domingo, março 15, 2026

AUŠRA KAZILIŪNAITĖ, VIRGINIA HIGA, RENATO NOGUERA & LOURIVAL BATISTA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Music from Man Of La Mancha (2018), Love Stories (2019), Mirror Mirror (2021), Quietude (2022) e Time And Again (2024), da premiada cantora, pianista, arranjadora e compositora, Eliane Elias. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


Era dezembro & La Madóna di Ursatt... - Desassombrado, Zé-Bruão não abria nem prum trem descendo desenfreado. Pro grandalhão, situação que fosse, encarava; se a civilidade não vingava, tabefes, sarrabulhada. Apelidavam-no, às escondidas, de tudo que fosse abrutalhado, bicho ruim, até de Urso: Lá vai ele, ruindade! E ele só de cara fechada, de soslaio mostrando os queixares no canto da boca. Assim enfrentou muitas e tantas: linguarudos, desenvultados, maluvidos, topetudos, moléstias e pragas. Deu cabo de jactantes, poltergeists, tomahawks, nem pestanejava, providências nos conformes, nocaute no desafeto e limpava as mãos: Resolvido. Qualquer surpresa aversiva tratava na maior naturalidade, levava no comum: favas contadas. Enfrentou outras e quantas, o invencível, famigerado. Eis que amanhecia sexta 13, bateram à porta. Quem é? Não ouviu resposta. Desaferrolhou e... teibei! Viu-se impactado: arrepiou os cabelos, do globo ocular se dilatar estarrecido, dando voltas quase saltando fora, tonteou e teve um troço. Despertou com uma venta aos bafos na sua, o peso na caixa dos peitos fazendo força para reavivá-lo. Hem? Reagiu sacudindo longe, violentamente, o despropósito. Ora, ora. Estava fora de si, vertiginoso, balançou a cabeça, cerrou os punhos esfregando-os aos olhos e não viu nada: Tô cego. De novo, o canto mais limpo: Pesadelo brabo. Ih! Que piripaque é esse? Levantou-se de um pulo, asseou-se e saiu de casa à toa. Andou, zanzou, voltou, girou e, ao dobrar a esquina, esbarrou. Virge! Teve uns tremeliques e, quando deu por si, estava jogado numa maca hospitalar. Vôte! Era o absurdo e parecia ter emergido, sem mais nem menos, do fundo duma garrafa de seu destino, ninguém estava a salvo. Será? Ergueu-se firme e zarpou derrubando males e paredes, espichou lonjuras. Aí atravessou a manhã, percorreu toda tarde e, na boquinha da noite, cadê? Vasculhou a paisagem, nada. Retornava ao domicílio e de repente: Eita! Via-se de novo em palpos de aranha. Ainda deu pra ouvir: Que moleza é essa, moço? Hem! Parecia mais um donzelão! Oxe! Só conseguia balbuciar blábláblás, cheio de vírgulas e interrogações. Lascou! Estava desvelado o seu mais secreto: o indócil era mesmo casto, ali sua vulnerabilidade. Que negócio é esse? Para quem era o emblema da crueldade, da selvageria, da brutalidade, que havia reunido em si todos os poderes dos polares, dos pardos, dos grizzlies, dos negros americanos e asiáticos, dos pandas, dos de-óculos, dos malaios e dos preguiças, agora um tabacudo que só via de bom ali o cheiro de mel. Ué! Donde vinha o eflúvio melífluo que amolecia suas reações? Cobriu-se de pressentimentos, quase vira a cara e fugia da serendipidade. De viés viu o forte modo dela, deslindou a sua topografia corporal e cismou: esbelta, onduladas ancas, seios graciosos, hummmm. E intuiu: Ó, me ferrei nessa! Então perscrutou: era dela e quem? A melífica deusa celta Artio havia descido das constelações Arcturus & Ursinho, com toda pompa ancestral dos ainus, da ilha japonesa de Hokaido, para intimá-lo. Danou-se tudo agora! Ele tombou escusas acossado pela irrupção, o tempo endoidecia escamoteando emoções. E como era dezembro, embananou tudo: tempo da festa Ainu Kamui omante. E ela: Veja! Mostrava pra ele a presença de todos os koriaks, os giliarks, tlingits, tongas e haidas, todos o aguardavam. Também os pomos, os iacutos, os soiotes, os tungúsios, os chores, os teleutes, os lapões, os tártaros de Altai e Minussink, os pueblos no kiva, todos olhavam pra ele. Acha pouco é? Ela asseverou: Tem que se lembrar e não esquecer de nada. Que coisa! Meio mundo de gente! Então, foi cientificado por ela: Trouxe o mistério Yu-o-Grande para incorporá-lo no poder dos kshatriya. Como? Você é o Avô dos algonquinos canadenses; e também riksha, a montaria da yogini Ritsamada. Tá ficando doida, é? Dance. O quê? Dance, vá! Você é o inconsciente ctônico, o seu sopro emana das cavernas para acompanhar a minha irmã, Ártemis, na hierofania lunar pelos cemitérios da Sibéria. Agora deu! Você tem que me devorar se eu for culpada. Pronto! E encantadoramente ela solfejou para a plateia toda: Tomai bastante cuidado, pobres mulheres / tomai bastante cuidado com vosso ventre / protegei vosso pequeno fruto!... Pela primeira vez na vida ele estava deveras encurralado: Tô fodido e mal pago! De que adiantava tanto poderio se, àquela hora, tudo era inútil. E deu um passo atrás, mais outro e viu-se cercado, enfim cedeu. Vamos! E seguiram por entre estatuetas em bronze de Muri, em Berna, acompanhados pelos celtas Helvetii. No culto da deusa: Vamos salvar famílias da fome. Hum? Ali mesmo ela então uniu o céu e a Terra; e recomendou com severidade: feche os olhos, respire profundamente e recolha-se dentro de si. Desça aí bem fundo, tape os ouvidos, não tenha medo, está protegido por mim. E, dominando o desajeitado, quebrou-lhe a resistência paulatinamente e acasalaram nos Alpes Réticos. Eita, tirou o cabresto! Viva! Durante a cópula nasceram-lhes na hora dois filhotes que saíram para socorrer uma mãe faminta com os seus cinco chorosos filhos. Onde? Numa aldeia alpina, a coitada genitora rezava devotadamente e enchia uma grande panela com água para ferver, fingia preparar a refeição, não havia nada. Desesperada foi ao jardim e constatou: nenhum comestível. Recolheu um punhado de pedras: que mais poderia fazer? E as escondeu sob as vestes, voltando à cozinha. A água mal esquentava e bateram à porta: quem seria? Eram os dois filhotes trazendo o milagre: estavam providos em abundância, o amor é providencial redenção. Até mais ver.

 

Doris Lessing: São as nossas histórias que nos recriarão quando estivermos dilacerados, feridos, até mesmo destruídos. É o contador de histórias, o criador de sonhos, o criador de mitos, que é a nossa fênix, que nos representa no nosso melhor e no nosso momento mais criativo... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Juana de Ibarbourou: O amor é fragrante como um ramo de rosas, amando se possuem todas as primaveras... Veja mais aqui.

E. L. James: Existe uma linha muito tênue entre prazer e dor. São duas faces da mesma moeda, uma não existe sem a outra... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

EXISTE UM RIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Há mulheres tão retas quanto cordas, sempre se esforçando para serem afinadas. / Você não um encontrando único fiapo em seus restos. / Há homens de terno que sempre apertam sua mão. / Eles sorriem – mas mentemente. Dissíduo / Há um vagabundo que dormiu no ponto de ônibus de Šilo. / Há um rio por perto. Há colinas e vales. / Há cartas sem resposta e patos flutuando em água fraca. / E lá estou eu – eu / a pendurar o alaúde, em algum momento, realmente / sabia o que fazer e querer da vida. / E ali existe um rio. / Há rios em potes de vidros e em tempos de sorteio há muitos / em nossas pequenas despensas. Risos mofados. / E há núcleos, asas lindas núcleos do céu. Elas mudam. / Ali são suas mãos. / Ali está a vontade de pegar e querer sua mão. / Ali está uma cidade. / Ali estão as ruas. / Ali estão as casas. Ali estão escadarias. Ali estão degraus. / Às vezes subimos mais alto. Às vezes descemos. / Existe uma noite. Dormimos à noite. Existe o dia. / Existem cafeterias, universidades e lojas. Existem escritórios e galerias. / Categoria: Fotos existem. Categoria: Fotos do existem. Categoria: Fotos do existem. / E ali existe um rio.

Poema da filósofa e poeta lituana Aušra Kaziliūnaitė, autora dos livros The First Lithuanian Book (2007), 20% Concentration Camp (2009); The Moon Is a Pill (2014), I Am Crumbled Walls (2016) e Jūros nėra (2020).

 

O ENCANTO DO VERÃO - [...] E quão pouco alcance têm a graça ou a inteligência, em todo caso, se elas só podem ser percebidas através da linguagem. [...]. Trecho extraído da obra El hechizo del verano (Sigilo Editorial, 2023), da escritora e tradutora argentina Virginia Higa, que no seu outro livro, Os sorrentinos (Sigilo, 2018), ela expressa que: [...] Os sorrentinos eram uma massa redonda e recheada inventada por Umberto, o irmão mais velho de Chiche, e batizada em homenagem à cidade de seus pais. O sorrentino não tinha a borda de massa dos pansotti, nem o recheio de carne dos agnolotti, nem continha ricota como os cappelletti. Era uma meia esfera com algum volume, feita com uma massa secreta, macia como uma nuvem, recheada de queijo e presunto. [...].

 

IARA – [...] as habilidades de Iara são a causa de sua desgraça: A guardiã do reino das águas percebeu antes do ataque a ação dos irmãos, e para se defender flechou mortalmente todos eles. Ao tomar conhecimento do fato, o seu pai e pajé, sem buscar o motivo da ação da filha, tomado de dor, decidiu castigá-la. Iara foi obrigada a fugir. Iara escondia-se porque amava o pai e não queria confrontá-lo. Ela dormia camuflada, misturada com a floresta e seus habitantes. A moça não temia onça nem cobra; o único medo era o pai. Tomada pela culpa, passava dias sem encontrar sono. Mantinha-se a maior parte do tempo em vigília, à espreita, pronta para se defender de um ataque. Depois de sete ciclos de lua cheia, o pai encontrou Iara acampada entre árvores. Em uma manhã em que o sol chegou manso e a chuva fina da noite tinha se retirado, o dia fresco embalou o sono de Iara. Assim, o pai amarrou a própria filha, arrastou-a até o encontro voraz entre os rios Negro e Solimões. Iara acordou com a queda nas águas e desceu como uma pedra até as raízes dos rios. O espírito das águas junto ao reino dos peixes protegeu Iara e a transformou em uma mulher peixe. A partir de então, ela tem atraído homens para o fundo dos rios. Em geral, esses homens nunca retornam. Por isso, sua reputação permanece assustando quem passa pelo domínio de suas águas. [...]. Trecho extraído da obra Mulheres e deusas: Como as divindades e os mitos femininos formaram a mulher atual (Harper Collins, 2018), do filósofo, escritor, dramaturgo, roteirista e pesquisador Renato Noguera, também autor da obra O ensino de filosofia e a Lei 10.639 (Pallas, 2015).

 

LOURIVAL BATISTA, O LOURO DO PAJEÚ

Cantar comigo é um risco / quebra pedra, espalha cisco; / vem trovão, e vem corisco; / vem corisco e vem trovão; / desce água em borbotão; / as águas formando tromba / teu açude, agora, arromba / nos oito pés de quadrão!

É muito triste ser pobre; / para mim é um mal perene…/ trocando o ‘p’ pelo ‘n’, / é muito alegre ser nobre;/ sendo ‘c’, é cobre / cobre, figurado, é ouro / botando o ‘t’, fica touro / como a carne e vendo a pele / o ‘t’, sem o traço, é ‘l’ / termino só sendo Louro!

Para Dragão, estás errado, / pois Lourival já te explica: / tira letra, apaga letra, / bota letra e metrifica: / tira o ‘d’, apaga o ‘r’ / bota o ‘c’, vê como fica…

Poemas do repentista e poeta popular Lourival Batista (Lourival Batista Patriota – 1915-1992), o Louro do Pajeú, rei do trocadilho. Em sua homenagem foi publicado o livro Um certo Louro (EduFRN, 2001), pelo poeta e professor Alberto da Cunha Mélo. Veja mais aqui, aqui & aqui.

&

USINA DE ARTE FESTIVAL JAZZ & BLUES

 


Capiba aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Valéria Vicente aqui.

Marco Nanini aqui.

Ana das Carrancas, a Dama do Barro (Ana Leopoldina dos Santos - 1923-2008) aqui & aqui

Mestre Zé do Carmo (José do Carmo Souza – 1933-2019) aqui.

Virginia Leal aqui, aqui & aqui.

Lula Cardoso Ayres aqui, aqui & aqui.

Helia Scheppa aqui.

Xirumba Amorim aqui.

Nash Laila aqui.

&

AS MULHERES NA REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817

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