domingo, maio 29, 2016

SUJEITO, INDIVÍDUO, QUEM?

SUJEITO, INDIVÍDUO, QUEM? - Imagem: Emigrantes, do pintor, escultor e gravurista Lasar Segall (1891-1957) – O Doro estava ingicado com um dos seus pariceiros, agora ex-amigo descartado do seu rol de amizade e a quem se referia como sujeito da pior laia, indivíduo da pior espécie. Tudo isso por conta de certa empreitada que findou numa trapalhada com resultados para lá de danosos aos seus bolsos. Estava ele reclamando pelos cotovelos, descascando o temerando desafeto de deixá-lo mais sujo que pano de chão e culpá-lo por tudo quanto de ruim e desabonador acontecesse na redondeza. Destronou o amaldiçoado e repisou-lhe a reputação até estirar a dignidade da trepeça bem rasa rente ao chão. Estava tão emputecido que, para ele, inclusive, se todas as penas previstas fossem pesadamente juntadas numa coivara de punição para fazer o merepeiro ter de pagar tudo, ainda era muito pouco, devendo ser crucificado não só pelas mãos e pés, mas com pregos gigantescos enfiados nos olhos, no olho do cu entre os colhões, na goela adentro de sair pelo cangote, coisa assim dessa valia, sim. Isso o mereceido. Tão indignado estava que ele se virou pro doutor Zé Gulu a indagar se um sujeito cabra safado desse, um individuo que não valia um cocô de louro, poderia ainda por cima se safar da Justiça e existir impune na face da Terra. O instruído senhor apertou os olhos, ajeitou os óculos às vistas, passou a mão à cabeça e fez menção de saber melhor o que o abusado reclamante estava interrogando, com um simples não entendi, explique melhor. Aí o danado do deprecante saiu desfiando o rosário de acontecidos e passados a respeito de um tratante safado que lhe fizera desfeita. O instruído pacientemente ouvia atento aos relatos daquilo tudo, mantendo uma cara de interrogação tamanha. Foi aí que no meio libelo todo, ele perdendo a paciência, perguntou pro agitado raivoso se ele sabia a diferença entre sujeito e indivíduo. Ué, não é a mesma coisa? Não, confirmou. E saiu explicando detalhadamente a distinção entre um e outro. O Doro, por sua vez, estava achando bonita a conversa, enquanto ele discorria sobre a teoria da complexidade de um certo filósofo francês chamado Edgar Morin, que tratava sobre autoecoorganização atinente à noção de autonomia dependente do meio ambiente, frisando o ciclo circadiano que interage com a Terra e, por essa razão, havia de fazer distinção entre os termos. Sim? O Doro já estava meio confundido com a eloquência com que o doutor abordava do assunto, para ele uma loquacidade de deixá-lo zarolho sem entender patavina. As palavras do douto falador faziam curvas fechadas no seu juízo, a ponto de deixar seu entendimento para lá de apertado no caçuá da ideia. Foi aí que o eminente professor saiu explicando que enquanto o sujeito é autônomo e ator da legalidade e que age ativamente para consolidar por meio da força das ações coletivas, o indivíduo é um produto do processo de produção, tornando-se descartável e se tornando um resultado da servidão voluntária na dominação pelo consumo no reino do dinheiro que se tornou um fetiche sagrado, estabelecido no conformismo da mediocridade e não se reconhecendo mais integrante da espécie humana, nem da coletividade, apenas a sua própria individualidade, o umbigocentrismo que tratava o outro ou como objeto de prazer ou como obstáculo. Entendeu? Hum?!? Doro fez um esforço tamanho e só conseguiu balbuciar: - Doutor, no frigir dos ovos, qual é mesmo a diferença? Aí o bacharel deu um murro na mesa, tomou um gole e sapecou: - Você é indivíduo quando tem dinheiro pra consumir, sendo útil pra sociedade capitalista adquirindo tudo que é produzido, tangido pela propaganda pra comprar e gastar, mostrando que você só é gente pelo que tem e não pelo que é! Você será sujeito quando estiver cônscio de seu papel, enxergando que tudo que está aí está errado e que, por ser agente ativo, sabe que você pode mudar tudo que aí está, construindo sua própria história e a mudança necessária para você e a coletividade! Agora entendeu ou quer que eu desenhe? Com a explicação, ouviu tão atentamente e com os olhos bem abertos nas sobrancelhas da testa que do jeito que estava no fim da fala, ele ficou estático: boca aberta, sem piscar os olhos, paralisado. Até parou de respirar. Danou-se! Foi preciso o doutor Zé Gulu intervir com umas tapas e sopapos dos bons pro cabra recobrar os sentidos. Que é que houve, rapaz? Estava processando as informações. Eram muitas para minha pouca leitura, meu pouco entendimento. E aí? Ainda está tudo embaralhado, mas é porque o motorzinho do quengo é lento, demora, mas destá, logo logo aprende. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagem: a arte da artista plástica Carolyn Anderson.


Curtindo os álbuns Emmanuelle Haim & Le Concert D`astrée (Virgin, 2001/2003), da organista, pianista, cravista, maestrina, Emmanuelle Haïm – a Mrs. Dynamite - & a orquestra de música barroca Le Concert d'Astree.

PESQUISA
Princípios fundamentais de filosofia (Hemus, 1979), de Georges Politzer, Guy Besse e Maurice Caveing. Veja mais aqui.

LEITURA 
Folhas de Relva (Harbra, 2011), do poeta, ensaísta e jornalista estadunidense Walt Whitman (1819-1892). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] A desproporção, porém, entre a grandeza de minha tarefa e a pequeneza de meus contemporâneos, alcançou a expressão no fato de que nem me ouviram, nem sequer me viram. Vivo de meu próprio crédito, e quem sabe é um mero preconceito dizer que vivo? [...] sou até mesmo uma natureza oposta à espécie de homem que até agora se venerou como virtuosa. Entre nós, parece-me que precisamente Isso faz parte de meu orgulho. Sou discípulo do filósofo Dionísio, preferiria antes ser um sátiro do que um santo. [...] As palavras mais quietas são as que trazem a tempestade que vêm com pés de pomba dirigem o mundo [...] Sozinho vou agora [...] Agora vos mando me perderdes e vos encontrardes; e somente quando me tiverdes todos renegado eu retornarei a vós...
Trechos extraídos do livro Ecce homo: Wie man wird, was man ist (1888 – Como tornar-se o que se é – Simões, 1957), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui

 Imagem: Nietzsche: desconstruindo gigantes, by Emerson Pingarilho.

Veja mais sobre Entrega na Primeira Reunião, Franz Kafka, Emma Goldman, Gil Vicente, Isaac Albéniz, Fritz von Uhde, Annette Bening & Freddy Martins aqui.

IMAGEM DO DIA 
 Bailarina, do filósofo, psicólogo e artista gráfico argentino Claudio Adrian Natoli.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte de Kate Wiloch.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Imagem: Remnants and Rebirth - original abstract painting, da artista plástica Sally Trace.
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

JOAQUIM CARDOZO, ERCÍLIA NOGUEIRA COBRA, FLORA TRISTÁN, MARIO SOUTO MAIOR & LÉO LUNA

PADRE BIDIÃO & DR. ZÉ GULU - Padre Bidião está sempre avexado. Desta feita, amontado no seu disco voador e acompanhado por seus nove c...