Ao
som dos concertos Suíte
Brasileira (2023) e Cantata
Ayabás (2025), da maestra, pesquisadora, compositora e pianista Andréa Huguenin Botelho.
As viúvas do sobrado... - Adélia se sentia uma das Little Women de Alcott – a caçula entre as 4, antes 5, meninas órfãs do sobrado de Hermilo,
a viver oniricamente vestida de flores, mansidão de pássaros, delicada
juventude. E crescia viçosa, aformoseando-se a tal ponto de cair nas graças dum
mulato estranho, logo apresentado como banqueiro Benedito. Desde então passou a
suspirar pelos cantos e a ter sonhos com todo tipo de bicharada. Era
vigiada pela centenária Viscondessa e a sua inseparável ama Bernarda, ocupando
muito mais a matriarca que vivia tal Penélope de Ulisses –
o marido combatente no Paraguai nunca mais voltou. Não demorou muito e logo o
casal se estreitou de papel passado em ruidosa cerimônia e, a partir de então,
o festivo foco das atenções naquela família de enlutadas. Com o matrimônio, o
que mais a envaidecia era se tornar duas vezes Silva ao seu extensíssimo
sobrenome aristocrático – ela reunia a extensa linhagem dos germânicos Guimarães,
dos florentinos Cavalcantes, dos lusitanos Alves e agora senhora Silva dos
ibéricos e mais um Silva acrescido: o do Biu banqueiro. Pouco mais de um mês
depois da lua de mel, a tragédia: a matrona consolava a viuvez de todas as suas
irmãs – escapou apenas Amélia, que faleceu antes de contrair núpcias. Lá
estavam chorosas Amália, Anália e Adália
abraçadas com Adélia, arrimadas pela genearca. As
primeiras solidárias a chegarem para engrossar o plangente momento foram as
amigas próximas da progenitora e lá estavam ao vivo e em cores no recinto,
segurando os lencinhos e vestes escuras: a Catarina de Lencastre, Ana Plácido, a da Luz, a de Arcozelo e a de
Cavalcanti. Logo providenciaram o velório ajudadas por inúmeras serviçais. Fraquejava
ali Adélia sentindo na pele a árdua tribulação da Pelágeya de Gorki. E passou
mal, logo a Bernarda chamou outra empregada: Pegaí o picão-do-padre! Foi um
Deus nos acuda! Oxe! Trouxeram o chá calmante de cravo-de-defunto e as pálpebras
destilavam prantos por seu saudoso marido. Mantinham os preparativos pro funeral
e um entre e sai de gente, cochichos, horas de espera. De repente o alvoroço, a
pompa fúnebre transformou o salão da casa numa câmara-ardente, repleta de
flores e velas acesas, numa decoração religiosa. O corpo estava desfigurado e
foi preciso quase dois dias para recompô-lo e, de tão remendado, teve de ser
exposto num caixão lacrado – Ora, por que? Respeitava-se a dignidade do
falecido, os presentes e, sobretudo, a garantia de segurança sanitária: ninguém
sabia do que ele tinha morrido até então. E era pra enterrar logo, no mesmo dia; mas a
Viscondessa determinou que só sepultaria no dia seguinte: Vai que ele
ressuscita, hem? Mas já havia passado mais de 48 horas, exigência inútil, ela bateu
o pé e assim foi. Adélia debruçou-se ao esquife, enquanto as madames iniciavam
as exéquias como salvaguarda dum lugar especial no céu pro cadáver putrefato. Começava
a vigília das orações, com mortificadas novenas, penitências, as excelenças ao
pé do morto para que ele recebesse o perdão dos pecados e sua alma recomendada ao
melhor lugar do paraíso: Uma incelença preste que se foi, duas pra onde irá... As
cantadeiras imploravam clemência: Já é uma hora e ele vai, ele vai, vai ganhar
a salvação... Duas horas e ele vai, vai, vai salvo pela extrema-unção... Três horas... Era tudo muito enfadonho, as
ladainhas, os pêsames para lá, choramingados para cá e lá pras tantas decidiram
todas fazerem quarto ao defunto, de sentinela com tudo pronto para renderem as
últimas homenagens, que, inclusive, logo foram suspensas com a invasão de
autoridades que exigiam a necrópsia policial no IML, o boletim de ocorrência, o
protocolo e todas as medidas de praxe, incluindo um furioso legista que queria
abrir a fim da força o caixão para confirmar o corpo: era que o FBI, com
agentes engravatados ali presentes, suspeitava de atentado comunista. Como
pode? Ele foi encontrado quase-morto, de morrer no hospital. Não e pronto! Um
impasse resolvido na marra, quando um agente grandalhão da CIA passou às mãos
da anciã madrinha, o volumoso calhamaço capa dura com as inscrições: Ex Libris
– Private/Top Secret. E foi chegando gente e uma situação bizarra foi tomando
conta porque ali dava as caras o execrável vampiro golpista Miguelilulia – mais
conhecido como o marido da Marcela, que logo topou com o Barão de
Drummond e, com ele, a corriola toda capitaneada pelo Pedro II, os Marechais das
Alagoas, os generais da Velha e Nova Repúblicas, todas as patentes das Forças
Armadas, Ministros das Supremas Cortes, coronéis de fitas e de mandos,
desembargadores, deputados, senadores, chefes de Executivo, cardeais e
arcebispos do Vaticano, integrantes disfarçados da Ndrangheta, Cosa
Nostra, Yacuza, Los Zetas, Camorra e todos os COT, desde os albaneses, do
cartel de Sinaloa, da tríade chinesa, da Bratva russa, mais os encapuzados da
Klu Klux Klan, comandos da capital e vermelho, magnatas do Epsteim, das Americanas e do Banco
Master, até o Barão de Alagoinhanduba – que a Viscondessa detestava -, de
abraços com o juiz Teje-Preso, que foram saudados pelo prefeito Zé Peiúdo, dedicando a eles sua vitória na eleição e, no meio do discurso, não
só foi esnobado como barrado do velório. Como é que pode? Enxotaram-no. Tinha muita
gente mais um tanto. Adélia asfixiada com o aglomerado de embecados no salão,
recolheu-se sozinha e ficou debruçada na janela dos fundos, olhando pro nada,
quase adormecendo e, num cochilo, sentiu-se grávida, barriga pela boca, prestes
a dar a luz. Repentinamente ouviu um choro de criança e despertou, quando,
subitamente, testemunhou a chegada de verdadeira fauna invadindo o quintal,
todos, cada um, com os olhos fixados nela. Arregalou-se. Conferia ali desde
potoquinhas invertebradas quase imperceptíveis aos estrondosos vertebrados de
darem susto e medo em qualquer um, reunindo tudo que existisse de eucariontes, multicelulares
e heterotróficos, ali espremidos naquele imenso horto. O que era de
quadrúpedes, bípedes, avoantes, rastejadores, peludos e pelados, não estava no
gibi. Destemida, ela foi ver mais de perto e
conferiu todo tipo de selvagens e mansos, quando se deparou com um bebê entre
eles. Tomou-o pela mão, agarrou-se com ele e foi depressa pra dentro de casa, deu-lhe
banho, perfumou e com a melhor veste se fez regozijada: era seu filho e o menino
se chamaria Pavel; não, melhor não. E mais pensava: agora teria de
definitivamente protagonizar o seu destino. Precisava providenciar, tão logo
ocorresse o sepultamento, o batizado do neném e foi pras irmãs e a Viscondessa
para acertarem os detalhes anunciando a boa nova. O infante de braço em abraços
e a mãe viu-se na obrigação de seguir sua vida como os cem anos de solidão
de Úrsula Iguarán: estava resolvida, resignada. Aí
anunciou que o filho se chamaria como o pai: Benedito. Nessa hora, a Viscondessa ciosa logo insinuou as secretas práticas escusas do morto
e, evitando anátema, Benedito que seja, Pavel não, mas preferiu chamar o
bruguelo por Zeca e assim ficou Zeca Biu. Ocorria no salão a liturgia
das horas, com o ofício de defuntos, terços e rosários no rito da última
encomendação e despedida, contritos na maior taciturnidade e, ao presenciarem a chegada dela com o garotinho
no braço, o padre Quiba logo proclamou salves e vivas, propondo canonizar
Benedito como o Benfeitor que patrocinaria muita Festa no Céu – e o epíteto foi
incorporado na hora ao sobrenome da viúva e do filho: os Silva e Silva
Benfeitor. Era a hora da bênção da sepultura e seguiram todos para o cemitério
local, acompanhados por diversas agremiações futebolísticas e carnavalescas
puxando a multidão com um samba-frevo composto especialmente pro evento. Chegando
lá, a maior comoção popular pro cerimonial sob a marcha fúnebre de Chopin.
E entre salves, tiros e vivas, sacudiram o ataúde na cova mortuária e meteram cimento
pra cima e pra baixo. Mal fechavam a catacumba, Uiraçu pousou no topo do
mausoléu como um agouro, grasnando pela chegada das Harpias que levariam a alma
do de cujus pras Fúrias Ctônicas da vingança. Arrepiou geral e foi
pernas-pra-que-te-quero pra todo lado. Ninguém se atreveu por mais tempo
homenagear aquele suposto benfeitor santificado de última hora, que foi
esquecido lá para sempre. E não era só uma vez... Até mais ver.
Gayatri Spivak: Sempre de olho no futuro que já está conosco, à vontade, em algum lugar ao nosso redor... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Judith
Butler:
A vida precisa
ser protegida. Ela é precária. Eu diria até que a vida precária é, de certa
forma, um valor judaico para mim... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Ann Leckie: O luxo sempre vem à custa de alguém. Uma das
muitas vantagens da civilização é que, geralmente, não precisamos ver isso, se
não quisermos. Somos livres para desfrutar de seus benefícios sem perturbar
nossa consciência... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.
SIMILE DE
CALIDOSCÓPIO OTIMISTICAMENTE
Imagem:
Acervo ArtLAM.
A dor do afastamento estabelecido. \ Seus
próprios inimigos, sem amor ou compreensão, \ e uma frase negra acorrentada por
mariscos impiedosos. \ Uma razão para um estranho? \ Uma razão para o
estabelecimento? \ Uma razão para um estranho estabelecido? \ Enquanto
silenciavam a linguagem do infinito, \ delineando a verdade de fora com a \ linha
grossa, grande e imunda da precisão. \ Ao olhar através do caleidoscópio, \ a
possibilidade de colorir as partículas \ no fundo \ nega e seca as expectativas
estéreis, \ os deuses tradicionais, a realidade árida dos rebanhos \ e a
obtenção de asas para viver na dispersão de cada um... \ Deslize suavemente a
mão para a direita e observe \ como ela se move levemente para a direita \ (Uma
rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa). \ Agora, a distinção de cores renovada
é visível. \ Dê quatro passos, gire o querido \ objeto vermelho quatro vezes
(vermelho foi o primeiro e único) \ Olhe para o que você vê com paixão \ Quatro
vezes diferentes, quatro efeitos diferentes... \ Abrace, toque aqueles que são
como você... \ Alegria sensorial de uma qualidade desconhecida, \ semelhante à
identidade de pequenas divisões coloridas, \ tão bonitas, tão organizadas, tão
bagunçadas, \ mudanças tão inimagináveis nos espaços! \ Sequencie
seus versos de poesia espontaneamente, por conta própria. \ Vire seu brinquedo
e aproxime seu olhar. \ Não seria a sequência de fragmentos apropriada \ para
palavras que surgem espontaneamente? \ Não pergunte! Oh, será que nunca há
sombra, \ mas sempre uma luz para a escuridão estagnada e desordenada \ que
flui da janela para o seu coração? \ Temendo a fratura de objetos translúcidos,
\ a perda de partículas, à deriva no poderoso \ vento confiscador do distante,
\ em direção a outras geografias. \ Afaste a possibilidade carregada de emoções
sombrias com o \ poder da sua consciência, \ sem deixar que suas formas façam
incisões em sua alma — \ Encontre novos caleidoscópios após a desilusão. \ Se
estiver oculto de você, estabeleça a autocriação \ da sua inocência. \ Tão
capaz quanto seu coração, \ crie seu simulacro. \ Seres mais poderosos e
distinções autênticas \ o aguardam em seus esforços. \ Você se surpreenderá com
seu coração delicado \ e com seu talento elegante. \ Não espere um instante,
deixe que sua libertação venha \ de cores vibrantes e \ sonhos com migalhas de
prazer na escuridão abstrata, \ encontrando paz na consciência das ruas. \ Expectativas
que não podem se dar conta da infantilidade \ que se embriagou sorrateiramente
e através de funis, \ pela astúcia daqueles que espalham \ a influência contra
a resistência... \ Lancem sentenças de carrasco com todas as suas células! \ E
depois gritem orgulhosamente para a posteridade \ com as bolinhas de gude
únicas que vocês jogam!
Poema da poeta turca Nilgün
Marmara (1958-1987).
NOSSA
PARTE DA NOITE - [...] O
primeiro que se perdeu dos ausentes é a voz [...] Renunciar é fácil quando você tem muito, pensei. Ele nunca teve
nada. [...] Quando não se pode pelejar, a única maneira de estar em paz
é render-se. [...] Não há maior decepção do que acreditar ser o
escolhido e não ser. [...]. Trechos extraídos da obra Nuestra
parte de noche (Anagrama, 2020),
da premiada escritora, jornalista e professora argentina Mariana Enríquez.
Veja mais aqui & aqui.
MISSÃO
ECONÔMICA
– [...] Compreender melhor as
estruturas organizacionais que incentivaram a resolução de problemas, a tomada
de riscos e as colaborações horizontais é, portanto, fundamental para entender
a onda de mudanças radicais que virá a seguir. [...] A inovação e a comercialização de ideias não acontecem porque
você quer: elas acontecem no processo de resolução de problemas maiores. O
programa Apollo foi um exemplo do que pode ser feito se a ambição for
inspiradora e concreta. [...] Aplicar o pensamento orientado por missões
em nossos tempos exige não apenas adaptação, mas também inovações
institucionais que criem novos mercados e reformulem os existentes. E,
principalmente, exige também a participação cidadã. [...]. Trechos
extraídos da obra Mission Economy: A Moonshot Guide to
Changing Capitalism (Penguin,
2023), da economista italiana Mariana Mazzucato, autora
de obras como O valor de tudo: produzir e apropriar-se na economia global
(2020) e O Estado empreendedor: desmistificando os mitos do setor público e
privado (Porfolio/Pengoin, 2014).
NEGRITUDE
SEM IDENTIDADE, DE ÉRICO ANDRADE
Trechos
extraídos da obra Negritude
sem identidade: sobre as narrativas singulares das pessoas negras (n-1, 2023), do filósofo,
psicanalista e professor da UFPE, Érico Andrade, na qual o autor realiza
uma análise profunda da temática da identidade, empregando ferramentas
do discurso filosófico, da narrativa autobiográfica e da psicanálise,
destacando o conceito de branquitude, explorando o papel crucial da filosofia
na sua construção e examinando como a identidade negra foi moldada por um
projeto da modernidade. Criticamente a obra aborda a tradição filosófica, não
excluindo-a, mas utilizando-a para fundamentar sua posição, contribuindo para a
consolidação de um parâmetro de valor vinculado às identidades, com a brancura
representando a humanidade, enquanto a negritude é relegada a um lugar de
exclusão. O
autor é pesquisador do CNPq, possui doutorado com estudos na Sorbonne e atua no
Departamento de Filosofia da UFPE. Veja mais aqui.
Joaquim Cardozo aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Nínive Caldas
aqui.
Francisco
Brennand aqui & aqui.
Kamila Cidrim
aqui.
Nelson Ferreira
aqui, aqui, aqui & aqui.
Tila Chitunda
aqui.
Mestre Baracho
aqui.
Fátima Quintas
aqui, aqui & aqui.
Sebastião Vila
Nova aqui & aqui.
Christina Machado
aqui.






