domingo, outubro 26, 2008

CANETTI, ALEJANDRA PIZARNIK, VYGOTSKY, HEINRICH FÜSSLI, CORPO & BELEZA, DI MOSTACATTO & LITERÓTICA


A arte do pintor suíço Johann Heinrich Füssli (1741-1825).

LITERÓTICA: MINISSAIA – Naquela manhã ela chegara com o sol na carne. Não fosse aquela minissaia, por certo, nada teria acontecido fora do normal. Mas aconteceu. Tudo por causa da irradiação sedutora que exalava daquela candura de gente naquele momento mais encantador no tope da poesia de sua própria emanação. De fato ela chegara, como de costume, para alegrar a vida dos que ali se enfurnavam por anos na labuta intragável. Eu mesmo, desde que ela fora admitida na repartição, que fui contemplado por uma motivação nunca dantes sentida, para, ali, estar arduamente todos os dias. Mas naquele dia ela passara da conta. Por certo, não fosse aquela minissaia o mundo jamais seria o mesmo e eu jamais teria ousado além da minha timidez. É certo também que não havia quem não lhe dedicasse atenção. Muito menos quem não lhe acenasse simpatia, não lhe quisesse com afeto e ternura. Isso porque ela sempre fora a figura encantadora que envolvia as pessoas com a magnitude de sua gentileza e carinho. Todos, sem exceção alguma, todos, inclusive os chatos de galocha, os superiores necrófilos, os misóginos enrustidos, todos adoravam aquele seu jeito doce de ser: uma lindeza fora do comum. Verdade. E naquele dia, realmente, ela passara da conta. Tudo por causa de uma minissaia. Se já se flagrava dela uma boniteza acima do usual e que perfumava o ambiente de trabalho, que coloria as horas mórbidas da rotina, incendiava os ânimos mais enterrados, iluminava a vontade de viver recôndita na carestia, tudo isso e ainda mais futucava paixões remotas em seres embrutecidos. Nossa, era demais mesmo. Réu confesso, eu posso dizer que já era um dos mais agudos sujeitos afeiçoados por tudo que ela representava de lindo, de sedutor, de apaixonante, de maravilhoso além do limite de todas espetacularidades concebidas. A tal ponto de sua mínima aproximação provocar o mais louco descontrole em mim. Nossa, cada vez que ela chegava ao meu lado, tudo revolucionava. E reitero que eu mesmo não me continha e logo procurava esconder a tesão que se insinuava no meu membro, deixando-me atordoado com tanta sedução ali imantando todo o meu desejo. Tanto é que se há uma palavra que possa legitimar toda singularidade da sua beleza, confesso que não há como se definir num único termo, pois o que há de fantástico, o que se der por extraordinário, o que se mensurar por insuperável, ali, naquela pessoa, reduzia-se ao simplesmente magnífico jeito de ser próximo da imortalidade cândida dos contemplados da magnitude dos deuses. Foi tanta sedução que não resisti cobiçar tudo além daquela blusinha de alça coladinha no tronco, delineando-lhe os apetitosos seios com ductos salientes acedendo a minha libido. Com o umbigo exposto no centro da estonteante plataforma corporal que dava na sugestão de uma mina púbica para lá de farta e coberta por uma minissaia que guardava apenas o necessário para insinuar a revelação mais esplendorosa de todas as missões iniciáticas. Ah, tudo estonteantemente muito devastador, desde os pés de uma delicadeza aconchegante, das pernas torneadas a convidar passos no mundo de todas as lonjuras, coxas de pele acetinada a dar com o limite na minissaia junto ao encontro delas para realçar-lhe toda sedução que começava no olhar querente incendiando todos, nos lábios de Angelina Jolie, no rosto angelical de Mônica Bellucci, ah quanta loucura prestes a explodir. Foi quando a tarde veio no meio da loucura e na impossibilidade de conter as amarras, recorri dela para me acompanhar nos afazeres externos, ao que fiquei feliz com sua aquiescência. - Que legal, estava precisando de uma carona para resolver umas coisinhas. E o melhor: vai dar certinho no seu itinerário! Nossa, que coincidência, havia algo de diabólico no ar para dar tão certo, ao passo que sempre dera tudo errado para minha banda. Pé na taboa, a oportunidade não se perdera. Ela entrou com jeito top model no assento dianteiro da kombi, ao meu lado, mostrando logo a pontinha de sua calcinha branca que insinuava toda gostosura protegida, enquanto eu me denunciava com o boticão de olho naquela deliciosíssima fonte sob mil e uma peripécia comendo no centro do meu cérebro enlouquecido com o cenário mais altissonante de todas as cenas luxuriosas que se possam existir. Evidentemente que ela percebera a minha fixação no seu tufo desejoso como se ali residisse todo segredo da botija de seu corpo. E esse flagra surtiu efeito e ela parece que mais desleixava um jeito para lá de conivente com a minha volúpia, gesticulando mais que sempre, ajeitando o decote da blusa, apertando mais a minissaia já colada, minúscula e rente a tudo que houvesse de maravilhoso no mundo. Ah. E sorria um riso largo com tudo que eu inventasse dizer naquela hora para que eu me deliciasse com ela cada vez mais linda e acessível, combinação perfeita. Mãos bobas, lábios errantes cruzando o triz, perna roçando perna, tudo timidamente insinuando entregas de carícias aqui e ali, descompromissados dos afazeres, ela indo e vindo no turbilhão de ânsias, tudo se confundindo de vitalidade, luxúria e estertor. No meio desse bombardeamento, respiramos molhando o íntimo de nossos quereres enquanto uma cerveja apaziguava os queimores instantâneos na garganta, ao passo que nos revelava efusivos, largados, despojados e eu levitando no close da sua intimidade cada vez mais exposta para o meu regalo exploratório. Sei que nos aboletamos nalgum lugar em uma das mesas mais afastada dali e ficamos bebericando enquanto eu mergulhava no seu olhar e nadava nas ondas mais movediças dos maremotos mais ruidosos. Eu viajava no som da sua fala como que embalado pela ária mais etérea de encantamento humano. Eu bordejava pelas curvas do seu rosto e me despencava na geografia do seu corpo como o cosmonauta mais insone de todas as galáxias. Ao perceber todo meu encantamento, ela passou-me as mãos pelos olhos e me disse: - Acorda! Tomei um susto. Evidente que ela havia percebido que eu estava enfeitiçado. Não se fez de rogada, trouxe-me seu copo à boca, bebi e senti-lhe a primeira ponta do sabor. - Gostou? -, perguntou-me. - Adorei seu sabor. - Ah, é? Então ali os seus lábios enleavam a dança na rotação do meus sentidos que se seguravam na translação iridescente da sua nudez que suguei como quem apetece o mel de sua alma de abelha-mestra. E percorri seus seios à beça com a minha boca sedenta que baldeou sua imensidão despudoradamente com todas as carícias do meu ser rijo a transgredir sua saia e correndo o risco de alcançar o interior da calcinha que vai escondendo a diáfana gruta de veludo que me captava com bruscos movimentos de suas pernas errantes e quadris indomáveis a me lambuzar com a vontade gigantesca do seu prazer no que há de mais alvino e saboroso para o apetite nas encostas da caverna mais deliciosamente abocanhada para me fartar domador de feras na rota austral do encontro piaçabuçu de sua íntima rede potâmica, quando vou pistão lubrificado pelo carter da sua cambota, imergindo na sua câmara de combustão até o escape com toda força de tração para o apogeu de nossas almas incendiadas. Ali nos agarramos um ao outro com beliscões ousados, mordiscantes gestos, todos os puxavanques carinhosos de remexidos cambaleantes e agarramentos famintos a nos esfregar na sacada do prédio, a nos desnudar na penumbra do quarto e a nos curtir com a loucura do trânsito que é onda de mar onde surfamos traquinos até que vençamos a última instância do nosso gozo irrefreável a quedarmos vencidos um na premência do outro. O mundo rodou com a nossa querência. Era bom demais para ser desastroso. Não conseguia largar de mim nem dela naquela loucura de redemoinho delicioso. Éramos retirados dos escombros ainda enlevados por tudo e levados para observação médica. Nosso olhar se cruzou e ela, delirantemente, me sussurrou: - Não dá para perceber nada na vida além... - Não dá mesmo -, concordei. A kombi fora dada com perda total. Nós dois incólumes do acidente estávamos mais que levados pela luxúria da nossa entrega. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOS - O aprendizado humano pressupõe uma natureza social específica e um processo pelo qual a criança cresce para a vida intelectual daqueles que estão ao seu redor. Pensamento do cientista e psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934). Veja mais aqui.

O CORPO & BELEZA NA ATUALIDADE – [...] Vivemos hoje sob uma ditadura do corpo, se você não está dentro de um tipo determinado, será um excluído social. Pessoas querem a todo custo se adaptar aos padrões reinantes, e visando um resultado rápido recorrem a grandes cirurgias de correção e implantes, em processos que muitas vezes submetem o paciente a diversos tipos de procedimento em uma só cirurgia. A cirurgia plástica não é uma cirurgia no corpo, mas no cérebro. Modifica-se a personalidade da pessoa com o bisturi. [...]. Trecho extrado de Ditadura da beleza: Epistemo-somática (Belo Horizonte, 2006), de Jorge Antonio de Menezes.

JUVENTUDE & LINGUAGEM – [...] Meu pai lia diariamente o Neue Freie Presse, e era um grande momento quando ele desdobrava lentamente seu jornal. Depois que começava a ler, não tinha mais olhos para mim, eu sabia que ele não me responderia de modo algum, minha própria mãe não lhe perguntava nada nesse momento, nem mesmo em alemão. Eu procurava saber o que esse jornal podia ter de tão atraente; no início, pensava que era seu odor; quando estava sozinho e ninguém me via, eu subia na cadeira e cheirava avidamente o jornal. Apenas mais tarde, percebi que a cabeça de meu pai não parava de se mexer ao longo de todo o jornal; fiz o mesmo, nas suas costas, enquanto brincava no chão, sem nem mesmo ter sob os olhos, portanto, o jornal que ele segurava com as duas mãos sobre a mesa. Um visitante entrou uma vez de imprevisto e falou então comigo, antes mesmo de atender o visitante, explicando-me que se tratava das letras, todas as letrinhas ali, e bateu em cima delas com o indicador. Vou ensiná-las eu mesmo para você, logo, acrescentou, despertando em mim uma curiosidade insaciável pelas letras. [...]. Trecho extraído da obra História de um jovem, a linguagem salva (Albin Michel, 1980), do escritor e ensaísta búlgaro e Prêmio Nobel de Literatura de 1981, Elias Canetti (1905-1994). Veja mais aqui e aqui.

TRES POEMAS - SOMBRAS DOS DIAS QUE VIRÃOAmanhã / me vestirão com cinzas na aurora, / me encherão a boca de flores / Aprenderei a dormir / na memória de um muro, / na respiração / de um animal que sonha. OS PASSOS PERDIDOS - Antes foi uma luz / na minha linguagem nascida / a poucos passos do amor. / Noite aberta. Noite presença. A CARÊNCIA - Não sei sobre pássaros, / não conheço a história do fogo. / Mas creio que minha solidão deveria ter asas. Poemas da escritora argentina Alejandra Pizarnik (1936-1972).

 A arte do pintor suíço Johann Heinrich Füssli (1741-1825).


MUSA DA SEMANA: DI MOSTACATTO – a cantora e compositora carioca Di Mostacatto, começou a cantar aos quinze anos e dedicou-se, a partir disso, aos estudos de teoria musical e canto.

Foi vencedora do FAMPOP, de Avaré, São Paulo, e do FAMA, em Alegre, no Espírito Santo. Também no Cantagosto, de Formiga, Minas Gerais, no Festival de Ilha Solteira, em São Paulo e chegou a ser a melhor intérprete no Canto da Lagoa, em Encantado, no Rio Grande do Sul.

Gravou jingles, participou do coro em vários discos e shows de artistas, trabalhou com publicidade e em participações de festivais, ampliando sua bagagem e construindo uma trajetória sólida de voz, canto e sons dignos de nota.

O seu primeiro cd “Di Mostacatto”, foi lançado em 2000, realizando show em diversas cidades brasileiras.

Lançou também “Best Seller”, com a maioria de suas composições e parcerias.

Ela persegue a sua estrada e merece todo o nosso aplauso. Aqui, a nossa homenagem para esta linda e maravilhosa cantora e compositora, Di Mostacatto.


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MUSA DA SEMANA




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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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HUMBERTO MATURANA, SAMANTA SCHWEBLIN, NÚRIA AÑÓ & LÍVIA FALCÃO

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