quarta-feira, janeiro 23, 2008

LÊDO IVO, OSCAR WILDE, DOSTOIÉVSKI, LUIGI PAREYSON,ALFONSO QUINTÁS, LUI FERREYRA, FREUD & BIRITOALDO


 
A arte do artista plástico mexicano Lui Ferreyra.


PROEZAS DO BIRITOALDO - IX - Quando Risca Fogo, o Rabo Inflamável Sofre Que Só Sovaco de Aleijado - Birito andou uns dias meio aluado, meio lasso, assim, fora das esferas, à toa, por causa do incidente presenciado. - Cachorra da molesta! Catraia da catenga! Vai pro Satanás, fi'a da peste! -, pigarreava injuriado. Num é pra menos, né? Mais puto ainda porque encheram-no de apelido: ora Gnu, ora Alce-irlandês, ora outras trepeças galhudas. Intrigado, remoía, que queriam dizer com isso? Sabia que se tratava de chacota braba, derriço desgraçado causando uma fissura na sua adolescência. Até o papagaio Popó mangava da cara dele entoando: - "Ouviram do Ipiranga às margens..." côooooooooornuuu!... "De um povo heróico o brado..." côoooooooornuuuu! Grugrugurugrugru.... Tem cabimento? Logo ele que se via o roliúde como astro de seriado da TV, ufano e xucro incorporando todo pantim de herói, jogador de bola sete na sinuca, adivinhão de porrinha, cantador de loas e ardoroso defensor da vida boa, cair numa deprê assim, era de lascar. - Espere não, que eu num tô a fim de fazer graça pra ninguém, não. Vai tomar na sapata do olho de bico, vai! Eu quero é esfolar quem inventou estudo, trabalho e mulher safada! Se vou! Chica Doida era perdida, os-pés-da-doida, uma verdadeira carniça: vivia em tudo quanto fosse bico de urubú. Namorava com um e com outro, trocando de parceiro como quem troca de blusa a cada suadeira. Prova disso foi saber através do boato dos maiores caboetas que aos onze anos de idade ela, presumivelmente, perdeu a virgindade numa situação incomum que ainda hoje ela conta na maior das risadagens. Lembra daquele dia como uma boa recordação, levando-a por devaneios perceptíveis. - Havia uma amendoeira -, dizia ela com ar poético e nostálgico -, hoje passa uma rodovia. Foi ali que eu perdi o meu cabaço aos onze anos de idade! Soubesse antes que era tão bom, já tinha nascido fudendo! Biritoaldo se apaixonara pela doida perdidamente. Mesmo depois do flagra, três meses amuado com os seus botões e chifres coçando, arrumou ungüento pra dor-de-cotovelo e voltou, como se nada tivesse acontecido, pros pés dela propondo casamento para muito breve. Ela encarava a proposta como uma piada e se ria da leseira dele. - Ou esse cara tá variando, ou a gaia afetou o juízo dele! -, dizia ela que nada queria, só gozar a juventude, ficando. E era esfregado com Pedim-do-padre, Carrinho Xôxo, Didi-papa-cú, xambregando nas esquinas escuras se ajeitando nos lugares de iluminação insuficiente, principalmente atrás da prefeitura, local do plantão mais freqüentado pelos supostos fudedores; se enganchando no pescoço dum nos arruados distantes; pulando cerca para libidinagens na beira do riacho; sarrando com gato e chachorro e morrendo de inveja da Benta Mouca que fora flagrada pelo marido estrepada na pomba dum jegue na Lagoa do Mundaú. - Ora, que felizarda! Eu mesma sou doida por torneira grande! Esses negocim miudinho, fininho, sai-te, só gosto do chapéu-de-vaqueiro de esfolar tudo! Pois é, principalmente agora, na flor da idade, casar? porra nenhuma. Biritoaldo se abestalhava tanto com a negativa dela, quanto com a pilhéria dos maloqueiros. Ai, cebola! Tempeiro de boceta é rola! Ai, tirica! Tempeiro de boceta é pica! Um verdadeiro sururu da Nega: todo mundo mete a mão na cumbuca, de graça. A Ilmena olhava de soslaio para a folgança da Chica, menina nova, de futuro e pais respeitados. E tentando reaprumar a vida dela, a professora deitou reportagem completa aos seus pais. Como é? Incrédulos, quase defenestravam-na dali com porta e tudo. - Que é isso? Com nossa filha, não! Arrede, fofoqueira! -, aquilo doía no juízo deles. Logo a filha santa, recatada, nunca! Por via de dúvidas, os genitores de Chica recolheram a libertina num convento. Ave, Maria! Para eles, agora sim. Pronto, queriam ver alguém enredar dela. Hum! Nem imaginem quantas aprontou pras bandas das freiras. Quer ver? Às escondidas das irmãs Carmelitas, ela namorou Zito Cuiambuca, Bilau Cadida, Zé da Jega, Ciço Pacaru, Pedim-do-padre, perdendo vez por outra as caçolas nos lugares mais insólitos quanto recônditos, como o púlpito - eita! -, alicerces do clube ferroviário - danou-se! -, escadaria do cinema - tá c'a gota!-, banheiro da rodoviária - vôte! -, batente da prefeitura - virgem santa! -, beco da casa do vigário - espia, só! -, avelóis da usina de cana - oxente, bandoleira de uma figa! -, pedreira do riacho - arre, praga! -, cruzeiro do matadouro - tais vendo? -, no monumento das armas nacionais - esp'ritou-se! -, na sacada da sede do Rotary Club - pela luz de Cristo! -, num capô dum fusca - arrepare, sonsa! -; tantas caçolas perdidas que já andava sem as tais, facilitando a função, pei. Bicha danada, ladina. Era mais falada que artista de cinema que num deixava um só segundo de estar nas manchetes da fofocagem. - Essa, tem mais hora de foda que urubu de vôo! O pior foi que todos, com pena dos pais, começaram a devolver suas caçolinhas. Muitos deles entregaram de bandeja: para a madre superiora. Arre égua! Era castigo certo. Que covardia, tadinha. O convento se arrepiava das imagens ficarem de costas. Basta tempo, moleza enrolá-las, a pá virada conseguia escapulir do castigo e toda noite se travava com qualquer marmanjo das cercanias. Era uma dor de cabeça para as santas do convento, levando, a fim da força, a convocar os pais dela para uma reunião às portas fechadas, tintim por tintim, e relataram arrepiadas as suas presepadas. Botaram todos os pingos possíveis e inimagináveis em todos os iis. Era a constatação. Deus acuda o trupicão! - Uma menina tão boa, tão santa, num acreditamos nisso, a senhora é enredeira feito aquela professorinha metida a besta! O bate-boca durou por horas até que por sentença Chica fora expulsa a bem da moral cristã, não antes deixar um rastro devastador nas atitudes e faces avermelhadas das pacatas pingüins de Jesuisis. Tava, agora, tudo assanhada. Teve até uma delas que não aguentando mais tanto celibato largou o hábito e nunca mais se afastou de homem. Sabe-se que ainda hoje ela mora lá para as bandas de Salvador, dando a priquita à beça. Vírus bom, hem? Com a expulsão, ela passou a ser vigiada cada segundo dos seus dias e noites. Destá. Piscasse o olho ela estava se bandeando para qualquer cafajeste, passando pinto na tocaia dos pais e se escondendo daquelas inoportunas vigilâncias, atrapalhando o coito com cada ferroada de levar o sujeito para grota a se cagar, quando não findava rancôlho. Todo mundo sabia da sandice de Chica, por isso todos queriam tirar uma casquinha nela. A bicha era jeitosa de perna, aquela batata cheia, de côxa saliente, bem apessoada corporalmente, uma carinha de anjo safada, o jeitinho atirado, atrevida, provocadora, a perdição em pessoa. Daí aguçar o apetite da raça pra molhar o biscoito. Um dia depois de passar pela mão de púberes, impúberes, marmanjos e anciões, Biritoaldo teve a sua chance. Depois de muita lenga-lenga de casório nas ouças dela, ela inquiriu-lhe se era macho. Claro, ora! Então vamos traquinar, abestalhado. Os olhos dele quase pulam fora. Eu quero casar, mulher! Larga de ser besta, otário, vamos aproveitar! E acertaram tudo para mais tarde nas ferragens dos destroços da usina abandonada, um fogo morto que acenderia naquele dia idílio voluptuoso, local propício para sua iniciação naquela trepada. Ele que teimava em botar quente na das da vida, tornara-se verdadeiro beócio de galocha. Mas foi, mesmo assim. Às dezenove e trinta, noite enluarada, lá estava ele, nervoso, roendo as unhas e com um frio na barriga, espinhela arrepiada, comendo vento e amolegando a pêia. Às vinte e uma e trinta, chegava ela esbaforida, toda apressada, suculenta. Tais esperando o quê, alesado? O quê, Chica? Vai ser brôco assim no raio que o parta! Com um cara desse a gente perde até a tesão! Que foi? Arre. Peraí, mulher, eu sou o seu amor, quero ser... atrapalhando a pieguice dele, atracou-se naquela figura estúpida com um beijo dos mais ardentes e gulosos que ele jamais poderia ter visto, enquanto levantava a saia e esfregando a cheba na virilha dele num acôcho arrochado. Biritoaldo nem teve tempo de se dar conta da garanhagem, ela já botou logo o pinto dele para fora, levantando uma das pernas e lá vai o vuque-vuque. As calças dele ao serem desabotoadas, arrearam aos pés e ficou ele nuzinho da silva da barriga para baixo a enfiar o pingulim no engole-pomba dela. Remexido medonho, fungado desnorteado de ambas as partes. Nisso, um empata-foda. No meio desse chove-num-molha, nem se deram conta de algo subindo pelas pernas, aumentando ainda mais a fudelança. Foi aí que ela sentiu uma picada na beirada do priquito, êpa! Ui! Ai! Outro no osso do mucumbú, eita! Ai! Doeu! Qué isso, cara? Tá me estranhando, é? Chica fez cara feia pra dele. Ele mesmo levou uma ferroada no colhão esquerdo: aaaaaaiiiiiiiiiiiiiiii! Desmoronou tudo, ela largou-lhe um tabefe no toitiço e saiu indignada, aos gritos. Acontece que pra desespero dele, nem davam conta no alvoroço da sacanagem que estavam sobre um ninho de saúvas-tocandiras. Com o pisunhado elas se assanharam e ai-jesus! Fora de si, ele tentou vestir as calças e percebeu logo a merda que fez: infestada. Plutão em questão de segundos seria alcançado. Puta-que-o-pariu! Foi picada até umasoras do colhão ficar maior que queijo do reino. Nem cagava, nem mijava, tudo inchado pelas ferroadas das traiçoeiras nas partes pudendas do mofino. Por fim, Chica arribou se debatendo toda, ficando Biritoaldo com as mãos na cabeça, sem tesão nem para uma bronha. - Não deu nem tempo de gozar, porra! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.  VEJA MAISPROEZAS DO BIRITOALDO


PENSAMENTO DO DIANão livros morais e livros imorais. Há livros bem escritos e livros mal-escritos. Pensamento do escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854-1900). Veja mais aqui, aqui e aqui.

ESTÉTICA & A TEORIA DA FORMATIVIDADE - [...] A obra de arte [...] é matéria e espirito, fisicidade e personalidade, objeto e interioridade. Por outro lado, com efeito, ela é apenas matéria formada, objeto entre outros objetos, coisa entre outras coisas; objeto físico e material, em que a matéria não é nem invólucro nem parte nem meio, mas tudo [...] essa matéria é formada segundo um irrepetível e todo singular modo de formar, que é a própria espiritualidade e personalidade do artista. [...]. Trecho extraído da obra Estética: teoria da formatividade (Vozes, 1993), do filósofo italiano Luigi Pareyson (1918-1991). Veja mais aqui.

ESTÉTICA & OBRA DE ARTE - [...] em cada elemento sensível está operante o mundo que nele se encarna, com todo o meio ambiente ao qual pertence e que nutre. Este meio ambiente e esse mundo estão pedindo de per si um material sensível adequado para ser plasmado luminosamente. Em cada obra de arte o chamado 'material’ e o ‘espiritual’ se influenciam mutuamente. [...]. Trecho extraído da obra Estética (Vozes, 1993), do pedagogo e filósofo espanhol Alfonso López Quintás.

OS CHISTES E SUA RELAÇÃO COM O INCONSCIENTE – [...] Os propósitos dos chistes podem facilmente ser passados em revista. Onde um chiste não tem objetivo em si mesmo - isto é, onde não é um chiste inocente - pode servir a apenas dois propósitos, que podem ser subsumidos sob um único rótulo. Ou será um chiste hostil (servindo ao propósito de agressividade, sátira ou defesa) ou um chiste obsceno (servindo ao propósito de desnudamento). Deve-se reiterar desde já que as espécies técnicas do chiste - verbal ou conceptual - não se relacionam com esses dois propósitos. [...] os chistes executam a serviço de seu propósito. Tornam possível a satisfação de um instinto (seja libidinoso ou hostil) face a um obstáculo. Evitam esse obstáculo e assim extraem prazer de uma fonte que o obstáculo tornara inacessível. O obstáculo interferente nada mais é em realidade que a incapacidade da mulher em tolerar a sexualidade sem disfarces, incapacidade correspondentemente aumentada com a elevação do nível educacional e social. [...] Chegamos agora ao fim de nossa tarefa, tendo reproduzido o mecanismo do humor a uma fórmula análoga àquelas referentes ao prazer cômico e aos chistes. O prazer nos chistes pareceu-nos proceder de uma economia na despesa com a inibição, o prazer no cômico de uma economia na despesa com a ideação (catexia) e o prazer no humor de uma economia na despesa com o sentimento. Em todos os três modos de trabalho do nosso aparato mental o prazer derivava de uma economia. Todos os três concordavam em representarem métodos de restabelecimento, a partir da atividade mental, de um prazer que se perdera no desenvolvimento daquela atividade. Pois a euforia que nos esforçamos por atingir através desses meios nada mais é que um estado de ânimo comum em uma época de nossa vida quando costumávamos operar nosso trabalho psíquico em geral com pequena despesa de energia - o estado de ânimo de nossa infância, quando ignorávamos o cômico, éramos incapazes de chistes e não necessitávamos do humor para sentir-nos felizes em nossas vidas. [...] O livro Os chistes e sua relação com o inconsciente, de Sigmund Freud, trata na parte analítica sobre os chistes e o cômico na literatura, a caricatura e o juízo lúdico, as similaridades dessemelhantes, contrastes de ideias, nonsense, desconcerto, esclarecimento, Kant, Heine, a brevidade e os eventos mentais. Na parte das técnicas dos chistes trata sobre a forma verbal dos chistes, Flaubert e Salmbô, a interpretação dos sonhos, duplo sentido e jogo de palavras, trocadilhos, deslocamento, o absurdo, o raciocínio falho, omissão e alusão, representação, exagero, analogias chistosas, entre outras. Na parte dos propósitos dos chistes, trata sobre os chistes verbais e conceptuais, substancia do pensamento e envoltório chistoso, Smut, a libido, os chistes cínicos. Na parte sintética trata sobre o mecanismo do prazer e a psicogênese dos chistes, as fontes do prazer, os chistes inocentes, a redescoberta do que é familiar e gratificante, o jogo do gracejo, a produção do prazer, Fechner, os motivos dos chistes, os chistes como processo social. Na parte teórica trata da relação dos chistes com os sonhos e o inconsciente, os chistes e as espécies do cômico, o cômico da sexualidade e da obscenidade, o deslocamento humorístico e um apêndice sobre os enigmas de Franz Brentano. REFERÊNCIA: FREUD, Sigmund. Os chistes e sua relação com o inconsciente. Rio de Janeiro: Imago, 1980. Veja mais aqui.

OS IRMÃOS KARAMAZÓV –[...] E o espantoso não é que Deus exista realmente, mas que essa ideia da necessidade de Deus tenha surgido no espírito de um animal feroz e mau como o homem [...]. Trecho do livro Os irmãos Karamázov (1879 - 34, 2008), do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821 - 1881). Veja mais aqui.

AS IMAGINAÇÕES ERÓTICAS – [...] - teu corpo impuro até aos vis corrompe / E só nos puros ele se abastece” (SONETO DE DORMITÓRIO) [...] nos trechos escuros de tua nudez / Eu capinava matos onde o amor se iniciava” (A MORTA) BALADA DE ADEUS OU O AMOR EM MONTPARNASSE: Eu dormirei contigo em Montparnasse / Sob um céu belo, intacto e surpreendido: / Contigo dormirei embora passe / Este desejo de te amar demais / Que, de repente, sob o céu ferido, / Me vem preciso, louco, vão, fugaz. / Nosso encontro campestre, na distancia, / Não dispensa boninas, madrigais, / Para desgraça minha, o amor audaz / Faz com que me conquiste doce ânsia / E teu corpo estrangeiro se desfaça / Em musicas de abismos dissolventes. / Uma aragem marítima perpassa / Nos contrapontos de teus seios quentes. / Em Montparnasse, que faremos nós? / Teus adeuses não são mais de neblina / E não repousas mais no ultimo andar / Do edifício sem sombra de pudor. / Jamais, porem, nos ficaremos sós / Pois teu corpo escaldante de menino / Novos jogos de amor há de inventar / Em que o desejo se misture à dor. / Teus dedos matam pássaros que ficam / Depois mais vivos e então te dedicam / Intermináveis bailes sempre alados. / Ó rosa branca, ó flor sem virgindade, / Tremes ao vento sem peste no obscuro / Lugar de mil amores desprezados. / A claridade é treva, e esconde o escuro / Seios, cabelos, pernas, coxas, sexos / Dos que se possuírem sem amizade / E tiveram do amor tristes reflexos. / Corpo desnudo, como te ofereces! / És como um sino cujo toque fosse / Um convite de amor, um triste e doce / Convite à posse do que bem mereces. / Em Montparnasse, eu te farei amar / Como se fosse ao próprio amor que amasse / A tua carne viva em Montparnasse. / Em Montparnasse, eu te farei gritar. FAZENDA DO AMOR CAMPESTRE: Deixaste a marca de teus pés na terra / Despertando os grãos / Que se esqueceram de germinar. / A unidade perdida dos campos / Te sepultava, te naufragava. / Ias para a fazenda / Porem caminhavas pela floresta. / O ar que respiravas era / Um oxigênio sem resistência ou pudor. / Confiavas a ti mesma / E caminhavas orgulhosa levando o campo. / Em teu corpo havia muitos países de amor / Alguns que só poderiam ser atingidos via nunca mais / Outros que a mão ruralmente alcançaria. / Foi quando – tu o esperavas, moça! – / Fui ao teu encontro e te derrubei / No mato que cheirava a paz e a morte. SONETO DO POETA BRASILEIRO: Não sou viril somente nas poesias. / Quero dormir contigo, pois teus pés / Amassavam pitangas e trazias / No corpo inteiro a marca das marés. / Disseste que comigo casarias / - amor na cama, beijos, cafunés. / Entre-sombras de carne oferecias / Tão navegáveis como os igarapés. /Minha morena até dizer que não, / O nosso amor demais me recordava / Duas lagoas onde me banhei. / Sou macho e brasileiro, coração: / Em teu olhar eu nu e forte estava / E foi assim, morena, que te amei. PRAIA DO SOBRAL: Esperava que ela afastasse de mim os seios puros / E passeava com ela pela praia e a beijava / E enfeitava seus cabelos com uma flor. / Permanecia tranqüilo mesmo junto de sua carne / Pois no litoral Doralice era a flor esquiva / Que restaurava em mim o obscuro desequilíbrio. / Misteriosamente claros seus seios tentavam / Minha mão direita que a louvaria em verso / E minha mão esquerda frágil e inconsistente / Inútil quando não a acariciava. / Praia debruçada sobre o seu corpo, / O amor era a gratidão marítima / E as ondas obedeciam ao fremir de suas coxas. / Doralice era a utilidade que sob o sol / Ou sob a lua me afastava do céu. / Era o crepúsculo invasor de alguma manhã. / Sonhos caminhando, tardes naufragas, noites grandes, / Doralice era como a lagoa da terra em que nasci: / Me perturbava e me acendia. / Era a areia quente / Onde o sol de minha infância se nutria. / A noite vinha do sexo de Doralice / Para o litoral que era / Como um colchão onde se amava. / Depois Doralice vomitou a infância / E eu fiquei, menino, na praia sonhando. A DAMA: Sempre te vejo, Dama Esportiva, / Inclinada para o espaço como uma torre / No gesto de uma partida de tênis. / Acompanhada de duzentas figurantes de opereta / Reconstituir o crime de um sono nostálgico / E a náusea das residências do noroeste. / Telegrafas para a eternidade / Com a fúria de tuas coxas. / Sempre te vejo e confesso / Que teu corpo de bailarina me aniquila / Teus braços me aprisionam / E tua boca me sorve. / És uma mistura de carne e de opera / Imóvel na tarde com os teus espelhos, / Tua geografia e teu porta-seios. / Flor que sempre viaja incógnita / Ou rosa verde que provoca suicídios em massa e desfalques / És uma calamidade pública. ESMERALDA: O internato em que estavas / Voava contigo nas manhãs sem nuvens / Ficavas acima do farol / Azul e branco e saia de sino / Dominavas um azul que não existirá / E estudavas química. / Esmeralda, tormento e magia / Naquele tempo teu corpo germinava como um campo / E tua carne inventava novas formas / Que desfiguravam a ausência. / Eu desenhava na praia a curva de teu seio. / E continuavas voando, entre o farol e o mar, / Ballet de minha adolescência. CANTIGA PARA A AMIGA FUTIL: Venho cantar tua pronuncia inglesa, digna de Oxford. / Teus múltiplos passeios. / Teu complexo de Elextra. / E venho te convidar para partir comigo / Na corveta de Euterpe, / Para o país sem nome e sem dia. / Andaremos de velocípedes nas nuvens / Faremos filhos por via aérea / E navegaremos na lagoa escaldante do mistério. / Venho te convidar ó perpetua senhora / Para a contemplação no espelho da Sala do Fim do Mundo. / Teus seios, outrora lunares, teu secreto charme, / Teu corpo mais eterno do que realmente é, / Teu exímio processo de amar. / Venho te convidar para o amor / No jardim-terraço da corveta Euterpe. / Com o teu corpo de fragata ou tua paixão, vem. / Sou menor que tudo. ADRIANA E A POESIA: Adriana estava dormindo e um sonho se levantava de seu corpo / Neste momento faltou inspiração aos poetas porque todas as inspirações estavam em Adriana / As sereias tentaram em vão roubar os seus cabelos / Porem um anjo guardião não permitiu que ela fosse destituída de sua beleza durante o sono / Seus seios arfavam docemente como as rosas ao vento – todos vós sabeis que os seios de Adriana não morrem / Uma sonata celebre fugiu de um concerto com um suspiro de Adriana / Desembargadores tiraram o chapéu porque pensaram em Adriana dormindo / Ela repousava e então caixas de música enlouqueceram inexplicavelmente / E as amadas dos poetas se cobriram misteriosamente de neblina / Temporais desapareceram e naus antigas fugiram de velhos livros de historias infantis e acordaram nos portos sonhados / Um trapezista julgou ver Adriana com os braços abertos tentando-o no ar e precipitou-se irreparavelmente no vazio / Incontáveis elegias descobriram-na dormindo / O Presidente da Republica decretou feriado porque Adriana estava dormindo / Sendo revogadas as disposições em contrário / Berceuses partiram em maravilhosos crepúsculos / Países em guerra concordaram em tréguas indeterminadas / Para que as batalhas não perturbasse o sono de Adriana / Que algum tempo depois despertou docemente e descobriu não estar como antes do descanso / Pois Cristo havia desapropriado sua grande poesia / Para que ela pertencesse a todos os homens e a todos os mágicos. LEDO IVO – O poeta, jornalista, escritor e ensaísta alagoano Ledo Ivo, foi e leito em 13 de novembro de 1986 para a Cadeira n. 10, sucedendo a Orígenes Lessa, foi recebido em 7 de abril de 1987, pelo acadêmico Dom Marcos Barbosa. Ele estreou na literatura em 1944, com o livro de poesias As imaginações. No ano seguinte, publicou Ode e elegia, distinguido com o Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, o primeiro de uma série de prêmios que Lêdo Ivo irá obter, nos anos subseqüentes, com a publicação de obras de poesia, romance, conto, crônica e ensaio. Lêdo Ivo é uma das figuras de maior destaque na moderna literatura brasileira, notadamente na poesia. Seu romance Ninho de cobras (1973) foi traduzido para o inglês, sob o título Snakes’ Nest, e em dinamarquês, sob o título Slangeboet. Obras: As imaginações, poesia (1944); Ode e elegia, poesia (1945); As alianças, romance (1947); Acontecimento do soneto, poesia (1948); O caminho sem aventura, romance (1948); Ode ao crepúsculo, poesia (1948); Cântico, poesia (1949); Linguagem, poesia (1951); Lição de Mário de Andrade, ensaio (1951); Ode equatorial, poesia (1951); Um brasileiro em Paris e O rei da Europa, poesia (1955); O preto no branco, ensaio (1955): A cidade e os dias, crônicas (1957); Magias (contendo: Os amantes sonoros), poesia (1960); O girassol às avessas, ensaio (1960); Use a passagem subterrânea, contos (1961); Paraísos de papel, ensaio (1961); Uma lira dos vinte anos, reunião de obras poéticas anteriores (1962); Ladrão de flor, ensaio (1963); O universo poético de Raul Pompéia, ensaio (1963); O sobrinho do general, romance (1964); Estação central, poesia (1964); Poesia observada, ensaios (1967); Finisterra, poesia (1972); Modernismo e modernidade, ensaio (1972); Ninho de cobras, romance (1973); O sinal semafórico, reunião de sua obra poética, desde As imaginações até Estação central (1974); Teoria e celebração, ensaio (1976); Alagoas, ensaio (1976); Confissões de um poeta, autobiografia (1979); O soldado raso, poesia (1980); A ética da aventura, ensaio (1982) A noite misteriosa, poesia (1982); A morte do Brasil, romance (1984); Calabar, poesia (1985); Mar oceano, poesia (1987); Crepúsculo civil, poesia (1990); O aluno relapso, autobiografia (1991); A república das desilusões, ensaios (1995); Curral de peixe, poesia (1995). FONTES: IVO, Ledo. As imaginações. Rio de Janeiro: Pongetti, 1944. ____. Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004. Veja mais aqui.


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