quinta-feira, julho 17, 2014

PAUL VERLAINE, DELAROCHE, WOJCIECK KILAR, DENISE LEVERTOV, LOURDES LIMEIRA & MARCOLIVA



POEMAS DE PAUL VERLAINE (1844-1896)

HOMENAGEM DEVIDA

Deito-me de comprido no seu leito morno.
A claridade do dia está mais de acordo.
Com a ânsia obscena de prolongar, à luz crua,
O noturno festim, pois a luz acentua
O afinco, a fúria do nabo, e vai nisso tudo
Uma estranha vontade de fazer-se galhudo.
Nua em pelo, ela se agacha sobre o meu rosto
Para ser lambida: ontem me portei a gosto
E esta será (boa, ela, alem do que pensa)
A minha paga, a minha real recompensa.
Eu disse real, devia dizer divina:
Nádegas de carne sublime e pele fina,
Branco, puro perfil de azuladas nervuras,
Sulco de intenso perfume, a rosa sombria,
Lenta, gorda, e o poço do amor, as iguarias!
Fim do festim, de sobremesa a cona, a lira
Em cujas pregas, cordas, a língua delira!
E essas nádegas ainda, lua de dois
Quartos, alegre e misteriosa, em que depois
Irei alojar os meus sonhos de poeta,
Meu terno coração e meus sonhos de esteta!
E amante, ou melhor, amo em silêncio obedecido,
Reina ela sobre mim, o seu servo rendido.
(trad. José Paulo Paes)

PER AMICA SILENTIA

O alvo cortinado de musselina
Que o reflexo fraco da luminária
Faz parecer uma vaga opalina
Na sombra lassa e misteriosa,
Os longos cortinados de Adelina
Ouviram, Clara, a tua voz risonha
Tua voz suave, meiga e cristalina
Que uma outra voz enlaça, furiosa.
“Amar, Amar!” diziam essas vozes,
Clara, Adelina, presas adoráveis
Do nobre voto das almas sublimes.
Amai! Amai! Ó caras eremitas,
Pois nesses dias malditos, pelo menos
O glorioso Estigma vos distingue.
(Tradução de Heloisa Jahn)

ARIETA

Chora o meu coração
Como chove na rua;
Que lânguida emoção
Me invade o coração?
Ó frio murmúrio
Nas telhas e no chão!
Para um coração vazio,
Ó aquele murmúrio
Chora não sei que mal
Meu coração cansado.
Um desengano? – Qual!
É sem causa este mal
É a maior dor – dói tanto -
Não se saber por que,
Sem ódio ou amor, no entando,
O coração dói tanto.
(tradução de Guilherme de Almeida)

MORAL ABREVIADA

Uma nuca de loura e de graça inclinada,
Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,
Com medalhões escuros na mama afogueada,
Esse busto se assenta em baixas almofadas
Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,
Uma mulher se ajoelha - ocupada com quê?
Amor o sabe - expondo aos deuses a epopéia
Singela de seu cu magnífico, um espelho
Límpido da beleza, que ali quer se ver
Pra crer. Cu feminino, que vence o viril
Serenamente - o de efebo e o infantil.
Ao cu feminino, supremo, culto e glória!
(Tradução de José Paulo Paes).

BILHETE PARA LILY

Minha jovem compatriota,
Eu gostaria que viesses
Esta noite, me visitar.
Quero uma farra escandalosa,
Com beijos grandes e pequenos
Para os meus grandes apetites!
E os teus, será que são menores?
Primeiro vou beijar teus lábios,
Todos! É o prato que prefiro
E o jeito como faço a coisa
(E as outras todas de que gosto)
É guloso e compenetrado.
Hás de passar os teus dedinhos
Na minha barba de profeta
Enquanto acaricio a tua.
Depois, em teu colo de lírio
Que meu ardor cobre de rosas,
Hei de pousar a boca ardente;
Meus braços vão entrar no jogo
Tontos, em volta das delícias
Que estão abaixo da cintura.
As mãos, depois de derrotarem
A ira fingida de suas mãos,
Darão palmadas carinhosas
No teu traseiro, onde haverá
Novo embate, depois porei
A gravidade no teu centro…
Sou eu quem bate. Ai, grita: Entra!
(traduzido por Heloisa Jahn)

GOSTOS IMPERIAIS

Assim como Luís XV, não gosto de perfumes.
Só posso suportá-los no justo limite.
Na cama, por favor, nem frascos nem sachês!
Mas ah, que um ar singelo e picante flutue
Ao derredor de um corpo, desde que me excite;
E meu desejo preza e minha ciência aprova
No corpo apetecido, quando se desnuda,
O odor da picardia, o odor da puberdade
E o hálito excelente das belas maduras.
Mais: me fascinam (cala, moral, essa arenga)
Como dizer? Essas exalações secretas
Do sexo e arredores, antes e depois
Do abraço celestial e durante as carícias,
Sejam elas quais forem, devam ou pareçam.
Mais tarde, sonolento, com o olfato lasso,
Saciado de prazer, como os outros sentidos,
Quando meus olhos vão morrendo noutro rosto,
Quase extinto também, lembrança e previsão
Do entrelaçamento das pernas e braços,
Da união dos pés nos lençóis úmidos, vermelhos,
Sobe desse langor de agradável volúpia
Tanta humanidade que dá um certo embaraço
Mas tão bom, tão bom, que dá ganas de comer!
Como é possível desejar, por cima disso,
Uma fragrância estranha, de planta, de besta,
Mudando a percepção, confundindo os sentidos,
Quando disponho, para aumentar a volúpia,
Da quintessência, exatamente, da beleza!

OS DESCUIDOS DA VIDA

Nádegas, alma, mãos, meu ser todo em roldão,
Dorso, memória, pés, peito, nariz, orelha
E a fressura, tudo entoa uma canção
E uma roda viva em mim se destrambelha.
Canção, dança de roda, ambas uma demência
Mais qu'infernal, divina, ou vice-versa, enfim,
Onde voo e mergulho, e numa turbulência,
No bafo e suor seus já me perco em mim.
Meus dois Charles, um, jovem, tigre, olhar de gata,
Rosto quase infantil e corpanzil de hussardo;
O outro, um mocetão, só descarado acata
O meu rego a correr, bem fundo, pró seu dardo.

PAUL VERLAINE – O poeta francês Paulo Marie Verlaine (1844-1896), viveu uma intensa e turbulenta relação com poeta Arthur Rimbaud que resultou numa aventura de muitas viagens e tentativa de homicídio. É quando o poeta vira alcoólatra, se hospitalizando com freqüência até falecer. Veja mais aqui.

FONTE:
PAES, José Paulo. Poesia erótica em tradução. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
SILVA, Karla Noronha. A poesia erótica verlainiana. Curutiba: UFP, 2007.

Imagem: Girl in Basin, do pintor francês Paul Delaroche (1797-1856)

Ouvindo Retour à la Maison, do compositor polonês clássico Wojciech Kilar (1932-2013)

Foto: Denise Levertov, por Patricia Hampl.

DENISE LEVERTOV – A escritora e tradutora norteamericana de origem britânica e ligada à Geração Beat, Denise Levertov (1923-1997), engajou-se intelectualmente à época da Guerra do Vietnã. Sua poesia possui um equilíbrio interior onde o conteúdo determina a forma, mostrando-se preocupada com a situação da mulher, embora nunca tinha sido propriamente uma militante. Entre suas obras, destacamos o poema A mulher de Ariel, numa tradução de Antonio Carlos Secchin: “A mulher teme pelo homem, ele vai sozinho ao trabalho. Nenhum espelho se aninha no seu bolso. Seu rosto se abre e fecha na esperança. Seu sexo aflora, descoberto, ou acorda antes dele, cego e ansioso. Ela se julga com sorte. Mas triste. Ao sair, ela olha-se no espelho, lembra-se de si. Pedras, carvão, o chiado da água nos ramos queimados – e seu ser é uma caverna, há ossos no lar”.


MARCOLIVA – Conheci o excelente trabalho musical do gaucho Marcoliva (ou seja, Marcos Vanderlei de Oliveira) por meio da amiga Tatiana Cobbett. Tudo começou quando ele aos doze anos de idade, resolveu colocar pra fora seu talento nas aulas de violão: juntou palavras aos acordes descompromissados e mandou ver nos palcos escolares, até alcançar bares, festivais, teatro e bailes, tornando-se profissional aos quinze anos. Entre a música gaúcha e o violão clássico, desarrumou as malas em Florianópolis para assimilar a música Argentina e o folclore catarinense, tornando-se, então, parceiro da Tatiana para desenvolver um maravilhoso trabalho autoral que se projeta desde 2000. Dessa dupla, eu digo: bote excelência nisso! E como hoje é o aniversário dele, desejamos daqui nossos parabéns e muito sucesso!!!!


LOURDES LIMEIRA – A escritora e professora paraibana Lourdes Limeira possui uma vasta bagagem literária que transita pelos mais diversos gêneros. No seu sítio da rede, pode-se constatar a versatilidade e abundante exposição de seus trabalhos enquanto leciona na sala de aula. No meio da sua produção, destacamos o poema Ego sum quis sum: “A minha Poesia 99% é natureza humana; e 1% inspiration / Ou seja, raciocínio lógico, análise crítica, experimentação / Tudo muito, tipo pesquisa, e argumentação / Estudo e many organization. / A minha Poesia é, também, como digo, um desbunde / Das emoções e dos sentimentos; óbvio! / Se não fora assim, era ópio…! / Não valeria a pena tê-la entre nós! Lhe confunde?! / A minha Poesia é a teoria da prática! / É o sum qui sum! / Tudo muito da pragmática. / E aí estão as minhas considerações / Às críticas, eu desculpo / As inúmeras e tronchas especulações”.


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