É HOJE O DIA DE
CARNAVAL – Imagem: Art by Andrea Bacal - UMA: A LA URSA – A La Ursa quer
dinheiro, quem não dá é pirangueiro! Isso era Clodovilson, entrava ano e saía
ano, desde que a Gervasilva, aquele mulherão de parar o trânsito, instalou-se
na sua vida. Pra quem vivia morrendo na mão ou pegando pigu no passo da
primeira catraia que embeiçasse sua feiura, topar um monumento daqueles, assim
do nada, era o mesmo que ganhar na loteria. Se era, hem? A mulher era bonitona,
olhos, beiços, cara, peitos, bunda, pernas e coxas, corpulenta de chamar
atenção, majestosa de ter tudo aos seus pés, colossal de endoidar santos,
inocentes, anciões e endiabrados. Tanta coisa bonita num só mesmo lugar, só
graça de Deus! Oxe, ele nem nem, só pendurado na garupa do bundão dela,
agarrado ao seu pescoço, sai pra lá que essa aqui tem dono. E tinha, ele não
largava do pé dele, nem ela do dele, parecia mais feito um pro outro. Bastava o
apito anunciar o carnaval, ele devidamente trajado, tomava a posse da festa e
segurava o rojão como podia. Ela mesma sugeriu uma coleira, adepta que era de
BDSM, adorava ser dominada, pisoteada, maltratada por seu macho e submissa
somente a ele, ô cara sortudo esse, diziam todos, e era mesmo. Quem chegasse ao
desaviso de visitá-lo, encontrava-a quase nua, de quatro, lambendo os pés dele
e tudo o mais. Tinha até plateia do outro da rua defronte a casa dele, espiando
todo pelas brechas da sua casa, uma janela esquecida aberta, uma portinhola
escancarada, na varanda, terraço, ou na cozinha por cima do muro no quintal.
Havia sempre um jeito de se atrepar para ver as paparicadas dela pra cima dele.
Só no carnaval que ela botava a cara na rua, trancada às setecentas chaves o
resto do ano. No carnaval ela aparecia depravada, uma perdição geral, com tão
pouca roupa que não cobria quase nada, quase tudo de fora, aliás, pouquíssima
coisa deixava de ser vista, e ele lá rei do pedaço, dono da mais fantástica
entre todas as mulheres do planeta. Todo mundo limpava as vistas com
saracoteado dela e qualquer que se abestalhasse com a sua exuberância, dava de
cara com a La Ursa, verdadeiro chega pra lá. O que tinha de gente maldizendo da
vida e invejando Clodovilson, era da muita, e ele mão de figa, gritava: Tire o
olho gordo do meu pirão, não é pro seu bico, essa aqui tem dono e sou eu,
arreda que aqui só quem reina sou eu! DOIS:
O HOMEM DA MEIA NOITE, A MULHER DO MEIO DIA – Assim é a vida: ele zanzava
de noite, donzelão, quanta mulher vistosa, exóticas, todas assanhadas e
prontas, sem um centavo no bolso, via com o umbigo, lambia com a testa, não
dava conta, só pinguço aguenta. Ela voava de dia, arredia, a vida traz a conta,
sabia, desenganada do amor, não existia pecado ao sul do Equador, não era pra
ela, pudica, aliás, sonsa, se guardava pro princípe encantado. As razões mais
absurdas, até as pedras se encontram, não seria eles o desencontro. Em uma
esquina, ao crepúsculo, ela se recolhia, ele saía pra vida, um encontrão: Quem
é você? Colombina, Pierrot. Nada mais romântico, ele a levou na noite, ela
raiou no dia dele, indômitos, olhos nos olhos, mão na mão, parecia mais um
feito pro outro. Trocaram de fuso horário, ela nua exaltada na noite, gemendo
égua no cio, ele priápico no pino do meio dia, enganchado nela como que
engatados pelo amor. E foram felizes pra sempre, ninguém sabe, o Homem da Meia
Noite, a Mulher do Meio Dia. TRÊS:
EDUCAÇÃO X ESCOLARIZAÇÃO – Tem chato de galocha de todo jeito, valha-me
tanta carne de pescoço. De uma vez por todas: educação nunca foi escolarização,
no máximo esta é apenas uma mínima parte daquela, provavelmente uma ferramenta,
um instrumento. Principalmente no Brasil em que a tragédia educacional perpassa
as redes pública e privada, moldando apenas o aprendiz pro mercado e mais nada,
cidadania e dignidade humana, solidariedade que é bom, passam ao largo, descaradamente.
Pra você ver, um dia desses uns alunos duns cursos de uma distinta faculdade,
falavam pra mim que um certo professor de Ciências Sociais mestre em não sei o
quê, disse no meio da aula que odiava Marx e que, por isso, não falaria de
marxismo nem coisa que valha, preferindo elogiar com o título de filósofo um
certo político que enganou todo mundo na caça aos marajás, reconhecendo nele o
ideal de ser humano. Cada coisa que me aparece. Ainda me deram de bandeja que
nas provas desse tal professor mestre em não sei o quê, tem sempre um ou dois
quesitos com caça-palavras, indisfarçamente com nomes pra lá de duvidos e que
são exaltados por ele, inclusive, confidenciando outros mais achegados que ele
anda com os dois colhões pro lado direito, repetindo frases que um certo tido
por intelectual, plantado de tédio e angústia em Miami, ejacula de sua
masturbação mental pelos quatro cantos. Eu, hem! Cada uma que me aparece, pra
onde me viro só vejo assombração. Isto é Brasilzilzilzilzil!!! E vamos aprumar
a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.Zineblog de Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
terça-feira, fevereiro 13, 2018
SARAMAGO, NATALIE DESSAY, AGOSTINHO DA SILVA, BARBARA STIMOLI, WACQUANT, ANDREA BACAL, SUZANA SANCHES, TATIANA COBBETT & MARCOLIVA
É HOJE O DIA DE
CARNAVAL – Imagem: Art by Andrea Bacal - UMA: A LA URSA – A La Ursa quer
dinheiro, quem não dá é pirangueiro! Isso era Clodovilson, entrava ano e saía
ano, desde que a Gervasilva, aquele mulherão de parar o trânsito, instalou-se
na sua vida. Pra quem vivia morrendo na mão ou pegando pigu no passo da
primeira catraia que embeiçasse sua feiura, topar um monumento daqueles, assim
do nada, era o mesmo que ganhar na loteria. Se era, hem? A mulher era bonitona,
olhos, beiços, cara, peitos, bunda, pernas e coxas, corpulenta de chamar
atenção, majestosa de ter tudo aos seus pés, colossal de endoidar santos,
inocentes, anciões e endiabrados. Tanta coisa bonita num só mesmo lugar, só
graça de Deus! Oxe, ele nem nem, só pendurado na garupa do bundão dela,
agarrado ao seu pescoço, sai pra lá que essa aqui tem dono. E tinha, ele não
largava do pé dele, nem ela do dele, parecia mais feito um pro outro. Bastava o
apito anunciar o carnaval, ele devidamente trajado, tomava a posse da festa e
segurava o rojão como podia. Ela mesma sugeriu uma coleira, adepta que era de
BDSM, adorava ser dominada, pisoteada, maltratada por seu macho e submissa
somente a ele, ô cara sortudo esse, diziam todos, e era mesmo. Quem chegasse ao
desaviso de visitá-lo, encontrava-a quase nua, de quatro, lambendo os pés dele
e tudo o mais. Tinha até plateia do outro da rua defronte a casa dele, espiando
todo pelas brechas da sua casa, uma janela esquecida aberta, uma portinhola
escancarada, na varanda, terraço, ou na cozinha por cima do muro no quintal.
Havia sempre um jeito de se atrepar para ver as paparicadas dela pra cima dele.
Só no carnaval que ela botava a cara na rua, trancada às setecentas chaves o
resto do ano. No carnaval ela aparecia depravada, uma perdição geral, com tão
pouca roupa que não cobria quase nada, quase tudo de fora, aliás, pouquíssima
coisa deixava de ser vista, e ele lá rei do pedaço, dono da mais fantástica
entre todas as mulheres do planeta. Todo mundo limpava as vistas com
saracoteado dela e qualquer que se abestalhasse com a sua exuberância, dava de
cara com a La Ursa, verdadeiro chega pra lá. O que tinha de gente maldizendo da
vida e invejando Clodovilson, era da muita, e ele mão de figa, gritava: Tire o
olho gordo do meu pirão, não é pro seu bico, essa aqui tem dono e sou eu,
arreda que aqui só quem reina sou eu! DOIS:
O HOMEM DA MEIA NOITE, A MULHER DO MEIO DIA – Assim é a vida: ele zanzava
de noite, donzelão, quanta mulher vistosa, exóticas, todas assanhadas e
prontas, sem um centavo no bolso, via com o umbigo, lambia com a testa, não
dava conta, só pinguço aguenta. Ela voava de dia, arredia, a vida traz a conta,
sabia, desenganada do amor, não existia pecado ao sul do Equador, não era pra
ela, pudica, aliás, sonsa, se guardava pro princípe encantado. As razões mais
absurdas, até as pedras se encontram, não seria eles o desencontro. Em uma
esquina, ao crepúsculo, ela se recolhia, ele saía pra vida, um encontrão: Quem
é você? Colombina, Pierrot. Nada mais romântico, ele a levou na noite, ela
raiou no dia dele, indômitos, olhos nos olhos, mão na mão, parecia mais um
feito pro outro. Trocaram de fuso horário, ela nua exaltada na noite, gemendo
égua no cio, ele priápico no pino do meio dia, enganchado nela como que
engatados pelo amor. E foram felizes pra sempre, ninguém sabe, o Homem da Meia
Noite, a Mulher do Meio Dia. TRÊS:
EDUCAÇÃO X ESCOLARIZAÇÃO – Tem chato de galocha de todo jeito, valha-me
tanta carne de pescoço. De uma vez por todas: educação nunca foi escolarização,
no máximo esta é apenas uma mínima parte daquela, provavelmente uma ferramenta,
um instrumento. Principalmente no Brasil em que a tragédia educacional perpassa
as redes pública e privada, moldando apenas o aprendiz pro mercado e mais nada,
cidadania e dignidade humana, solidariedade que é bom, passam ao largo, descaradamente.
Pra você ver, um dia desses uns alunos duns cursos de uma distinta faculdade,
falavam pra mim que um certo professor de Ciências Sociais mestre em não sei o
quê, disse no meio da aula que odiava Marx e que, por isso, não falaria de
marxismo nem coisa que valha, preferindo elogiar com o título de filósofo um
certo político que enganou todo mundo na caça aos marajás, reconhecendo nele o
ideal de ser humano. Cada coisa que me aparece. Ainda me deram de bandeja que
nas provas desse tal professor mestre em não sei o quê, tem sempre um ou dois
quesitos com caça-palavras, indisfarçamente com nomes pra lá de duvidos e que
são exaltados por ele, inclusive, confidenciando outros mais achegados que ele
anda com os dois colhões pro lado direito, repetindo frases que um certo tido
por intelectual, plantado de tédio e angústia em Miami, ejacula de sua
masturbação mental pelos quatro cantos. Eu, hem! Cada uma que me aparece, pra
onde me viro só vejo assombração. Isto é Brasilzilzilzilzil!!! E vamos aprumar
a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.quinta-feira, setembro 21, 2017
JULIO VERNE, JOÃO GONÇALVES, EDUCAÇÃO INCLUSIVA & ACESSIBILIDADE NA BIBLIOTECA FENELON!
O ESPADACHIM DO CANAVIAL – Imagem
do artista plástico João Gonçalves -
O que Zedonho tinha de ocrídio, tinha de trabalhador. Pense num sujeito apegado
aos afazeres de só parar quando vencia o prometido. Pra se ter ideia, quando
menino de rua, órfão de pai e mãe que nem sabia de qualquer parente nem
aderente, pedia pra limpar o mato do terreiro, varrer as calçadas e as ruas,
carregar uma mala, engraxar um sapato, coisas do tipo, mas como era criança
ninguém levava a sério. – Meu filho cadê seus pais? Tenho não. Ué, você nasceu
aonde? Nasci e vivo nas ruas. Era sempre assim. Até o dia em que um idoso
japonês que apareceu por essas bandas, inadvertidamente deixou cair umas moedas
no chão que rolaram rua abaixo espalhadas, ele recolheu uma a uma na maior das ligeirezas
e correu pro ancião devolvendo-as: - Olhe, é do senhor, tinha caído e nem viu!
O macróbio ficou tão admirado: - Ah, que bom! Você mora aonde? Na rua. Na rua?
Sim. Então, venha. Pegou sua mão e o levou pra uma casa esquisita, nunca tinha
visto daquele tipo e ficou maravilhado com o tanto de coisas estranhas que
tinha dentro. – Já comeu hoje? Não. Venha, vamos pro desjejum. Que é isso?
Venha. È sentaram-se ao chão, ao redor de uma mesinha. Enquanto o longevo
nipônico manipulava uns hashis levando aquela comida esquisita à boca, ele
fitava detalhadamente, engolindo seco. – Vá, pode comer! Aí ele tentou. – Ah,
pegue o hashi assim! Olhou, olhou, nada de aprender, o velho se ria com sua
inabilidade. Aí ele invocou-se e meteu a mão na comida, ingerindo tudo duma só
vez. Novas risadas do anoso que bateu palmas, dele perguntar: - Tem mais? Uma
jovem nissei adentrou trazendo um prato com comidas que lhe foram oferecidas.
Nem esperou pela anuência do anfitrião e já foi logo metendo a mão à boca, de
fazer bochecha pra engolir. Tem mais? Outros pratos vieram dele se empanzinar
de tanto comer, se encostando a um canto e pegar no sono. Quando acordou já era
quase noite e ele ficou de olhos esbugalhados com o tanto de comida que estava
servida à mesinha. Para mim? Com a anuência do dono da casa, ele avançou e se
empanturrou até ficar amolecido de bucho cheio. Um tempo depois a nissei voltou
para apanhá-lo e encaminhá-lo pro banho; depois do asseio, já trocado de roupa
feito um japonesinho, foi conhecendo cada parte da casa, até descobrir o seu
dormitório. Nem esperou ela terminar de falar e já caiu na cama, só acordando
no dia seguinte. Assim se passaram dias, semanas, meses, anos, aprendendo artes
marciais e os serviços gerais da casa. Já com quase dezessete anos, o seu
protetor faleceu, deixando-lhe duas espadas de samurai por presente de herança.
O restante, os familiares vieram, limparam tudo, findaram por despejá-lo de não
saber o que poderia fazer nem pra onde ir. Era época do inicio de moagem da safra
canavieira em Alagoinhanduba, ele aproveitou e se inscreveu no que estavam
precisando: cortador de cana. Quando chegou empurrado na plantação, pediu para
que escolhessem um pedaço de terra para ele trabalhar. Acharam que era
petulância do novato e logo apontaram pruma área só pra vê-lo morrer de
trabalhar dias a fio. Duas horas e meia depois apareceu ele pedindo que
demarcassem outra área porque aquela já estava pronta. Foram ver e ficaram de
queixo caído: não só deu vencimento, como deixou tudo devidamente organizado
pra colhedeira passar e pegar. – Como foi que você fez isso, seu cabra?
Fazendo. Faça de novo preu ver ali. Apontaram e lá foi ele, a área era maior
que a anterior e ficaram só olhando pra caírem na gaitada com a melada dele.
Nem notou o sarcasmo de todos, logo se encaminhou pra plantação, sacando as
duas espadas e golpeando a cana que já caía certinha aos montinhos. Como é?
Ficaram de olhos arregalados, nem acreditaram no que viram e já botaram ele pra
outra empreitada maior que as anteriores. Oxe! Nem, nem. O que ele fez num dia,
somando a tarefa de todos por um mês, multiplicado por duas vezes e, ainda
assim, não davam vencimento. – Ô, mô fio, você aparentado com quem, hem? Eu só
órfão de pai e mãe, não tenho parente não. Isso é um apaideguado dum broco, tô
perguntando se você é aparentado com Superhomem, com o cabrunco, com coisas do
outro mundo, ou o quê? Não, senhor, sou apenas trabalhador mesmo. Isso é o fim
do mundo. Vá-se embora e amanhã esteja no ponto no mesmo horário. Todo dia ele
batia o recorde e no final da safra foi o campeão com direito a prêmio, festa e
tudo. Como estava famoso, logo angariou a simpatia das moçoilas mais matutas,
chegando mesmo a se amasiar de uma que nem bola pra ele dava. Ano após ano foi
nascendo um bruguelo atrás do outro e ele, quando findava a safra em
Alagoinhanduba, ia pro Centro-Sul pra botada das usinas de lá, não se
atrapalhava com entressafra, só voltando seis meses depois. Anos e décadas se
passando, foi cortando cana que ele montou a casa, educou os filhos, tudo
formado com graduação e pós-graduações, tem até um que o mês passado foi
laureado com o doutoramento numa universidade da França, e tem mais três que
estão terminando o mestrado também no exterior. Quando soube disso, o Gal
Langal não acreditou: - Sou que nem São Tomé, só acredito se eu ver com esses
olhos que a terra um dia vai ter o trabalho de comer. Verdade. Provaram por
a+b, tintim por tintim, testemunhas muitas, fama do homem ia longe, mesmo
assim, não acredito. Tiraram a prova dos nove com ele, chamaram Zedonho: -
Nada, eu só trabalhei pesado e muito! Nada demais. Estão vendo, cambada? Nada,
vá na casa dele e tire a sua conclusão. Gal Langal foi lá, conferiu tudo,
confirmou tudo. Mas não acredito. Esse cara deve de ter outra profissão, não
pode ser. Não tinha. Ô Zedonho, que danado que você faz pra ter essas coisas e
viver desse jeito? Nada, só corto cana. Foi quando souberam que até a polícia
desconfiou dele, vez que um sujeito havia cometido um crime e havia escapulido
justo pro canavial dele. Ah, eu num disse? Tem coisa. Tinha não. Quando a
polícia foi investigar, o bandido estava todo cortado dentro do canavial, até
inocentaram o Zedonho porque o sujeito era de alta periculosidade, num foi,
Zedonho? Foi isso mesmo, meu senhor. Danou-se. Ô Zédonho e o que tu queres mais
da vida, hem homem? Queria só que o mundo vivesse em paz, mais nada. © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.quinta-feira, julho 17, 2014
EVA GARCÍA, HELEN FIELDING, NORBERT ELIAS, JULIA HILL & XEXÉU NAS ASAS DA IMAGINAÇÃO
AS
ASAS DA IMAGINAÇÃO - Comigo é nove, corra
dentro!... O meu brevê sempre foi
a imaginação, tal como Julio Verne encantado entre os tons do Close to the
edge do Yes, êxtase catártico no epílogo. Ou noutra trilha, o Concierto
de Aranjuez nos teclados de Tomita: agora eu queria sair de mim. E mais
subir. Outra era o Clair de Lune de Debussy que me fazia virar Fernão
Capelo Gaivota ou o piloto das Ilusões de Richard Bach. Acho que esses sonhos
só Jung possa explicar: eu Blériot atravessando o canal da mancha com meu
aeroplano. Como nada é previsível, lá ia eu na maior doidice com a musa
mecânica no aerobanquete futurista de Marinetti. Foi nela que fui da Zona de
Apollinaire e pelos júbilos de Kafka com os aeroplanos em Brescia e o voo de
D´Annunzio com o piloto Curtis e, como dissera o general romano Pompeu, o
Grande, reiterado por Plutarco, Petrarca e Fernando Pessoa: “navegar é
preciso, viver não é preciso”. No meu caso: voar era preciso. E vou só
contar uma hestória de muitas. Vamos. Veja mais aqui & aqui.
DITOS & DESDITOS - Cada
momento traz uma escolha; cada escolha tem um impacto. Você tem que se
responsabilizar por suas ações e é assim que protegeremos a Terra. A questão
não é se você pode fazer a diferença. Você já faz a diferença. É apenas uma
questão de que tipo de diferença você deseja fazer durante sua vida neste
planeta. Todos os dias nós, como espécie, fazemos muito para destruir a
capacidade da Criação de nos dar vida. Mas essa Criação continua a fazer tudo
ao seu alcance para nos dar vida de qualquer maneira. E isso é amor verdadeiro.
Pensamento da escritora, ativista e ambientalista estadunidense Julia
Butterfly Hill. Veja mais aqui e aqui.
ALGUÉM FALOU - Posso
confirmar oficialmente que o caminho para o coração de um homem hoje em dia não
é através da beleza, da comida, do sexo ou do caráter sedutor, mas apenas da
capacidade de parecer pouco interessado nele. Está provado por pesquisas que a
felicidade não vem do amor, da riqueza ou do poder, mas da busca de objetivos
alcançáveis. A corrupção dos bons pela crença em sua própria bondade infalível
é a armadilha mais sangrenta e perigosa do espectro humano. Depois de vencer
todos os seus pecados, o orgulho é quem o conquistará. Um homem começa
decidindo que é um bom homem porque toma boas decisões. Em seguida, ele está
convencido de que qualquer decisão que tome deve ser boa, porque ele é um bom
homem. A maioria das guerras no mundo são causadas por pessoas que pensam que
têm Deus ao seu lado. Sempre fique com pessoas que sabem que são imperfeitas e
ridículas. Pensamento da escritora e roteirista
britânica Helen Fielding. Veja mais aqui.
O DIA QUE DUROU 21 ANOS – O
premiado documentárioO Dia que Durou 21 Anos (2013), dirigido por Camilo
Galli Tavares, trata sobre a preparação do golpe de 1964, quando já em 1962 os
Estados Unidos já se envolviam na trama, em conformidade com relatórios confidenciais
que contam, minuto a minuto, hora a hora, a estratégia estadunidense. O filme
parte da crise provocada com a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, prosseguindo
até 1969, com o sequestro do embaixador Charles Burke Elbrick, por grupos armados.
Inicialmente o filme foi concebido para contar a história do jornalista Flávio
Tavares, militante da oposição, porém tendo por base o livro 1964 Visto e
Comentado pela Casa Branca (1977), de Marcos Sá Corrêa, contando,
inclusive, com entrevista do professor de Havard e embaixador estadunidense,
Peter Kornbluh; dos historiadores Carlos Fico e James Green, sobre as questões
ligadas às ligas camponesas, desapropriação de hectares agrícolas e de empresas
estrangeiras nacionalizadas no Rio Grande do Sul, quando o então presidente
Kennedy recebe a sugestão para afastamento de Goulart, autorizando a
conspiração contra o país, escolhendo Castelo Branco para suceder o presidente
deposto, sendo enviada uma força-tarefa naval para o porto de Santos,
denominada de Operação Brother Sam, composta de um porta-aviões, quatro
contratorpedeiros e cruzadores de apoio, além de navios petroleiros. Veja mais
aqui.
PROCESSO CIVILIZATÓRIO – [...]
O indivíduo – ou, mais exatamente, aquilo a que se refere o atual conceito
de indivíduo – reaparece uma vez após outra como algo que existe “fora” da sociedade.
Aquilo a que se refere o conceito de sociedade volta repetidamente como algo
que existe fora e além do indivíduo [...] A fim de superar esse beco sem
saída da sociologia e das ciências sociais em geral, é necessário deixar clara a
inadequação de ambas as concepções, a de indivíduos fora da sociedade e, igualmente,
a de uma sociedade fora de indivíduos [...]. Trechos da obra O processo
civilizador: uma história dos costumes (Jorge Zahar, 1994), do sociólogo
alemão Norbert Elias (1897-1990). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui
e aqui.
A VELHA FAMILIA - [...] No fundo, até o
homem mais velho do mundo se recusa a aprender com os próprios erros, pensei
[...] Certa vez, minha mãe me explicou que o luto tem cinco estágios e
que ela ajudava seus pacientes a passar por todos eles sem que nenhum deles se
tornasse patológico. Lembro-me que esses
estágios foram de descrença e depois raiva. Não me lembro do
terceiro e do quarto, mas o último foi a aceitação. [...]
A pior coisa da morte são aqueles que ela deixa vivos.
[...] Às vezes nascem dias prometendo beijos e abraços. Às vezes chegam
esses beijos e abraços, e você não pode culpar o dia por nada, mas eles não são
de forma alguma o que você esperava. Só se pode pedir um
pouco mais daqueles dias, e felizmente esse desejo é sempre atendido: que
morram o mais rápido possível e que chegue um novo dia. [...].
Trechos extraídos da obra La vieja familia: La saga de los
longevos (La Esfera de los Libros, 2013), da escritora espanhola Eva
García Sáenz de Urturi.
HOMENAGEM DEVIDA
Deito-me de comprido no seu leito morno.
A claridade do dia está mais de acordo.
Com a ânsia obscena de prolongar, à luz crua,
O noturno festim, pois a luz acentua
O afinco, a fúria do nabo, e vai nisso tudo
Uma estranha vontade de fazer-se galhudo.
Nua em pelo, ela se agacha sobre o meu rosto
Para ser lambida: ontem me portei a gosto
E esta será (boa, ela, alem do que pensa)
A minha paga, a minha real recompensa.
Eu disse real, devia dizer divina:
Nádegas de carne sublime e pele fina,
Branco, puro perfil de azuladas nervuras,
Sulco de intenso perfume, a rosa sombria,
Lenta, gorda, e o poço do amor, as iguarias!
Fim do festim, de sobremesa a cona, a lira
Em cujas pregas, cordas, a língua delira!
E essas nádegas ainda, lua de dois
Quartos, alegre e misteriosa, em que depois
Irei alojar os meus sonhos de poeta,
Meu terno coração e meus sonhos de esteta!
E amante, ou melhor, amo em silêncio obedecido,
Reina ela sobre mim, o seu servo rendido.
(trad. José Paulo Paes)
PER AMICA SILENTIA
O alvo cortinado de musselina
Que o reflexo fraco da luminária
Faz parecer uma vaga opalina
Na sombra lassa e misteriosa,
Os longos cortinados de Adelina
Ouviram, Clara, a tua voz risonha
Tua voz suave, meiga e cristalina
Que uma outra voz enlaça, furiosa.
“Amar, Amar!” diziam essas vozes,
Clara, Adelina, presas adoráveis
Do nobre voto das almas sublimes.
Amai! Amai! Ó caras eremitas,
Pois nesses dias malditos, pelo menos
O glorioso Estigma vos distingue.
(Tradução de Heloisa Jahn)
ARIETA
Chora o meu coração
Como chove na rua;
Que lânguida emoção
Me invade o coração?
Ó frio murmúrio
Nas telhas e no chão!
Para um coração vazio,
Ó aquele murmúrio
Chora não sei que mal
Meu coração cansado.
Um desengano? – Qual!
É sem causa este mal
É a maior dor – dói tanto -
Não se saber por que,
Sem ódio ou amor, no entando,
O coração dói tanto.
(tradução de Guilherme de Almeida)
MORAL ABREVIADA
Uma nuca de loura e de graça inclinada,
Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,
Com medalhões escuros na mama afogueada,
Esse busto se assenta em baixas almofadas
Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,
Uma mulher se ajoelha - ocupada com quê?
Amor o sabe - expondo aos deuses a epopéia
Singela de seu cu magnífico, um espelho
Límpido da beleza, que ali quer se ver
Pra crer. Cu feminino, que vence o viril
Serenamente - o de efebo e o infantil.
Ao cu feminino, supremo, culto e glória!
(Tradução de José Paulo Paes).
BILHETE PARA LILY
Minha jovem compatriota,
Eu gostaria que viesses
Esta noite, me visitar.
Quero uma farra escandalosa,
Com beijos grandes e pequenos
Para os meus grandes apetites!
E os teus, será que são menores?
Primeiro vou beijar teus lábios,
Todos! É o prato que prefiro
E o jeito como faço a coisa
(E as outras todas de que gosto)
É guloso e compenetrado.
Hás de passar os teus dedinhos
Na minha barba de profeta
Enquanto acaricio a tua.
Depois, em teu colo de lírio
Que meu ardor cobre de rosas,
Hei de pousar a boca ardente;
Meus braços vão entrar no jogo
Tontos, em volta das delícias
Que estão abaixo da cintura.
As mãos, depois de derrotarem
A ira fingida de suas mãos,
Darão palmadas carinhosas
No teu traseiro, onde haverá
Novo embate, depois porei
A gravidade no teu centro…
Sou eu quem bate. Ai, grita: Entra!
(traduzido por Heloisa Jahn)
GOSTOS IMPERIAIS
Assim como Luís XV, não gosto de perfumes.
Só posso suportá-los no justo limite.
Na cama, por favor, nem frascos nem sachês!
Mas ah, que um ar singelo e picante flutue
Ao derredor de um corpo, desde que me excite;
E meu desejo preza e minha ciência aprova
No corpo apetecido, quando se desnuda,
O odor da picardia, o odor da puberdade
E o hálito excelente das belas maduras.
Mais: me fascinam (cala, moral, essa arenga)
Como dizer? Essas exalações secretas
Do sexo e arredores, antes e depois
Do abraço celestial e durante as carícias,
Sejam elas quais forem, devam ou pareçam.
Mais tarde, sonolento, com o olfato lasso,
Saciado de prazer, como os outros sentidos,
Quando meus olhos vão morrendo noutro rosto,
Quase extinto também, lembrança e previsão
Do entrelaçamento das pernas e braços,
Da união dos pés nos lençóis úmidos, vermelhos,
Sobe desse langor de agradável volúpia
Tanta humanidade que dá um certo embaraço
Mas tão bom, tão bom, que dá ganas de comer!
Como é possível desejar, por cima disso,
Uma fragrância estranha, de planta, de besta,
Mudando a percepção, confundindo os sentidos,
Quando disponho, para aumentar a volúpia,
Da quintessência, exatamente, da beleza!
OS DESCUIDOS DA VIDA
Nádegas, alma, mãos, meu ser todo em roldão,
Dorso, memória, pés, peito, nariz, orelha
E a fressura, tudo entoa uma canção
E uma roda viva em mim se destrambelha.
Canção, dança de roda, ambas uma demência
Mais qu'infernal, divina, ou vice-versa, enfim,
Onde voo e mergulho, e numa turbulência,
No bafo e suor seus já me perco em mim.
Meus dois Charles, um, jovem, tigre, olhar de gata,
Rosto quase infantil e corpanzil de hussardo;
O outro, um mocetão, só descarado acata
O meu rego a correr, bem fundo, pró seu dardo.
NÊGO BISPO, IA GENBERG, JOUMANA HADDAD & FUXICO CULTURAL
Imagem: Acervo ArtLAM . Bródio na pareidolia do perdulário pendular... - Alagoinhanduba estava em polvorosa com os estardalhaços causad...
-
Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Em rota de colisão, a sorte...
-
A arte da atriz, dançarina e coreografa estadunidense Tracy Philipps . PENSAMENTO DO DIA - Nossa liberdade é uma liberdade cond...
-
O MILAGRE DELA, KAREN, KARA ZOR-L... – Absorto com as minhas escrevinhações, nem percebia o que se passava ao meu redor. Levantei-me...
-
ERA UMA VEZ ZÉ CORNINHO!... – Era imensamente junho e Zé Corninho estava enfezado: só levava desacerto - o destino desapiedado aos e...
-
DORO, A TEIBEI & ORÁCULO... – Doro aperreou-se: a situação não estava nada auspiciosa; de promissor mesmo, só a vontade de tom...

















