segunda-feira, setembro 05, 2022

MARYANNE WOLF, CAROLINA DE JESUS, YOANI SÁNCHEZ, ADELMO ARCOVERDE & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

 

Ao som dos álbuns O convertido (2013) e Mensageiro (2014), do compositor, instrumentista, arranjador e violeiro, Adelmo Arcoverde, autor do livro Viola do Nordeste – Método de Viola (Nova Presença, 2022).

 

TRÍPTICO DQP: - A casa dela... - Ali não havia quintal, apenas os olhos vivos de Copacabana repletos de esperança e alguns temores com os ruídos e a dispersão do tempo, desencontros e incompreensões. Às vezes, na casa dela, seus olhos brilhavam assustados na encruzilhada fortuita como se estivessem submersos pelas sombras da Inés de Goya, diante dos fantasmas misóginos que povoavam os arredores para captura das Filhas da Dor. Eram abantesmas que diziam aos seus passos: Ôpa, volta... E ela não, levada pela Carolina Maria de Jesus: Anda, anda... faz de conta que está sonhando. E seguia Sol a pino, com suas intensas inquietações na contundência de dizer não, porque não era Efeito Mandela: tudo acontecia na esquina – a mão atrevida do algoz, as vestes aos farrapos, a marca do estupro, o desdém da hipocrisia, a dor de nunca esquecer. E tinha de sair de casa para constatar o que dizia a jornalista/blogueira cubana Yoani Sánchez: Fomos para as ruas porque tínhamos fome, é certo. Tínhamos tanta fome que comemos o medo. A liberdade é contagiosa, sempre se quer mais. Era assim que podia sorrir: olhos pedintes, a volúpia na carne, a entrega da alma. Na moradia do passado, portadentro, ela exorcizava seus medos e se desnudava impune para valer a vida: meu sexo nela.

 

As aldravias de Xexéu... - Na manhã ensolarada Janilson era mais que imponente porque Rute era mais que poeta radiante: os dois brilhavam no palco na maior festa. Na entrada eu conversava com Durán e Tony Antunes sobre o volume da publicação de Dom Acácio, arremedando hestórias de ontem quase esquecidas na memória. O povo xexeuense foi chegando engalanado e logo os acordes da Banda Ipiranga saudavam a todos com a abertura ao som da Aquarela de Ari Barroso, seguida de um Pot-pourri do inesquecível Gonzagão. Para os presentes começou a festa: gente chamada para compor a mesa das autoridades, a ciranda da meninada do Maria das Mercês, as aldravias do casal Donadon com as Confidência do itabirano do Drummond: Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!..., os livros infantis da Eliane Santos e a conversa animada sobre As Lendas do Piauí, com a radialista/jornalistescritora Arleni Portelada, também retratadas pelo Mestre Portelada: ... me deparei com muitas estórias compartilhadas por toda a região do Nordeste. E falou do Cabeça de Cuia: No caso do Crispim há o castigo da metamorfose do ser errante e sem paz, como mensagem. Conversa animada, tudo corria como o desejado pelo poetamigo Marcos Xhêpa. E seguiu-se até ao meio dia quando desci a ladeira para o almoço na companhia da Maria Joyce. Singramos a cidade, percorremos ruas e a feira já quase desfeita, saboreamos suas canções com uma cerveja gelada até o finalzinho da tarde para constatar, no meio de uma rompante crepuscular: canto e sou xexéu!

 


A poesia em queda livre... - Na ruina das certezas todas as dúvidas, graças. Afinal estou vivo e já sei: toda beira do abismo é redonda, assim o infinito é pequeno (porque, como diz o poeta, a criação do homem derrota Deus). Pois é, foi Vital Corrêa de Araújo que deu as caras e sacou: Todo ápice cambaleia! E com uma meia declaração sincera: a eternidade é inútil! Havia nos olhos dele os tendões do amanhã: quem não vacila diante do aparato de possibilidades, se nada mais intransponível entre palavras perdidas, o confessional e a crua meditação, o dom noturno e a aura da desilusão, as estrelas descalças da calçada pelo chão da manhã, situações nuas e o rio lento e voraz do tempo, todas as náuseas e vergastas, haja paradoxo. Disse-me mais: É preciso conjulgar tudo com nada: a liberação total da força expressão. Evidente alguém ouvir isso e se achar como se numa desconfortável assistência a um concerto, digamos, de música atonal ou dodecafônica; ou de uma exposição de pintura abstrata, ou mesmo de uma sessão com cenas delirantes de um teatro ou filme de vanguarda. E ainda por cima ouvir Cocteau: A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê... Serviria de consolo saber de Ionesco: Creio que se tinha esquecido, nestes últimos tempos, o que é teatro. E eu fui o primeiro a esquecê-lo; penso tê-lo novamente descoberto, para mim, passo a passo, e eu acabo de descrever simplesmente a minha experiência... Favorecendo a digestão, talvez, melhor Sábato: Se é absurdo, no entanto, é eficaz; se contraditório, é poderoso, porque substitui as palavras e expressões desgastadas que, psicologicamente, são inoperantes, por novas combinações que atraem pelo inesperado. Sabe de uma coisa? O melhor é que de tudo que sabia até agora, muito ainda por aprender. Ponto final, até mais ver.


A alfabetização está tão entrelaçada em nossas vidas que muitas vezes deixamos de perceber que o ato de ler é um milagre que está acontecendo nas nossas mãos. O que lemos, como lemos e por que lemos mudam a maneira como pensamos.

Pensamento da professora estadunidense Maryanne Wolf. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



ADA LIMÓN, MÓNICA BUSTOS, LETÍCIA CESARINO, ANUNA DE WEVER & O RECIFE DE CESAR LEAL

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns Olho D'água (1979), Revivência (1983), Rio Acima (1986), Ihu - Todos Os Sons (1996),...