sábado, fevereiro 20, 2016

JOHN KEATS & BÁRBARA LIA



CHAPAR AS BORBOLETAS – A premiada escritora paranaense e autora de diversos livros, Bárbara Lia, edita o maravilhoso blog Chapar as borboletas. Entre os seus belos poemas, destaco Algo a respirar nas casas naufragadas: Amar... / É respirar em casas naufragadas / É virar, subitamente, raro anfíbio / É ser peixe estrela do mar arraia / É uma canção de afundar navios / É romance brutal de Almodóvar / Filmado em cenário de T. Mallick / É ser uma libélula acima do lodo / Âmbar antigo cravado nos ossos / E o amor é este visitante indócil / A revirar alma, móveis interiores / Corte rascante que – ao cicatrizar – / Deixa eternos traços de Pollock / Alegoria cicatrizada, pura loucura / A loucura, a loucura, a loucura... / Que persigo como um cão ferido / E já sei a curvatura do calcanhar / O amor é todo não/dor que atiras / Lava meu rosto em lágrimas de cal / Grão de angústia, ária de flechas / É sermos um único ser, qual o mito / Atados pela cervical – eu quero ir / E tu queres ir e, atados, eu não te / Levo comigo e tu me paralisas – / Há que vir um deus antigo, saído / De – O Banquete – de Platão / Cortar o que ata minha coluna / – que me sustenta ferreamente – / À coluna tua a desorientar passos / Depois de livres, continuar atados / Não mais de costas um ao outro / E ao amor... Mas, frente a frente, / Boca a boca, luz a luz, a caminhar / Entre destroços de um navio soul / Ouvindo canções em ritmo lerdo / Corpos colados em ritmo violento / Para recuperar o tempo, enganar / O tempo, apagar o tempo, amar / Enquanto é tempo, amar enquanto / Há tempo. Veja mais aqui, aqui e aqui.

POEMAS DE JOHN KEATS

LA BELLE DAME SANS MERCI

IV
Uma dama nos prados encontrei,
Todo-formosa, filha de uma fada:
A cabeleireira longa, os pés ligeiros,
A vista descuidada.
V
Tomei-a em meu corcel de passo lento
E o dia inteiro nada mais vi, não;
Pois pendida de lado ela cantava
De fada uma canção.
VI
Fiz-lhe uma grinalda para a fronte,
E pulseiras e um cinto redolente;
Ela me olhou com ar de quem amasse,
Gemendo suavemente.
VII
Procurou para mim raízes doces,
Orvalho de maná e mel do mato;
E numa linha estranha murmurou:
“Eu amo-te de fato”.
VIII
Levou-me para a sua gruta mágica,
E com suspiros fundos me fitou;
Fechei-lhe os olhos tristes, descuidados,
- Meu beijo a acalentou.
IX
Na gruta, sobre o musgo, nós dormimos,
E ali sonhei – que triste a minha sina! –
O último sonho que haja eu sonhado
No frio da colina.
X
Guerreiros, e reis pálidos, e príncipes,
Todos, de morte pálidos, eu vi
E me diziam: “Pôs-te em cativeiro
La belle Dame sans merci”.

ODE SOBRE UMA URNA GREGA
II
(…)
Ela não pode se fazer: se não alcanças teu prazer,
Para sempre a amarás e ela será formosa!
III
Felizes, ah! Felizes ramos! Não podeis perder
As vossas folhas, nem dizer adeus à primavera;
Melodista feliz, infatigável,
Para sempre a modular cantigas para sempre novas.
Oh mais feliz amor! Oh mais feliz, feliz amor!
Ardendo para sempre e sempre a ser fruído,
Arfando para sempre e para sempre jovem!
Amor acima da paixão dos homens que respiram,
Essa que deixa o coração desconsolado e farto
A testa em fogo e ressequida a língua.

ASTRO FULGENTE

Fosse eu imóvel como tu, astro fulgente@
Não suspenso da noite com uma luz deserta,
A contemplar, com a pálpebra imortal aberta,
- Monge da natureza, insone e paciente –
As águas moveis na missão sacerdotal
De abluir, rodeando a terra, o humano litoral,
Ou vendo a nova máscara – calda leve
Sobre as montanhas, sobre os pântanos – da neve,
Não! Mas firme e imutável sempre, a desncasar
No seio que amadura de meu belo amor
Para sentir, e sempre, o seu tranqüilo arfar,
Desperto, e sempre, numa inquietação- dulçor,
Para seu meigo respirar ouvir em sorte,
E sempre assim viver, ou desmaiar na morte.

ODE SOBRE A MELANCOLIA

Não, não, não vás ao leste, nem o acônito,
De raízes firmes torças para obter seu vinho venenoso;
Nem sofras que te beije a fronte pálida
A beladona, a rubra uva de Prosérpina;
Não faças teu rosário com os globulos do teixo
Nem falena-da-morte nem escaravelho sejam
Tua Psiquê lutuosa, nem partilhe o mocho penujento
Dos mistérios da tua nostalgia;
Pois sonolenta a sombra à sombra chegará,
Afogando a aflição desperta de tua alma.
Mas quando o acesso da melancolia
De súbito cair do céu, como se fosse a nuvem lacrimosa
Que alenta as flores todas de inclinada fronte
E em mortalha de abril oculta o verde outeiro:
Sacia então tua triteza em rosa matunal,
Ou no arco-iris de salgada onda sobre a areia,
Ou na opulência das peônias globulares;
Ou se a amada mostrar cólera rica,
Toma-lhe a mão suave, e deixa-a delirar
E bebe fundo, a fundo, nos seus olhos sem iguais.
Ela mora com a beleza – com a beleza que perecerá;
Com a alegria de mão aos lábios sempre erguida
Para dizer adeus; e junto do prazer dorido
Que se faz veneno enquanto a boca suha, pura abelha;
Sim, no próprio templo do deleite
É que a melancolia tem, velada, o seu supremo santuário,
Embora só a veja aquele cuja língua estrênua
Rebente a uva da alegria contra o céu da boca;
A alma deste provará a tristeza que é o seu poder,
E em meio aos seus troféus nublados ficará suspensa.

PARTIU O DIA

Partiu o dia, e tudo, nele, o que é doçura!
Doces lábios e voz, mão e seio macio,
Morno alento, enlevado, encantador cicio,
Talhe perfeito, olhar de luz, langue cintura!
Ada flor e seus botões as graças não diviso;
A visão da beleza ao meu olhar perdida
A forma da beleza de meus braços ida
Indas voz e calor, a alvura e o paraíso...
Tudo se esvaneceu ao fim do entardecer
Quando o fusco dia santo, ou antes noite santa
Do amor de olente cortinado a trama adianta
Da escuridão, para ocultar todo prazer:
Mas li o missal do amor e dormirei portanto
Que vê o amor como jejuo e rezo tanto.

ODE SOBRE A INDOLENCIA
III
Te4rceira vez passaram perto, e enquanto isso
Voltaram um momento o rosto para mim:
Depois esvaeceram e, para segui-las,
Ardi e ansiei por asas, pois reconheci-as;
A primeira, formosa virgem, era o amor;
A segunda, a ambição, de palidez nas faces
E sempre atenta com seus olhos fatigados;
Na última, que quanto mais censuram tanto
Mais eu amo, donzela extremamente indócil,
Reconheci o meu demônio, a Poesia.

SE TENHO MEDO

Se tenho medo de meus dias terminar
Antes de a pena me aliviar o espírito, antes
De muito livro, em alta pilha, me encerrar
Os grãos maduros como em silos transbordates;
Se vejo nas feições da noite constelar,
Enormes símbolos nublados de um romance,
E penso que não viverei para copiar
As suas sombras com a mão maga de um relance;
Quando sinto que nunca mais hei de te ver,
Formosa criatura de um momento ideal!
Nem hei de saborear o mítico poder
De amor irrefletido! – então no litoral
Do vasto mundo eu fico só, a mediar,
Até ir fama e amor no nada naufragar.

JOHN KEATS - John Keats (1795-1821) foi um poeta Inglês do periodo Romântico. Durante sua curta vida, Keats produziu uma profunda e impressiva coleção de trabalhos. Entre seus mais refinados trabalhos encontram-se 65 sonetos, tais como Ode a Uma Urna Grega. O trabalho de Keats raramente foi bem recebido pelo público e pela crítica. Indiferente a isso, ele escreveu com abundância e qualidade, por toda a sua curta vida. Entre 1818 e 1819, concentrou-se em dois poemas importantes: Hyperion (inacabado), em versos brancos, sob a influência de John Milton, e La Belle Dame Sans Merci. Dedicava todo tempo livre à leitura. No ano em que se publica Endymion, Keats encontrou Fanny Brawne, a grande paixão de sua vida. Teve que separar-se dela em 1820, devido à tuberculose que ele havia contraído. Foi para a Itália, onde morreu poucos meses depois. Sobre seu túmulo, no cemitério protestante de Roma, foi esculpida a inscrição que ele mesmo redigira: Here lies one whose name was writ in water (Aqui descansa um homem cujo nome está escrito sobre a água). Os poemas selecionados são do livro “Poemas de John Ketas”, traduzido por Pericles Erugenio da Silva Ramos. Veja mais aqui e aqui.

REFERÊNCIA
KEATS, Jogn. Poemas. São Paulo: Art, 1985.


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 Imagem: arte de Luciah Lopez
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