domingo, maio 03, 2026

DAVI KOPENAWA, DARIJA ŽILIĆ, NISHI SINGH, CELINA DE HOLANDA & SEMANA ASCENSO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum Transparente (Fina Flor, 2015), da cantora e compositora Fátima Guedes. Veja mais aqui, aqui & aqui.


 

Galardão do revés exótico... - Naquele instante, ela nostálgica revivia o idílio de seu deleite virginal: o primeiro beijo e ele chegava possessivo de ciúmes, não se cansava de tê-la tão bela aos seus olhos de senhor das horas. Dela, a revista das cartas íntimas trocadas, discórdias, pormenores, adivinhando o que queria a precipitar-se previdente, até das suspeitas injuriosas de ter que pagar na mesma moeda, enquanto os anos a consumia numa devastadora paixão. De repente, o amor restava excomungado, desde quando o marido invadiu o oitão da casa espaventoso, aos gritos, sucedendo o susto, porta abaixo, dele ter acabado de chegar, um endríago desembestado, olhos cinzentos, a face inexpressiva na agonia dos odores de acender e apagar, ao que cegava carrancudo no martírio de ser atingido por relâmpago certeiro e perdia a sombra, o chão sumia, esvaindo-se estouvado e morria em pé, a se dissolver com últimos suspiros, imodesto nas distorções do vulgo, expirava no último fôlego das ventas e sucumbia à glória dos valentões finados, a morte injuriosa no pó que fez-se poeira invisível para nunca mais, a sorte o tratava bem dagora em diante. Ruborizada, franzia o cenho diante daquilo tudo, assustada com a cena perturbadora. Compungida, restava uma vela ao inusitado e a futura lembrança. Nisso o papagaio despencou do poleiro espatifando o porta-retrato do casal. Só faltava essa: o bicho de estimação socorrido era a única coisa viva que restava dos momentos inesquecíveis. Seguia pelas horas longas dos ritos funerários e um deserto nauseabundo vinha de longe, deixando-a desguarnecida supérstite, com a fulminante compreensão: a morte áspera crucificava a ambos pela mesma dose, no que restava de troços e destroços todos, o que durava da alvorada ao pôr do sol, a noite pra espreme-la indefesa. Deixou-se levar por um momento pelas distrações ao poente e purificou-se aos olhos mortais durante o sepultamento. Chegava a noite de lua, as pálpebras cansadas ávidas por repouso, ainda não, a impaciência de viver: o que é ser vivo? A herança e a descoberta pelo avesso e inverso, por toda parte e a todo momento: só o tempo era mensageiro. Até que a fome corroeu a madrugada com a crise passional. Desabou, caiu no sono e sonhou com um sapo tagarela prometendo alvíssaras. Oxe! Despertava e o louro próvido trouxe logo espalhafatosamente um véu de seda branca para cobri-la e grasnava como quem contava hestórias complicadas e intermináveis. Que é que foi? Empinava, demostrando que estava afeiçoado à viúva, meiguice na ponta do bico. Logo ela assustou-se horrorizada com o coaxado dum cururu robusto ao pé da cama. Vôte! Como é que pode? E tudo começou onde menos previa e duma hora qualquer, à revelia do sensatos. Nem se dava conta do que tramavam deliberadamente a tagarela ave e o batráquio, astúcias alcoviteiras dum quase conto de fadas. É macumba! Sapo de fora não chia, mas esse é turrão. - Só me falta um vampiro pra chupar minha carótida! Eita! Quase meia dúzia de noites e dúvidas, muitos luares remavam sentimentos impúberes revividos, vogava a desordem emotivas, regia impetuosas carências e quem acudia não soube, o coração na mão pulou esperançado, esvoaçante, com admoestações, persuasões nas suas obstinadas aspirações, até perceber no anuro os olhos sinceros, a boca torta, e a mais não se atreveu: ele a lambia com as vistas. Ih! Decerto, sobrevivente que era e a abstinência dela, o inverossímil, talvez afortunada heresia e as sombras cuspiam verdades da solidão e se multiplicavam nas zis silhuetas oníricas e espantosas, como uma assombração. Deslumbrou-se mesmo assim com as mais de quinhentas vontades veementes nas dores do desejo lá dela e aos mimos, a rendição, um e outro, nenhum asco nem desdém, a companhia dupla e o beijo estalou, afeto carecido, a frouxidão das primeiras nuvens e chuvadas largas, miúdas danações e trechos vagarosos, olhos suspirados como quem andasse de costas e viesse de frente, ardente ventania, parecia até quase sempre Sol de paraíso, labaredas na fogueira do prazer, o anfíbio na sua caranguejeira e da perereca um rapazola emergira intrépido e viril, e entregou-se sem temor de qualquer risco ao exercício diário de desbragada luxúria, arrependimento ou culpa, porque a pernalta grulha ressuscitara achegada prima inseparável de afogamento cruel pretérito. O resto era com Deus, as núpcias de insólito triunvirato no encanto de incrédula magia. Até mais ver.

 


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Marina Vlady: Frequentemente tentamos analisar o significado das palavras, mas somos facilmente desviados. É preciso admitir que não há nada mais simples do que aceitar as coisas como certas... Nos meus sonhos, eu costumava sentir que estava sendo sugada para um buraco... Veja mais aqui.

Nnedi Okorafor: O silêncio é a melhor resposta para um tolo... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

O ALFABETO DO AMOR

Imagem: Acervo ArtLAM.

Começamos do início todos os dias. De manhã \ tenho que desenhar a tua boca, marcar com migalhas \ o caminho para casa, repetir novamente letra \ por letra. \ Isso diverte-me. Estudo-te como uma analfabeta. \ (A língua dissipa-se prontamente, mostra \ a sua origem florestal). \ Quando à noite repetimos as frases \ de amor, realizamos o ato de casamento que \ não lembramos.

Poema da escritora, crítica literária e tradutora croata Darija Žilić, editora da revista literária Tema. Veja mais aqui.

 

PÉROLA DA IMORTALIDADE - [...] Não se esqueçam das Areias Sagradas... [...] Os grãos que passam pelas mãos ancestrais do Tempo! [...] O planeta depende de você, Cavaleiro dos Anos Antigos! [...] O ouro, a lâmpada, Xerxes, é provavelmente a coisa mais importante da sua vida. [...]. Trechos extraídos da obra The Pearl of Immortality (Author's Channel, 2019), da escritora sul-africana Nishi Singh (Nishi Chandermun), volume 2 da trilogia composta pelos romances The Sands of Time e The Curse of Ice.

 

SONHOS DAS ORIGENS - [...] Os espíritos xapiripë dançam para os xamãs desde os tempos mais remotos e continuam a fazê-lo até hoje. Eles têm aparência humana, mas são tão minúsculos quanto partículas de poeira brilhante. Para vê-los, é preciso inalar o pó da árvore yãkõanahi muitas e muitas vezes. Os xapiripë dançam juntos em grandes espelhos que descem do céu. Eles nunca são cinzentos como os humanos. São sempre magníficos: seus corpos são pintados com urucum e contornados com desenhos pretos, suas cabeças são cobertas com penas brancas de urubu-rei, suas pulseiras de contas são repletas de penas de papagaio, cujubim e arara vermelha, suas cinturas são envoltas em caudas de tucano. Milhares deles vêm dançar juntos, agitando folhas de palmeiras jovens, soltando gritos de alegria e cantando sem parar. Seu caminho parece um fio de aranha brilhando como o luar, e seus enfeites de penas se movem lentamente ao ritmo de seus passos. É uma alegria ver como são belos! Os espíritos são tão numerosos porque são as imagens dos animais da floresta. Tudo na floresta tem uma imagem utupë: aqueles que caminham sobre a terra, aqueles que sobem nas árvores, aqueles que têm asas, aqueles que vivem na água. São essas imagens que os xamãs invocam e trazem à Terra para se tornarem espíritos xapiripë. Essas imagens são o verdadeiro centro, o verdadeiro interior dos seres da floresta. As pessoas comuns não conseguem vê-las, apenas os xamãs. Mas não são imagens dos animais que conhecemos hoje. São as imagens dos pais desses animais, são as imagens de nossos ancestrais. No Tempo Primordial, quando a floresta ainda era jovem, nossos ancestrais eram humanos com nomes de animais e acabaram se tornando presas. São eles que matamos com flechas e comemos hoje. Mas suas imagens não desapareceram e são eles que dançam para nós como espíritos xapiripë. Os brancos extraem suas palavras porque seus pensamentos estão repletos de esquecimento. Nós guardamos as palavras de nossos ancestrais dentro de nós por muito tempo e continuamos a transmiti-las aos nossos filhos. As crianças, que nada sabem sobre os espíritos, ouvem os cânticos dos xamãs e então desejam ver os espíritos por sua vez. É assim que, mesmo sendo muito antigas, as palavras dos xapiripë sempre se renovam. São eles que ampliam nossos pensamentos. São eles que nos fazem ver e conhecer coisas distantes, as coisas dos antigos. É o nosso estudo que nos ensina a sonhar. [...]. Trecho extraído do texto The words of Davi Kopenawa Yanomami (Survival International, 2026), do escritor, ator, xamã e líder yanomami, Davi Kopenawa Yanomami, presidente da Hutukara Associação Yanomami, uma entidade indígena de ajuda mútua e etnodesenvolvimento. Veja mais aqui.

 

A POESIA DE CELINA DE HOLANDA

Neste parque imutável \ até hoje passeiam \ estes homens de escuro \ e estas frágeis mulheres \ Até hoje as flores, os cristais \ e as toalhas \ são sem mácula \ nas salas de esperar \ o amigo, o amado \ ou a chuva passar. Nada \ de apocalipse \ a terrível Besta e poços \ insondáveis. Nada \ a relembrar o abismo \ que somos.

Poema Passeio no Parque, da jornalista e poeta Celina de Holanda (Celina de Holanda Cavalcanti de Albuquerque – 1915-1999), autora dos livros O Espelho da Rosa (1970), A Mão Extrema (1976), Sobre Esta Cidade de Rios (1979), Roda D'água (1981), As Viagens (1984), Pantorra, o Engenho (1990) e Viagens Gerais (1995). Juntamente com Jaci Bezerra e Alberto da Cunha Melo, ela criou em 1979 as Edições Pirata. Veja mais aquí.

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SEMANA ASCENSO FERREIRA

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DAVI KOPENAWA, DARIJA ŽILIĆ, NISHI SINGH, CELINA DE HOLANDA & SEMANA ASCENSO

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