EIS, ELA!... – Ei-la & seus olhos espelham
a ambição paradisíaca de sua dadivosa escolha irrevogável: ela vem faminta, aguerrida
lasciva, sou o seu repasto. A sua boca sedenta murmura o conluio sedento da
cachoeira de nossos beijos difusos, na desforra da pérgula luminescente, a festa estelar de sua
abóbada palatina lavando-me a alma e o sexo. Os seus lábios implacáveis avançam
carnudos a sobejar a glande, enquanto sua voz sussurra SOS com o sotaque
murmurante das memórias eróticas de um dia no meio de todas as noitas. A sua língua
drapeja serpenteante aveludadas brisas selvagens sobre a clava do meu reinado,
exibindo o decote de seus seios auspiciosos às minhas mãos espalmadas. Os seus
braços escorrem sobre meu corpo febril e suas mãos tímidas passeiam minha carne
e despejam apalpadelas acendendo a lamparina do desejo, a molestar o pássaro
viril impiedosamente virtuosa. Suas pernas perseguem caminhos das andaduras
mais longínquas entre as minhas, esfregando suas coxas sardônicas que levam ao crisol de seu ventre
inclinado prenunciando a sigilosa descoberta em polvorosa erupção inapelável de
seu Himalaia para me levar a Shangri-la
e sou todo seu porque se faz toda minha. Veja mais abaixo & mais aqui.
DITOS &
DESDITOS
É nosso dever
lutar pela nossa liberdade. É nosso dever vencer. Devemos amar-nos e apoiar-nos
mutuamente. Não temos nada a perder a não ser as nossas correntes... Eu
acredito no fogo do amor e no suor da verdade...
Pensamento da
escritora e ativista estadunidense Assata Olugbala Shakur (JoAnne
Deborah Byron – 1947-2025). Veja mais aqui.
ALGUÉM FALOU:
Sim: a vida é em grande parte um estado emocional. E se tudo isso for
verdade, a existência humana depende mais do estado de espírito do que da
realidade externa. E se tudo isso for verdade, cultivar o senso de humor
deveria ser quase uma disciplina religiosa, porque aprender a rir pode
proporcionar uma experiência e uma interpretação completamente novas e
revitalizantes da existência humana. O riso redime, como Berger sugere no
título de sua obra já mencionada: somente o riso que expressa alegria genuína pode
nos salvar. Aprenda a rir! Talvez essa seja a chave para a existência...
Extraído de Homo
ridens vs. Homo sapiens (Contrastes - Revista Internacional de Filosofía,
2008), da filósofa mexicana Paulina Rivero Weber.
OUTROS SOMOS NÓS – Ele disse que eu era
diferente porque eu era sombrio. Ela disse que eu era diferente porque eu usei
um lenço. Ele disse que eu era diferente porque eu tinha um sotaque. Ela disse
que eu era diferente porque eu não conseguia ler. Ele disse que eu era diferente
porque gaguejei. Ela disse que eu era diferente porque eu não podia ouvir
ou falar. Ele disse que eu era diferente porque eu devia ser uma rapariga. Ela
disse que eu era diferente porque devia ser um rapaz. Somos todos diferentes,
então isso não significa que somos iguais? Quero dizer, é como
batimentos cardíacos, todos nós compartilhamos as mesmas batidas por minuto,
mas não exatamente. Poema da poeta, dramaturga, tradutora e editora haitiana
Nathalie Handal, autora dos livros The Neverfield (1999); The
Lives of Rain (2005); Love and Strange Horses (2010) e Poeta em
Andaluía (2012). Veja mais aqui.
NOITE MARAVILHOSA – [...] Não examine um amigo com uma lente microscópica; você
conhece seus defeitos, então deixe suas manias passarem. [...] Enquanto você fosse jovem, bonita e criativa,
o mundo era seu. Era uma era de ouro, uma época emocionante para se viver. [...]
Ser a musa de dois músicos tão extraordinariamente criativos e ter belas e
poderosas canções de amor escritas sobre mim foi extremamente lisonjeiro, mas
também me pressionou imensamente para ser a pessoa incrível que eles deviam
pensar que eu era — e, secretamente, eu sabia que não era. Sentia que precisava
ser impecável, serena, alguém que entendesse todas as situações, que não
fizesse exigências, mas estivesse lá para realizar todas as fantasias; e essa é
a realidade de alguém com pouca voz. Não é realista: ninguém consegue alcançar
esse nível de perfeição. Agora sinto que posso ser eu mesma — mas levei um bom
tempo para descobrir isso e ainda mais tempo para entender quem eu era
exatamente, porque o meu "eu" estava escondido há muito tempo. Durante
a maior parte da minha vida, fui o que os outros esperavam que eu fosse — a
menina de oito anos que se adaptou bem ao internato, a irmã mais velha
protetora e onisciente que todos os irmãos admiravam, o ícone dos anos 60, a
modelo glamorosa. Você tem ideia do que ter seu rosto na capa da Vogue faz com
o ego? [...] Passei a vida inteira com miopia, mas nunca soube disso. Talvez
isso explique por que eu era tão extremamente tímida — eu não conseguia
enxergar as pessoas direito. [...] À primeira vista, John parecia mais
cínico e arrogante do que os outros, Ringo o mais cativante, Paul era simpático
e George, com seus olhos castanhos aveludados e cabelos castanho-escuros, era o
homem mais bonito que eu já tinha visto. No intervalo do almoço, me vi sentada
ao lado dele, seja por acaso ou de propósito, nunca soube ao certo. Éramos
ambos tímidos e quase não trocávamos palavras, mas estar perto dele era
eletrizante. [...]. Trechos extraídos da obra Wonderful Tonight (Crown Archetype, 2007), da fotógrafa e
escritora britânica Pattie Boyd. Veja mais aqui, aqui & aqui.
ERAS DA DISCÓRDIA - [...] A estrutura etária das populações humanas é caracterizada
por gerações que se sobrepõem suavemente, sem pontos de ruptura nítidos entre
elas. Não podemos simplesmente impor gerações aos sistemas sociais humanos; precisamos
investigar matematicamente se elas surgirão naturalmente como resultado da
dinâmica populacional e social estruturada por idade. [...] Só porque não conseguimos imaginar que nossas ações levem a um
desastre, não significa que tal desastre não possa acontecer. [...] A guerra externa frequentemente desempenhou um papel
importante no aumento ou na manutenção da cooperação entre as elites, bem como
na cooperação entre as elites, o Estado e, por vezes, até mesmo o povo comum. Durante
as fases de integração, os governos, em colaboração com as elites, muitas vezes
utilizaram a guerra externa para promover períodos de consolidação nacional. Além
disso, as guerras de conquista bem-sucedidas renderam abundantes recompensas a
serem compartilhadas entre o Estado e as elites. [...] Durante inversões de tendências desintegrativas, esses processos
operam em sentido inverso. A redução da superprodução da elite diminui a
competição intraelitista. Além disso, existe outra dinâmica curiosa que tende a
aumentar a homogeneidade intraelitista, o “fechamento do patriciado”, no qual
as elites estabelecidas fecham suas fileiras para os recém-chegados e reduzem
drasticamente, ou mesmo revertem, a mobilidade social ascendente. [...] Esses
quatro mecanismos, (1) competição entre grupos, (2) competição dentro dos
grupos, (3) distância cultural entre grupos concorrentes e (4) homogeneidade
cultural dentro dos grupos, não são os únicos processos que podem afetar a
disseminação das normas de cooperação. [...]. Trechos extraídos da obra Ages of Discord: A
Structural-Demographic Analysis of American History (Beresta, 2016), do antropólogo russo Peter Turchin,
autor de obras como: Ultrasociety: How 10,000 Years of War Made Humans the
Greatest Cooperators on Earth (2015), Secular Cycles (2009), War
and Peace and War: The Rise and Fall of Empires (2007) e Historical
Dynamics: Why States Rise and Fall (2003).
HOMEM & TÉCNICA – [...] Otimismo é covardia. [...] Nascemos nesta época e
devemos seguir bravamente o caminho até o fim predestinado. Não há outro jeito.
Nosso dever é manter a posição perdida, sem esperança, sem resgate, como aquele
soldado romano cujos ossos foram encontrados em frente a uma porta em Pompeia,
que, durante a erupção do Vesúvio, morreu em seu posto porque se esqueceram de
substituí-lo. Isso é grandeza. Isso é o que significa ser um puro-sangue. O fim
honroso é a única coisa que não pode ser tirada de um homem. [...] O homem era, e é, demasiado superficial e
covarde para suportar a realidade da mortalidade de tudo o que vive. Envolve-a
num otimismo cor-de-rosa de progresso, cobre-a com as flores da literatura,
esconde-se atrás do abrigo dos ideais para não ver nada. Mas a impermanência, o
nascimento e a morte, é a essência de tudo o que é real — desde as estrelas,
cujo destino nos é incalculável, até às efémeras reuniões do nosso planeta. A
vida do indivíduo — seja ele animal, vegetal ou humano — é tão perecível quanto
a dos povos e culturas. Toda a criação está fadada à decadência, todo o
pensamento, toda a descoberta, todo o feito ao esquecimento. Aqui, ali e em
todo o lado, temos consciência de grandiosos rumos históricos que já se
desvaneceram. Ruínas das obras do passado, de culturas mortas, jazem à nossa
volta. A arrogância de Prometeu, que estendeu a mão aos céus para submeter os
poderes divinos ao homem, acarreta sua própria queda. O que será, então, de
toda essa conversa sobre "conquistas imortais"? [...] Aprendemos
que a história é algo que não leva em consideração nossas expectativas. [...] Todas as grandes descobertas e invenções brotam da
alegria dos homens fortes pela vitória. São expressões de personalidade e não
do pensamento utilitarista das massas, que são meras espectadoras do evento,
mas que devem arcar com as consequências, quaisquer que sejam. [...]. Trechos extraídos
da obra Man and Technics: A Contribution to a Philosophy of Life (Arktos Media, 2015), do
historiador e filósofo alemão Oswald Spengler (Oswald
Arnold Gottfried Spengler – 1880-1936), autor de obras como The
Decline of the West (2006), Aphorisms (1967)
e The Hour of Decision (1933). Veja mais aqui & aqui.
CHAPAR AS BORBOLETAS –
A premiada escritora paranaense e autora de diversos livros, Bárbara Lia, edita
o maravilhoso blog Chapar as borboletas. Entre os seus belos poemas, destaco Algo a respirar
nas casas naufragadas: Amar... / É respirar em casas naufragadas
/ É virar, subitamente, raro anfíbio / É ser peixe estrela do mar arraia / É
uma canção de afundar navios / É romance brutal de Almodóvar / Filmado em
cenário de T. Mallick / É ser uma libélula acima do lodo / Âmbar antigo cravado
nos ossos / E o amor é este visitante indócil / A revirar alma, móveis
interiores / Corte rascante que – ao cicatrizar – / Deixa eternos traços de
Pollock / Alegoria cicatrizada, pura loucura / A loucura, a loucura, a
loucura... / Que persigo como um cão ferido / E já sei a curvatura do calcanhar
/ O amor é todo não/dor que atiras / Lava meu rosto em lágrimas de cal / Grão
de angústia, ária de flechas / É sermos um único ser, qual o mito / Atados pela
cervical – eu quero ir / E tu queres ir e, atados, eu não te / Levo comigo e tu
me paralisas – / Há que vir um deus antigo, saído / De – O Banquete – de Platão
/ Cortar o que ata minha coluna / – que me sustenta ferreamente – / À coluna
tua a desorientar passos / Depois de livres, continuar atados / Não mais de
costas um ao outro / E ao amor... Mas, frente a frente, / Boca a boca, luz a
luz, a caminhar / Entre destroços de um navio soul / Ouvindo canções em ritmo
lerdo / Corpos colados em ritmo violento / Para recuperar o tempo, enganar / O
tempo, apagar o tempo, amar / Enquanto é tempo, amar enquanto / Há tempo. Veja mais aqui, aqui e
aqui.Uma dama nos prados encontrei,
Todo-formosa, filha de uma fada:
A cabeleireira longa, os pés ligeiros,
A vista descuidada.
V
Tomei-a em meu corcel de passo lento
E o dia inteiro nada mais vi, não;
Pois pendida de lado ela cantava
De fada uma canção.
VI
Fiz-lhe uma grinalda para a fronte,
E pulseiras e um cinto redolente;
Ela me olhou com ar de quem amasse,
Gemendo suavemente.
VII
Procurou para mim raízes doces,
Orvalho de maná e mel do mato;
E numa linha estranha murmurou:
“Eu amo-te de fato”.
VIII
Levou-me para a sua gruta mágica,
E com suspiros fundos me fitou;
Fechei-lhe os olhos tristes, descuidados,
- Meu beijo a acalentou.
IX
Na gruta, sobre o musgo, nós dormimos,
E ali sonhei – que triste a minha sina! –
O último sonho que haja eu sonhado
No frio da colina.
X
Guerreiros, e reis pálidos, e príncipes,
Todos, de morte pálidos, eu vi
E me diziam: “Pôs-te em cativeiro
La belle Dame sans merci”.
II
(…)
Ela não pode se fazer: se não alcanças teu prazer,
Para sempre a amarás e ela será formosa!
III
Felizes, ah! Felizes ramos! Não podeis perder
As vossas folhas, nem dizer adeus à primavera;
Melodista feliz, infatigável,
Para sempre a modular cantigas para sempre novas.
Oh mais feliz amor! Oh mais feliz, feliz amor!
Ardendo para sempre e sempre a ser fruído,
Arfando para sempre e para sempre jovem!
Amor acima da paixão dos homens que respiram,
Essa que deixa o coração desconsolado e farto
A testa em fogo e ressequida a língua.
Não suspenso da noite com uma luz deserta,
A contemplar, com a pálpebra imortal aberta,
- Monge da natureza, insone e paciente –
As águas moveis na missão sacerdotal
De abluir, rodeando a terra, o humano litoral,
Ou vendo a nova máscara – calda leve
Sobre as montanhas, sobre os pântanos – da neve,
Não! Mas firme e imutável sempre, a desncasar
No seio que amadura de meu belo amor
Para sentir, e sempre, o seu tranqüilo arfar,
Desperto, e sempre, numa inquietação- dulçor,
Para seu meigo respirar ouvir em sorte,
E sempre assim viver, ou desmaiar na morte.
De raízes firmes torças para obter seu vinho venenoso;
Nem sofras que te beije a fronte pálida
A beladona, a rubra uva de Prosérpina;
Não faças teu rosário com os globulos do teixo
Nem falena-da-morte nem escaravelho sejam
Tua Psiquê lutuosa, nem partilhe o mocho penujento
Dos mistérios da tua nostalgia;
Pois sonolenta a sombra à sombra chegará,
Afogando a aflição desperta de tua alma.
Mas quando o acesso da melancolia
De súbito cair do céu, como se fosse a nuvem lacrimosa
Que alenta as flores todas de inclinada fronte
E em mortalha de abril oculta o verde outeiro:
Sacia então tua triteza em rosa matunal,
Ou no arco-iris de salgada onda sobre a areia,
Ou na opulência das peônias globulares;
Ou se a amada mostrar cólera rica,
Toma-lhe a mão suave, e deixa-a delirar
E bebe fundo, a fundo, nos seus olhos sem iguais.
Ela mora com a beleza – com a beleza que perecerá;
Com a alegria de mão aos lábios sempre erguida
Para dizer adeus; e junto do prazer dorido
Que se faz veneno enquanto a boca suha, pura abelha;
Sim, no próprio templo do deleite
É que a melancolia tem, velada, o seu supremo santuário,
Embora só a veja aquele cuja língua estrênua
Rebente a uva da alegria contra o céu da boca;
A alma deste provará a tristeza que é o seu poder,
E em meio aos seus troféus nublados ficará suspensa.
Doces lábios e voz, mão e seio macio,
Morno alento, enlevado, encantador cicio,
Talhe perfeito, olhar de luz, langue cintura!
Ada flor e seus botões as graças não diviso;
A visão da beleza ao meu olhar perdida
A forma da beleza de meus braços ida
Indas voz e calor, a alvura e o paraíso...
Tudo se esvaneceu ao fim do entardecer
Quando o fusco dia santo, ou antes noite santa
Do amor de olente cortinado a trama adianta
Da escuridão, para ocultar todo prazer:
Mas li o missal do amor e dormirei portanto
Que vê o amor como jejuo e rezo tanto.
III
Te4rceira vez passaram perto, e enquanto isso
Voltaram um momento o rosto para mim:
Depois esvaeceram e, para segui-las,
Ardi e ansiei por asas, pois reconheci-as;
A primeira, formosa virgem, era o amor;
A segunda, a ambição, de palidez nas faces
E sempre atenta com seus olhos fatigados;
Na última, que quanto mais censuram tanto
Mais eu amo, donzela extremamente indócil,
Reconheci o meu demônio, a Poesia.
Antes de a pena me aliviar o espírito, antes
De muito livro, em alta pilha, me encerrar
Os grãos maduros como em silos transbordates;
Se vejo nas feições da noite constelar,
Enormes símbolos nublados de um romance,
E penso que não viverei para copiar
As suas sombras com a mão maga de um relance;
Quando sinto que nunca mais hei de te ver,
Formosa criatura de um momento ideal!
Nem hei de saborear o mítico poder
De amor irrefletido! – então no litoral
Do vasto mundo eu fico só, a mediar,
Até ir fama e amor no nada naufragar.






