O OUTRO LADO DAS COISAS - Imagem: arte do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918). - Entre os
Zés que conheci, o Bornal era o mais engraçado: riso estampado na cara, pau pra
toda obra, viver é bom demais. Isso mesmo, o Zé Bornal, chovesse ou fizesse
sol, dia santo ou feriado, estava lá, pronto pro que fosse, bronca que viesse e
um sorriso nos lábios: Agora mesmo! É pra já! Ô cabra bão! Não lembro, nessa
vida toda de mais de trinta anos de convivência, ouvi-lo dizer não ou
apresentar cara feia com notícia ruim, ou coisa desandada. Isso não quer dizer
que ele se apresentasse indiferente ao problema dos outros; não, não é isso;
bastava quem quer que fosse convalescer, lá estava ele, contrito, solidário.
Não perdia missa de sétimo dia de conhecidos ou não, à beira de leitos
hospitalares, socorrendo necessitados, trocados na algibeira pros pedintes, uma
mão amiga a qualquer solicitação. Sempre sorrindo. Ao contrário, a senhora
dele, distante, reticente no seu mutismo. Como é que pode Zé Bornal esbanjar
felicidade e a mulher dele com cara de sacrifício inacabado, ah, era preciso
saber das fases passadas da lua, dos dias esquecidos nos calendários
pretéritos, daquelas coisas que não se sabe ou mesmo esquecidas, ou que se fez
que nem viu. Deles, aos poucos, a memória da perda do filho, coisa de doença, e
mãe é mãe. Não só isso: quantas Zé não embarcou nas voltas de findar sozinho e
sem ter a quem recorrer, quantas não remaram juntos, ele uma mão na frente
outra atrás, situação estreita, apertos de torar tudo, e ela lá, ao lado dele. Se
ele sorria enfrentando qualquer guerra, ela desarmava as travas com uma mínima
lágrima, e a dela, era carregada de profundo sentimento, daquelas que descem
face abaixo inalterada, uma por uma, lentamente. Não há nada mais comovente que
uma lágrima de mulher, talvez seja isso a felicidade de Zé: ela pranteava o
infortúnio dele para lavar sua alma, como se, depois disso, nada mais houvesse
acontecido. Vez em quando a via vestido esvoaçante, seminua nos remoinhos de
ventos, a jogar vidrinhos no quintal. Eram lacrimários, nunca tinha visto aquilo,
reunia gota a gota do seu choro, resignada, imolando suas dores, no minúsculo invólucro,
para jogá-los fora, exorcizando seus temores e malsinações, refazendo a vida
depois dos reveses. Lições pra Zé, expurgos dela. © Luiz Alberto Machado.
Direitos reservados. Veja mais aqui.
RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do trompetista de jazz estadunidense Ambrose Akinmusire: Live At Jazz Standard Jazzmix in New Tork, Confessions to
my ymborn daughter & Dreams of the Mabahsniese; da pianista taiwanesa Grace Chung: Concerto n 21 Mozart, Sonata C Minor Grieg & Recital
at USC; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.
PENSAMENTO DO DIA – Tenho-me
esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas
por entendê-las. Pensamento do filósofo
racionalista holandês Baruch Espinoza (1632-1677). Veja mais aqui.
CRIAÇÃO & ESTILO - Basta
ver a alegria das crianças, intensamente envolvidos em satisfazer, para se ter
uma ideia da grande aventura que é criar. Aventura, entrega e conquista, rumo a
novas experiências e novos mundos. É como se as crianças desde sempre,
soubessem colher a essência do ser. E em nós, adultos, perdeu-se o olhar aberto
das crianças? [...] o potencial
criador não é outra senão esta disponibilidade interior, esta plena entrega de
si e a presença total naquilo que se faz. Ela vem acompanhada do senso do
maravilhoso, da eterna surpresa com as coisas, que se renovam no cotidiano.
[...]. Trecho extraído da obra Acaso e
criação artística (Campus, 1999), da pintora, gravadora, desenhista,
ilustradora, professor e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga
Ostrower (1920-2001). Veja mais aqui.
O AMANTE – [...] Sobre
as ripas da ponte, sobre os adros do barco, sobre o mar, se esforça e se
destrói, com a mesma lentidão, uma escritura, ilegível e dilacerantes de
sombras, de arestas, de traços de luz entrecortada e refratada nos ângulos, nos
triângulos de uma geometria fugaz, que se escoa ao sabor das sombras das vagas
do mar. Para em seguida, mais uma vez, incansavelmente, continuar a existir
[...]. Trecho extraído da obra O amante (L´Amant - Prêmio
Goucourt, França 1984 - Nova Fronteira, 1985), da romancista, novelista,
roteirista, poeta, diretora de cinema e dramaturga francesa Marguerite Duras (1914-1996). Veja mais
aqui.
CANÇÃO DE OUTONO – As pulsações / dos violões / outonais /
fazem o ser / esmorecer / sempre iguais / e todo arfando / pálido, quando / soa
a hora, / minha alma invade / velha saudade / e após chora. / Se eu assim vago,
/ vento pressago / me transporta / ao-deus-dará, / semelhante à / folha morta.
Poema extraído da obra Poemas (Difusão Europeia do Livro, 1962), do poeta
francês Paul Verlaine (1844-1896). Veja mais aqui.
A ARTE DE GUSTAV KLIMT
A arte do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918).
&
Dos
beijos e beijares, o teatro de Nelson Rodrigues, a pintura de Auguste Rodin, a
música de Sérgio Sampaio & a arte de Soaring
Turkeys aqui.