A SOLIDÃO DE NARCISA, A POETA DOS LIVRES… - Nascida em São João da Barra, aquela bela Ariana,
filha de poeta e duma professora, falava latim e francês, aprendendo retórica
com seu pai. Logo mudou-se para Resende e lá, ainda adolescente, se casou com
um artista mambembe. Não durou muito, separando-se. Ganhava, a partir de então,
a pecha de mulher separada. Refez-se e logo se ocupou em traduzir George Sand e
outros autores franceses. Traduziu não só contos, como também ensaios, até os
estudos do paleobotânico Gaston de Saporta. Veio, então, o Segundo casamento e,
pouco tempo depois, nova separação acompanhada de boatos nada alvissareiros. Aumentava
o peçonhento estigma de mulher separada, sendo fortemente difamada. Manteve-se
firme e publicou seu livro de poemas Nebulosas, com tanto sucesso e a
ponto de ser elogiado tanto por Machado de Assis, como pelo Pedro II. Lá estavam
seus versos exaltando a natureza, a patria e as lembranças da infância, além de
poemas intimistas, femininos e de cunho social na defesa da abolição da
escravatura. Por este livrou foi premiada com a Lira de Ouro e, em seguida, o
prêmio da Mocidade Acadêmica do Rio de Janeiro. Mas o seu sucesso não veio
sozinho e, com ele, tanta inveja nos ex-maridos, sendo atacada por eles com
difamações horrendas, inclusive, a acusação de que não era autora dos seus
poemas. Seguiu adiante contribuindo com o Novo Almanaque de Lembranças, fundando
o Gazetinha – folha dedicada ao belo sexo, um pequeno jornal quinzenal,
suplemento do Tymburitá. Manteve-se corajosamente em sua atividade, sensível
erudita engajada com as questões humanitárias e o universe feminino. Por fim, cansada
de tantos e sucessivos ataques, exilou-se voluntariamente em São Cristóvão,
abandonando a literatura, dedicando-se exclusivamente à prática de magistério. Assim
envelheceu pobre, com problemas de mobilidade, cega e esquecida, de nem se dar
conta do desaparecimento definitive da poeta dos livres. Veja mais abaixo e
mais aqui & aqui.
DITOS & DESDITOS - Eu
diria à mulher inteligente molha a pena no sangue do teu coração e insufla nas tuas
criações a alma enamorada que te anima. Assim deixarás como vestígio
ressonância em todos os sentidos... Pensamento da poeta, tradutora e jornalista Narciza
Amália de Campos (1852-1924), que na sua crônica A mulher no
século XIX (Democratema, 1882), expressou que: [...] A educação da
mulher! Mas tem a mulher por acaso necessidade de ser educada? Para quê?
Cautela! A mulher representa o gênio do mal sob uma forma mais ou menos
graciosa e cultivar a sua inteligência seria fornecer-lhe novas armas para o
mal. Procuremos antes torná-la inofensiva por meio da ignorância. Guerra, pois,
à inteligência feminil! Eis a palavra do século passado. O que diria a idade de
ouro da selvageria, quando o homem tinha o direito de vida e de morte sobre a
sua companheira? Quando a mulher carregava-lhe a bagagem na emigração, a
antílope morta – na caçada e roía os ossos em comum com os cães? Desprezada,
embrutecida, castigada e vendida, a mísera arrastava o longo suplício de sua
existência até que a morte viesse libertá-la e a pá de terra levantasse entre
ela e o seu opressor uma eterna barreira. Nada há que justifique essa
tenaz perseguição da mulher; e entretanto foi perpetuada de século a século! Na
Ásia, de rosto sempre velado, ignorante e submissa como um cão,
trabalhava, comia e chorava à vontade do senhor, sem que uma palavra de
simpatia jamais lhe dilatasse o coração; na Índia, levavam-na mais longe:
atiravam-na à fogueira no dia em que lhe expirava o marido! Em Babilônia era
vendida em praça pública; em Esparta, escolhida ao acaso; em Atenas,
circunscrita nos gineceus. Batida, aviltada e corrompida pelo homem, a mulher
romana, por sua vez, bate, avilta e corrompe o homem no filho. [...]. É
autor do poema Perfil de escrava:
Quando os olhos entreabro à luz que avança, \
Batendo a sombra e pérfida indolência,\ Vejo além da discreta transparência \ Do
alvo cortinando uma criança. \ Pupila de gazela - viva e mansa,\ Com sereno
temor colhendo a ardência\ Fronte imersa em palor...Rir de inocência,\ Rir que
trai ora angústia, ora esperança...\ Eis o esboço fugaz da estátua viva,\ Que -
de braços em cruz - na sombra avulta\ Silenciosa, atenta, pensativa! \ Estátua?
Não, que essa cadeia estulta\ Há de quebrar-se, mísera, cativa,\ Este afeto de
mãe, que a dona oculta!.
ALGUÉM FALOU: O poder de uma mente livre consiste em confiar em sua própria mente para
fazer as perguntas que precisam ser feitas e em sua própria capacidade de
descobrir as estratégias que você precisa para obter respostas a essas
perguntas. Com o tempo, isso requer a construção de comunidades que tornem esse
tipo de trabalho intelectual e político possível… O conhecimento sem sabedoria é adequado para os poderosos, mas a
sabedoria é essencial para a sobrevivência dos subordinados… Opressão
descreve qualquer situação injusta em que, sistematicamente e durante um longo
período de tempo, um grupo nega a outro grupo o acesso aos recursos da
sociedade… Pensamento da socióloga estadunidense Patricia Hill
Collins, autora da obra Black Sexual Politics:
African Americans, Gender, and the New Racism (Routledge, 2006), no qual expressou que: [...] A mente
do homem e a mente da mulher são as mesmas, mas esse negócio de viver faz com
que as mulheres usem suas mentes de maneiras que os homens nem precisam pensar.
[...] sob
a ideologia daltônica do novo racismo, a negritude deve ser vista como
evidência da alegada cegueira de cor que aparentemente caracteriza a
oportunidade econômica contemporânea. [...] Assim, a ideologia de
gênero não só cria ideias sobre feminilidade, mas também molda concepções de
masculinidade. […] Grupos privilegiados
rotineiramente assumem que todos os americanos merecedores vivem em moradias
decentes, frequentam escolas seguras com professores atenciosos e serão
recompensados por seu trabalho duro com
oportunidades de faculdade e bons empregos. Eles acreditam que negros e latinos
indignos que permanecem presos em cidades do interior em deterioração recebem o que merecem e não merecem programas sociais que
lhes mostrarão um futuro. Essa porta de oportunidade fechada associada à
hipersegregação cria uma situação de redução de oportunidades e negligência.
Esse é o clima exato que gera uma cultura de violência que é um componente
crescente da "cultura de rua" em bairros negros pobres e de classe
trabalhadora. [...] Suprimir o conhecimento produzido por qualquer grupo oprimido
torna mais fácil para os grupos dominantes governarem porque a aparente
ausência de dissidência sugere que os grupos subordinados colaboram
voluntariamente em sua própria vitimização. [...].




