terça-feira, maio 24, 2016

ENTRE TOPADAS E SONHOS

ENTRE TOPADAS E SONHOS – Confesso: o primeiro, não sei; o segyndo, não lembro; o terceiro, lascou. Do que fui pro que sou, entre sonhos e topadas, quase nada sobrou. Da infância: travessuras no quintal, mimos de vô e vó, o olho nas fechaduras, o segredo das saias, a beira do rio. Não fosse o chão, eu seria o super-heroi do pé de goiaba. Não fosse a tarde, não saberia dos bichos e sonsos que reinam na noite, o medo do coração aceso de Jesus na viga da sala, os castigos do bicho-papão, o acalanto do boi da cara preta que faz a gente dormir e sonhar. Não fosse o bigodinho ralo em cima dos beiços, eu não teria dado um pulo da catinga do mijo pro enxerimento com as meninas do ginasial. Foi quando tive as primeiras aperturas do coração: as damas da coreia, o escurinho do cinema, os gibis e o catecismo de Zéfiro, as primeiras lapadas de meiotas, tragos e goias nas bitucas de índio, cavalo de aço, boca de sino, paz e amor, cabeça de vento. Não fosse precoce, não pisaria tanto na bola, não olvidava de tudo, nem teria recaídas sentimentais, muito menos erraria tanto e demais. Não fosse a sorte de sempre, peito estufado de perna de pau, o rumo das ventas, correrias tontas, chamegos nos sarros diários, estudos com música, presepadas teatrais, olhos grudados nos livros e nos decotes, errancias além da conta, não fosse aprendendo às quedas, não saberia jogar xadrez, dar voltas no mundo, safar de cruzetas, levar tudo na prosa e na ponta dos dedos, a saber que a valia de agora é instante e já era, a corrida do dia entre chuva e Sol, sem saber das estrelas nas noites viradas, o nada pro triz, não dando fé das decepções nem vergonha na cara com tudo acontecendo embaixo do nariz. Não fossem alguns versos tirados em cima da bucha, não teria de noite a valia do dia, nem saber que vivia no mundo da lua, entre choros insones e dupla talagada, os passos corridos e broncas safadas, o tempo perdido com conversa fiada, os temores vencidos na pá virada, os sonhos preteridos na vida agitada, e o que era sentido, enfim, era nada. Não fosse um dia, já bem homem feito, quase passando do ponto, dormir bem menino e acordar madurado, desaprendendo depressa todo caminho trilhado, refazendo o que foi feito e tudo traçado, aprendendo direito e esquecendo o passado, dar de cara em parapeito e sinal fechado, corrigindo defeitos de ser malcriado, saber que tem jeito um futuro aprumado, pois sou um sujeito, quase pau torto, tudo endireitar ou por tudo a perder, ou ficar sempre de sobreaviso nas circunstancias, perdendo o bonde, a banda e tudo passar. Claro que não, em mim quem manda sou eu. Posso não estar certo, nem ser o dono da razão, nem quero, mas sei que posso recomeçar. Afinal, hoje quase já nem sei o que é sonho ou real. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Imagem: arte da pintora espanhola María Blanchard (1881-1932).


Curtindo a vídeo-instalação Baccus, do compositor, cineasta e radialista espanhol Miguel Álvarez-Fernández, baseada na condutividade elétrica do vinho e apresentada no Festival Vinfonies (Vilafranca del Penedès, Barcelona, 2011), e o documentário em longa-metragem No escribiré arte con mayúscula, do compositor com Luis Deltell, em homenagem ao pioneiro da conceptual arte espanhola Isidoro Valcárcel Medina. O compositor ainda apresenta o programa semanal Ars Sonora, desde 1985 na Rádio Nacional de España, dedicado à arte sonora e música experimental.

PESQUISA
Estrutura da linguagem poética (Cultrix, 1978), do ensaísta francês Jean Cohen (1919-1994), efetuando uma análise acerca dos níveis fônicos e semânticos na estrutura dos procedimentos característicos da linguagem poética. Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
Poesia completa (1940- 2004, Tooopbooks, 2004), do premiadíssimo escritor e ensaísta alagoano Ledo Ivo (1924-2012). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
As culturas do ressentimento são possíveis, e prosperam como nunca, porque pelo encontro da frustração e tempo livre existe muita atenção concentrada em guardar rancor pelas humilhações; os cuidados sempre em vigília dos intelectuais produzem inquisições incessantes mudam contra as ofensas do êxito. Resta a dúvida de que essas formas de luxo redundam em proveito da cultura total, seja lá isso o que for. Desde o ponto de vista otimista, pode observar-se como o ressentimento estimula o metabolismo da agressão mediante fantasias de humilhação ricas em material maduro.
Extraído da obra Esferas (Siruela, 2003/2009), do filósofo alemão Peter Sloterdijk. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA 
Tanztheater Wuppertal (2001/2016), da memorável coreógrafa, dançarina, pedagoga e diretora de balé alemã Pina Bausch (1940-2009). Veja mais aqui.

Veja mais sobre Brincarte do Nitolino, Jan Christiaan Smuts, Joseph Brodsky, Bob Dylan, Gianfracesco Guarnieri, Leon Hirszman, Helena Ranaldi & Jacopo Pontormo aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.


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