terça-feira, abril 29, 2008

CANETTI, JOSÉ PAULO PAES, HUGH LACEY, WENGER, HISTÓRIA ZEN & A PINGUELUDA



A PINGUELUDA - Arte: Ísis Nefelibata - Luiz Alberto Machado - Judilinho - leia-se Doro -, era doido carne, osso, alma e mais possuídos e despossuídos pela Francisquinha, uma matutinha quase-vesga das grotas, que pela sua brejeirice faceira roubara a bússola do seu coração.
O bocó que inventara um novo nome para se esconder das trapaças que já cometera a fole, estava tão apaixonado de pagar mico adoidado varando noites e dias em sua sofrência por conquistá-la de qualquer forma, nem que fosse na marra, fazendo de tudo para chamar-lhe atenção no meio da sua doidera. E ela nem, nem.
Vôte, o cabra se ouriçava, perdia o prumo, dava cambalhotas na rodagem, amorcegava cata-côrno, dava pirueta na bicicleta entronchada, debulhava chavecagem descabida, enrolava santos e desafetos, tudo para conseguir, nem que fosse de longe e por um instantinho de nada, pelo menos, um biquinho de riso da danada.
- Vixi, Maria! Que nega mais sestrosa! -, era ele de-noite quando busuntava arquitentando planos para envolvê-la na maior das lábias.
Francisquinha ali, pura no seu vestindinho afolosado e bem curtinho de chita, de ver-se a cada alvoroço desengonçado aquele cheirinho de fruta boa inebriando a alma dele, mostrando a caçolinha branca apregada nos fundilhos quando a saia tremulava ao vento e atravessava suas perninhas sedosas e escondidas intimidades.
Eita! Aquilo mexia com todo acorçôo do Judilinho.
Flagrando aquilo, o abestalhado corria para lugar incerto e não sabido, matar a sua sede numa bronha de mais de hora mergulhado na imaginação de foder a alma da danida.
- Venha, Francisquinha! Pelamor de Deus, venhaaaaaaaaa!
Como se arriava de ficar um tempão se refazendo depois de todo galado, causava ainda mais vexame para se esconder, pois que ninguém visse o seu estado detratável de tão melado pelo queijo acumulado de tempos sem molhar biscoito com vivalma perdida. Pois o cara enfrentava de tudo: greve de furunfada da mulher, das mocréias todas e rejeitado por toda mulher vivente no planeta.
Um dia lá, espia só, inventaram um casamento matuto com gente vindo das brenhas mais distantes e escolheram, depois de muito puxa-e-encolhe, para noivos do casório festeiro, Judilinho e Francisquinha. Justo os dois.
Era de mentirinha, mas ele já viajava na maionese como se fosse a mais absoluta verdade. Levou a sério mesmo. Ela nem se tocava com os ardís dele.
Cerimônia enrolada, abençoados no matrimônio, se danaram na festança da quadrilha, só no anavatu, anarriê, olha a cobra, debaixo da ponte, os homens cumprimentam as mulheres, e patati patatá, passear.
Ôxe, nessa hora, Judilinho aproveitou, saiu pela brincadeira fazendo todo tipo de mesura. Francisquinha se ria toda.
Ai ele sai da roda, passeia por longe, até adentrar uns grotões distantes, ela só se abrindo toda, ingênua, com a risível macacada dele.
Depois de se enfiarem dentro do mato, Judilinho se fez de levar um trupicão, esfregando a venta na rodagem de arrancar-lhe um samboque feio, espirrando sangue. Ela estatelou-se, rindo-se desbragadamente. Como se riram.
Depois ela no calor de sua matutice, coitada, pegou da saia e ficou limpando o sangue na venta dele, enquanto Judilinho ficava conferindo a tufa que se sobressaia da caçola.
Ôxe, Judilinho aproveitou-se.
- Francisquinha, deixa eu desembuchar uma apertura que me consome pru dento!
- Ige, como ele tá todo conversadô de prosa! -, disse ela maneirinha na maior risadagem.
- Oia, Fracisquinha, cê num sabe, mas eu tenho uma gastura que me remoi o tempo todo, d'eu quage endoidá de veizi por vosmicê!
- Cuma é? Fala, endoidado!
Coitada, nem sabia da astúcia dele.
O lazarento deitou moda de paixonite aguda da bestinha ficar se mangando fácil.
Era loa descabida que se juntar no mundo todas as asneiras ditas e meladas ali naquele instante num dá para se baldar o tamanho da lorota que ele soltou, a ponto de Francisquinha, na hora agá, interagir com a zoada frouxa, provocando nela um mijadeiro brabo do sujeito ir aparar na cuia das mãos. Ela se rindo. Quase que o mijo abre um rombo no terreno de tão abundante.
Ali ajoelhado, com as duas mãos encuiada entre as pernas dela, ele foi subindo, subindo, subindo até apalpar sua xiranha. Ela estremeceu-se toda.
O arteiro nessa hora, foi providente:
- Tô aparando procê num se mijá facilmente.
- Ih!
- Vou fazê uma reza prá alumiá seu caminho.
- Ih!
- Feche os oios.
- Ih!
- Fique assim de ôio fechado, pensano na salvação do céu. Nessa oração vô fazê cum que o céu ilumine a sua vida e vancê fique rica, famosa e para sempre bonitona!
O cabra mais fuleiro começou dizendo um dialeto inventado, aproximando mais das preciosidades dela, encostando a mão devagarinho quando topou com uma saliência.
- Vôte! Que droga é nove?
O apaideguado foi levantando a saia da menina, fazendo o maior bulício, removendo a calcinha dela e constatando um pinguelão maior que a pêia dele!
- Nossa! Essa tem pinguelo avantajado mermo, maior que a minha peia, visse? S'eu me abestaiar, ela é que me come!
Ôxe! O danado num pôde nem encostar no pitôco que ela foi logo se desmanchando na maior tremedeira e com todos os ais e uis de gozo precoce.
Judilinho foi sabido, foi logo soltando o colchete do vestido, desnudando-a, beijando seu ventre, seus seios, ela agoniada, impando, toda meladinha, ele se aproveitando disso, lubrificando bem a bucetinha dela para enfiar-lhe, finalmente, o mondrongo duro nos seus guardados.
Antes, porém, por conferência e bolinagem, foi enfiando o dedo devagarinho e buliçoso, deslizando na caverna molhadinha, entrou a mão, escorregou o braço, topando numa fundura sem fim.
- Danou-se! Isso não é um lascão de boceta, é uma cacimba bem funda! Essa é mais arrombada que boca de canhão!
No enfiado que fizera, o cabra quase viu o dedo sair pela boca da menina.
A coitada só se ria e chorava, deitada a se contorcer no chão com as pernas abertas, a cheba à mostra, as mãos na cabeça, nuazinha, arreganhada, sendo possuída pelo ajegado que aproveitava a peia perdida no afolosado, gozando exultante nos seus guardados, só saltando fora depois de quase se ver enfiado todo naquela areia movediça que chupava ele todo para dentro dela.
- Eita, gota! Essa mulé quage que me ingoli todo? Sai-te!
Foi aí que, enquanto ele se ajeitava para vestir suas calças, fugindo da safadeza, ela frustrada de tudo, largou uma dedada no furico dele, do tocado ficar sentindo a injetada a bulir na sua tripa gaiteira.
Ôxe, Doro que não era achegado naquilo, deu um salto solto no ar ocasionando o maior remexido no seu bucho, da cólica desenterrar bosta velha na maior caganeira.
- Cagão! -, acusou ela depois que se sentiu preterida pelo marmanjo.
Dedada essa providencial demovendo a prisão de ventre do seboso Judilinho que fabricava um monturo de bosta bastante proeminente.
- Isso num é um home! É um cagado de gente arrodeado de merda por todos os lados! Fui!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOSQuem é mestre na arte de viver distingue pouco entre o trabalho e o seu tempo livre, entre a sua mente e o seu corpo, a sua educação e a sua recração, o seu amor e a sua religião. Dificilmente sabe o que cada coisa vem a ser. Persegue simplesmente a sua visão de excelência em qualquer coisa que faça, deixando aos outros decidir se está trabalhando ou se divertindo. Ele pensa sempre em fazer ambas as coisas juntas. Pensamento Zen. Veja mais aqui.

COMUNIDADE DE PRÁTICA – [...] Uma comunidade de prática é uma intrínseca condição para a existência de conhecimento, não apenas porque ela providencia um suporte interpretativo necessário para dar sentido à sua herança. A participação na prática cultural na qual qualquer conhecimento ocorre é um princípio epistemológico de aprendizagem. A estrutura social de sua prática, suas relações de poder, e suas condi-ções para legitimação definem possibilidades para a aprendizagem. [...] Trecho extraído de Communities of practice: learning, meaning, and identity (Cambridge University Press, 1998), do educador suíço Étienne Charles Wenger, com a perspectiva social da aprendizagem nos seguintes princípios: a aprendizagem é inerente à natureza humana; consiste na primeira e principal habilidade para negociar novos significados; é, fundamentalmente, experimental e social; transforma identidades e constrói trajetórias de participação; significa lidar com fronteiras; é uma questão de energia social, poder, alinhamento e engajamento; envolve uma ação recíproca entre o local e o global. O autor descreve três importantes dimensões dessas comunidades: domínio - as pessoas se organizam em torno do domínio de conhecimento que lhe dê um sentido de iniciativa conjunta e as mantenha unidas; comunidade - as pessoas funcionam como uma comunidade, mediante relacionamentos de confiança e engajamento mútuo que atam fortemente o grupo numa entidade social; e prática - as pessoas se capacitam na sua prática de desenvolvimento de um repertório e pelo compartilhamento de recursos - tais como ferramentas, documentos, rotinas, vocabulários, símbolos e artefatos - que incorporam o conhecimento acumulado pela comunidade. Esse repertório fundamenta futuras aprendizagens, sendo esses graus de participação definidos como: grupo principal - um grupo pequeno de pessoas cuja paixão e envolvimento energiza a comunidade de prática; participação completa (membro total) - indivíduo reconhecido como praticante e que define a comunidade; participação periférica - pessoa que pertence à comunidade, mas com grau menor de envolvimento, tanto por ainda ser considerada novata, como por não ter muito compromisso pessoal com a prática; participação transacional (ou ocasional) - pessoa de fora da comunidade que, ocasionalmente, interage com ela, visando receber ou fornecer serviços. Não é, necessariamente, membro da comunidade; acesso passivo - uma ampla diversidade de pessoas com acesso aos artefatos produzidos pela comunidade, como, por exemplo, suas publicações, seus sites na web ou suas ferramentas. Por sua vez, as comunidades de prática podem ser caracterizadas por apresentarem as seguintes dimensões: empreendimento conjunto; envolvimento mútuo; e repertório compartilhado pelos seus membros sobre o modo de realizar as atividades, no qual os recursos são comuns, sejam rotinas, sensibilidade, artefatos, vocabulário e estilos.

DIALÉTICA & COGNIÇÃO - [...] No momento atual, as práticas de controle da natureza estão nas mãos do neoliberalismo e, assim, servem a determinados valores e não a outros. Servem ao individualismo em vez de à solidariedade; à propriedade particular e ao lucro em vez de aos bens sociais; ao mercado em vez de ao bem estar de todas as pessoas; à utilidade em vez de ao fortalecimento da pluralidade de valores; à liberdade individual e à eficácia econômica em vez de à libertação humana; aos interesses dos ricos em vez de aos direitos dos pobres; à democracia formal em vez de à democracia participativa; aos direitos civis e políticos sem qualquer relação dialética com os direitos sociais, econômicos e culturais. [...] Trecho da obra Da ciência cognitiva à dialética (Discurso, 1999), do filósofo e professor australiano Hugh Lacey. Em outra obra do autor Valores e atividade científica (Discurso, 1998), ele observa que: [...] Num sentido importante, é parte da natureza humana controlar a natureza. O que é distintivo no controle realizado a partir da modernidade é sua extensão, preeminência e centralidade em nossas vidas, o valor superior e virtualmente não subordinado que assume e os esforços intensos para expandir e implementar nossa capacidade de exercê-lo [...] Exercemos controle sobre os objetos quando os submetemos deliberadamente e de um modo bem sucedido ao nosso poder e os utilizamos como meios para os nossos fins. [...] Nenhuma explicação metafísica “profunda” do sucesso da tecnologia é necessária, apenas que o mundo tem se mostrado receptivo às formas de apreensão conduzidas pela estratégia materialista, uma apreensão que progressivamente nos habilita a identificar um número cada vez maior de suas possibilidades materiais [...] Segue-se desta análise que não há boas razões para aceitar que a pesquisa conduzida pelas estratégias materialistas produza um entendimento do mundo tal como ele é – em lugar disso, ela produz um entendimento do mundo sob a perspectiva do valor social de controle da natureza. [...] A presença real da teoria nas ciências humanas pode representar não a redução bem sucedida, mas o sucesso em suprimir o que é caracteristicamente humano (por exemplo, as práticas comunicativas ou a ação informada por deliberação pessoal) em certos espaços por meio da introdução bem-sucedida de controles sobre o comportamento humano – ou seja, por meio da criação de espaços em que os agente humanos comunicativos se tornam, por causa dos limites, opções e controles dos espaços, objetos sujeitos a controle.

LIVROS & PAPEL DE PAREDE – [...] Em casa, eu costumava brincar sozinho no quarto das crianças. Na verdade, brincava pouco, pois me dedicava a falar com o papel de parede. O padrão do papel de parede, com muitos círculos escuros, me parecia gente. Inventava histórias em que eles intervinham, ou lhes contava histórias, ou brincava com eles; nunca me cansava das pessoas do papel de parede, e podia me distrair com elas durante horas. Quando a governanta saía com meus dois irmãozinhos, me agradava ficar só com aquelas figuras. Preferia sua companhia a qualquer outra, em todo caso mais do que a dos irmãozinhos, que sempre provocavam tolas complicações, como as traquinices de Nissim. Quando os pequenos estavam por perto, eu só sussurrava com as pessoas do papel de parede; se a governanta estava presente, contava minhas histórias a mim mesmo, sequer movendo os lábios. Mas quando saíam do quarto, eu esperava um pouco e então me abandonava. Logo começava a animação, que era grande, pois tentava persuadir os personagens do papel de parede a empreenderem feitos heróicos, manifestando-lhes meu desprezo quando se recusavam. Eu os incitava; sentia um certo medo de estar a sós com eles, mas tudo eu atribuía a eles, de maneira que eram eles os covardes. Mas eles também me acompanhavam nos jogos e tinham oportunidade de se manifestarem. Havia um círculo, num lugar especialmente vistoso, que me retrucava com eloqüência própria, e não era uma vitória nada desprezível quando conseguia convencê-lo. Estava no meio de uma dessas altercações quando a governanta inesperadamente voltou e ouviu vozes no quarto das crianças. Entrou de improviso e me apanhou em flagrante, descobrindo o meu segredo; desde então, tive de acompanhá-los nos passeios, pois concluíram que a solidão não me fazia bem. Foi o fim da era de esplendor do papel de parede, mas, persistente, acostumei-me a construir minhas histórias em silêncio, ainda com meus irmãozinhos presentes no quarto. Eu conseguia brincar com eles e ao mesmo tempo com os personagens do papel de parede. Apenas a governanta, que assumira a missão de curar-me dessa tendência maníaca, conseguia paralisar-me, e em sua presença as figuras emudeciam. [...] Comentava com meu pai cada um dos livros que lia. Às vezes ficava tão excitado que ele tinha de me acalmar. Mas nunca me disse, à maneira dos adultos, que os contos eram mentira; sou-lhe especialmente grato por isso; talvez ainda hoje eu os considere verdadeiros. [...]. Trechos de Papel de parede e livros: Passeio à margem do Mersey, extraído da obra A língua absolvida: história de uma juventude (Companhia das Letras, 1987), do escritor e ensaísta búlgaro e Prêmio Nobel de Literatura de 1981, Elias Canetti (1905-1994). Veja mais aqui e aqui.

COISA BOA - Coisa boa / é empinar pipa no pasto. / Para não se perder no infinito, / o olhar se prende no rastro colorido / que o rabo da pipa pinta no céu. / A pipa é só um pontinho / lá longe / em cima da linha do horizonte. / Coisa boa / é a hora do banho / pra eu me fazer de marinheiro / e transformar em mar / a água do chuveiro. / Rodo vira remo, / tapete vira barco, / e o banheiro... / fica um charco! / Coisa boa / é correr atrás / de uma galinha-d’angola. / Ela diz que está fraca, / mas dá uma baita canseira. / Parece que joguei bola / a manhã inteira! / Coisa boa / é descansar num tapete macio / de folhas e grama. / Mastigar um talo de cana, / ouvindo o uivo do vento / e o burburinho do rio. Poema do poeta, ensaísta, jornalista e tradutor José Paulo Paes (1926-1988). Veja mais aqui.




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