RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS - OS
OLHOS DO RIO: NO MUNDO DOS HOMENS NUNCA DEI CERTO! - Como tudo aconteceu? Explico! Primeiro,
minhas desculpas pela minha última visita apressada. É que me assustei com as
sirenes, sabe como é, nunca se sabe, né? Ainda por cima bati o bico da bota na
perna da mesa, causei um estrago, reitero as escusas. Não foi de propósito,
tenho que preservar a minha integridade e a sua. Estavam perto demais. Desculpas,
insisto. Sou espalhado. Para mim não há estações ou calendário, só dias de sol
ou de chuva. Não tenho respostas, muitas perguntas, apenas papear é o que
interessa. Pois bem, como tudo começou... Era uma vez, sexta-feira, dia de São
Nunca de tarde. Baforava às tragadas, encolhido no chão e encostado numa
amendoeira, pensando na vida. Eu havia remado muito e resolvi avaliar tudo que
passou. Era um local conhecido para atravessar o povo de um lado a outro do
rio, quem ia pro colégio, ou pros afazeres, negócios, coisas do interesse deles,
afinal sou canoeiro, vivo disso, ou pelo menos. Gosto das águas, me fascinam,
sou delas, como sou das lavadeiras e de todas as mulheres. Assim, como o rio
corre para se diluir no mar, nada está em definitivo, sempre escorre, a gente
que não sabe para onde. Tanto que a minha vida toda não sei se sonhei ou se
vivi, não há lógica em nada, nem precisa. Naquela tardinha quase noite já
escurecendo, inesperadamente ouvi passos que vinham em minha direção. Quem
poderia ser? Fiquei de mutuca, não sou besta para me pegar na virada e, atilado
na hora, pronto pro que desse e viesse. Sempre confiei no meu taco, mas
precaução nunca é demais. Agucei as ouças, tentei identificar pelas passadas e
logo vi que era uma mulher e estava atordoada. O senhor é o jangadeiro? Sim.
Graças a Deus! Pode me levar pro outro lado, tem que ser rápido, meu carro
quebrou lá em cima e eu preciso de um mecânico urgente, antes que o levem e só
fique o lugar mais limpo. Posso ajudar? Claro que pode, é só me atravessar que
vou atrás do rapaz que conserta. Posso ver o seu carro? Você é mecânico? Não,
mas nunca fiquei empancado em estrada alguma. Bem, se você acha que é capaz de
resolver o meu problema, vamos lá, tomara que resolva senão vou me atrasar e
perder a viagem. Vamos. E ela subiu às carreiras, estava mesmo apressada por
resolver o problema, alguma urgência incomodava. Sabia quem era, fiz que não.
Depois de vencer a ribanceira, andamos um pouco no acostamento e chegamos ao
veículo. Mandei que abrisse o capô, estava já quase escurecido, mas deu para
testar alguma coisa. Passei a mão e fui conferindo cada uma das peças do motor.
Mandei que ela virasse a ignição. Pelo toque da partida, o problema estava
detectado. Saí encarcando fios e ligações, demorou um pouco, pacientemente, até
que dei num cabo solto. Tateei, de onde será que saiu? Hum, achei e recoloquei
no lugar, mandei ligar, ela virou a chave e o carro pegou. Vi-lhe feliz esfuziante,
comemorando. Saiu do carro, encostou a porta e veio em minha direção toda
desengonçada: O que era, hem? Ah, um cabo solto, apenas. Eita! Como você
enxergou, já está escuro, anoiteceu de vez... Nada, tato apenas, a gente
aprende na vida, acaso fique cego ou mouco, coisa de dentro da gente que faz
tudo se desenrolar na intuição. Como você diz que não é mecânico e resolve uma
coisa assim no tato, deveria usar dessa profissão. Uso vez em quando, mas só
para quebrar um galho. E quanto devo? Nada, não fiz nada, só coloquei o cabo,
como disse. Mas resolveu meu problema, merece um pagamento. Não, obrigado. Pode
seguir, até mais ver. Peraí, por que a pressa? A senhora é quem manda se
precisar de mais alguma coisa, à sua disposição. Já escureceu e o que eu ia
fazer nem serve mais, pode ficar para depois; ademais estou faminta, não quer
me acompanhar no jantar? Hummmm... Olhe, dona moça, eu sou um sujeito pobre,
vivo com a cabeça nas nuvens e de levar o povo duma margem pra outra, não quero
incomodar a senhora, até mais ver. Ah, seria ótima companhia, pelo menos seria
uma forma de agradecê-lo por ter me ajudado nessa encrenca. Vamos? Sou um
sujeito broco, não tenho tope nem seria uma boa companhia... A gente janta e eu
lhe trago de volta, vamos? Não sou endinheirado, nem tenho posses. Quem tá
perguntando, vamos? A senhora deve ter muitos amigos... Eu insisto, vamos? Tudo
bem, vamos. Foi aí o começo de tudo, havia anoitecido sem lua e nem havia me
dado conta. (Imagem: Acervo ArtLAM). Veja mais aqui & aqui.
DITOS &
DESDITOS
O poder motriz
da democracia é o amor... Não há alegria maior do que a de sentir-se um
criador. O triunfo da vida é expresso pela criação... Pense como um homem de
ação, aja como um homem de pensamento... Existir é mudar, mudar é amadurecer,
amadurecer é continuar criando-se infinitamente... Homo sapiens, a única
criatura dotada de razão, é também a única criatura a fixar sua existência em
coisas despropositadas...
Pensamento do
filósofo e diplomata francês, Henri Bergson (1859-1941), Prêmio Nobel de
Literatura de 1927. Veja mais aqui & aqui.
ALGUÉM FALOU:
E em todas as
estações \ Há tardes em que as temperaturas caem mais lentamente. \ involuntariamente
\ Eles encolhem tudo. \ Talvez seja hora de renunciar. \ e ser vários \ É
melhor procurarmos algum abrigo. \ muito solitário \ em marcha lenta \ tentando
secar a cerca \ dessa umidade salgada e calamitosa.
Poema da premiada
escritora e jornalista espanhola Olalla Cociña (Olalla Cociña Lozano).
Veja mais aqui, aqui & aqui.
CULTURA, CIVILIZAÇÃO E HUMANIDADE – [...] A religião é absoluta, sagrada e fixa; a
política é relativa, variável e flexível. Misturar as duas pode levar à
desordem, distorção, violência e ao terrorismo sangrento... Não há salvação sem
a separação entre religião e política... A menos que haja sucesso em modernizar
os discursos religiosos e a educação religiosa, estaremos perdendo nosso tempo...
A batalha mais crucial é uma batalha de educação e discurso religioso... A
separação da religião do Estado, a renovação do discurso religioso e o
esclarecimento do intelecto árabe por meio da educação, da consciência e da
disseminação da cultura societal são os únicos meios de alcançar o progresso e
o avanço da sociedade árabe... As mulheres são responsáveis por sua situação
desumana nas sociedades de nossa região de língua árabe... […]. Trecho da obra Culture,
Civilization, and Humanity (Routledge,
2003), do escritor egipcio Tarek Heggy, defensor dos valores da
modernidade, da democracia, da tolerância e dos direitos das mulheres no
Oriente Médio, autor dos livros The Arab Cocoon (2010) e The Arab
Mind Bound (2011).
A
GAROTA NO TREM - […] O vazio: isso
eu entendo. Estou começando a acreditar que não há nada que se possa fazer para
consertá-lo. Foi essa a conclusão que tirei das sessões de terapia: os buracos
na vida da gente são permanentes. É preciso crescer ao redor deles, como raízes
de árvore em torno do concreto; você se molda através das lacunas. [...] Nunca
entendi como as pessoas conseguem ignorar, com total despreocupação, os danos
que causam ao seguir o coração. [...] Perdi o controle sobre tudo, até
mesmo sobre os lugares na minha cabeça. [...] Quero passar facas pela
minha pele, só para sentir algo além de vergonha, mas não tenho nem coragem
para isso. [...]. Trechos
da obra The Girl on the Train (Random House, 2015), da escritora zimbabuana Paula Hawkins.
ININTERRUPTAMENTE - Sempre que você
me vem à mente, \ meus versos, transformando-se em canções, \ começam a fluir
em sua direção. \ Durante a distância infinita \ entre o seu centro e o meu
perímetro, \ sinto um rio contínuo de fé \ fluindo por eras. \ Enquanto houver
água, \ as duas margens se acompanham \ por um período perpétuo. \ À medida que
crescem ondas inteiras de reminiscência, \ eu, um companheiro de jornada do
mesmo tempo, \ continuarei esperando pela \ melodia da sua canção \ junto ao
mesmo rio... ininterruptamente... Poema da premiada poeta, letrista, ensaísta e
crítica literária nepalesa Geeta Tripathee.
AS LEIS DO DRAMA – No livro Introdução à dramaturgia (Brasiliense, 1983), da poeta, dramaturga, ensaísta e tradutora
paulista Renata
Pallottini, trata, entre outros assuntos, acerca das leis do drama,
embasada nas teorias de Hegel e de Augusto Boal, quais sejam elas: a lei do
conflito, da variação quantitativa (ação dramática), variação qualitativa e
interdependência. Segundo a autora, o teatro é conflito: todo drama pressupõe
conflito, confronto de vontades, ideias, pontos de vista, ações. Onde não há
conflito, não há drama; a ação dramática, o movimento interior, o devir,
constituem a própria essência de uma peça de teatro e são consequência do
conflito; a variação qualitativa é o ponto de mudança para o qual caminha o
conflito, em sua intensificação; e tudo isto, conflito, ação dramática,
variação quantitativa e salto qualitativo, deve estar submetido a uma unidade
fundamental do todo, à interdependência de todos os componentes, à constância
da ideia central, espinha dorsal da obra, e que é, outra vez, o correspondente
à regra aristotélica da unidade da ação. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
ELA, CHEGADA
Ela chega arredia e cheira meus olhos,
hálito e sexo;
deita-se erradia nos meus sonhos e sou
nuvem a chover na sua nudez.
Veja mais aqui.
TODO DIA É DIA DA MULHER







