sábado, julho 05, 2014

FELIPE CERQUIZE, ELIZABETH LEE MILLER, JEAN COCTEAU & MÁRCIA NOVO


 Imagem: foto Márcia Novo.
Ouvindo Márcia Novo cantando Possivelmente, parceria musical de Nilson Chaves & Felipe Cerquize:

Caso você queira
eu faço um mundo novo.
Posso girar ao contrário,
contrapondo o sentido horário,
até que me torne um menino
entregue ao meu contradestino.
Caso você queira,
eu faço brotar mil gerânios
no inverno de Leningrado.
O mundo está todo errado.
Quase tudo é possível:
a surpresa esperada,
o brilho da Lua nova,
Idiomas sem palavras,
céu azul de madrugada.
Caminhar sobre água corrente,
refrescar-se no sol do Atacama.
Ver no gelo incandescente
a paixão de quem não ama.
Caso seja seu desejo,
torno nosso amor possível.
por mais que seja improvável
por mais que isto seja incrível.


FELIPE CERQUIZE – Conheci o poetamigo, compositor e engenheiro químico Felipe Cerquize faz uma data. Não sei bem quando, sei que foi, acho, por volta de 1997 quando entrei internet, ou por aí. Batemos o centro da nossa amizade quando conheci o seu livro Rhumor (1996) e, logo depois, o seu ótimo cd com músicas autorais Léguas (1999). Trata-se de um escritor premiadíssimo: já arrebatou duas vezes o FEUC de Poesia (2003/2007), o Balada do Impostor (2007), o 140 Letras (2009), o internacional Nósside (Itália/2010), o IV Festival de Música das Rádios MEC e Nacional (2012), entre outras indicações e prêmios. Em 2005 ele lançou o livro Contos sinistros e, em seguida, lançou o Conversa Rimada em parceria com Luhli (premiado pela UBE/2007). Em 2011, foi a vez dele lançar o livro Pelos caminhos da estrada real e, por consequência, em 2012, lançou o cd Minas Real. E isso não fica por aí, pois, ele é parceiro do primeiro time da Música Brasileira: da Ana Terra, do Cláudio Nucci, do Fernando Brant, do saudoso poetamigo Anibal Beça, do George Israel (Kid Abelha), do Márcio Borges, do Murilo Antunes, do Tavito, do Sérgio Ricardo, do Roberto Menescal, do Mano Melo & etc e tal. Que timaço invejável! Para se ter ideia ele possui mais de 500 obras (e só não é meu parceiro musical por completa incompetência e desorganização minha, vez que duas letras dele que eu trabalhava foram pro beleléu quando pifou o HD do meu PC, destá!). Mas hoje é aniversário dele e, como sempre, eu na fila do gargarejo aplaudindo de pé este grande talento e desejando felicidades e sucesso universais!!!! Parabéns, amigo Cerquize! Veja mais aqui.


JEAN COCTEAU - Quando assisti pela primeira ao filme O sangue de um poeta (Le sang d´um poete, 1930), do escritor, cineasta, dramaturgo, desenhista e ator surrealista francês, Jean Cocteau (1889-1963), fiquei impressionado com o enredo enigmático e metafórico, as tramas sobre um mundo interior de poeta com seus medos e obsessões, a temática da morte e as dificuldades da criação artística, a música de Georges Auric e a lindeza da atriz Elizabeth Lee Miller (1907-1977, Lady Penrose). O filme conta a história de um artista sem nome que é transportado através do espelho para outra dimensão, viajando por diversos cenários bizarros, repletos de imagens surreais vindas em sequencias sem lógica aparente que o tornaria a representação máxima do cinema e da poética surrealista. Tudo começa quando um pintor vai desenhar um rosto e a boca desse desenho passa a ter vida, o que estranhamente o faz tentar apagá-la e, ao final vê-la impressa na sua própria mão. Tentando libertar-se da boca, só consegue ao passá-la para uma estátua que ganha vida e o aconselha a sair da sala pelo espelho onde aparecem diversas portas e em cada fechadura uma cena: um hermafrodita, um fumador de ópio, uma menina que aprende a voar, um revolucionário mexicano, um anjo negro, um casal que joga cartas, a estátua que surge com uma lira. Todo filme é impregnado por uma atmosfera onírica e um forte componente simbólico, como um conjunto de alegorias que levam ao significado da sua sensibilidade poética: “todo o poema é um brasão que tem de ser decifrado”. Pois, para ele: “O poeta lembra-se do futuro” e “A poesia é uma religião sem esperança”. Esse foi o primeiro filme da trilogia Órfica de Cocteau que incluiu depois Orphée (1950) e Le Testament d´Orhée (1960). Dele, um fragmento do seu belíssimo poema O mentiroso: “Gostaria de dizer a verdade.  Gosto da verdade. Mas ela não gosta de mim. A verdade é esta: a verdade não gosta de mim. Mal acabo de dizê-la, ela muda de rosto e volta-se contra mim. Tenho o ar de mentir e todos me olham de revés. E, no entanto, sou uma pessoa simples e não gosto da mentira. Juro. A mentira traz sempre complicações assustadoras. [...] Sou tomado de angústia, de receio, de medo do ridículo, e minto. Minto. Não há nada a fazer. Demasiado tarde para voltar atrás. Depois de se começar a mentir, tem de se continuar. E não é cômodo, juro. É tão fácil dizer a verdade. É um luxo de preguiçoso. [...] Chamam-me mentiroso e não respondo. Poderia responder: vocês mentem. Mas não encontro a força necessária para isso. Deixo-me insultar e rebento de raiva. E é esta raiva que se acumula, que se amontoa em mim, que me enche de ódio. [...] Vocês mentem com certeza! Vocês mentem todos. Mentem constantemente e gostam de mentir e de acreditar que não mentem. Vocês mentem a si próprios. Isso é que é grave. Porque eu não minto a mim próprio. Eu tenho a franqueza de confessar que minto, que sou um mentiroso. Mas vocês, vocês são uns cobardes. Escutam-me e pensam: coitado! E aproveitam-se da minha franqueza para dissimular as vossas mentiras. [...] É certo que a verdade tem o seu peso e consegue espantar-me. A verdade. As duas equivalem-se. Talvez a mentira lhe ganhe... embora eu nunca minta. O quê? Se já menti? Claro que sim. Menti quando lhes disse que mentia. Menti quando lhes disse que mentia ou quando lhes disse que não minto? Mentiroso, eu? No fundo, já não sei. Sinto-me confuso. Que tempo o nosso! Serei um mentiroso? Pergunto--lhes. Sou antes uma mentira. Uma mentira que diz sempre a verdade. Veja mais aqui


ELIZABETH LEE MILLER – A atriz estadunidense Elizabteh Lee Miller (1907-1977) do filme Sangue de um poeta, de Jean Cocteau, também era fotógrafa de moda e fine art, modelo de sucesso e correspondente de guerra da revista Vogue durante a II Guerra Mundial. Por suas atividades a Lady Penrose virou filme em 1995, num documentário feito por Sylvain Roumette com o título de Lee Miller: Trhough the Mirror, um filme narrado por seu único filho, o pintor Roland Penrose em que ele revela o diário da mãe, a vida dela com Cocteau e Picasso, a nudez no início da carreira para Man Ray, as capas das revistas Vogue e Blitz, películas e fotografias.



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