domingo, março 22, 2026

IRMA PINEDA, SOFI OKSANEN, PETER TURCHIN & BÁRBARA DE EXU

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do concerto Live at Philarmonie Luxembourg (2025), oriundo do álbum Sonicwonderland (2023), da pianista e compositora japonesa Hiromi Uehara, com a Philarmonie Luxembourg, no Grande-Duchesse Joséphine-Charlotte Concert Hall. Veja mais aqui & aqui.


 

Da noite pro dia, gente, malacatifas... - De repente Tlaltecuhtli engoliu o Sol e anoiteceu: fez-se a maior escuridão. Do inesperado ao regozijo, Tó Zeca, então, aguardou Jaci reluzir no horizonte. O tempo passava e, pacientemente, mantinha-se à espera. Ela não apareceu. A demora e uma interrogação: Onde fui parar? Não tinha a menor noção. Só se deu conta das chamas pálidas azuladas flutuando lá ou acolá, intermitente fogo fátuo, sabia: Ah, Boitatá. Hesitou, pois temia ter de encarar aqueles olhos flamejantes, não era um bom sinal. Bastou uma leve fagulha alhures e viu-se diante do serpentário do chão à constelação equatorial de Ofiúco. Um sobressalto: o guizo advertia, um arrepio e o sinal do sangue frio de répteis poiquilotérmicos ao redor, o espavento de ver-se de cara com aquela rastejante bocarra 180º e a dilatação corporal. Xiii... Logo viu: era a noturna suaçuboia – Ô jiboia, que é que tu tais fazendo aí, mulher? Ah, senta-espera, peidona, isso é cobra-de-veado pronta pro bote! Ôpa! Logo a escura Boiúna emergiu Mãe do Rio bem fundo: Que é que há? Ao seu lado, logo notou a presença dos olhos de mel da Sofia, a filha do boto e da índia: tremia a terra. Olha lá! Por um instante deu-se conta da movimentação e êpa: lá ia a cavadora Ubijara, a mãe-de-saúva, anfisbena, com suas duas cabeças - Vai pra lá, ibicara; sai pra lá, licranço! Num átimo, o assombro com a perigosa jararacuçu, depois a surucucu, a áglifa araramboia, a camuflada jararaca-da-mata, a boipeva cabeça-chata. Ih! E ali se enroscavam a azulamboia, a periquitamboia, a delgada parda bicuda, a muçurana, preta, pendurada no cipó; a sucuri, muçurana; as três irmãs Jararacuçu, Urutu-cruzeiro e Caiçara, cada qual com seu veneno botrópico para inchar, necrosar e sangrar; a cascavel boicininga, a maracaboia de-quatro-ventas, a coral, a peçonhenta surucucu-pico-de-jaca e outro susto: era anaconda! Alto lá! E juntas: a amarela, a verde, a malhada, a akayima e a da-bolívia, danou-se! Eita, viborões! A canibal sucuri devorava seu macho depois do coito. E Norato com a sua irmã, a cruel Maria Caninana, a arabóia, que subiu na árvore e ficou de tocaia. Se era ou não cobra mandada, não se sabia. Mas se atrevia a chupar o seio da mãe adormecida, com o rabo na boca da criança para que ambas não acordassem. Tô frito! Reunidas, iam beber e antes escondiam a peçonha para não se envenenarem. Que coisa! E rastejavam nas próprias costelas, ondulando lateralmente, com seu movimento de sanfona ou concertina, em zigue-zague, mudando de pele, quando em vez. Se não era a jararaca venenosa, era uma sucuri com seus mais de 9 metros caçando na água. Na névoa um arco-íris e apareceu a mítica Naga de 7 cabeças para o Batismo do Oceano de Leite. E com ela os pigmeus de Baka, que vinham do sul de Camarões, com o Códice de Dresden, anunciando o egípcio Atum que emergia do caos primordial com o Livro dos Sarcófagos para formar a Enéade de Heliópolis. Aí subiu a Python que havia abandonado o Oráculo de Delfos na perseguição por Leto. Logo atrás a criocéfala celta, seguida da víbora-áspide que acabara de envenenar Cleópatra, todas acompanhadas pela híbrida Erictônia, a terimórfica Tibre-cornu de Virgílio e o emplumado Quetzalcóatl. O circo estava pronto, ameaça em riste. Tentou olvidar: Sou lá ofidiófilo! Há quem ofidiófobo, até herpetólogo. Nem, nem. Viu-se em apuros, procurou saída. Deu-se então o imprevisível: Tlaltecuhtli cuspiu o Sol e Tatewari, o Avô do Fogo, acendeu o dia. E Coaraci deu vazão à prática dum pajé de 9 fôlegos: o futuro nas mãos, curava à distância, tornava o animal que quisesse, ficava invisível, aparecia aqui, ali, acolá, o que bem quisesse: Vai encarar? Nem podia, porque Asclépio ergueu-se com o caduceu de Hermes para dar conta da teoria do relojoeiro do Deus otiosus. E aí o feitiço da Naja: a deusa Wadjet era a Kundalini se enroscando 3 vezes e meia na base da coluna vertebral dele, enroscando-se em suas botas e agigantando-se diante de si. Ofertou-lhe o wixárico Tsikuri, Ojo de Dios, ornado por opúncias e peiots, o que lhe deu a coragem de proclamar: Toda cobra do caminho arreda que vou passar! E uma nuvem cintilante rasgou as trevas e tudo clareou, nítida paisagem: o ninho de Ledo Ivo e já era a cidade com a multidão alvoroçada às idas e vindas, com suas expectativas, dolos e angústias. Ali aprendia Ouroboros: tudo é um. Até mais ver.

 

Pilar Quintana: Se você tem alguma dúvida de que o racismo sistêmico existe, é só olhar para lá. A maioria da população, que é negra e indígena, está vivendo na pobreza absoluta. É uma realidade muito dolorosa... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Linda Sue Park: Um erro cometido com boas intenções continua sendo um erro, mas é um erro pelo qual você deve se perdoar... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Shirin Neshat: Todo artista, de uma forma ou de outra, é político. A política define nossas vidas... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

UM POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

O tempo conquistou o amor \ Isto mistério de nós impiedosamente \ e agora o que faço com a indiferença \ com essa solidão \ que os caras me abraçam gentilmente \ e me sufoca. \ Amor \ minha barriga agora é uma árvore seca \ que onze queriam florescer estrelas para suas noites. \ Minha barriga agora é uma montanha dura \ não mais espantado com o passar do tempo \ pelos dias sem vida. \ Nós ganhamos nosso tempo amor \ misericordioso, o mistério nos tirou \ e hoje não sei o que fazer com aquele desgosto \ com essa solidão \ que às vezes me abraça suave \ e às vezes ele me sufoca. \ Amor \ A minha barriga é uma árvore seca hoje \ que um dia ele queria florescer estrelas para suas noites. \ A minha barriga é uma montanha dura hoje \ que não se admira mais com a passagem do tempo \ para os dias sem vida.

Poema da escritora, editora, tradutora e educadora mexicana Irma Pineda Santiago.

 

PARQUE PARA CÃES - […] Eu me arrastava para o trabalho apenas para retornar a um apartamento que ecoava de saudade, onde as xícaras de café estavam sempre exatamente no mesmo lugar em que eu as havia deixado de manhã e onde nunca havia cheiros de outras pessoas, nunca a bagunça de ninguém além da minha. Eu não sabia que podia sentir falta de tais coisas. [...]. Trecho extraído da obra Koirapuisto (WSOY, 2019), da escritora e dramaturga finlandesa Sofi Oksanen, que ressalta: A memória é parte crucial da humanidade, composta por histórias... Veja mais aqui & aqui.

 

FIM DOS TEMPOS – [...] Nossa análise aponta para quatro fatores estruturais de instabilidade: a miséria popular que leva ao potencial de mobilização em massa; a superprodução das elites, resultando em conflitos intraelitistas; a saúde fiscal precária e a legitimidade enfraquecida do Estado; e fatores geopolíticos. O fator mais importante é a competição e o conflito intraelitista, que se configuram como um indicador confiável da crise iminente. [...] Os livros de história nos dizem que a Guerra Civil Americana foi travada por causa da escravidão, mas essa não é toda a história. Uma maneira melhor de caracterizar esse conflito é dizer que ele foi travado por causa da "escravocracia". [...] Como a escravidão fornecia a base econômica para o domínio do Sul, um ataque político aos proprietários de escravos poderia ser fortalecido por um ataque ideológico à escravidão. [...] Quais são as características das teorias da conspiração que as distinguem das teorias científicas? Primeiro, a teoria da conspiração costuma ser vaga quanto aos motivos dos líderes nos bastidores ou lhes atribui motivações implausíveis. Segundo, pressupõe que eles sejam extremamente inteligentes e conhecedores. Terceiro, coloca o poder nas mãos de um líder forte ou de uma pequena conspiração. E, finalmente, pressupõe que planos ilegais possam ser mantidos em segredo por períodos indefinidamente longos. Uma teoria científica, como a da dominação de classe, é muito diferente. [...] Mentes coletivas são resultado de discussões e esforços coletivos para alcançar um consenso, que pode ser ouvido (ao contrário de uma mente ilegível). Chegar a um programa de ação comum geralmente deixa rastros físicos, como atas de reuniões e documentos programáticos. É claro que alguns grupos são bastante reservados quanto aos seus processos internos de tomada de decisão. É aqui que denunciantes como Julian Assange e Edward Snowden se tornam essenciais para um sociólogo do poder. [...]. Trechos extraídos da obra End Times: Elites, Counter-Elites, and the Path of Political Disintegration (Allen Lane, 2023), do antropólogo russo Peter Turchin. Veja mais aqui.

 

BÁRBARA DE EXU, INIMIGA DO REI

É Bárbara, tenho certeza \ É Bárbara, sei que é ela \ Que de dentro da fortaleza \ Por seus filhos e irmãos \ Joga gemidos, gemidos no ar \ Que sonhos tão loucos, tão loucos, tão loucos \ Tão loucos foi Bárbara sonhar...

Trecho da música Passeio público (Berro, 1976), do cantor e compositor cearense Ednardo (José Ednardo Soares Costa Sousa), em homenagem à revolucionária pernambucana Bárbara Pereira de Alencar (1760-1832), primeira presa política do Brasil e heroína da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador. Sobre ela encontram-se as obras: a biografia da coleção Terra Bárbara (Demócrito Rocha, 2017), da jornalista e escritora Ariadne Araújo; A guerreira do Brasil (Universidade de Indiana, 2001), do escritor Roberto Gaspar; A heroína do Crato (Bazar do Tempo, 2022), da socióloga e roteirista Antonia Pellegrino; e a dissertação de mestrado Relações de gênero e poder no Cariri Cearense (UECE, 2015), de Kelyane S. de Sousa. Veja mais aqui & aqui.

 

Murillo La Greca aquí, aquí, aquí & aquí.

Amanda Vieira aqui.

Robertinho de Recife aqui, aqui & aqui.

Beta Ferralc aqui.

Mestre Nuca de Tracunhaém (Manoel Borges da Silva – 1937-2014) aqui.

Teresinha Gonzaga aqui.

Vital Santos (1948-2013) aqui.

Lia Letícia aqui.

Pablo Porfirio aqui.

Marília Parente aqui.

 


IRMA PINEDA, SOFI OKSANEN, PETER TURCHIN & BÁRBARA DE EXU

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som do concerto Live at Philarmonie Luxembourg (2025), oriundo do álbum Sonicwonderland (2023), da pianis...