sexta-feira, janeiro 11, 2008

PROEZAS DO BIRITOALDO



VIII

Quando o Balde Tá Entupido, a Topada Leva a Merda Pro Ventilador


Não aliviando um só centímetro nas suas aprontações, Biritoaldo foi atanazando quem surgisse pela frente, até bater o seu próprio recorde reinando durante as comemorações do aniversário de Zé-cabelo-de-cu-de-pato, um famoso festeiro da região.
Gostar de pagode como Birito gostava, ôxe, era folgar anistia para apenado.
A festança do Zé-cabelo só perdia prestígio para a festa da padroeira do lugar e o anfitrião reunia economias e donativos durante o ano inteiro para com, a chegada da data, a cada ano, a aglomeração aumentasse para chegar ao Guiness Book.
Eita! Num era prá menos não, era um estrondo prestigiado mesmo, pois, justamente por ser o patrocinador do evento um afamado pai-de-santo requisitado pelas necessidades de gente até do exterior. Até a televisão da capital cobria ao vivo o mais inusitado dos aniversários, carregado de um ritual fora de qualquer compreensão humana.
Para se ter idéia das proporções que tomava, todo mundo havia sido convidado para a efeméride, de se mensurar que era gente saindo pelo ladrão, mesmo. Gente encangado, espremido, tinha hora até de um não saber o que era dele ou do outro.
- Eita! Sou eu ou tu? Num sei mais...
- Êpa! Essa pêia é minha, larga!!!
- Vôte! Quem foi o nojento que me tirou uma dedada agora no furico, hem? Apareça se for homem, vá!
- Ôxe, perdi a virgindade num arroxado desse, meu!
- Danou-se! Minhas pregas voaram, alguém achou?
Era mesmo: gente como a praga!
A residência do ineivado estava verdadeiramente tomada por uma mundiça oriunda de todas as partes da cidade e doutras até. Um cenário reluzente para uma doidice esquisita que, com certeza, ficaria nos anais da fofocagem por séculos e milênios.
Todo ano o regabofe passava das medidas e deixava um motivo para falácias de causar inveja a qualquer escândalo nacional ou extravagância de bilionário. Havia até uma preparação de ânimos e indumentárias para se amostrar, iniciado meses antes pelos mais insólitos sujeitos. Até quem destestava, sem menos esperar, tava lá escafedido. De autoridade a esmoler, tudo na maior presepada.
Durante a lambança se sacrificavam animais ingerindo o sangue dele em honra de um orixá lá que protegia a tesão dos marmanjos, num permitindo do sujeito ficar caiando na hora agá; se descabaçavam donzelas escolhidas a dedo pelo babalorixá e, depois, comiam tira-gosto com o cabaço das imoladas; expunham-se coleção de pregas dos cús presentes, bem como, ao lado, o respectivo teste da goma, comprovando a veracidade testemunhal da homência dos dali, excetuando-se os pirôbos que se resguardavam da competição mode não serem execrados pela corja.
No carnaval todo, a mundiça rezava durante mais de hora todas as orações conhecidas e enigmáticas inventadas na hora, não sei quantas vezes o pai nosso era exigido com os devotos todos de cú pra cima para que o devotado pudesse completar a proteção. Depois disso, incitavam uns aos outros a beber de todo tipo de bebida e ingerir comida vária, de insetos até filé mignon, a ponto de, sem poder se segurar em pé na comemoração, entoarem, completamente desafinados o hino do bloco deles, o Arrocha Putada! Hino criado para homenagear o santo, garantindo uma pêia dura do sujeito pro resto da vida toda.
Nossa, era um verdadeiro cerca-Lourenço, só babel!
A festa era de arrombar a noite, varando a madrugada, entrando pelo dia e, com fôlego, de novo noite adentro só se findando quando ninguém mais ficava em pé, o que demorava acontecer. Era tanta gente chegando e renovando os presentes, tendo, um ano desse dos passados, virar tres dias e tres noites encarreadas, sem intervalos nem refugo.
É uma cachaceira do mijado brabo virar cachoeira de afogar neguinho abstêmio.
- Eita, aquele bebeu mijo. Se viver, num terá doença nenhuma; se morrer, tá lascado, vai feder mais que cachorro sarnento!
E tome mé! Era copo lambuzado, garrafas esvaziadas e desmaiadas pelos cantos; olhos trocados, meio-mundo estrábico, conversa mole sem-pé-nem-cabeça; soluço, arroto e cusparada.
A vigilância sanitária sempre intervinha fiscalizando a gororoba servida, mas findava imergindo com o corpo de bombeiros no meio da troça lavada.
Mesmo quando um passava da conta incendiado com a carraspana, era afogado num tonel de mijo para apagar o fogo. Ficava novinho e botava o jipe pra pegar de novo com tração nas quatro rodas, numa talagada de cinco dedos da branquinha.
Bebiam com vontade mesmo. Nego embeiçava no gargalo da queimadenta!
No auge da comilança surgem os despropósitos só justificáveis pela zonzice da bebedeira, até inventarem uma porrinha entre os adeptos etílicos, pra ver quem agüentava tomar quantas doses fosse possível com respectivo tira-gosto.
O pior era o determinador da vitória, vez que os participantes começavam ao mesmo tempo e entre eles próprios quem quisesse que fosse o julgador. Nunca havia. Uma bagunça!
Foi aí que a certa altura da pândega, ocorrera a suspensão no fornecimento de energia elétrica. Ouviu-se, pois um estrondoso grito. Quem tava bêbo ficou bom na hora, completamente arrepiado.
- Puta-que-o-pariu! Tão querendo comer a minha mão!
- Quem foi o desinfeliz que foi capaz duma coisa dessa?
- Que infeliz das costas ocas deu na mãe pra acabar com a festa, hem?
- Isso é um vitupério!
Foi um deus-nos-acuda. Logo a mão do anfitrião. Por causa disso uns quinhentos Sherlock Holmes se incumbiram de encontrar o culpado daquela desgraça.
Era resmungo para todo lado, tendo em vista que de tal vexame se anunciava nunca mais realizar a festa por tal desfeita de convidado em querer deixar maneta logo o patrocinador! Todos reprovaram tal deselegância. Que desmesura insana!
- Quem terá sido esse fio-d'égua?
- Esse fiodaputa vai pagar, se vai!
A raiva se generalizava tomando conta de todos no recinto.
Normalizada a energia pela diligente equipe de eletricistas emergenciais que não queriam perder um só minuto do folguedo, tudo agora às claras, fitou-se olho no olho, um por um, para encontrar o réu famigerado. Uma verdadeira caça à raposa. Cadê-lo! Um desconfiado do outro aumentava a suspeita. Mas, não se precisou de muita olhadela na conferição e Biritoaldo já vestia a carapuça, baixando a cabeça para reprovação geral.
- Uhhhhh! -, um repúdio geral.
- Vai morder o pinguelo da tua mãe, fiodapeste!
- Corno safado!
Um chute na bunda jogou-lhe no meio da rua, só conseguindo se livrar da ira popular por causa do pé na bunda desembestado por fuga. Nisso ele era bom, desde meninim que se evadia de pisa ou castigo desferido pelos pais e algozes.
Assim, a festa fora, deveras, uma verdadeira fatalidade na sua vida.
Chica Doida mesmo já lhe ameaçara antes, se fosse lá estaria tudo acabado. Foi e terminou achincalhado por todos. Ele já imaginava a turma de peso lhe amaldiçoando. E agora, meu?
- Num amole não que tô com o freio travado! Amarrei o maior bode! E quando engancho o cu na porta, ou fica o cu, ou vem a porta!
Na maior bobeira Biritoaldo saiu pelas ruas, a esmo, perscrutando qual seria seu futuro a partir de tal desavença.
Misantropo, atravessou a cidade, só se dando conta da distância que percorrera ao ouvir um fungado cadenciado saindo duma moita atrás do convento das freiras. Parou. Viu que o gemido feminino era prazeroso e o fungado do cara provava que o sujeito estava enfiado até a alma nas intimidades dela.
- Arregaça a pomba no caneco da piniqueira, pôrra! Desintala nego! -, gritara tentando espantar os sebosos.
Ora, qual não foi sua surpresa: era Didi-papa-cu com a macaca inchada na boceta arreganhada de Chica Doida, sua ditosa namorada.
Que fatalidade!
Num agüentou o baque e desmaiou ali mesmo.
- A gaia fudeu com ele! -, sentenciou Didi.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

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