
DITOS & DESDITOS:
Todos os rios levam ao mistério. Do Aar ao Zweitt. Do Orinoco ao
Deseado, passando pelo Oiapoque e pelo Chuí. Do Negro ao Branco. Do Madeira ao
Prata. Do Grande ao Chico, o das Antas, o das Velhas, o dos Macacos, o das
Mortes. O rio da vida, senhoras e senhores. Segurem-se até passarmos as
pororocas. Aqui o Amazonas recebe as águas do seu maior afluente, o Atlântico. Aqui
o Nilo muda de nome e vira Mediterrâneo. Por esta boca o Mississipi expeliu
Cuba, Porto Rico e todas as ilhas das Caraíbas. Aqui termina o Tejo e começa o
mundo, uma obra de Camões. Aqui começa o nosso tour. Rio acima. Observem como,
de onde estamos, vemos passar as margens de ambos os lados... engano, somos nós
que passamos. Protejam a cabeça do sol e meditem sobre a finitude humana. Será
servido um lanche antes de passarmos a fábrica de celulose, porque depois
ninguém conseguirá comer. À esquerda, uma usina nuclear. Vejam os peixes
fosforescentes. Vejam os banhistas fosforescentes. Não ponham a mão na água se
não quiserem perdê-la. À direita, boiando, alguns mendigos. Prisioneiros de mãos
amarradas. Vários fetos. Sapatos. Urinóis. Pneus. Sinais de civilização. Uma nota
pessoal, senhoras e senhores. Aquela casa na margem direita é minha. Tinha um
coqueiro do lado que, coitado, de saudade, já morreu, e o videoshop do outro
lado, claro, é novo. Aquela é a minha família, e aquele menino com água pela
cintura, abanando para nós, sou eu. Mas isto também já passou. Rio acima! O garoto
abandonado naquele barco é Huckleberry Finn. Abanem, abanem, aquela figura que
acaba de mergulhar no rio do galho de uma árvore é Tarzan. Vejam como um jacaré
se aproxima. Os dois se engalfinham. Não se preocupem, Tarzan vencerá. Na margem
direita, um lobo e um cordeiro conversando. Da margem esquerda, João Guimarães
Rosa contempla a terceira margem. O bebê flutuando dentro da cesta é Moisés. Estamos
no Rubicão! Porcaria, pois não? Vocês notarão que muitos rios históricos não
merecem o nome que têm. O Danúbio, veremos mais adiante, não é azul. O Vermelho
é marrom. O Amarelo é cinzento. O Mekong é vermelho de tanto sangue. Rio acima.
Estamos no Tâmisa. Agora no Avon. Aquele ali na margem, pensativo, é
Shakespeare. Vejam, no meio do rio, rodeada de flores, mantida à tona pelas
suas vestes infladas, a doce Ofélia. Abanem, abanem. Eu não disse que este tour
tinha de tudo? Agora preparem suas câmaras. Aí vem, na sua barcaça imperial,
Cleópatra descendo o Nilo. Rio acima. Estamos no Reno, no Yang-tze, no São
Francisco, no Tigre, no Eufrates, no Volga, no Jordão. Aquela cena vocês
realmente vão querer fotografar, João Batista batizando Jesus. Estamos no
Ganges. Onde os vivos despejam os seus mortos e depois se lavam. O rio é sempre
o mesmo e nunca é o mesmo. A água que purifica é a mesma que recebe o esgoto
ácido. A água que mata a sede é a mesma que afoga, a que passa e não passa. O rio
é a Portela. À direita, Paulinho da Viola. Aquela cabecinha de nadador ali é a
do Mao. Galhos, troncos, casas, gado, canoas, viradas, quatro com timão e sem
timão – e uma fábrica inteira rebocada do Japão! As águas começam a ficar
lodosas. As grandes árvores se tocam sobre o rio. Estamos no Congo, a caminho
do coração das trevas. Da fonte obscura de tudo. Mistah Kurtz, he dead. O cheiro
azedo limo e fósseis. O horror, o horror. O mar está longe, chegamos à nossa
vertente. E a origem de tudo não é mistério, é um buraco no chão. Há outros
rios debaixo destes, e é para lá que vamos um dia. Rio abaixo. A gorjeta é
voluntaria, obrigado.
Rio acima, extraído da obra Novas comédias da vida privada: 123 crônicas escolhidas (L&PM,
1996), do escritor, cartunista, tradutor, roteirista e autor teatral Luís
Fernando Veríssimo. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
A ARTE DE JEFF KNECHT
A arte do artista estadunidense Jeff Knecht.
AGENDA:
Velório Poético 2018 – ação
cultural idealizada pelo artista Sílvio
Hansen, com recital de poesia,
artes plásticas e performances – Sexta, dia 02, das 17 às 18hs, Rua da União,
88 – Boa Vista – Jardim Interno do MAMAM & muiro mais na Agenda aqui.
&
O que sou de todas as coisas, Lima Barreto, Lampião & Luís da Câmara Cascudo, Geni
Guimarães, A Praieira em Água Preta, Michel
de Certeau, Luci Giard e Pierre Mayol, Pintando na Praça & Biblioteca
Fenelon Barreto, Almeida Prado, Viviane Hagner, Hans-Joachim Koellreuter & Ophélie Gaillard aqui.
RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio
Tataritaritatá a
música do compositor e professor belga Jean
Absil
(1893-1974): Brazilian Raphsody for Orchestra, Suite for Guitar, Symphony 2 e 4
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de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja
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