegado puro e jovem em um mundo nosso, ajudando a edificá-lo conjuntamente [...] Meu corpo era devolvido desancado, desconjuntado, demolido, todo enlutado, naquele dia branco de inverno. O preto é um animal, o preto é ruim, o preto é malvado, o preto é feio; olhe, um preto! Faz frio, o preto treme, o preto treme porque sente frio, o menino treme porque tem medo do preto, o preto treme de frio, um frio que morde os ossos, o menino bonito treme porque pensa que o preto treme de raiva, o menino branco se joga nos braços da mãe: mamãe, o preto vai me comer! [...]. Já no seu volume Écrits sur l’aliénation et la liberté (La Découverte, 2015), também expressa que: Falar uma língua é assumir um mundo, uma cultura... No Mundo pelo qual viajo, estou me criando infinitamente. Os oprimidos sempre acreditarão no pior sobre si mesmos. Quando nos revoltamos, não é por uma cultura específica. Nos revoltamos simplesmente porque, por muitas razões, não conseguimos mais respirar. Cada geração deve, a partir da relativa obscuridade, descobrir a sua missão, cumpri-la ou traí-la... A violência é o homem recriando a si mesmo... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

CABOCLINHO PERNAMBUCANO

O vídeo-documentário Caboclinho (Fundarpe/Iphan/Associação Respeita Januário, 2017), direção, roteiro, fotografia e edição Felipe Peres Calheiros, trata do registro audiovisual realizado entre 2011 e 2013, durante pesquisas de campo para a composição do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC), retratando o universo da manifestação cultural que representada por meio da dança, música e religiosidade, a cultura indígena do Brasil. Originado a partir das reminiscências do Toré e da Jurema Sagrada, reelaboradas juntamente com outras influências culturais, reconhecido em 2016 como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Conta com depoimentos de Severino Amaro Gomes (presidente da Tribo Tupi Guarani), José Alfaiate (presidente do Caboclinhos 7 Flexas do Recife), Zuleide Alves da Silva (presidente do Caboclinhos Oxossi Pena Branca), Hilton Souza Falcão (vice-presidente do Caboclinhos Kapinawá) e Nelson Cândido Ferreira (presidente do Caboclinhos 7 Flexas de Goiana). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.




 


quinta-feira, junho 29, 2023

MIA COUTO, ELIZABETH GILBERT, MARKUS ZUSAK, TATIANA LEAL & CONTAR HESTÓRIAS

 

 Imagem: AcervoLAM.

O diálogo interartes existe há tempos, e é uma das vocações da música contemporânea – e digo “contemporânea” não num sentido de gênero ou escola musical, mas de interação e impacto na atualidade. É um caminho sem volta que a pandemia acelerou, essa de pensarmos a música atrelada a um contexto audiovisual e dependente da tecnologia de transmissão, mas acho que é um caminho inclusivo, pois sempre haverá espaço para uma expressão mais “pura” da arte musical, voltada para espaços e perspectivas de escuta tradicionais, como os concertos de música clássica ou mesmo, a audição de um álbum digital.

Pensamento da pianista, compositora, produtora e pesquisadora Lilian Nakahodo, autora dos álbuns e EPs Corpo Urbano (2011), Circo urbano (2015), Vilosidade (2018), Lusco-fusco (2018), Sonhos (2020), No mundo de Maria João (2021) e Outro Piano (2022).

 

HESTORIA DO QUE FUI E VOO – Na correnteza das horas os dias enovelados, o patíbulo e o carrasco: o tempo. A trajetória da semana: do alvo às cinzas, a constatação de fugitivo d’A Invenção de Morel do Bioy Casares. Na minha ilha deserta o vaivém de uma gente insone sem sombra, nem rastro, muito menos reflexo no espelho. Eles relinchavam e espojavam suas dores, carregavam seus pesadelos e lástimas pelas infelicidades recorrentes conservadas nos baús de suas almas selvagens, como se vagassem perdidos noutra ilha: a do Dr. Moreau de H. G. Wells. Passavam, teciam e desteciam delirantes testemunhos de cães espantados nas suas pestanas graves. Não sei o que remoíam tanto, suponho aflições inauditas de sentinelas irredutíveis de uma inventada comoção, a bater o pé na mentira feita verdade pelos cupins da pátria, pelos ratos da nação. Uma gente tortuosa e exangue, mais pareciam mosquitos atazanadores: ansiavam mudança perpetuando o passado a todo instante e pleito, reviviam seu museu ostentatório, puxavam-se uns aos outros aos tropeços loquazes e rangentes, ruminavam suas dúvidas pelas certezas destrambelhadas, falindo seus sonhos vencidos tão bem guardados de os perderem pela primeira fresta da clausura. Chovia perenemente e o abandono do centro se propagava pelos subúrbios e abominações: uma doença misteriosa, a solidão e o esquecimento, resignação e desmoronamento. Eles mantinham a cara pro céu de milagre nenhum, nem se tocavam equivocados a se perderem de vista com suas evidências atrozes. Entre eles o meu exílio n’A Montanha Mágica de Thomas Mann. Talvez fosse a vez do não outra vez e sequer percebia. De repente ela apareceu como quem desceu do Cinturão de Vênus com um chega-pra-cá surpreendente e era Ana Karina belamente nua e alheia, como a Faustine indiferente a se avizinhar com a ameaça do Super El Niño do Pacífico e um eclipse anular, quando, na verdade nada mais era que uma sobrevivente dos atentados às mulheres de Santa Teresa, debulhadas nos crimes insolúveis de Roberto Bolaño. Afinal, sua presença era alvissareira, apesar de fazer pouco caso. Deu meia volta à beira do precipício e me encarou docemente com seu ar Kathleen Burke na pele de Lota, a mulher pantera voluptuosa, pronta para me estraçalhar. Cedi aos seus encantos e me deixei levar por sua sedução, rendido aos seus sutis apelos - mesmo sabendo que nunca mais estiaria ali, o único abrigo possível. Depois de um longo abraço mostrou-me o crepúsculo. Era sinal de que não precisava me levantar, pois estava à beira da tragédia, relegado a Asfódelos e a me fazer tomar na torneira aberta as águas apagadoras da memória. Enfim, anoiteceu com a promessa dela de um outro dia, sabia: era como se eu virasse a cara pro perigo. Nada mais, nada menos. Nem me importei, não esperaria findar, só restava a generosidade dela. Então, preferi nela sonhar voos.

 

DITOS & DESDITOS

Imagem: AcervoLAM.

[...] Provavelmente a felicidade implica sempre uma poesia do mundo. [...] Não vejo outra maneira de reconquistarmos um sentido de felicidade que seja pleno, que não vá por esse caminho de nos restituir um olhar poético. O olhar poético não é alguma coisa que tenha a ver com a poesia escrita ou como gênero literário, mas tem a ver com aceitarmos que essa linguagem dos sonhos é uma linguagem válida, que nos ajuda a ler o mundo. [...].

Trecho extraído do discurso O poder de contar e ouvir histórias (Fronteira, 2017)

do escritor e biólogo moçambicano Mia Couto, falando sobre a importância de escutar histórias para o despertar da criatividade e o desenvolvimento da expressão. Noutro trecho do discurso: Contar história para tomar posse do mundo, ele expressa que: [...] Esta possibilidade de estarmos juntos, à volta das histórias e dos livros, é quase um ato político. Eu vivi num regime de ditadura e até os meus 20 anos era proibido haver ajuntamentos de mais de oito pessoas. Celebrar, conversar, debater ideias e o nosso mundo é já um ato de resistência, em que dizemos: nós estamos aqui. As pessoas começaram a relatar o que haviam sofrido e eu pensava: sou um privilegiado, não vão me deixar entrar. Tive tempo de pensar numa frase – ‘sofri porque vi os outros sofrer’ –, mas quando cheguei lá fiquei engasgado e não disse coisa nenhuma. Um dos homens que estava na mesa perguntou-me: você é aquele jovem que publica poemas no jornal? Então pode entrar, nós precisamos da poesia. Eu comecei por escutar, ainda hoje escrevo porque escuto. Essa dificuldade de nos apagarmos para ouvir realmente o outro, não só a palavra, mas o silêncio do outro, o corpo, as pausas, esse é o segredo. Por outro lado, falta fazer com que a escola seja mais viva, mais inquieta, onde os meninos possam dizer coisas, serem mais sujeitos de si próprios. Somos feitos de histórias, assim como somos feitos de células. [...]. Veja mais aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

 

LEITURA & SOCIALIZAÇÃO – Durante as pesquisas efetuadas merece destaque uma obra importante: A importância do ato de ler (Cortez, 1989), de Paulo Freire. Nela o autor expressa: [...] a leitura crítica da realidade, dando-se num processo de alfabetização ou não e associada sobretudo a certas práticas claramente políticas de mobilização e de organização, pode constituir-se num instrumento para o que Gramsci chamaria de ação contra-hegemônica. Concluindo estas reflexões em torno da importância do ato de ler, que implica sempre percepção critica, interpretação e “re-escrita” do lido, gostaria de dizer que, depois de hesitar um pouco, resolvi adotar o procedimento que usei no tratamento do tema, em consonância com a minha forma de ser e com o que posso fazer [...] O Brasil foi “inventado” de cima para baixo, autoritariamente. Precisamos reinventá-lo em outros termos. [...]. Diante dessas afirmações, duas outras complementaram minhas reflexões. A primeira de Michel Foucault: Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. A outra extraída da obra Pedagogia profanadanças piruetas e mascaradas (Autêntica, 1999), de Jorge Larrosa, na qual ele afirma: [...] O sentido do que somos depende das histórias que contamos e das que contamos de nós mesmos [...], em particular das construções narrativas nas quais cada um de nós é ao mesmo tempo, o autor, o narrador e o personagem principal. [...]. E ambas me levaram a uma outra leitura: Dicionário do pensamento social do século XX (Jorge Zahar, 1996), de William Outhwaite: [...] Os processos pelos quais os seres humanos são induzidos a adotar os padrões de comportamento, normas, regras e valores do seu mundo social são denominados socialização. Começam na infância e prosseguem ao longo da vida. A socialização é um processo de aprendizagem que se apóia, em parte, no ensino explicito e, também em parte, na aprendizagem latente – ou seja, na absorção inadvertida de formas consideradas evidentes de relacionamentos com os outros. [...]. Depois da família, as principais agências socializantes nas sociedades ocidentais são: a escola e os grupos dos pares, o ingresso na vida econômica, a exposição aos veículos de comunicação de massa, o estabelecimento de uma família e o casamento, a participação na vida comunitária organizada e, finalmente, as condições de aposentadoria. [...]. Foi com isso que me certifiquei do quão importante é ler e contar hestórias.  Veja mais aqui e aqui.

 

CONTAR & OUVIR HESTÓRIAS – Foi com Mário Vargas Llosa que apreendi: Contar histórias é uma atividade primordial, uma necessidade da existência, uma maneira de suportar a vida. Para conhecer o que somos, como indivíduos e como povos, não temos outro recurso do que sair de nós mesmos e, ajudados pela memória e pela imaginação, projetar-nos nessas ficções; é refazer a experiência, retificar a história real na direção que nossos desejos frustrados, nossos sonhos esfarrapados, nossa alegria ou nossa cólera reclamem. Daí pros estudos de Fanny Abromovich, sobretudo a sua obra Literatura Infantil: gostosuras e bobices (Scipione, 2003), na qual pude apreender: [...] é através de uma história, que se pode descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir, ser, outra ética, outra ótica. É ficar sabendo de história, geografia, filosofia política, sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula [...] Contar histórias é uma arte [...] e tão linda! É ela que equilibra o que é ouvido com o que é sentido, e por isso não é nem remotamente declamação ou teatro [...] Ela é o uso simples e harmônico da voz. [...] Ouvir histórias é um momento de gostosura, de prazer de divertimento dos melhores... É encantamento, maravilhamento, sedução [...]. E ela é (ou pode ser) ampliadora de referenciais, postura colocada, inquietude provocada, emoção deflagrada, suspense a serem resolvido, torcida desenfreada, saudades sentidas, lembranças ressuscitadas, caminhos novos apontados, sorriso gargalhado, belezuras desfrutadas e as mil maravilhas mais que uma boa história provoca [...] (desde que seja uma boa história)... Quem não gosta de ouvir ou contar hestórias? Veja mais aqui.

 

VOOS

Imagem: AcervoLAM.

Quando criança bastava dormir \ e logo pular bem alto \ flutuar próximo às nuvens\ demandando apenas um leve impulso\ com o tempo os vôos se tornaram rentes ao chão \ como quem nada em uma piscina rasa\ apesar do grande esforço para pulos mais altos que não\ ganham impulso suficiente para voar\ ainda assim despertavam o desejo de voltar\ enquanto crescia, voar\ mergulhar ou dirigir se confundiam\ mas bastou crescer para que o vôo se tornasse\ o de uma bruxa caricata em sua vassourinha medíocre:\ confuso\ cansativo\ invisível. \ melhor acordar.

Poema da poeta e professora Tatiana Leal.

 

A ASSINATURA DE TODAS AS COISAS – [...] Gostaria de passar o resto dos meus dias em um lugar tão silencioso – e trabalhando em um ritmo tão lento – que pudesse me ouvir vivendo. [...] Leve-me a algum lugar onde possamos ficar juntos em silêncio. [...] Veja, eu nunca senti a necessidade de inventar um mundo além deste mundo, pois este mundo sempre me pareceu grande e bonito o suficiente. Tenho me perguntado por que não é grande e bonito o suficiente para os outros – por que eles devem sonhar com esferas novas e maravilhosas, ou desejar viver em outro lugar, além deste domínio... mas isso não é da minha conta. Somos todos diferentes, suponho. Tudo o que sempre quis foi conhecer este mundo. Posso dizer agora, ao chegar ao meu fim, que sei um pouco mais do que sabia quando cheguei. Além disso, meu pouco conhecimento foi adicionado a todos os outros conhecimentos acumulados da história – adicionados à grande biblioteca, por assim dizer. Isso não é pouca coisa, senhor. Qualquer um que pode dizer tal coisa viveu uma vida feliz. […]. Trechos extraídos da obra The Signature of All Things (Riverhead Books, 2014), da escritora e jornalista estadunidense Elizabeth Gilbert.

 

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS – [...] Eu queria contar muitas coisas para a menina que roubava livros, sobre beleza e brutalidade. Mas o que eu poderia dizer a ela sobre essas coisas que ela ainda não sabia? Eu queria explicar que estou constantemente superestimando e subestimando a raça humana – que raramente eu simplesmente a estimo. Eu queria perguntar a ela como a mesma coisa poderia ser tão feia e tão gloriosa, e suas palavras e histórias tão condenatórias e brilhantes. [...] Odiei palavras e as amei, e espero tê-las corrigido. [...] Como a maioria das misérias, começou com aparente felicidade. [...] Eu sou assombrado por humanos. [...] Até a morte tem um coração [...] Imagine sorrir depois de um tapa na cara. Então pense em fazê-lo vinte e quatro horas por dia. [...] Ela o beijou longa e suavemente, e quando se afastou, tocou a boca dele com os dedos... Ela não se despediu. Ela era incapaz e, depois de mais alguns minutos ao lado dele, conseguiu se desvencilhar do chão. Espanta-me o que os humanos podem fazer, mesmo quando os riachos correm por seus rostos e eles cambaleiam... […]. Trechos extraídos da obra The Book Thief (Alfred A. Knopf, 2007), do escritor australiano Markus Zusak.

 

Por que inventar estórias quando a mais importante era a minha?

Aprendi os primeiros cantares do povo e armazenei poesia para transfigurar a cidade em que sofri e penei, fui alegre e chocarreiro, feliz e humilhado, transfigurá-la nos meus romances e nas minhas novelas...

Trechos de depoimentos de Hermilo Borba Filho, recolhido da obra Lendo Hermilo Borba Filho: fisionomia e espírito de uma literatura (Atual, 1986), da poeta e professora Sonia van Dijck. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 


 


TATIANA DE ROSNAY, VERONIKA KIVISILLA, NIALL FERGUSON & MARIA LAURA LOPES

  Imagem: Fluxo dos devires , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula porcina na cabeça!... -...