terça-feira, julho 08, 2014

LEONORA CARRINGTON, HEDA KOVÁLY, SVETLANA CARSTEAN, GALBRAITH & AGNOTOLOGIA

 

UMA VEZ MAIS, LEONORA... – Aquela bela rebelde inglesa era a viajante que embalou meu coração, musa surrealista. Nem aí para nada nem ninguém, apenas se livrava do pai candelabro que a queria domesticar com as etiquetas maternas. E quase nem se afobava, mesmo que não fosse possível ser feliz nesse lugar. Surpreendentemente presa e torturada pelos alemães da guerra, seus nervos se estiolaram, mais que dilacerada permitiu que tudo escapasse ao seu controle. Perturbada mentalmente, ela foi arrastada à força pelos pais, para um hospital psiquiátrico em Santander: ali sedada por curas fascistas, amarrada nua na cama, quando não numa solitária: É fácil ter nas mãos as chaves da porta da loucura e abri-la. Difícil é voltar. Eu voltei. E tornou-se um perigo em sua própria nação, lamentavelmente. Por isso fugiu de casa porque não queria ser um troféu para ninguém e dos nazistas para perambular mundo afora até se esconder no México. O seu mundo destruído, ela se reconstruiu: queria ser um pássaro para despertar num labirinto e ver a filha do Minotauro. Trouxe pro meu sonho El mundo mágico de los mayas, como se quisesse por uma janela que eu visse um cavalo branco cavalgando livremente no pasto, uma hiena com mamilos pronunciados e outro cavalo de madeira na parede. Era a casa do medo onde ela se fazia gigantesca, sim, La giganta, que reinava nua malabarista com a oferenda na boca do crocodilo, um ovo entre as mãos e com todos os seus fantasmas da infância: Eu sou um mistério tanto para mim mesma, quanto para os outros. Achegou-se com uma camisola de flanela, como a dama oval pela porta de pedra, uma outsider a me levar para estalagem do cavalo da alvorada, o rosto simples como a lua. Ouvimos a trombeta auditiva da hiena, seu alter-ego: Na sua história, a hiena toma o seu lugar nessa hora, porque era muito absurdo, sabe? Assim eu estava tomando uma atitude. E me falou do sétimo cavalo e doutros contos do reino de Xibalbá e dos belos pássaros pretos desenhados sobre esse muro branco. Desceu sem despedida e lá embaixo ela não queria ser chamada de musa nem de nada nem de ninguém, não fosse a pneumonia levá-la nuvem afora. Veja mais abaixo e mais aqui, aqui e aqui.

 

Imagem: foto com os surrealistas Andre Breton, Marcel Duchamp, Max Ernst e Leonora Carrington Nova York, 1942 – com a pintura Nude at the Window (1941) de Morris Hirshfield, na casa de Peggy Guggenheim fotografada por Hermann Landshoff. Veja mais abaixo.

 

DITOS & DESDITOS - Confrontados com a escolha entre mudar de ideias e provar que não há necessidade de o fazer, quase toda a gente se ocupa com a prova. Pensamento do filosofo, economista liberal e escritor estadunidense John Kenneth Galbraith (1908-2006). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Todos os homens são doidos e, apesar das precauções, só diferem entre si em virtude das proporções... Pensamento do poeta, tradutor e polemista francês Nicolas Boileau-Despréaux (1636-1711).

 

ALGUÉM MAIS FALOU: Lembre-se sempre de que discutir e vencer é quebrar a realidade da pessoa contra quem você está argumentando. É doloroso perder a realidade, então seja gentil, mesmo se estiver certo... Pensamento do escritor japonês Haruki Murakami. Veja mais aquiaqui.

 

AGNOTOLOGIA - [...] Vivemos numa era de ignorância e é importante compreender como isso aconteceu e por quê. Nosso objetivo aqui é explorar como a ignorância é produzido ou mantido em diversos ambientes, através de mecanismos como como negligência deliberada ou inadvertida, sigilo e supressão, documento destruição, tradição inquestionável e inúmeras formas de inerente (ou evitável) seletividade culturalpolítica. Agnotologia é o estudo da ignorância Rance Making, os perdidos e esquecidos. Um foco está no conhecimento de que poderia ter sido, mas não foi, ou deveria ser, mas não é, mas também veremos que nem toda ignorância é ruim. [...] Um aspecto importante de uma epistemologia da ignorância é a compreensão de que a ignorância não deve ser teorizada como uma simples omissão ou lacuna passiva, mas é, em muitos casos, uma produção ativa. [...] O foco aqui está na ignorância – ou dúvida ou incerteza – como algo que é feito, mantido e manipulado por meio de certas artes e ciências. A ideia é facilmente passível de paranóia: nomeadamente, que certas pessoas não quero que você saiba certas coisas ou trabalhará ativamente para organizar dúvida ou incerteza ou desinformação para ajudar a manter a (sua) ignorância. Eles sabem, e podem ou não querer que você saiba que eles sabem, mas você não devem ter conhecimento do segredo. Esta é uma ideia insuficientemente explorada por filósofos, que a ignorância não deve ser vista como uma simples omissão ou g a p , mas sim como uma produção ativa. A ignorância pode ser um mecanismo ativo parecia parte de um plano deliberado. Começarei com segredos comerciais [...]. Trechos extraídos do estaudo Agnotology: The Making and Unmaking of Ignorance (Stanford University, 2008), do historiador estadunidense Robert Proctor, da Universidade de Stanford, considerando tratar-se de estudo das políticas de produção da ignorância, questionando como se constrói e se mantém a ignorância e quais as suas consequências, inclusive políticas, porque também é usada como instrumento político e indaga: por que não sabemos o que não sabemos? Há uma lógica que explica a construção intencional da ignorância e nesse sentido, ela é não apenas ausência de conhecimento, é também construída intencionalmente. A ignorância tem uma história (e geografia) política no qual há por parte de governos, indústrias etc., que propagam coisas que não querem que as pessoas saibam. O problema detectado pelo autor não é a existência de governos, pessoas e empresas que fazem uso consciente e sistemático de mentiras e manipulações, de construção da ignorância, mas ter quem acredite, mesmo podendo ser vítimas das suas consequências, como o uso de medicamentos inadequados que podem causar mais danos do que benefícios (e até mesmo morte de pacientes) e não apenas encontrar na sociedade pessoas que acreditam, como contribuem para sua divulgação, hoje ampliadas através das redes sociais.

 

ESTRELA CRUEL – [...] O amor e a esperança são infinitamente mais poderosos que o ódio e a fúria. [...] Ela foi mais uma prova para mim de que nada limita mais uma pessoa do que o que era então chamado de “uma visão de mundo claramente definida”. [...] Se todos fossem heróis, quanto valeria a coragem? [...] Estava se tornando evidente para muitos que, embora o mal cresça por si só, o bem só pode ser alcançado através de uma luta árdua e mantido apenas através de um esforço incansável. [...] Numa democracia, os erros podem eventualmente ser corrigidos e as pessoas que cometem estupidez ou mesmo atrocidades são vistas, com o passar do tempo, mais com tolerância e piedade do que com ódio. [...] Tenho uma incompetência inata para qualquer coisa mecânica. Sempre me pareceu que uma máquina pode dizer, de longe, que tenho medo dela e que não entendo nada sobre ela, e quebra imediatamente por pura autopreservação. [...]. Trechos extraídos da obra Under a Cruel Star: A Life in Prague (Lynne Rienner, 1997), da escritora tcheca Heda Margolius Kovály (1919-2010). Veja mais aqui.

 

TRÊS POEMAS - I – Sou mulher, \ há muito tempo meu corpo flutua \ sobre uma extensão de água, branca como o luar, \ indecente e silenciosa. \ Sou uma mãe cruel \ que abraça o filho \ até o sufocar, \ faz dele um só consigo mesma \ como outrora era, \ quando as barrigas grandes eram quartos sombreados para descansar, \ eram os bons espaços ao longo da rua, \ os quartos de intermináveis as férias \ sem dor, sem lágrimas, \ eram o lugar onde ninguém se separava de ninguém. \ Sou mulher, muitas vezes feia. \ Ontem meu corpo era um barquinho de papel \ que joguei de brincadeira na superfície dessa água, \ na esperança de que me levasse embora. \ Hoje sou a baleia assassina, \muitas vezes linda, \ à espera do pescador. QUEM SOU EU - Eu olho para os homens e me pergunto quem eu sou. \ Longe vão os tempos em que meu avô calçava suas botas de cano alto \ e saltava pelas grandes poças da rua comigo nas costas, a \ caminho do jardim de infância. \ Já se foram os tempos em que eu tinha pesadelos todas as noites e meu pai \ vinha para minha cama e colocava a mão na minha barriga para me acalmar. Ficaria \ lá até eu adormecer. Eu até acordava de manhã \ e ele estava ao meu lado. \ Longe vão os tempos em que meu papai me lavava da cabeça aos pés, já se foi a época \ da minha primeira visita a uma clínica ginecológica, onde fui com ele também. \ Longe vão os anos em que aprendi com ele sobre o teixo, o abeto, o pinheiro \ e os abetos. \ Eles se foram para sempre? QUEM ERA EU - Eu era um garotinho solitário cujo cabelo um dia eles trançaram em tranças e colocaram laços azuis e uma faixa elástica na cabeça. \ Suas orelhas estavam vermelhas e doloridas por causa do elástico muito apertado que apertava sua cabeça e dos castigos que seu pai lhe dava. Ele esfregava as orelhas do menino entre o polegar e o indicador da mesma forma que você esfrega uma folha seca de hortelã ou manjericão ou uma pétala de rosa para transformá-la em pó e guardá-la em um pequeno saco de papel marrom. As orelhas do menino ardiam e brilhavam vermelhas como duas pétalas de rosa, e o menino conseguia ouvir com muita agudeza, cada vez melhor, os sons distantes. Sua audição tornou-se um túnel no qual sons e dor se tornam um e rolam como pesadas bolas de chumbo. \ Eu era um garotinho que um dia começou a ter seios. \ E hoje o garotinho tem que escrever uma redação. Suas mãos, com cheiro de massinha, têm grandes manchas de tinta ao longo dos ossos delicados cobertos por uma pele transparente; sua alma encolhe cada vez mais, até ficar do tamanho de uma semente de papoula, que depois rola lentamente até os pés do professor, batendo inconscientemente um ritmo na escuridão desconhecida sob a mesa. Lá ele implora por misericórdia. Pedidos de ajuda. \ Não posso escrever esta composição. Mesmo assim posso lhe dar uma notícia: desde esta manhã meus seios estão crescendo. Poemas da escritora e jornalista romena Svetlana Carstean. Veja mais aqui.

 

A arte da escritora, pintora e escultora surrealista inglesa Leonora Carrington (1917-2011). Veja mais aqui.

 

OUTRAS DIC’ARTES MAIS

 

 Ouvindo Pão e Vinho, de Moraes Moreira e Fausto Nilo:

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

Se a vida fosse trabalhar nessa oficina
fazer menino ou menina, edifício e maracá
virtude e vício, liberdade e precipício
fazer pão, fazer comício, fazer gol e namorar

Se a vida fosse o meu desejo
dar um beijo em teu sorriso, sem cansaço
e o portão do paraíso é teu abraço
quando a fábrica apitar

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

Numa paisagem entre o pão e a poesia
entre o quero e o não queria
entre a terra e o luar
não é na guerra, nem saudade nem futuro
é o amor no pé do muro sem ninguém policiar

É a faculdade de sonhar é uma poesia
que principia quando eu paro de pensar
pensar na luta desigual, na força bruta, meu amor
que te maltrata entre o almoço e o jantar

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

O lindo espaço entre a fruta e o caroço
quando explode é um alvoroço
que distrai o teu olhar
é a natureza onde eu pareço metade
da tua mesma vontade
escondida em outro olhar

E como o doce não esconde a tamarinda
essa beleza só finda
quando a outra começar
vai ser bem feito nosso amor daquele jeito
nesse dia é feriado não precisa trabalhar

Pra não dizer que eu não falei da fantasia
que acaricia o pensamento popular
o amor que fica entre a fala e a tua boca
nem a palavra mais louca, consegue significar: felicidade

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

PROGRAMA TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aqui.  Logo mais, a partir das 21 hs, acontecerá mais uma edição do Programa Tataritaritatá. Na programação: Alberto Nepomuceno, Chopin, Astor Piazzolla, Moraes Moreira, Alceu Valença, Yngwie Malmsteen, Colin Hay, Rafal Blechacz, Marcia Novo & Felipe Cerquize, Bee Scott, Cris Braun, Julia Crystal, Monica Brandão & muito mais. Veja mais aqui


FRITZ PERLS – O psicoterapeuta e psiquiatra Friedrich Salomon Perls (1893-1970, também conhecido por Fritz Perls) desenvolveu uma abordagem psicoterápica denominada Gestalt-terapia. Confira detalhes aqui, aquiaqui.


PROCÓPIO FERREIRA – Um dos maiores nomes do teatro brasileiro, Procópio Ferreira (1898-1979 – pseudônimo de João Álvaro de Jesus Quental Ferreira), foi ator, diretor de teatro e dramaturgo. Começou a trabalhar no circo e fez uma trajetória que compreende 500 personagens em 427 peças em 62 anos de carreira. Atuou no teatro, cinema e televisão até falecer aos 81 anos de idade. Aqui nossa homenagem!


DORO E A COPA DO MUNDO – O Doro acordou hoje mais otimista que nunca! No maior bufe-bufe na minha porta, entrou logo dizendo: - É hoji que a poica torci o rabo. O time de Filipão não dá um caldo que preste. Maisi como Deus é brasileiro, hoje o placá será: Brasil 6x0 Alemanha. E vamo incarar as Argentina pro Hexa. Nem o mais otimista dos otimistas chega a tanto. Eu, hem?!? Veja mais aqui.  


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!!!
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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ADA LIMÓN, MÓNICA BUSTOS, LETÍCIA CESARINO, ANUNA DE WEVER & O RECIFE DE CESAR LEAL

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns Olho D'água (1979), Revivência (1983), Rio Acima (1986), Ihu - Todos Os Sons (1996),...