domingo, setembro 18, 2022

RITA RUDNER, INGRID JONKER, GRACE AGUILAR, MARIA CASADEVALL & NEIA GABINETARTE

 

 Ao som dos álbuns Nature (2020), Advice From a Caterpillar (2014) e a Live vanuit het Plein Theater Amsterdam (2020), da clarinetista holandesa Fie Schouten.

 

TRÍPTICO DQP: - Os sonhos renascem muitos… - Naquela manhã chovia torrencialmente e o rio ameaçava transbordar como no dia em que nasci. Eu vi, fui embora aos dois anos de idade... Ali minha mãe dissera o mesmo da do Sonho de Kurosawa. O meu quintal crescera naquele exílio, árvores imensas e, lá no fundo, a estrada de Badalejo. Embaixo do arco-íris as raposas não acasalavam, apenas o pife do Papafigo soava de não sei onde, trazendo todos os meus mortos em desfile. Eles ignoravam minha presença ali, parecia, pelo menos não tive que pedir perdão pelo degredo nem por nada. Quando se foram me vi nos labirintos de Borges: O sonho não passa de um mistério. E lá longe os estrépitos de Água Preta. No meio apareceu Deus que encarei como se fosse Shakespeare e só queria ser eu mesmo. Baixei as vistas e ao revê-lo era Esther Vilar com um meio sorriso: Ainda jogamos hoje os mesmos jogos da nossa infância? Claro que não. E mesmo, enquanto crianças, não tínhamos sempre as mesmas brincadeiras, brincávamos até nos apetecer. Não sabia como respondê-la, queria naquele dia fosse apenas uma criança, nada mais. E eu me reconciliasse: era a vida, os sonhos renasciam muitos...

 


O banquete do exílio... – Imagem do artista e ilustrador estadunidense Edward McGinnis – Atravessando as minhas proscrições de xexéu e meu desterro Arrabal, tudo ali me parecia como se eu cumprisse a maldição de Narciso na fonte, condenado ao Dorian Gray do retrato de Wilde no Reading. No meu desamparo foi Babette quem fez a festa e me acolheu: era apenas uma artista. E me contou a anedota do destino de Karen Blixen, e me chamou atenção para o que dissera António Agostinho Neto: Para alcançar a liberdade e sem o qual o comportamento do homem será o de quem sai de uma forma de discriminação para cair numa outra forma tão negativa como a primeira, uma simples inversão dos fatores intervenientes... Não entendia nada porque adolescia como quem perdia a inocência no seu decote. Logo chegaram os convidados do Discreto Charme de Buñuel e eram muitos e se pareciam meus algozes, eu só queria privar da intimidade dela. A primeira a se achegar atrapalhando todo meu intento foi a escritora britânica Grace Aguilar (1816-1847) que logo me advertiu: Simpatia é o charme da vida humana. Poesia é um presente perigoso. Ao lado dela o antipático religioso francês Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704) com seu ar severo: Entre todas as paixões da mente humana, uma das mais violentas é o desejo de conhecer... Eu não tinha nada a ver com tudo aquilo, apenas fora levado pela generosidade da anfitriã, um peixe fora d’água que sonhava pelas anáguas e momentos íntimos dela na sua solidão. Mais satírico de todos Julos Beaucarne me puxava insistentemente quebrando o encanto: Anarquista, estou até o fundo dos meus sons! Anarquista, na minha opinião, isso significa que outros caminhos ainda não exploram as portas que ainda não foram abertas. Isso é o que estou fazendo há cinquenta anos. E gargalhava desbragadamente. Todos me pareciam fantasmas famintos na noite longa, sequer eu tinha para onde ir. No meu flagelo ela então apareceu como se fosse Nix e me fez Erebus para que eu soubesse do caos de sua íntima clausura.

 


Neia GabinetArte... – Imagem do escritor e pintor sul-africano Breyten Breutenbach - Amanheci de pé diante da porteira e dentro do cercado a inquieta e sorridente Neia me recepcionava de braços abertos. Naquela placidez pude respirar fundo e reviver o gosto de sentir-me em casa, outra vez menino que se esgueirou pelo mundo com todos os esconjuros. Ofereceu-me água quente para o café solúvel e nos aboletamos numa poltrona amigável. Ela se parecia com a comediantescritora estadunidense Rita Rudner: Eu amo dormir. Você? Não é ótimo? Realmente é o melhor dos dois mundos. Você fica vivo e inconsciente... E depois de mostrar suas traquinagens artísticas, arrematou ainda incorporada: Os homens esquecem tudo; as mulheres se lembram de tudo. É por isso que os homens precisam de repetição instantânea nos esportes. Eles já esqueceram o que aconteceu. Já passava do meio dia quando me convocou a atravessar o pântano: Vamos! Desbravamos passagem escorregadia e me exigiu perícia às marqens do primeiro pequeno açude. Meus pés se encharcaram nas proximidades do segundo e dei graças quando venci o terceiro. Foi então ela colher goiabas, eu restabelecia a respiração. Que coisa! E seguimos pelo caos e atravessamos umbrais como se recitasse a Face do amor de Ingrid Jonker. Quando enfim divisamos a liberdade ensolarada, ela se parecia a linda atriz Maria Casadevall como Guia Turística da Usina de Arte e lá eu me perdi entre as obras de Regina Silveira, a Diva da Juliana Notari, Frida Baranek, Os cabanos da Liliane Dardot, Os mandacarus da caçamba de lixo de Paulo Bruscky, O hangar das Ligas de José Rufino, A cabeça bandeirante de Flávio Cerqueira, A árvore de Hugo França, o Átrium de Marcelo Silveira, Data Vênia e Casa imaginária de Ricardo Pessoa de Queiroz, o Jardim Botânico, a Escola de Música, as três lagoas, a torre da Rádio Catimbó e o Festival Gastrô que virá. Ali eu sei o que já foi dor hoje paragem arejada para saltar aos olhos e entender que a vida é outra. Ainda bem que não sou nada, era mais eu que nunca... Até mais ver.

[...] A educação, como um valor social, extrapola os interesses circunstanciais de grupos isolados e passa a ser uma preocupação da sociedade global. Por que a decadência do ensino? Por que a perda do status do professor? Por que, aos poucos, a educação deixou de ser prioridade nacional, apesar do discurso político? Há toda uma rede de fatores confluentes e que se interpenetram gerando uma rede de causas, fatos e efeitos... [...].

Trecho extraído da obra Avaliação educacional: teoria, planejamento e modelos (Ibrasa, 2000), do educador, professor e pesquisador Heraldo Marelim Vianna (1927- 2013). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

    Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do vio...