
DITOS & DESDITOS:
[...] À minha frente,
Zilda, com um vestido que procura dissimular o volume do ventre, pousou as mãos
no regaço e olha a paisagem. “Nunca cheguei a imaginá-la com um vestido desse –
dizia-lhe há pouco. Só pensava em você trepando em árvores, jogando bola,
atirando de baladeira e coisas assim. Talvez foi por isso que tive ciúme,
quando soube que ia casar-se”. [...] Não
é isso – expliquei. É que possuímos tantas lembranças comuns! Além do mais, o
fato de me haver separado de você e, durante tantos anos, não ter notícias
suas, conservou-a imutável. Era como nos contos: um Reino Encantado. A notícia
rompeu o encanto, foi isto. Você não era mais aquela menina de quem eu me
lembrava. [...] Por um inexplicável
pudor, abstive-me de revelar que, até então, contara com a possibilidade de
reencontrá-la solteira, ideia essa mesclada com uma infinidade de anseios. (E
que, deste modo, o sentido que ela atribuíra à palavra ciúme, não era de todo
modo inexato). Mas não contive o desejo de confessar que durante certo período
da infância, meu primeiro pensamento era dedicado a ela e que as noites, eu só
as suportava por ter certeza de que o dia seguinte nos reuniria outra vez.
[...] Sua voz cantante, um pouco áspera e
mesmo assim agradável, tornou-se pausada; o riso é menos vibrante; e os olhos,
embora conservando o brilho antigo, já não possuem a mesma vida: de alegres que
eram, têm agora um quê de melancólica serenidade. [...] Frágil e alto muro dividia nossos quintais.
Mas não era tão alto nem frágil que que nos impedisse de escalá-lo e aí ficarmos
empoleirados: eu sonhando, contando histórias, declamando versos, inventando
projetos; ela escutando, tornando meus planos mais ousados, minhas histórias
mais excitantes, erguendo-se, sentando-se, levantando-se outra vez e seguindo
ao longo do muro, com uma segurança que ainda hoje me espanta. [...] Uma barreira pedregosa ergue-se aos lados do
trem. Arestas lívidas se sucedem. Súbito, o panorama se abre. Descortinamos uma
pastagem ampla, que se estende até o cume de um monte, ultrapassa-o. [...] Somos, não resta dúvida, temperamentos
díspares. Está visto que essas evocações não têm igual valor para nós. Ela tem
uma visão imparcial do que lhe sucede na vida. Sua memória, demasiado fiel, não
transmuda nem escolhe. E se esqueceu alguma coisa, não é por nenhum motivo.
Esqueceu-a, apenas. [...]. O tesouro
que eu supunha comum, é unicamente meu – verifico. Apesar de havermos vivido
durante muito tempo as mesmas aventuras, cada um recolheu o que elas continham
de si próprio. Evocá-las, jamais repetirá o milagre de fazer com que sejam um
elo entre nós – se é que mesmo naquele tempo estivemos unidos algum dia.
[...] Olho para fora. A linha férrea
margina agora a estrada de rodagem. A máquina desprende vapor, ruidosamente,
atirando para trás uma poalha líquida, iluminada pelo sol. Através da
iridescente neblina, num cabriolé de rodas vermelhas, segue uma jovem de azul.
O cavalinho baio tem uma papoula na testa. A moça sorrindo, leva uma rosa na
mão e acena para o trem com a sua flor. Respondo ao seu adeus.
Trechos extraídos do conto Reencontro (Melhores contos de Osman Lins - Global, 2003), do
escritor e dramaturgo Osman Lins (1924-1978). Veja mais aqui.
A ARTE
DE NICK ALM
A arte de Nick Alm
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