segunda-feira, outubro 13, 2008

SHAKESPEARE & BACON, PAMELA TRAVERS, NABOKOV, KAREN BLIXEN, QORPO SANTO, JESSICA LANGE & LITERATURA DE CORDEL


A arte da premiadíssima atriz estadunidense Jessica Lange. Veja mais aqui.

TEATRO SHAKESPEREANO – Já tratei exaustivamente por aqui a respeito do teatro shakespereano. Deveras, o poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1564-1616) faz parte da História do Teatro. Entre suas obras, já fiz constar no blog algumas de peças, entre elas A comédia dos erros (1594), Sonho de uma noite de verão (1590), Romeu e Julieta (1591), Hamlet, o príncipe da Dinamarca (1609), A tempestade (1611), As alegres matronas de Windsor (1602, aqui e aqui), A megera domada (1594) e os Sonetos. Oportunamente trarei mais das suas obras para apreciação e trechos. Uma curiosidade que gostaria de aventar é a de que Shakespeare e suas obras são criações do filósofo, cientista e proeminente personalidade britânica, Francis Bacon (1561-1626), em conformidade com estudos realizados e que vieram à tona para elucidação do fato. Do dramaturgo destaco: Ser grande, é abraçar uma grande causa. A paixão aumenta em função dos obstáculos que se lhe opõem. Das leituras feitas, tantas outras releituras, ainda, pretendo realizar.


DITOS & DESDITOS - Somos todos feitos da mesma matéria, lembre-se, nós da Selva, vocês da Cidade. A mesma substância nos compõe, a árvore logo acima, a pedra debaixo de nós, a feiura, a beleza. Somos um só, todos rumando para o mesmo final. Lembre-se disso, mesmo quando você não se lembrar mais de mim, minha criança. Pensamento da escritora, atriz e jornalista australiana Pamela Lyndon Travers (pseudônimo de Helen Lyndon Goff – 1899-1996).

ALGUÉM FALOU: Tinha sido amor à primeira vista, à última vista, às vistas de todo o sempre. Pensamento do escritor russo Vladimir Nabokov (1899-1977). Veja mais aqui e aqui.

A FESTA DE BABETTE – [...] Não mais pensava em seus sofrimentos, mas brilhava no reflexo da glória da jovem discípula, e com sua atitude autoritária e poderosa afirmava o fato de que havia criado, e de que ela era dele. [...] conseguira tudo o que almejara na vida e era admirado e invejado por todos. Somente que ele tinha conhecimento de um fato esquisito, que trazia inquietação à sua próspera existência: o de que não era perfeitamente feliz. Alguma coisa estava errada em algum lugar e ele cuidadosamente apalpava o próprio eu espiritual aqui e ali, assim como alguém aperta com o dedo para determinar o local de um espinho profundamente encravado, invisível. [...] Um grande grito sai da alma do artista, deêm-me a oportunidade de fazer o meu melhor [...]. Trechos da obra Festa de Babette e outras histórias do destino (Asa, 1995), da escritora dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962). Veja mais aqui.

HOJE SOU UM, E AMANHÃ OUTRO – [...] MINISTRO - Primeiramente,saiba V.M. de uma grande descoberta no Império do Brasil, e que se tem espalhado por todo o mundo cristão, e mesmo não cristão! Direi mesmo – por todos os entes da espécie humana! O REI (muito admirado) – Oh! Dizei; falai! Que descobriram – é erro!? MINISTRO - É cousa tão simples, quanto verdadeira: 1a. – Que os nossos corpos não são mais que os invólucros de espíritos, ora de uns, ora de outros; que o que hoje é Rei como V.M. ontem não passava de um criado, ou vassalo meu, mesmo porque senti em meu corpo o vosso espírito, e convenci-me, por esse fato, ser então eu o verdadeiro Rei, e vós o meu Ministro! Pelo procedimento do Povo, e desses a quem V.M. chama conspiradores – persuadi-me do que acabo de ponderar a V.M. 2a. Que pelas observações filosóficas, este fato é tão verídico, que milhares de vezes vemos uma criança falar como um general; e este como uma criança. [...]. Trecho da peça teatral Hoje sou um e amanhã outro (UFRGS, 1969), do dramaturgo, escritor e jornalista brasileiro José Joaquim de Campos Leão, mais conhecido como Qorpo Santo (1829-1883). Sua obra foi e ainda continua sendo estudada, exemplo da edição de Os homens precários – inovação e convenção na dramaturgia de Qorpo-Santo (A Nação/INL, 1975) e Antologia do teatro brasil (Senac, 1998), ambos de Flávio Wolff; As relações naturais: três comédia (Mercado Aberto, 1998), selecionadas por Marcelo Backes; Teatro Completo (UFRGS, 1969); Qorpo-Santo – Poemas (Contra Capa, 2000); Qorpo-Santo: surrealismo ou absurdo (Perspectiva, 1998), de Eudinyr Fraga; O moderno teatro de Qorpo-Santo (UFMG/UFOP, 1991), de Leda Maria Martins; e Qorpo-Santo: universo do absurdo (Colégio Pedro II, 1983), de Hélcio Pereira da Silva. Veja mais aqui e aqui.


EMISSÁRIOS DO INFERNO NA TERRA DA PROMISSÃO

Gonçalo Ferreira da Silva

Nunca o mundo ocidental
na atual geração
tinha esbugalhado os olhos
com tanta estupefação
como ao ler este poema
que se encontra em sua mão.
Rufino Dias Mesquita
algo longe refletia
porém era muito grosso
pra sentir a poesia
que emanava de tudo
que na fazenda existia.
Pedro era o primogênito
do velho casal Mesquita
o segundo Salomão
a terceira Isabelita
serpente que completava
aquela prole maldita.
O velho Rufino tinha
esquisita envergadura
por pouco mais ou por nada
submetia à tortura
um filho se não o visse
com peixeira na cintura.
Voando chispas de ódio
exclamava enfurecido:
– Andar sem armas é o mesmo
que andar desprotegido
pois o homem sem peixeira
é moralmente despido.
A cabra velha dizia:
– Bata neles, não se amoque,
ficando grandes arrancam
antes que você os toque
seu cavanhaque com os cacos
do seu próprio corrimboque.
No entanto Salomão
ao pai e a Pedro dizia:
– Não gosto de andar armado
para mostrar valentia
a arma esconde somente
nossa grande covardia.
Disse Rufino com ódio:
– Olha maldito pixote
eu não vou ficar ouvindo
falar miolo-de-pote
vai receber a resposta
na ponta do meu chicote.
Aí levantou o braço
ameaçadoramente
e descarregou um golpe
tão duro e tão contundente
que Salomão emitiu
um grito agudo, estridente.
E Salomão percebendo
o seu pescoço ferido
elevou a mão direita
ao pé do seu próprio ouvido;
sentiu mais dor no orgulho
que no local atingido.
Porém quando viu Rufino
novamente o braço erguer
disse para o pai: — Não tente
segunda vez me bater
porque não teria tempo
sequer de se arrepender.
Tais palavras foram ditas
com tanta força moral
que Rufino reprimindo
o choque emocional
desceu lentamente o braço
à posição vertical.
Girou sobre os calcanhares
exibindo ao filho as costas;
não esperando do outro
nem revide nem respostas
ambos saíram dali
para direções opostas.
Salomão no seu reduto
ficou muito pensativo
nunca o chicote do pai
fora tão inofensivo
se havia milagre, um deles
era encontrar-se vivo.
Para Isabelita e Pedro
Rufino estava dizendo:
– Há coisas em Salomão
que eu morro e não entendo
hoje tive de esforçar-me
para não ficar tremendo.
Isabelita lhe disse:
– Você de fato está roxo
mas não pense por favor
que Salomão é o coxo
se você não o matou
é porque é muito frouxo.
O velho quis revidar
porém ficou sem ação
porque sua esposa disse:
– A menina tem razão
guarde a sua valentia
para enfrentar Salomão.
Clara chamava-se a velha
de brutalidade rara
tinha torpe o pensamento
a alma negra, ignara
mas justificava o nome
porque tinha a pele clara.
A atitude tomada
pelo jovem Salomão
foi a de dali pra frente
nem mesmo do seu irmão
não aceitar mais calado
nenhuma provocação.
Lembrou que Pedro lhe dera
tantas surras na cidade
justamente na presença
de jovens da sua idade
agora teria o troco
bastava oportunidade.
Já tinha dezesseis anos
idade suficiente
para um rapaz no sertão
pensar e agir livremente
e ter personalidade
totalmente independente.
O ódio que a família
nutria por Salomão
era tão indisfarçável
que em dada ocasião
mandaram-no ir embora
sem qualquer contemplação.
Mas por ser pequeno ainda
resignou-se em ficar
até o dia em que o pai
certamente sem pensar
que ele já estava grande
quisera lhe castigar.
No povoado até mesmo
a família de Custódio
já tinha conhecimento
daquele estranho episódio
como os pais tinham ao filho
vil e rancoroso ódio.
Enquanto Pedro tomava
um tronco no bar do Sena
Salomão com a namorada
retornava da novena
e passou em frente ao bar
ao lado de sua pequena.
Era Madalena filha
de Custódio de Alencar
e quando se aproximavam
daquele maldito bar
viram o perigo velado
que não podiam evitar.
Infelizmente não foi
somente pressentimento
pois quando passavam em frente
ao estabelecimento
a voz de Pedro Mesquita
lhes disse grave: — Um momento.
Salomão parou de chofre
mas disse à sua querida:
– Eu tenho de evitar
de tornar-me um fratricida
porque seria estragar
o resto da minha vida.
Salomão falou a Pedro:
– Homem deixe de besteira
em troca de tais palavras
recebeu uma rasteira
e risos porque caiu
numa posição grosseira.
Antes que se levantasse
recebeu novas pernadas
caiu outra vez ouvindo
um coro de gargalhadas
já tinha a roupa rompida
e as costas ensangüentadas.
Pedro no entanto teve
a desconsideração
de não avaliar bem
a força de Salomão
disposto a vender bem caro
mais aquela humilhação.
E Salomão ao erguer-se
já tinha um golpe estudado
que se fosse com sucesso
em Pedro bem aplicado
o deixaria certamente
muito desmoralizado.
Assim quando Pedro quis
nova pernada aplicar
Salomão pegou a perna
do irmão em pleno ar
este arrebentou os dentes
no piso duro do bar.
O golpe foi aplicado
com precisão estupenda
quando os circunstantes viram
Pedro perdendo a contenda
houve um sepulcral silêncio
que tomou conta da venda.
Enquanto Pedro continha
a sua ira impotente
Salomão lhe disse: — Nunca
me insulte publicamente
e saiu com a namorada
despreocupadamente.
Na divisa das fazendas
de Custódio e de Rufino
Pedro amanheceu morto
por um estranho assassino
que mudou radicalmente
de Salomão o destino.
Pedro estava realmente
ali na relva estendido
pois nele um tiro certeiro
tinha sido desferido
certamente o assassino
tinha desaparecido.
Coisas do não-sei-que-diga
porque a realidade
é que Salomão e Pedro
duelaram na cidade
Salomão teria portanto
toda culpabilidade.
Foi Madalena quem viu
Pedro estendido no chão
conquanto ainda reinasse
a total escuridão
saiu apressadamente
para avisar Salomão.
Salomão pensando na
má receptividade
que teria em sua casa
ao retornar da cidade
dormiu ao pé da cancela
com muita emotividade.
Foi ali que Madalena
encontrou seu namorado
foi logo dizendo a ele:
– Pedro foi assassinado
fuja imediatamente
se não quer ser condenado.
No peito de Salomão
reinava um coração nobre
portanto estimava a Pedro
de sentimento tão pobre
– Eu fugindo o assassino
de Pedro ninguém descobre.
– … Além do mais – concluiu
fugir dá mal resultado
pois nosso duelo foi
por todos presenciado
assim todos pensarão
que sou de fato culpado.
– O que você diz é certo
mas não há outra saída
porque a sua família
vai ficar enfurecida
que você dificilmente
continuaria com vida.
Salomão não tinha mesmo
tempo para refletir
apesar de não achar
ser elegante partir
o caminho mais prudente
que encontrou foi fugir.
No lugar em que o Sol
se ergueria radiante
o céu estava pintado
de ouro naquele instante
a moça viu o rapaz
desaparecer distante.
Quando a fazenda acordou
no natural reboliço
cada um com sua enxada
se dirigia ao serviço
notaram além de Rufino
dos rapazes o sumiço.
Rufino chegou dizendo:
– Pedro esteve a noite inteira
farreando na cidade
com uma vil cabroeira
despertou morto no campo
de vegetação rasteira.
Alguém que vinha chegando
com um cabresto na mão
disse: — Pedro, na cidade
duelou com Salomão
sendo humilhado com vaias
ao ser lançado no chão.
Todos se olharam num misto
de tristeza e de rancor
porque ficara tão claro
daquele crime o autor
o inquieto Rufino
sentia ódio e pavor.
Pavor que ele no entanto
sabia dissimular
fagulhas de intenso ódio
se lia no seu olhar
pois algo muito secreto
ele tinha que ocultar.
Um grupo de homens rudes
por Rufino liderado
foi ao local onde Pedro
tinha sido assassinado
trazer o corpo pra ser
na casa grande velado.
Como se aquele cadáver
pudesse ouvir sua voz
Rufino fitou o corpo
dizendo num tom feroz:
– Serei pra quem te matou
o mais desumano algoz
Porém tais palavras eram
ocas de convicção
pois não reuniu os cabras
para uma perseguição
ficou ruminando o ódio
mas sem tomar decisão.
Vamos tentar encontrar
Salomão neste momento
e até mesmo mergulhar
no seu próprio pensamento
por ser ele na história
quem dá vida e movimento.
Bem antes que o crepúsculo
trouxesse o sol matutino
Salomão já galopava;
conquanto sem ter destino
já estava a várias léguas
da fazenda de Rufino.
Embora o sensato fosse
realmente ter fugido
algo conciliador
dizia no seu ouvido
que ficasse sossegado
que não seria perseguido.
Ao cabo de meia lua
de andança ininterrupta
Salomão parou ao pé
de uma montanha abrupta
e pensou em sua família
vil, traiçoeira e corrupta.
Tudo ficará pra trás
ali se sentia seguro
pois não seria perseguido
pensaria no futuro
pois seu passado foi negro
infame, padrasto e duro.
Conversou com o cavalo
antes de pegar no sono
e este compreendendo
o pensamento do dono
respondeu equinamente:
“Eu morro e não te abandono.”
E mergulhando no tempo
vamos achar Salomão
transpondo a Ibiapaba
passando por Boqueirão
um abismo tão profundo
de gelar o coração.


GONÇALO FERREIRA DA SILVA - Gonçalo Ferreira da Silva (Ipu CE 1937). Publicou seu primeiro livro, a coletânea de contos Um Resto de Razão, em 1966, mesmo ano em que foi lançado seu primeiro folheto de cordel, Punhos Rígidos. Entre 1963 e 1978 foi funcionário da Rádio Ministério da Educação, no Rio de Janeiro RJ. Cursou Letras na PUC/RJ, entre 1970 e 1973. Trabalhou como redator do jornal A Voz do Nordeste e da revista Abnorte-Sul entre 1980 e 1988. É um dos fundadores da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, da qual foi presidente no período de 1988 a 1996. É membro de várias academias de letras estaduais, entre elas a do Rio de Janeiro, para a qual foi eleito em 1996. Gonçalo Ferreira da Silva é autor de poemas como Meninos de Rua e a Chacina da Candelária, vertido para o francês por Jean Louis Christinat, e Mahatma Gandhi, traduzido para o inglês por Manoel Santa Maria. Segundo o crítico Gilmar de Carvalho, "poeta dos mais férteis e inspirados, Gonçalo Ferreira da Silva exerce uma inconteste liderança entre os cordelistas radicados no Rio de Janeiro.".Veja mais o autor acessando: http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/GoncaloFerreira/goncaloFerreira.html

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