Ao som dos álbuns Mana (2026), Bouquet (2024) & Bouquet
II (2025), da pianista e compositora francesa Chloé Antoniotti.
Mostruário dos autos-de-fé, releituras de Canetti... - Houve um tempo o bulício festivo da passarinhada despertando na escuridão, o que se adivinhava da claridão de um céu azul, quando ainda madrugava no chuvoso frio e se rendia à disposição de que dali, mais alguns instantes, tudo seguiria na vigília do trâmite das horas e a surpresa das escolhas diárias inadiáveis. Sim, houve um tempo e existir sempre foi a aventura de surfar pelos devires. O dia raiava afugentando os fantasmas que rondavam à noite, como se deles a culpa com a cabeça a prêmio, por uma condenação desde a supremacia do primeiro humano sobre outro, para uma escalada milenar de chacinas, que ganharam força no medievo concílio de Verona e todas as sucessivas regulações das bulas papais. Ali estava sujeito a imolações, vivissecções, esquartejamentos, plena lassidão do próprio delírio, pro epítome da desgraça nos testemunhos de Goya. Mesmo assim sobrevivia matinal entre os escombros das conflagrações repassadas, escapando emergencialmente das hostilidades e combates dagora, na expectativa de todas as inescapáveis guerras vindouras, enquanto a máquina vomitava o que sobrou de seus reféns. E tudo se repetia ruidosamente por séculos ad infinitum, para o estrondoso amém nas raivosas preces das escatologias teológicas – descaminhos de outros breus desmesurados em pleno meio dia, enodoando idas e vindas. Quantos não sucumbiram às pandemias e aos genocídios, com as dores da decadência no estado de vigilância, quem não acossado a se esconder com a autópsia das memórias adoecidas, dissecando obsessões no que pudesse de sanidade mental: o mundo na cabeça sem mundo nem cabeça. E chegava o mormaço da tarde, sabedor quando mais ignorava, pensava relevando o que sequer cogitasse e dizia o que nem imaginou ter calado. Assim caía a noite com um clarão ao ouvido e a vida a reboque no jogo dos grandes olhos azuis de uma Anna – ah, mimosa Gulck, escultural Justine, o sonho clamando por reminiscências imprecisas do que se viu imperfeito no acervo das ideias: a confissão de que tinha algo a dizer com a incontornável insolência do controverso, a uma testemunha auricular que emergia do coração secreto do relógio e a consciência das palavras mudas na província do homem. E ambicionava Shangri-La e a Lua Azul no vale do Himalaia encontrava o Sol no coração e saísse da Kali, seguisse pra Dvapara, atravessasse Treta para esbarrar à Satya Yuga, com os nomes extintos dos antepassados. E se fazia outro dia e agora era um sonho de olhos abertos: o recomeço, como se inaugurasse a eternidade e nela toda estreia. E mais outro como se tivesse hora marcada e precisasse reaprender a se maravilhar para a derrota da morte escandalosa, surpreendida com uma obra póstuma. Sim, Canetti. Um estrambote, ato de meninice: Dava língua pra ela. E as mãos com os polegares em cada canto da testa, dedos abanando como orelhas mangadoras: Uh! Tá pra tu?! Até mais ver.
Honoré de Balzac: Como é natural destruir o que não podemos possuir, negar o que não entendemos e insultar o que invejamos!... Por trás de toda fortuna existe um crime... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Cacá Diegues: Temos
sido testemunhas de um inimaginável retrocesso em curso. É como se estivéssemos
vendo todas as históricas conquistas civilizatórias e humanistas irem para o
lixo, refundando-se a barbárie... Veja mais aqui & aqui.
Mary Cassatt: Aceitar
algo nos termos de outra pessoa é pior do que ser rejeitado... As mulheres
devem ser alguém e não algo... O mundo me bastará no futuro... Veja mais
aqui & aqui.
ESPERANDO POR UM POEMA
Imagem: Acervo ArtLAM.
Estou esperando por um
poema, \ algo bruto, não elaborado ou fora de controle, \ algo imperturbável
por maldições, um corvo branco \ liberado da escuridão. \ Palavras que vêm naturalmente,
sem mirar em nada, \ uma bala sem um alvo, \ tiros de advertência para o céu \ em
terras recém-ocupadas. \ Um poema que vai bem no meu peito \ e até chegar \ Vou
ouvir meus filhos brigando no próximo quarto \ e lançar meu olhar para baixo na
mesa \ em um copo vazio de leite \ com um traço de branco ao longo de sua borda
\ minha garganta envolta em prata \ um guardanapo em um anel de guardanapo \ esperando
que os hóspedes atrasados cheguem...
Poema da poeta
albanesa Luljeta Lleshanaku, autora das obras Fresco: Selected Poems (New Directions,
2002); Haywire: New and Selected Poems (Bloodaxe Books, 2011), entre
outras.
AGORA VEJA
ENTÃO - [...] A casa, a casa de Shirley Jackson,
ficava numa colina, e de uma janela a sra. Sweet podia ver as estrondosas águas
do rio Paran que se despejava furioso e veloz do lago, um lago feito pelo homem
também chamado Paran; e olhando para cima, ela podia ver ao seu redor as
montanhas chamadas Bald, Hale e Anthony, todas partes da cordilheira Green Mountain;
ela também podia ver o corpo de bombeiros onde às vezes comparecia a uma
assembleia civil e ouvia seu representante dizer alguma coisa que poderia
afetá-la seriamente e o bem-estar de sua família ou ver os bombeiros extirpando
os caminhões e desmantelando várias partes deles e remontando essas partes para
então polir todos os caminhões e conduzi-los pela cidade com um bocado de
comoção antes de devolvê-los ao corpo de bombeiros e eles faziam a sra. Sweet
se lembrar do jovem Héracles, que muitas vezes fazia esse tipo de coisa com
seus caminhões de bombeiro de brinquedo; mas ainda agora quando a sra. Sweet
olhava por uma janela na casa de Shirley Jackson, seu filho não fazia mais
isso. E dessa janela mais uma vez, ela pôde ver a casa onde morava o homem que
inventou a câmera rápida mas ele já estava morto agora; e ela pôde ver a casa,
a Casa Amarela, que Homero havia restaurado com tanto cuidado e amor [...].
Trecho extraído da obra Agora Veja Então (Companhia das Letras, 2021),
da escritora antiguana Jamaica Kincaid, que ainda se expressa: A amizade é algo simples, e ainda assim complexo; a
amizade é superficial, algo natural, algo que se dá por garantido, mas por
baixo dessa superfície podem-se encontrar mundos. Veja
mais aqui.
RENDA BÁSICA - [...] Tornar uma economia mais produtiva (numa interpretação
sensata) de forma sustentável não é melhor alcançado ativando obsessivamente as
pessoas e prendendo-as em empregos que detestam e dos quais não aprendem nada. [...]. Trecho extraído da obra Basic Income: A
Radical Proposal for a Free Society and a Sane Economy (Harvard University Press, 2019), do filósofo e economista
belga Philippe van Parijs, que no seu artigo
Basic Income: A simple and powerful idea for the twenty-first century (Social
Justice Ireland - Redesigning Distribution, 2005), defende que: […] Lutar por esses ou outros caminhos em busca de maior
segurança de renda não deve, é claro, fazer com que se negligencie a
importância primordial de proporcionar a todas as crianças educação básica de
qualidade e a todas as pessoas cuidados básicos de saúde de qualidade. Mais
importante ainda, para que o modelo defendido aqui se torne uma realidade
generalizada, as lutas mais difíceis e cruciais podem precisar ser travadas em
temas aparentemente muito remotos: garantir a eficiência e a responsabilidade
da administração pública, regular a migração, conceber instituições eleitorais
adequadas e reestruturar os poderes das organizações supranacionais. Mas essas
muitas lutas podem ganhar direção e força se forem guiadas por uma visão clara
e coerente das principais instituições distributivas de uma sociedade justa e
libertadora. [...].
O FANTASTICO CAVALO
AZUL DE SURUBIM DA PAIXÃO
A minha tribo quando
entra na aldeia \ Índio não faz cara feia \ Não deixa a frexa cair \ Tupi tupi
or not tupi \ Tupi tupi or not tupi \ Não sei se vou não sei se estou não sei
se fico \ Nada ainda exprico nessa frase or not tupy \ Tupi tupi or not tupi \
Tupi tupi or not tupi \ Ser ou não ser tupi \ Ser ou não ser tupi \ Ser ou não
ser tupi \ Ser ou não ser tupi...
Imagem & versos da
canção Tupy or not Tupy, do compositor, artista visual, cirandeiro e
zelador Surubim Feliciano da Paixão (1940-1991), que atuou na companhia
Teat(r)o Oficina e da Uzyna Uzona, em São Paulo, desde 1979, participando do
Forró Avanço no Circo da companhia, comandado por Verônica Tamaoki; compôs a
música para o filme Rei da Vela, autor das gravuras de Mistério Gozósos (1983). Veja mais aqui & aqui.
Olegário Mariano aqui.
Eva Rolim Miranda aqui.
Armando Lôbo aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui &
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Márcia Meira Basto aqui
Biarritzzz - Beatriz Rodrigues aqui
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Mércia Albuquerque Ferreira – Lady Tempestade (1934-2003)
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