sexta-feira, maio 20, 2016

QUANDO RENASCI PRA VIDA DEPOIS DE MORRER PELA PRIMEIRA VEZ

QUANDO RENASCI PRA VIDA DEPOIS DE MORRER PELA PRIMEIRA VEZ - Era um dia ensolarado dum mês que não lembro no segundo semestre de 1972, contava eu com 12 anos de idade e uma empáfia destemida dum bigodinho ralo embaixo das ventas, quando cheguei ao quintal da casa, atendendo chamado das minhas irmãs em algazarra que me pediam provocantemente risonhas pra subir na goiabeira que se debruçava sobre o telhado da casa. Cedi aos insistentes pedidos efusivos delas por goiabas palatáveis, me armei da peixeira aos dentes e subi os degraus da escada como quem realiza o mais heroico dos atos. Quando já no alto doo telhado, perguntei qual das frutas elas queriam. Nessa hora, ao olhar pra baixo espirrei e tonteei. Tudo desapareceu e o mundo ao meu redor adquiriu uma brancura onírica como se eu mergulhasse ao som de um coro de vozes graves acompanhadas duma orquestração vertiginosa, em que tons e sons díspares, atonais, dodecafônicos, me revelasse a música das esferas. Eu subia como que lançado duma catapulta não sabida e me vendo como um foguete rasgando verticalmente os céus, rompia a penumbra e o nevoeiro repetinamente noite na barreira do som e do tempo, numa velocidade estonteante qual da luz, singrando todos os limites e sem barulho algum. Eu me sentia como se estivesse entre nuvens que ora se pareciam floresta densa, ora águas profundas e por paisagens que me davam entender serem as linhas de Nazcar ou no território de Machu Picchu, ou davam como se fossem nas crateras das montanhas peruanas, pelos megálitos de Carnac ou nas paragens de Stonehenge, com inscrições indígenas, não sei se inca ou maia, círculos e semicírculos, uma simbologia estranha que se transmutava e parecesse os desenhos da pedra de Roswell, sempre para o alto, cada vez mais pra cima, projetado para o ápice inatingível além do zênite de todo o universo na maior das alturas e lonjuras da escuridão universal. Sem olhar pra atrás, sempre adiante e com imagens que rodopiavam às vistas, noites e de repente dias, uma claridade enorme que me encandeava e que surgia por trás da barra dos confins visíveis. Às vezes ofuscado com noites sem estrelas, dias sem Sol, espessas neblinas e, de repente, céu limpo, vagando as mais longínquas distâncias da imensidão cósmica. De fato, transcorria ultrapassando as lonjuras eternas sem me dar conta do que era ou onde estaria até dar num ponto como se ao cume chegasse à beira do abismo e abruptamente, depois de muito tempo, vertiginosamente começasse a cair num abismo de jamais encontrar o fundo. Eis que abro os olhos e a brancura se dissipara. Percebi que me encontrava num quarto de hospital, olhos atônitos de parentes e estranhos ao meu redor, depois de 18 horas num balão de oxigênio em estado de coma. Era eu mesmo, mas me sentia outro como que renovado. A orelha esquerda com uma ferida e na cabeça acima e no ombro esquerdo com inchações que incomodavam de dor pelo amortecimento da torneira da lavanderia na minha queda amparada por garrafas que não se quebraram com o impacto. A faca peixeira desaparecera, procuraram em cima da casa, entre as telhas, pelos galhos da goiabeira, os 4 cantos e recônditos do quintal, além muro, sumira de vez. Dias depois tive alta e sob todas as atenções de parentes e médicos me recompus com o tempo, ao perceber que estivera com a morte e renascera menino outra vez. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui

 Imagem: História errada (1966), do pintor e artista multimídia paraibano Antonio Dias.

 Curtindo Thiaroye (Night Day, 1999), do compositor e cantor senegalês
El Hadj N'Diaye.

PESQUISA
Presenças (MEC/INL, 1958), do crítico literário e jornalista austríaco naturalizado brasileiro Otto Maria Carpeaux (1900-1978), abordando sobre as obras de Shakespeare, Dickens, Camus, Borges, Fernando Pessoa, Rilke, James Joyce, entre outros. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA
Moll Flanders (A vida amorosa de Moll Flanders, 1722), romance do escritor inglês Daniel Defoe (1660-1731). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
O espírito não conhece passado nem futuro. As obras do espírito sempre estão presentes.
Frase do escritor e dramaturgo austríaco Hugo von Hofmannsthal (1874-1929).

IMAGEM DO DIA 
San Ignatius, do artista plástico argentino Xul Solar (1887-1963). Veja mais aqui.

Veja mais outros assuntos sobre Pedagogia, Honoré de Balzac, Erik Erikson, Nelson Rodrigues, Eugène Delacroix, Maria Teresa Horta, Lucelia Santos, Paul Nash & Joe Cocker aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Todo dia é dia da multifacetada cantora, compositora, atriz e apresentadora argentina Érica García.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.


ARIANO, LYA LUFT, WALLON, AS VEIAS DE GALEANO, FECAMEPA, JOÃO DE CASTRO, RIVAIL, POLÍTICAS EM DEBATE & MANOCA LEÃO

A VIDA NA JANELA – Imagem: conversando com alunos do Ginásio Municipal dos Palmares - Ainda ontem flores reluziam no jardim ornando muros...