quarta-feira, janeiro 23, 2008

PROEZAS DO BIRITOALDO



IX

Quando Risca Fogo, o Rabo Inflamável Sofre Que Só Sovaco de Aleijado


Birito andou uns dias meio aluado, meio lasso, assim, fora das esferas, à toa, por causa do incidente presenciado.
- Cachorra da molesta! Catraia da catenga! Vai pro Satanás, fi'a da peste! -, pigarreava injuriado.
Num é pra menos, né? Mais puto ainda porque encheram-no de apelido: ora Gnu, ora Alce-irlandês, ora outras trepeças galhudas. Intrigado, remoía, que queriam dizer com isso? Sabia que se tratava de chacota braba, derriço desgraçado causando uma fissura na sua adolescência. Até o papagaio Popó mangava da cara dele entoando:
- "Ouviram do Ipiranga às margens..." côooooooooornuuu!... "De um povo heróico o brado..." côoooooooornuuuu! Grugrugurugrugru....
Tem cabimento? Logo ele que se via o roliúde como astro de seriado da TV, ufano e xucro incorporando todo pantim de herói, jogador de bola sete na sinuca, adivinhão de porrinha, cantador de loas e ardoroso defensor da vida boa, cair numa deprê assim, era de lascar.
- Espere não, que eu num tô a fim de fazer graça pra ninguém, não. Vai tomar na sapata do olho de bico, vai! Eu quero é esfolar quem inventou estudo, trabalho e mulher safada! Se vou!
Chica Doida era perdida, os-pés-da-doida, uma verdadeira carniça: vivia em tudo quanto fosse bico de urubú. Namorava com um e com outro, trocando de parceiro como quem troca de blusa a cada suadeira. Prova disso foi saber através do boato dos maiores caboetas que aos onze anos de idade ela, presumivelmente, perdeu a virgindade numa situação incomum que ainda hoje ela conta na maior das risadagens. Lembra daquele dia como uma boa recordação, levando-a por devaneios perceptíveis.
- Havia uma amendoeira -, dizia ela com ar poético e nostálgico -, hoje passa uma rodovia. Foi ali que eu perdi o meu cabaço aos onze anos de idade! Soubesse antes que era tão bom, já tinha nascido fudendo!
Biritoaldo se apaixonara pela doida perdidamente. Mesmo depois do flagra, três meses amuado com os seus botões e chifres coçando, arrumou ungüento pra dor-de-cotovelo e voltou, como se nada tivesse acontecido, pros pés dela propondo casamento para muito breve. Ela encarava a proposta como uma piada e se ria da leseira dele.
- Ou esse cara tá variando, ou a gaia afetou o juízo dele! -, dizia ela que nada queria, só gozar a juventude, ficando.
E era esfregado com Pedim-do-padre, Carrinho Xôxo, Didi-papa-cú, xambregando nas esquinas escuras se ajeitando nos lugares de iluminação insuficiente, principalmente atrás da prefeitura, local do plantão mais freqüentado pelos supostos fudedores; se enganchando no pescoço dum nos arruados distantes; pulando cerca para libidinagens na beira do riacho; sarrando com gato e chachorro e morrendo de inveja da Benta Mouca que fora flagrada pelo marido estrepada na pomba dum jegue na Lagoa do Mundaú.
- Ora, que felizarda! Eu mesma sou doida por torneira grande! Esses negocim miudinho, fininho, sai-te, só gosto do chapéu-de-vaqueiro de esfolar tudo!
Pois é, principalmente agora, na flor da idade, casar? porra nenhuma.
Biritoaldo se abestalhava tanto com a negativa dela, quanto com a pilhéria dos maloqueiros.

Ai, cebola!
Tempeiro de boceta é rola!
Ai, tirica!
Tempeiro de boceta é pica!

Um verdadeiro sururu da Nega: todo mundo mete a mão na cumbuca, de graça.
A Ilmena olhava de soslaio para a folgança da Chica, menina nova, de futuro e pais respeitados. E tentando reaprumar a vida dela, a professora deitou reportagem completa aos seus pais. Como é? Incrédulos, quase defenestravam-na dali com porta e tudo.
- Que é isso? Com nossa filha, não! Arrede, fofoqueira! -, aquilo doía no juízo deles. Logo a filha santa, recatada, nunca! Por via de dúvidas, os genitores de Chica recolheram a libertina num convento. Ave, Maria! Para eles, agora sim. Pronto, queriam ver alguém enredar dela. Hum! Nem imaginem quantas aprontou pras bandas das freiras. Quer ver?
Às escondidas das irmãs Carmelitas, ela namorou Zito Cuiambuca, Bilau Cadida, Zé da Jega, Ciço Pacaru, Pedim-do-padre, perdendo vez por outra as caçolas nos lugares mais insólitos quanto recônditos, como o púlpito - eita! -, alicerces do clube ferroviário - danou-se! -, escadaria do cinema - tá c'a gota!-, banheiro da rodoviária - vôte! -, batente da prefeitura - virgem santa! -, beco da casa do vigário - espia, só! -, avelóis da usina de cana - oxente, bandoleira de uma figa! -, pedreira do riacho - arre, praga! -, cruzeiro do matadouro - tais vendo? -, no monumento das armas nacionais - esp'ritou-se! -, na sacada da sede do Rotary Club - pela luz de Cristo! -, num capô dum fusca - arrepare, sonsa! -; tantas caçolas perdidas que já andava sem as tais, facilitando a função, pei. Bicha danada, ladina. Era mais falada que artista de cinema que num deixava um só segundo de estar nas manchetes da fofocagem.
- Essa, tem mais hora de foda que urubu de vôo!
O pior foi que todos, com pena dos pais, começaram a devolver suas caçolinhas. Muitos deles entregaram de bandeja: para a madre superiora. Arre égua! Era castigo certo. Que covardia, tadinha. O convento se arrepiava das imagens ficarem de costas.
Basta tempo, moleza enrolá-las, a pá virada conseguia escapulir do castigo e toda noite se travava com qualquer marmanjo das cercanias. Era uma dor de cabeça para as santas do convento, levando, a fim da força, a convocar os pais dela para uma reunião às portas fechadas, tintim por tintim, e relataram arrepiadas as suas presepadas.
Botaram todos os pingos possíveis e inimagináveis em todos os iis. Era a constatação. Deus acuda o trupicão!
- Uma menina tão boa, tão santa, num acreditamos nisso, a senhora é enredeira feito aquela professorinha metida a besta!
O bate-boca durou por horas até que por sentença Chica fora expulsa a bem da moral cristã, não antes deixar um rastro devastador nas atitudes e faces avermelhadas das pacatas pingüins de Jesuisis. Tava, agora, tudo assanhada. Teve até uma delas que não aguentando mais tanto celibato largou o hábito e nunca mais se afastou de homem. Sabe-se que ainda hoje ela mora lá para as bandas de Salvador, dando a priquita à beça. Vírus bom, hem?
Com a expulsão, ela passou a ser vigiada cada segundo dos seus dias e noites. Destá. Piscasse o olho ela estava se bandeando para qualquer cafajeste, passando pinto na tocaia dos pais e se escondendo daquelas inoportunas vigilâncias, atrapalhando o coito com cada ferroada de levar o sujeito para grota a se cagar, quando não findava rancôlho.
Todo mundo sabia da sandice de Chica, por isso todos queriam tirar uma casquinha nela. A bicha era jeitosa de perna, aquela batata cheia, de côxa saliente, bem apessoada corporalmente, uma carinha de anjo safada, o jeitinho atirado, atrevida, provocadora, a perdição em pessoa. Daí aguçar o apetite da raça pra molhar o biscoito.
Um dia depois de passar pela mão de púberes, impúberes, marmanjos e anciões, Biritoaldo teve a sua chance.
Depois de muita lenga-lenga de casório nas ouças dela, ela inquiriu-lhe se era macho. Claro, ora! Então vamos traquinar, abestalhado. Os olhos dele quase pulam fora. Eu quero casar, mulher! Larga de ser besta, otário, vamos aproveitar! E acertaram tudo para mais tarde nas ferragens dos destroços da usina abandonada, um fogo morto que acenderia naquele dia idílio voluptuoso, local propício para sua iniciação naquela trepada. Ele que teimava em botar quente na das da vida, tornara-se verdadeiro beócio de galocha. Mas foi, mesmo assim.
Às dezenove e trinta, noite enluarada, lá estava ele, nervoso, roendo as unhas e com um frio na barriga, espinhela arrepiada, comendo vento e amolegando a pêia.
Às vinte e uma e trinta, chegava ela esbaforida, toda apressada, suculenta. Tais esperando o quê, alesado? O quê, Chica? Vai ser brôco assim no raio que o parta! Com um cara desse a gente perde até a tesão! Que foi? Arre. Peraí, mulher, eu sou o seu amor, quero ser... atrapalhando a pieguice dele, atracou-se naquela figura estúpida com um beijo dos mais ardentes e gulosos que ele jamais poderia ter visto, enquanto levantava a saia e esfregando a cheba na virilha dele num acôcho arrochado.
Biritoaldo nem teve tempo de se dar conta da garanhagem, ela já botou logo o pinto dele para fora, levantando uma das pernas e lá vai o vuque-vuque.
As calças dele ao serem desabotoadas, arrearam aos pés e ficou ele nuzinho da silva da barriga para baixo a enfiar o pingulim no engole-pomba dela. Remexido medonho, fungado desnorteado de ambas as partes.
Nisso, um empata-foda. No meio desse chove-num-molha, nem se deram conta de algo subindo pelas pernas, aumentando ainda mais a fudelança.
Foi aí que ela sentiu uma picada na beirada do priquito, êpa! Ui! Ai! Outro no osso do mucumbú, eita! Ai! Doeu! Qué isso, cara? Tá me estranhando, é? Chica fez cara feia pra dele. Ele mesmo levou uma ferroada no colhão esquerdo: aaaaaaiiiiiiiiiiiiiiii! Desmoronou tudo, ela largou-lhe um tabefe no toitiço e saiu indignada, aos gritos.
Acontece que pra desespero dele, nem davam conta no alvoroço da sacanagem que estavam sobre um ninho de saúvas-tocandiras. Com o pisunhado elas se assanharam e ai-jesus!
Fora de si, ele tentou vestir as calças e percebeu logo a merda que fez: infestada. Plutão em questão de segundos seria alcançado. Puta-que-o-pariu! Foi picada até umasoras do colhão ficar maior que queijo do reino. Nem cagava, nem mijava, tudo inchado pelas ferroadas das traiçoeiras nas partes pudendas do mofino.
Por fim, Chica arribou se debatendo toda, ficando Biritoaldo com as mãos na cabeça, sem tesão nem para uma bronha.
- Não deu nem tempo de gozar, porra!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.
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