quinta-feira, janeiro 30, 2020

TEOLINDA GERSÃO, WORDSWORTH, FLORENCIO SÁNCHEZ, RAQUEL GLOTTMAN & ARTE PERNAMBUCANA.


CARTA PRELÚDIO & EPÍLOGO - Órfão desde a infância nas montanhas de Cumberland, travesso menino a subir no penhasco do corvo e o suicida boiava no lago rasgando as minhas veias nórdicas ascéticas, a me dar conta do patíbulo dos enforcados. Assim cresci até adolescer no redemoinho da revolução e tudo de pernas pro ar: um verso rebelde diante do Reinado do Terror. Por isso cantei Annette e o valor das paixões, o filho anônimo nos braços dela, a poesia ardorosa do discípulo de Vênus nos mistérios do amor. Tive que desertar para sobreviver e tudo se dissipou com a juventude no curso diurno da Terra. Por isso cantei Dorothy, minha irmã, a quem dou graças por recobrar a minha sanidade mental. Encostei a minha alma na relva e nas flores, cantei a beleza de Mary e tudo era outro cenário: a poesia em comunhão. Foi daí que perdi a amizade do mágico tecedor de versos na ablução emocional e na profunda sublimação diante de toda deformidade do mundo humano: a face da humanidade é a imperfeita e perturbada efígie de Deus. Um humano falava aos humanos, quem me escutava apesar de nenhuma fraseologia aparatosa e inútil, só coisas comuns e simples além da vida e da morte. Poucas palavras e um poema singelo: a solidão do sobrevivente do passado e a mãe, coração na mão, esperava por décadas o retorno do filho único que insistia em não voltar. Chorei por quem não conhecia. As escritas da mudez e do silêncio, a esperança que não morreu nem morrerá, porque algo sempre será: ou somos livres ou morremos! Renunciei a tudo e fiquei mudo, imperturbável. Tudo arrefeceu das paixões obstinadas na propensão do senso da honra e o do meu vergonhoso moralismo, me perdoem. Peço perdão por me tornar indiferente e desinteressado, só eu sei: o líder perdido pede reiteradamente perdão agora por não ter tomado ciência da minha decadência palpável e disfarçada. Dei-me a grandes silêncios, calei de vez meu coração e encontrei Deus nas selvas, o governo da quietude e era a minha peregrinação pelos cenários nativos da serenidade na luz do Sol poente e a descoberta do que estava por trás das folhas das árvores, das pétalas das flores, rochas e rios, estrelas e astros: tudo é um grande poema épico e todas estas coisas eu canto nas baladas líricas, o meu prelúdio e epílogo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O que quer que dissesse, parecia dizê-lo sempre alegremente. Gostava de rir, e por vezes, se os alunos estavam cansados, suspendia a aula e mandava-os falar à toa, do que quisessem, só por falar. A certa altura interrompia-os, no meio de uma frase, e aí estavam de novo concentrados, prontos a seguir o seu raciocínio, para onde quer que ele agora os levasse. [...] Era verdade que o tempo parecia ter sido terrivelmente encurtado (Kant, Platão, Wittgenstein em dezesseis minutos, prometiam nas bancas livros magros como folhetos). Mas os livros aconteciam no tempo. Como a música. Os romances, sobretudo. Eram, como a música, uma forma de medir e de organizar o tempo. Poderia falar-se, pelo menos a prazo, da morte do leitor? Ela gostaria de pensar que o leitor era como o escritor, de certa maneira a sua outra face, disse a mulher: Aceitava os mesmos riscos, passava as mesmas noites em claro […] Reinventava o livro, como o intérprete tocando a partitura. […] O leitor, como o escritor, tornara-se uma personagem rara –ia continuar mas o entrevistador interrompeu-a. Parecia agora fascinado pelas mãos: Havia pessoas que conduziam máquinas, transportavam pedras, tratavam doentes, assentavam ladrilhos – não seriam essas mãos mais úteis? […] Ela vivia debruçada sobre um teclado. [...]. O piano era uma armadilha que a apanhava de surpresa. Julgava brincar com o teclado mas era o teclado que brincava com ela. No meio de uma frase, um acidente reduzia a metade a distância à nota seguinte, ou, pelo contrário, aumentava-a, uma diferença mínima, que no entanto arrastava pesadas consequências, como se o bater de asas de um inseto fizesse rebentar uma tempestade à distância. [...]. Trechos extraídos da obra Os teclados: três histórias com anjos (Sextante, 2012), da escritora portuguesa Teolinda Gersão. Veja mais aqui.

OS AMORES DE WORDSWORTH - O poeta romântico inglês William Wordsworth (1770-1850) era irmão da poeta Dorothy Wordsworth que esteve sempre presente na sua vida como equilibradora da sua vida emocional. Durante a Revolução Francesa, ele teve sua primeira paixão: a jovem francesa Annette Vallon (1766-1841) que foi romanceada em livro, por meio da obra Annette Valon (HarperCollins, 2007), de James Tripton. O casal teve uma filha por nome Caroline. Problemas financeiros e as tensas relações da Grã-Bretanha com a França obrigaram-no a retornar à Inglaterra, na esperança de depois levá-las, mãe e filha, para lá. Anos se passaram e com a Paz de Amiens, Wordsworth e sua irmã Dorothy visitaram Annette para que ele conhecesse a filha Caroline em Calais e para quem ele escreveu o soneto É uma noite bonita, calma e livre, recordando um passeio à beira-mar com Caroline, de 9 anos, que ele nunca tinha visto antes daquela visita. Em seguida, ele casou-se com Mary Hutchinson (1770-1859), uma amiga órfã de sua irmã Dorothy, com quem teve vários filhos. O poeta publicou a obra Lyrycal Ballads, em 1798, e sua obra-prima é o The Prelude, um poema autobiográfico que faz referências à sua vida e amizade com poeta Samuel Taylor Coleridge. Veja mais aqui e aqui.

MÃO SANTA, DE FLORENCIO SÁNCHEZ
ATO ÚNICO - No quarto de cortiço habitado por Carlos e Luísa. Porta única ao fundo. Cama de casal de ferro, guarda-roupa, criado mudo, lavatório e outros móveis amontoados quase à direita. A metade esquerda, ocupada por uma mesa, uma cômoda com pratos e cristaleira, em cima uma máquina de costura, cadeiras, braseiro e utensílios de cozinha. Nas paredes, em lugar de honra, um grande retrato de Karl Marx e diversas figuras e alegorias socialistas. CENA I - MARIA LUÍSA - MARIA LUÍSA (Com o cabelo solto a ponto de enfeitar-se para sair, colocando com pressa alguns pratos e recipientes com comida sobre a mesa.) Ai! Uma hora já... Mas esse Carlos não pensa vir? Que aborrecimento!... (Indo às vezes até a porta. ) Menino!... Torito!... Quer chegar até o armazém e ver se está meu marido? Sim, vamos.. Vou te dar um níquel. Rapidinho, hein? Se estiver, diz-lhe que a comida se esfria... Que faz uma hora que está servida. (Voltando-se.) E se não estiver, que se dane. (Diante o espelho, terminando o penteado.) Eu é que não perco a consulta hoje. Já me custou três vezes em vão, e todas por chegar tarde. (Buscando algo.) Agora, onde deixei a peineta? Não digo? Se todos são inconvenientes! (Impacientando-se.) Mas se agora mesmo a tive nas mãos... Aqui... Aqui mesmo a coloquei com os grampos e o perfume... (Busca sobre a mesa, confere a cômoda, a máquina, cada vez mais irritada.) Não digo? Se não é para perder a cabeça!... Ufff!... E Carlos que não chega... Comerá tudo frio... Mas a peineta... Depois não querem que a gente se adoeça... Senhor! Há duendes em casa? (Confere de novo por diferentes lugares, jogando roupas e objetos no chão.) Ufff! Que raiva! (Compungida.) E agora, com o que prendo o cabelo? Vamos ver! Com que?... Me dá vontade de romper as mexas duma vez... e de não ir a lugar algum. (Leva as mãos à cabeça, nervosamente.) Não digo? Depois dirão que não é coisa de irritar. Ela estava na minha cabeça... E perdendo o tempo... (Com um gesto violento atira a peineta no chão.) [...].
FLORENCIO SÁNCHEZ - Trecho da peça teatral Mão Santa Sainete (1905), extraída da obra Florencio Sánchez – Teatro (Montevideo, 1975), do dramaturgo e jornalista uruguaio Florencio Sánchez (1875-1910), considerado uma das principais figuras do teatro rio-platense e do anarquismo uruguaio. Veja mais aqui.

A ARTE DE RAQUEL GLOTTMAN
Penso em minhas imagens como fragmentos de um sonho que expressa reinos inconscientes simbólicos arquetípicos.
RAQUEL GLOTTMAN - A arte da fotógrafa estadunidense Raquel Glottman, que explora processos fotográficos alternativos com exploração de sonhos, sexualidade, natureza e mortalidade. Veja mais aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A literatura de José Condé (1917-1971) aqui.
A música do maestro, arranjador e oboísta Maestro Duda aqui
A arte de Alice Vinagre aqui.
A poesia de Edjane Leal aqui.
A arte do artesão Epifanio Bezerra aqui
&
O município de Altinho aqui & aqui.
 

MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

    Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do vio...