Imagem: Acervo ArtLAM.
Ao som dos álbuns Tanto Tempo (2000), Momento
(2007), All in One (2009), Tudo (2014), Agora (2020) e João
(2023), da cantora e compositora Bebel Gilberto (Isabel Gilberto de
Oliveira). Veja mais aqui.
Miolo de pote,
uma loa quase iniciática... - Era uma vez e só
havia o quintal às costas do menino. À janela almejava quase longe o rio e o espelho
do céu fluía: nuvens e sonhos. Alvoroçado escapulia muro afora e o mundo se descortinava,
rente à margem. Das funduras um caleidoscópio emergia remoinho e nele uma
efígie pueril, quase adolescente: Era eu? E me falava da morte subindo a
escada, a goiaba nos galhos sobre a casa, lá embaixo o desejo das irmãs, a faca
entre os dentes e, a cada degrau, a coragem e uma queda abissal. Era a primeira vez e nela revivia a cena: ainda bebê nos braços da empregada, embalado pelo
gira girou da roda gigante, o circuito e os gritos do pavor dela no incêndio
estouravam a vermelhidão na esclerótica. E o bom era o balanço do trem comendo
chão na ferrovia, a saia das elegantes rodomoças no meio das paisagens da
rodovia, o cheiro de sargaço do Recife, o bicho de pé na areia de Boa Viagem,
os tombos na bicicleta do primo, a festa semanal na dolorosa consulta médica, o
regresso com antibióticos e os temores do coração de Jesus pendurado na viga da
sala, a vigilância com o interdito dos livros na biblioteca paterna, amarrado
ao pé da mesa, as fechaduras insondáveis, a invasão dos espectros nas botas da
prisão do meu pai e a solidão infantil não podia descalça pisar o chão, mesmo
resistindo aos nãos das sandálias e a proteção era o preço a pagar, quando queria
a escola, na fila da merenda, obrigavam a sopa e, um descuido, o achocolatado
no desejo, o vômito e a hepatite. Fechava os olhos, rejeitava a revista. E ao
reabri-los uma efigie deformada se fez num duplo inexato, a feição na
superfície embaçada, o olho do falcão e o intenso impacto. Não gostava do que
via, porque ouvia da segunda morte: atropelado num cruzamento da Imbiribeira
e o turbilhão com todos os titubeios, os fracassos, felonias, os desperdícios
de quem se sentia com a síndrome do alferes de Machado de Assis, como
quem se perdera na experiência dos espelhos de Rosa e o coração refletido
no museu de Hanói, envolvido pelo conto de fadas da Sais de Novalis, pelos
versos do poema de Schiller e de tudo que cuspia a Herodíade do Mallarmé:
Certas noites, em tua severa fonte \ conheci a nudez do meu sonhar disperso...
Parecia o julgamento do que fui no espelho do Karma de Yama. Novamente recolhia
às pálpebras, doía ver-se às cabeçadas na gritaria das tolices, o que dirão das
doidices, mané! Ria das próprias leseiras, acrófobo voador entre contramão e
vielas. Não havia como negar e envelhecia diante espelho mágico do Ts’in: o pó cobria
a causa de atos passados. Ah, se pelo menos aparecesse a bela deusa Sarasundari
no espelho octogonal com os oitos trigamas do Amaterasu, uma alma polida pela
ascese. Nada, aspirava desfrutar ao lado dela o Kagami Mochi e aprender da Tábua de Esmeralda: aquilo que está no alto é como aquilo que está embaixo. Não havia
lógica nem sentido, pudera. Cadê a estrela da sorte? Nada, sobrevivia ao reflexo
reativo às ameaças, o sangue esquentado, as feridas, o que se dissipou no jogo
de espelhos, o arrebatamento e tudo tão disperso, atroz e inútil. A vida se
alongava insinuante no sorriso fugidio, não escondia as cicatrizes, melhor era
depor logo, bastava, não havia escolha: era a vacuidade primordial do shunyata.
Queria demais, ignorava o merecimento e tantas coisas, não havia mais passado: esquecia
para não perder a razão, a compreensão se ampliava com o passar do tempo. De resto,
simplesmente vivia como uma causa perdida e nada mais: o olhar fatigado, o
rouco lamento, a resignada mudez. Não havia como voltar atrás diante da clarividência
reveladora: era apenas um menino à beira do rio... Até mais ver.
Murilo Mendes: É necessário conhecer seu próprio abismo. E polir sempre o candelabro que o esclarece... Só não existe o que não pode ser imaginado... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Mônica Martelli: Precisamos nos
olhar com mais generosidade... É muito cruel ter que decidir tudo aos 20 anos:
o que fazer da vida, a profissão e com quem casar. Ninguém tem maturidade para
isso... Veja mais aqui & aqui.
Alexandria Villaseñor: No futuro, a escola
não terá mais importância, porque estaremos muito ocupados fugindo do próximo
incêndio florestal ou furacão... Sempre que vejo um negacionista climático ou
um troll, considero um bom sinal. Isso só mostra o quanto eles se sentem
ameaçados... Veja mais aqui.
A MARGEM DO SILÊNCIO
Imagem: Acervo ArtLAM.
Resmungou novamente a
onda cansada da viagem, \ encantada com a \ margem do silêncio. As
reminiscências da \ escravidão eram os amargos mistérios de seu \ isolamento.
Finalmente, em liberdade, pretendia \ não gostar de nada além das melodias
tristes. Dirigiu \ -se ao solo sedento com seu clamor: \ "Ó! solo, minhas
melodias para ti se tornaram \ as colisões da esperança, minhas gotas para ti \
as testemunhas da vida, eu só peço que \ penses como eu, tu te tornaste a parte
silenciosa \ do meu zênite." \ A nobre costa respondeu assim: \ "Ó!
onda, orgulho da minha estatura, espectadora \ do meu cativeiro, firmeza do meu
corpo, \ teu seio é o meu céu, honra da \ mãe mar, heroína das águas! Os anos \
este silêncio aninharam-se em meu coração. A \ opressão da marca do sol, \ familiar
da minha ferida, o céu \ já não é um amigo compassivo para mim, \ a história
das estrelas não está na minha boca, \ o cativeiro da terra tornou-se a minha \
narrativa amarga."
Poema da escritora
iraniana Taraneh Javanbakht.
MUDANÇA – [...] Eu escapei desse destino e trabalhei em uma padaria, como
zelador, livreiro, garçom, recepcionista, secretário, professor particular,
profissional do sexo, monitor em um acampamento de verão e cobaia para
experimentos médicos. Milagrosamente, frequentei uma das universidades mais
prestigiosas da Europa e me formei em filosofia e sociologia, enquanto ninguém
mais na minha família havia estudado. Li Platão, Kant, Derrida, Simone de
Beauvoir. Depois de crescer entre as classes mais pobres do norte da França, conheci
a classe média provinciana, sua amargura, e, mais tarde, o mundo intelectual
parisiense, as classes altas francesas e internacionais. Convivi com algumas
das pessoas mais ricas do mundo. Eu fiz amor com homens que tinham obras de
Picasso, Monet e Soulages em suas salas de estar, que viajavam apenas em jatos
particulares e passavam todo o tempo em hotéis onde uma única noite custava o
que toda a minha família ganhava em um ano quando eu era criança, para uma
família de sete pessoas. [...] Eu escapei da morte por um triz, eu a
experimentei, senti sua realidade, perdi o o uso do meu corpo por versa. Mais
do que qualquer outra coisa, eu queria escapar da minha infância, dos céus
cinzentos do departamento de Nord. de Nord e da vida fadada ao fracasso dos
meus amigos de infância, a quem a sociedade havia privado de tudo, cuja única
perspectiva de felicidade eram as duas noites por semana que passavam no ponto
de ônibus da vila, bebendo cerveja e pastis em copos de plástico para esquecer,
para esquecer a realidade. Eu sonhava em ser reconhecida na rua, sonhava em ser
invisível, sonhava em desaparecer, sonhava em acordar uma manhã como uma
menina, sonhava em ser rica, sonhava em recomeçar do zero. [...] Não sei se é assim para todos, mas para mim, quando o processo de
transformação começou, foi mais do que um esforço consciente; tornou-se uma
obsessão permanente. [...]. Trechos extraídos do livro Change ( Farrar, Straus and Giroux. 2024), do escritor e tradutor francês Édouard
Louis (Eddy Bellegueule), que na obra A Woman’s Battles and
Transformations (Harvill Secker, 2022), expressou que: […] Comecei este livro querendo contar a história de uma mulher, mas percebi
que a sua é a história de um ser humano que lutou pelo direito de existir como
mulher, em oposição à inexistência que lhe foi imposta pela sua vida e pela
vida com meu pai. [...] Eu já estava tão acostumado a vê-la infeliz em casa
que a alegria em seu rosto me parecia escandalosa, um engano, uma mentira que
precisava ser exposta o mais rápido possível. [...]. Também no
seu livro Qui a tué mon père (Seuil, 2018), ele expressou que: [...]
Para a classe dominante, em geral, a política é uma questão de estética:
uma forma de se verem, de verem o mundo, de construírem uma personalidade. Para
nós, era uma questão de vida ou morte. [...] Entre aqueles que têm
tudo, nunca vi uma família ir à praia só para comemorar uma decisão política,
porque para eles a política quase nada muda. Foi algo que percebi quando fui
morar em Paris, longe de você: a classe dominante pode reclamar de um governo
de esquerda, pode reclamar de um governo de direita, mas nenhum governo jamais
lhes causa problemas digestivos, nenhum governo jamais lhes causa sofrimento,
nenhum governo jamais os inspira a ir à praia. A política nunca muda suas
vidas, pelo menos não muito. O que é estranho também é que são eles que se
envolvem na política, embora ela quase não tenha efeito algum em suas vidas.
Para a classe dominante, em geral, a política é uma questão de estética: uma
forma de se verem, de verem o mundo, de construírem uma personalidade. Para
nós, era uma questão de vida ou morte. [...]. Já no seu livro Histoire de la violence (Points, 2016), ele assinala que: […] As coisas de que nos lembramos com mais clareza são sempre aquelas que nos
causam vergonha. [...] Tenho tentado construir uma memória que
me permita desfazer o passado, que o amplifique e o destrua, para que quanto
mais eu me lembre e mais me perca nas imagens que restam, menos elas tenham a
ver comigo. [...] As pessoas sempre acham que suas próprias vidas são
fascinantes, e sim, elas sabem que todo mundo pensa igual, mas mesmo assim
dizem a si mesmas que todos os outros estão errados e elas estão certas. [...]. Noutro de seus
livros, The End of Eddy (Farrar, Straus and Giroux, 2017), ele expressa
que: […] Existe uma vontade, um esforço desesperado, contínuo e
constantemente renovado para colocar algumas pessoas num nível inferior ao seu,
para não as colocar no degrau mais baixo da hierarquia social. [...] Talvez o que ela quisesse dizer era que, obviamente, ela não era
uma dama, porque não havia como ela ser. Ser comum, como se o orgulho não fosse
a primeira manifestação da vergonha. [...] Ela não entendia que sua
trajetória, o que ela chamava de seus erros, se encaixava perfeitamente em um
conjunto de mecanismos lógicos praticamente preestabelecidos e inegociáveis.
Ela não percebia que sua família, seus pais, seus irmãos e irmãs, até mesmo
seus filhos, praticamente todos na aldeia, tinham tido os mesmos problemas, e o
que ela chamava de erros eram, na verdade, nada mais nada menos do que a
perfeita concretização do curso normal das coisas. [...].
BRASIL:UMA BIOGRAFIA - [...] Evidentemente
deslumbrado, o relato de Caminha inaugurava, também, outro mito recorrente. O
da natureza pacífica, de uma conquista sem violência, uma comunhão que unificou
a todos, num mesmo coração e religião. Estranho processo que definiria o Brasil
como um país da ausência de conflito, como se os trópicos — por algum milagre
ou dádiva — tivessem o poder de aliviar tensões e inibir guerras. Na Europa as
lutas dividiam e sangravam nações; já no Novo Mundo, se guerras existiam, elas
eram, segundo os relatos europeus, só internas. O encontro havia de ser sem
igual e entre iguais, por mais que o tempo mostrasse o oposto: genocídio de um
lado, conquista de outro. A essas alturas, os portugueses já iam se julgando
donos e senhores dos destinos da nova terra, de seus limites e nomes. No
entanto, a descoberta não alterou de imediato a rotina e os interesses dos
lusitanos, que então só tinham olhos para o Oriente. Por isso, durante certo
tempo, a vasta área ficou reservada para o futuro. Mas a concorrência
internacional, ameaças estrangeiras e os questionamentos acerca do bilateral
Tratado de Tordesilhas não permitiriam que a calmaria ali fosse eterna.
Espanhóis já estavam na costa nordeste da América do Sul, e ingleses e franceses,
contestando a divisão luso-espanhola do globo, logo invadiriam diferentes pontos
do litoral. Francisco i da França, ao questionar o famoso acordo, deixou frase
lapidar: “Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que dividiu o mundo entre
Portugal e Espanha e me excluiu da partilha”. [...] A ilha do “Brazil”
dos irlandeses é originalmente uma ilha fantasmagórica que sofre um
deslocamento e reaparece no século xv próxima aos Açores e ao mito da ilha dos
Bem-Aventurados de São Brandão. A perfeição do lugar descrito por Caminha
aproxima-se da utopia da ilha do “Brazil”. Essa explicação daria conta, também,
do nome “Obrasil”, encontrado em vários mapas do início do xvi. A inspiração
irlandesa era religiosa e de tradição paradisíaca, e perseguiria com teimosia
os cartógrafos do período. Apareceria pela primeira vez em 1330 designando uma
ilha misteriosa, e ainda em 1353 estaria presente numa carta inglesa. De toda
forma, existia na época do “achamento” mais essa clara associação, entre
indígenas — de vida longa e edênica — e outras terras misteriosas. E o mistério
se manteria intocado por muito tempo, assim como a ambivalência que deixava
irresolvida a disputa entre o pau vermelho (em brasa) e o lenho de Cristo. O
melhor mesmo era acender uma vela para Deus e soprar outra para o Diabo. [...]
Nenhuma forma de escravidão é melhor ou pior do que
outra. Todos os tipos de escravidão têm algo em comum: geram sadismo, a
naturalização da violência e a perversão da sociedade.
[...] O
tempo inflexível, o tempo que, como o moço é irmão da Morte, vai matando
aspirações, tirando perempções, trazendo desalento, e só nos deixa na alma essa
saudade do passado, às vezes composto de fúteis acontecimentos, mas que é bom
sempre relembrar. [...] Padre António
Vieira – orador e filósofo português da Companhia de Jesus, e grande defensor
dos “direitos dos índios”101 – tentou, em um de seus famosos sermões, descrever
os nativos que conhecera no Brasil. Após lamentar o modesto sucesso da missão
evangelizadora, comparou a diferença entre europeus e índios à diferença entre
mármore e um arbusto de murta. Os europeus, disse ele, eram como o mármore:
difíceis de esculpir, mas, uma vez concluída a estátua, permaneciam intactos
para sempre. Os ameríndios, por outro lado, eram o oposto. Eram como um arbusto
de murta: à primeira vista fáceis de esculpir, apenas para depois retornarem à
sua forma original. [...]. Trechos extraídos da obra
Brasil: uma biografia (Companhia das Letras, 2015), da historiadora e
antropóloga Lilia
Schwarcz e
da historiadora, professora, escritora e pesquisadora Heloisa Starling,
na qual abordam temas como O Brasil fica bem perto daqui, Primeiro
veio o nome, depois uma terra chamada Brasil, Tão doce como amarga: a
civilização do açúcar, Toma lá dá cá: o sistema escravocrata e a naturalização
da violência, É ouro!, Revoltas, conjurações, motins e sedições no paraíso dos
trópicos, Homens à vista: uma corte ao mar, D. João e seu reino americano, Quem
foi para Portugal perdeu o lugar: vai o pai, fica o filho, Habemus
independência: instabilidade combina com Primeiro Reinado, Regências ou o som
do silêncio, Segundo Reinado: enfim uma nação nos trópicos, Ela vai cair: o fim
da monarquia no Brasil, A Primeira República e o povo nas ruas, Samba,
malandragem e muito autoritarismo na gênese do Brasil moderno, Yes, nós temos
democracia, Os anos 1950-1960: a bossa, a democracia e o país subdesenvolvido, No
fio da navalha: ditadura, oposição e resistência, No caminho da democracia: a
transição para o poder civil e as ambiguidades e heranças da ditadura militar e
História não é conta de somar. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
A
ARTE DE SEVERINO ARAÚJO DE OLIVEIRA
A
arte do músico clarinetista, compositor e maestro Severino Araújo de
Oliveira
(1917-2012), regente da legendária Orquestra Tabajara e um dos pioneiros da
fusão de elementos do jazz e do choro na música brasileira. É autor de inúmeros
sucessos, entre eles Espinha de Bacalhau (1937), Gafanhoto Manco (1937),
Um Chorinho Modulante (1937), Mumbaba (1943), Um Chorinho
Delicioso (1947), Um Chorinho pra Você (1947), Simplesmente (1948),
Mirando-te (1950), Além do Horizonte (1952), Pensando em Você (1953),
Um Chorinho em Montevidéu (1955) e Nivaldo no Choro (1956), entre
tantos outros. Veja mais aqui.
Darel Valença Lins aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Débora Ferraz aqui.
Urariano Mota aqui, aqui & aqui.
Ágnes Souza aqui.
Pernambuco do Pandeiro (Inácio Pinheiro Sobrinho -
1924-2011) aqui.
Laís de Assis aqui.
Thalyta Monteiro aqui.
Nelson Barbalho aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque aqui.






