segunda-feira, fevereiro 15, 2016

ROGERS, PALLOTTINI, BERGSON, OLALLA COCIÑA, TAREK HEGGY, PAULA HAWKINS, GEETA TRIPATHEE & RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS

 


RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS - OS OLHOS DO RIO: NO MUNDO DOS HOMENS NUNCA DEI CERTO! - Como tudo aconteceu? Explico! Primeiro, minhas desculpas pela minha última visita apressada. É que me assustei com as sirenes, sabe como é, nunca se sabe, né? Ainda por cima bati o bico da bota na perna da mesa, causei um estrago, reitero as escusas. Não foi de propósito, tenho que preservar a minha integridade e a sua. Estavam perto demais. Desculpas, insisto. Sou espalhado. Para mim não há estações ou calendário, só dias de sol ou de chuva. Não tenho respostas, muitas perguntas, apenas papear é o que interessa. Pois bem, como tudo começou... Era uma vez, sexta-feira, dia de São Nunca de tarde. Baforava às tragadas, encolhido no chão e encostado numa amendoeira, pensando na vida. Eu havia remado muito e resolvi avaliar tudo que passou. Era um local conhecido para atravessar o povo de um lado a outro do rio, quem ia pro colégio, ou pros afazeres, negócios, coisas do interesse deles, afinal sou canoeiro, vivo disso, ou pelo menos. Gosto das águas, me fascinam, sou delas, como sou das lavadeiras e de todas as mulheres. Assim, como o rio corre para se diluir no mar, nada está em definitivo, sempre escorre, a gente que não sabe para onde. Tanto que a minha vida toda não sei se sonhei ou se vivi, não há lógica em nada, nem precisa. Naquela tardinha quase noite já escurecendo, inesperadamente ouvi passos que vinham em minha direção. Quem poderia ser? Fiquei de mutuca, não sou besta para me pegar na virada e, atilado na hora, pronto pro que desse e viesse. Sempre confiei no meu taco, mas precaução nunca é demais. Agucei as ouças, tentei identificar pelas passadas e logo vi que era uma mulher e estava atordoada. O senhor é o jangadeiro? Sim. Graças a Deus! Pode me levar pro outro lado, tem que ser rápido, meu carro quebrou lá em cima e eu preciso de um mecânico urgente, antes que o levem e só fique o lugar mais limpo. Posso ajudar? Claro que pode, é só me atravessar que vou atrás do rapaz que conserta. Posso ver o seu carro? Você é mecânico? Não, mas nunca fiquei empancado em estrada alguma. Bem, se você acha que é capaz de resolver o meu problema, vamos lá, tomara que resolva senão vou me atrasar e perder a viagem. Vamos. E ela subiu às carreiras, estava mesmo apressada por resolver o problema, alguma urgência incomodava. Sabia quem era, fiz que não. Depois de vencer a ribanceira, andamos um pouco no acostamento e chegamos ao veículo. Mandei que abrisse o capô, estava já quase escurecido, mas deu para testar alguma coisa. Passei a mão e fui conferindo cada uma das peças do motor. Mandei que ela virasse a ignição. Pelo toque da partida, o problema estava detectado. Saí encarcando fios e ligações, demorou um pouco, pacientemente, até que dei num cabo solto. Tateei, de onde será que saiu? Hum, achei e recoloquei no lugar, mandei ligar, ela virou a chave e o carro pegou. Vi-lhe feliz esfuziante, comemorando. Saiu do carro, encostou a porta e veio em minha direção toda desengonçada: O que era, hem? Ah, um cabo solto, apenas. Eita! Como você enxergou, já está escuro, anoiteceu de vez... Nada, tato apenas, a gente aprende na vida, acaso fique cego ou mouco, coisa de dentro da gente que faz tudo se desenrolar na intuição. Como você diz que não é mecânico e resolve uma coisa assim no tato, deveria usar dessa profissão. Uso vez em quando, mas só para quebrar um galho. E quanto devo? Nada, não fiz nada, só coloquei o cabo, como disse. Mas resolveu meu problema, merece um pagamento. Não, obrigado. Pode seguir, até mais ver. Peraí, por que a pressa? A senhora é quem manda se precisar de mais alguma coisa, à sua disposição. Já escureceu e o que eu ia fazer nem serve mais, pode ficar para depois; ademais estou faminta, não quer me acompanhar no jantar? Hummmm... Olhe, dona moça, eu sou um sujeito pobre, vivo com a cabeça nas nuvens e de levar o povo duma margem pra outra, não quero incomodar a senhora, até mais ver. Ah, seria ótima companhia, pelo menos seria uma forma de agradecê-lo por ter me ajudado nessa encrenca. Vamos? Sou um sujeito broco, não tenho tope nem seria uma boa companhia... A gente janta e eu lhe trago de volta, vamos? Não sou endinheirado, nem tenho posses. Quem tá perguntando, vamos? A senhora deve ter muitos amigos... Eu insisto, vamos? Tudo bem, vamos. Foi aí o começo de tudo, havia anoitecido sem lua e nem havia me dado conta. (Imagem: Acervo ArtLAM). Veja mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

O poder motriz da democracia é o amor... Não há alegria maior do que a de sentir-se um criador. O triunfo da vida é expresso pela criação... Pense como um homem de ação, aja como um homem de pensamento... Existir é mudar, mudar é amadurecer, amadurecer é continuar criando-se infinitamente... Homo sapiens, a única criatura dotada de razão, é também a única criatura a fixar sua existência em coisas despropositadas...

Pensamento do filósofo e diplomata francês, Henri Bergson (1859-1941), Prêmio Nobel de Literatura de 1927. Veja mais aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU:

E em todas as estações \ Há tardes em que as temperaturas caem mais lentamente. \ involuntariamente \ Eles encolhem tudo. \ Talvez seja hora de renunciar. \ e ser vários \ É melhor procurarmos algum abrigo. \ muito solitário \ em marcha lenta \ tentando secar a cerca \ dessa umidade salgada e calamitosa.

Poema da premiada escritora e jornalista espanhola Olalla Cociña (Olalla Cociña Lozano). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

CULTURA, CIVILIZAÇÃO E HUMANIDADE – [...] A religião é absoluta, sagrada e fixa; a política é relativa, variável e flexível. Misturar as duas pode levar à desordem, distorção, violência e ao terrorismo sangrento... Não há salvação sem a separação entre religião e política... A menos que haja sucesso em modernizar os discursos religiosos e a educação religiosa, estaremos perdendo nosso tempo... A batalha mais crucial é uma batalha de educação e discurso religioso... A separação da religião do Estado, a renovação do discurso religioso e o esclarecimento do intelecto árabe por meio da educação, da consciência e da disseminação da cultura societal são os únicos meios de alcançar o progresso e o avanço da sociedade árabe... As mulheres são responsáveis por sua situação desumana nas sociedades de nossa região de língua árabe... […]. Trecho da obra Culture, Civilization, and Humanity (‎Routledge, 2003), do escritor egipcio Tarek Heggy, defensor dos valores da modernidade, da democracia, da tolerância e dos direitos das mulheres no Oriente Médio, autor dos livros The Arab Cocoon (2010) e The Arab Mind Bound (2011).

 

A GAROTA NO TREM - […] O vazio: isso eu entendo. Estou começando a acreditar que não há nada que se possa fazer para consertá-lo. Foi essa a conclusão que tirei das sessões de terapia: os buracos na vida da gente são permanentes. É preciso crescer ao redor deles, como raízes de árvore em torno do concreto; você se molda através das lacunas. [...] Nunca entendi como as pessoas conseguem ignorar, com total despreocupação, os danos que causam ao seguir o coração. [...] Perdi o controle sobre tudo, até mesmo sobre os lugares na minha cabeça. [...] Quero passar facas pela minha pele, só para sentir algo além de vergonha, mas não tenho nem coragem para isso. [...]. Trechos da obra The Girl on the Train (Random House, 2015), da escritora zimbabuana Paula Hawkins.

 

ININTERRUPTAMENTE - Sempre que você me vem à mente, \ meus versos, transformando-se em canções, \ começam a fluir em sua direção. \ Durante a distância infinita \ entre o seu centro e o meu perímetro, \ sinto um rio contínuo de fé \ fluindo por eras. \ Enquanto houver água, \ as duas margens se acompanham \ por um período perpétuo. \ À medida que crescem ondas inteiras de reminiscência, \ eu, um companheiro de jornada do mesmo tempo, \ continuarei esperando pela \ melodia da sua canção \ junto ao mesmo rio... ininterruptamente... Poema da premiada poeta, letrista, ensaísta e crítica literária nepalesa Geeta Tripathee.

 

AS LEIS DO DRAMA – No livro Introdução à dramaturgia (Brasiliense, 1983), da poeta, dramaturga, ensaísta e tradutora paulista Renata Pallottini, trata, entre outros assuntos, acerca das leis do drama, embasada nas teorias de Hegel e de Augusto Boal, quais sejam elas: a lei do conflito, da variação quantitativa (ação dramática), variação qualitativa e interdependência. Segundo a autora, o teatro é conflito: todo drama pressupõe conflito, confronto de vontades, ideias, pontos de vista, ações. Onde não há conflito, não há drama; a ação dramática, o movimento interior, o devir, constituem a própria essência de uma peça de teatro e são consequência do conflito; a variação qualitativa é o ponto de mudança para o qual caminha o conflito, em sua intensificação; e tudo isto, conflito, ação dramática, variação quantitativa e salto qualitativo, deve estar submetido a uma unidade fundamental do todo, à interdependência de todos os componentes, à constância da ideia central, espinha dorsal da obra, e que é, outra vez, o correspondente à regra aristotélica da unidade da ação. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


UM JEITO DE SER, DE CARL ROGERS - [...] Creio que sei por que me é gratificante ouvir alguém. Quando consigo realmente ouvir alguém, isso me coloca em contato com ele, isso enriquece a minha vida. [...] Quando efetivamente ouço uma pessoa e os significados que lhe são importantes naquele momento, ouvindo não suas palavras mas ela mesma, e quando lhe demonstro que ouvi seus significados pessoais e íntimos, muitas coisas acontecem. Há, em primeiro lugar, um olhar agradecido. Ela se sente aliviada. Quer falar mais sobre seu mundo. Sente-se impelida em direção a um novo sentido de liberdade. Torna-se mais aberta ao processo de mudança. [...] Assim, estimar ou amar e ser estimado e amado são experiências que promovem crescimento. [...] considero a morte como uma abertura para a experiência. Ela será o que tiver que ser, e estou certo de que a aceitarei, quer ela seja um fim, quer uma continuação da vida. [...] Os indivíduos possuem dentro de si vastos recursos para a autocompreensão e para modificação de seus autoconceitos, de suas atitudes e de seu comportamento autônomo. Esses recursos podem ser ativados se houver um clima, passível de definição, de atitudes psicológicas facilitadoras. Há três condições que devem estar presentes para que se crie um clima facilitador de crescimento. [...] Essas tendências, que são a recíproca das atitudes do terapeuta, permitem que a pessoa seja uma propiciadora mais eficiente de seu próprio crescimento. Sente-se mais livre para ser uma pessoa verdadeira e integral. [...] quando criamos um clima psicológico que permite que as pessoas sejam — sejam elas clientes, estudantes, trabalhadores ou membros de um grupo — não estamos participando de um evento casual. Estamos descobrindo uma tendência que permeia toda a vida orgânica — uma tendência para se tornar toda a complexidade de que o organismo é capaz. Em uma escala ainda maior, creio que estamos sintonizando uma tendência criativa poderosa, que deu origem ao nosso universo, desde o menor floco de neve até a maior galáxia, da modesta ameba até a mais sensível e bem-dotada das pessoas. E talvez estejamos atingindo o ponto crítico da nossa capacidade de nos transcendermos, de criar direções novas e mais espirituais na evolução humana. [...] Está-se chegando à compreensão de que a pessoa é um processo e não um conjunto fixo de hábitos, o que provoca maneiras diferentes de comportamento, aumenta as opções. UM JEITO DE SER – O livro Um jeito de ser, de Carl Rogers, trata na primeira parte das experiências e perspectivas pessoas, abordando experiências em comunicação, crescer envelhecendo ou envelhecer crescendo, a dimensão física, atividades, cuidando de mim, abertura para novas ideias, intimidade, alegrias e dificuldades pessoais, reflexões sobre a morte, vivendo o processo de morrer, atividade e risco e assuntos pessoais. Na segunda parte trata dos aspectos de uma abordagem centrada na pessoa, abordando os fundamentos de uma abordagem centrada na pessoa, a formação de comunidades centradas na pessoa: implicações para o futuro, seis vinhetas, características, as evidencias que fundamentam, um processo direcional na vida, provas fornecidas pela teoria pratica modernas, uma base na confiança, uma concepção mais ampla: a tendência formativa, a função de consciência nos seres humanos, estados alterados de consciência, a ciência e o misticismo e uma hipótese para o futuro. A terceira parte do livro trata do processo educacional e seu futuro, abordando para além do divisor de águas: onde agora, o que aprendemos com os grandes grupos: implicações para o futuro, a formação de comunidades centradas na pessoas, o que aprendemos com os grandes grupos, uma descrição de ciclos, o conteúdo dos ciclos, o processo grupal, a função da equipe e a dinâmica de grupo, implicações para a educação no futuro. Na quarta e última parte, trata do tema olhando à frente: um cenário centrado na pessoa, abordando o mundo do futuro e a pessoa do futuro, o mundo do amanhã, o significado das tendências, a pessoa do amanhã, características das pessoas do futuro e se ela sobreviverá, uma visão otimista, entre outras ideias do autor. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
ROGERS, Carl. Um Jeito de Ser  São Paulo: EPU, 1987.

 

ELA, CHEGADA

Ela chega arredia e cheira meus olhos, hálito e sexo;

deita-se erradia nos meus sonhos e sou nuvem a chover na sua nudez.

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