
RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da pianista suíça Beatrice Berrut: Après une lecture de Dante by Liszt, Chaconne in D-minor
by Bach-Busoni, Totentanz by Liszt & Concert 26 by Mozart & muito mais
nos mais de 2 milhões &
500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja
mais aqui.
PENSAMENTO DO DIA – [...] O
mundo contemporâneo em globalização conhece transformações suficientemente
profundas para que se possa qualifica-las de mutação societal. Mais precisamente,
consideramos que o processo de modernização que deu nascimento aos tempos
modernos é sucedido, e eles fazem emergir uma sociedade ainda mais moderna,
quer dizer mais individualizada, mais racional, mais diferenciada, e mais
capitalista. Trecho extraído da obra A
sociedade hipermoderna (L’Aube, 2005), do urbanista François Ascher (1946-2009), que em uma entrevista ao Millénaire 3
(GrandLyon, 2002), assinalou que: [...] Face
a essa incerteza, o planejamento urbano não pode mais ser linear e sequencial,
mecanicista e balístico; ou seja, não pode mais pretender ser previsional,
programático, sistemático, imperativo. Ele deve se construir sobre a base de
uma racionalidade limitada em universo incerto. Para orientar, enquadrar, regular,
gerir, o planejamento e mais genericamente o urbanismo [...] devem implementar instrumentos que admitam
as flutuações, a criatividade, a incerteza, a contradição, a ambiguidade, a
imprecisão. O urbanismo deve de alguma forma passar do “planejamento
estratégico” à “gestão estratégica”. [...].
UMA
LENDA DE KRISHNAMURTI – [...] há
muitos anos, virtuoso anacoreta, grandemente venerado, de nome Timanak
[...] contentava-se com um punhado de
arroz branco e meia medida de ervilhas secas. Sua vida de expiação era pautada
por extrema abstinência e desprendimento. Cobria a nudez do corpo magro apenas
com uma tanga. Tinha, além disso, outra tanga que usava quando se via obrigado
a lavar e purificar a primeira. [...] esse
virtuoso eremita das duas tangas, ouviu, certa vez, contar que vivia em Dakka,
a acidade dos cento e sete templos, o douto Sindagg Nagor, filósofo de renome,
que conhecia a Verdade. – Vou procurar esse homem – refletiu o ermitão. [...]
– Que desejas de mim, meu irmão? –
indagou o sábio Sindagg Nagor, acolhendo bondoso o desnudo visitante. – Em que
poderei servir-te? [...] Esmagado
pela pompa, ofuscado pelo luxo que o rodeava, sentiu-se o eremita confuso e
perturbado. Dominou-se e disse com não pequenino embaraço, tentando um sorriso
irônico: - A fama do vosso incomparável saber chegou até a gruta obscura em que
sempre vivi. Deliberei abandonar o meu refugio e vim até aqui, desejoso de
ouvir os vossos ensinamentos. Sinto-me, porém, constrangido. Como permanecer no
meio de tanta riqueza? [...] – Estás profundamente
equivocado, meu irmão – tornou o sábio, sem a menor ostentação e com a maior
naturalidade. – Os trajes que cobrem o corpo não medem o valor do homem. A mim,
na verdade, não me interessa saber se tens duas, três, vintes ou duzentas
tangas. Que adianta ao homem vestir-se de sedas e ter a alma nua de virtudes e
de predicados? [...] Deambulavam
sossegados entre as árvores, por pequeno caminho de bom piso, quando os
surpreendeu estranho ruído. [...] Todo
o vetusto palácio do eloquente Sindagg era presa das chamas. Colunas de fumo,
levadas pelo vento, subiam negras para o céu, e o fogo, na faina destruidora,
estorcia suas espirais vermelhas, devorando, como um chacal faminto, a pomposa residência.
[...]. Ao presenciar o desespero do
discípulo, o venerável Sindagg acudiu-o solicito e procurou erguê-lo do chão. Segurou-o
pelo braço e proferiu com desusada energia: - Domina-te, meu irmão, domina-te! [...]
Não te preocupes com o desastre. Errado procede
aquele que se aflige e sofre diante do irremediável. Recebe com serenidade os
decretos inapeláveis do Destino. O palácio que ali vês, presa das chamas, é
meu; todas as riquezas – tapetes, alfaias, moveis e joias – que nele se
achavam, eram de minha exclusiva propriedade. E, como vês, estou absolutamente
calmo e indiferente; a perda de bens materiais não chega sequer a perturbar, de
leve, a serenidade de meu espírito! A tais palavras retorquiu, com exasperação
e sinistra rudeza, o guru de Hirkka: - Que me importa a mim o vosso palácio? Não
me interessam tampouco as vossas alfaias ridículas e os vossos inúteis tapetes [...]
– A minha tanga! – deplorou, entre
soluços, o Santo, em novo assomo de ira. – A minha tanga sobressalente! Esqueci-me
de trazê-la, hoje, quando saí a passeio. Perdi a minha tanga no incêndio! E desatou
em pranto, batendo sem cessar, com a cabeça no chão. [...]. Lenda contada do filósofo, escritor e educador indiano Jiddu
Krishnamurti (1895-1986). Veja mais aqui.
A CASA DE PRAIA DAS
SEXTAS-FEIRAS - [...] você e eu fizemos amor durante a noite, não
é? Aí você adormeceu; a mim, porém, o amor tornou-me nervosa, ainda mais porque
você gozou logo, e eu não. De forma que saí do quarto toda nua, como estava, e
fui debruçar-me no parapeito da varanda, curvando-me para o mar que não se via,
pois não havia lua. Enquanto estava olhando, pareceu-me haver não muito longe
de mim, entre um e outro daqueles arbustos em vaso que estão na varanda, como
que a sombra reta e imóvel de alguém. Mas não havia lua, a noite estava muito escura
e não entendi direito se era a sombra de uma pessoa ou a de uma daquelas
arvorezinhas. Fiquei muito amedrontada, pensei que podia ser um ladrão; mas um
ladrão não fica parado daquele jeito, então, quem poderia ser? De repente a
sombra se moveu, levantou o braço, e acabei levando nas costas, justamente onde
tenho agora a mancha, alguma coisa como uma chicoteada, com toda força. Era ele
que tinha vindo durante a noite, exatamente como um ladrão, e aquilo que eu
tomara por uma chicotada era o golpe curto e duro de um açoite. Pois é, um
açoite, já o tinha visto na casa dele, brincava a respeito, dizia que o
comprara para mim e que um dia desses deixaria que eu o experimentasse. Senti uma
dor terrível, fiquei ereta, disse para ele, com voz baixa e intensa: Ficou
louco? O que está fazendo aqui? Endoidou de vez? Como resposta, ele voltou a
levantar o braço para dar-me mais uma chicotada e, então fugi, pulando da
varanda sobre as dunas lá embaixo, com um pouco de medo, mas também, devo
confessar, um pouco de brincadeira. Comecei a fugir nuazinha como estava, no
escuro, de uma duna para outra, e ele atrás, alcançando-me de vez em quando com
o seu açoite, mas ao acaso e nunca com tanta força como a primeira vez, quando
estava parada, apoiando-me na balaustrada e ele tivera tempo de mirar. Eu fugia,
devia ser engraçado, nua daquele jeito e perseguida por aquele louco de açoite
na mão. Então, de repente, caí na gargalhada e percebi que, na verdade, era só
uma brincadeira, uma entre tantas que fazíamos e comecei a correr diretamente
para o mar, gritando: “Pegue-me, se for capaz”. De forma que entrei na água,
que estava uma delícia, morna como durante o dia e, por algum tempo, continuei
fugindo também no mar. Aí ele me agarrou por trás, e caímos juntos dentro d’água
e então fizemos amor e foi a vez que, talvez, tenhamos feito melhor e senti
novamente que ele me amava. [...] É verdade, esbofeteara-me, mas aqueles
eram tapas de amor. Esta noite, ao contrário, eram tapas de ódio. Logo percebi,
não beijei a mão dele, como das outras vezes. Rechacei-o, cheguei até a
arranhá-lo. [...] talvez as chicotadas da noite anterior
tivessem sido chicotadas de ódio. Talvez a história entre eles já estivesse
acabada sem eles perceberem, e, na sua exploração dos territórios proibidos do
amor, tivessem passado apesar de si mesmo para os do ódio. [...]. Conto
extraído da obra A casa de praia das
sextas-feiras e outros contos (Bertrand Brasil, 1993), do escritor e
jornalista italiano Alberto Moravia
(1907-1990). Veja mais aqui.
O LIVRO SOBRE NADA - É
mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez. / Tudo que não invento
é falso. / Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é
verdadeira. / Tem mais presença em mim o que me falta. / Melhor jeito que achei
pra me conhecer foi fazendo o contrário. / Sou muito preparado de conflitos. / Não
pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que
a revelou. / O meu amanhecer vai ser de noite. / Melhor que nomear é aludir.
Verso não precisa dar noção. / O que sustenta a encantação de um verso (além do
ritmo) é o ilogismo. / Meu avesso é mais visível do que um poste. /Sábio é o
que adivinha. / Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições. / A
inércia é meu ato principal. / Não saio de dentro de mim nem pra pescar. / Sabedoria
pode ser que seja estar uma árvore. / Estilo é um modelo anormal de expressão:
é estigma. / Peixe não tem honras nem horizontes. / Sempre que desejo contar
alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia. / Eu
queria ser lido pelas pedras. / As palavras me escondem sem cuidado. / Aonde eu
não estou as palavras me acham. / Há histórias tão verdadeiras que às vezes
parece que são inventadas. / Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que
eu a seja. / A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que
ela expresse nossos mais fundos desejos. / Quero a palavra que sirva na boca
dos passarinhos. / Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim. / Ateu é
uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos
santos. Os santos querem ser os vermes de Deus. / Melhor para chegar a nada é
descobrir a verdade. / O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro
perfeito. / Por pudor sou impuro. / O branco me corrompe. / Não gosto de
palavra acostumada. / A minha diferença é sempre menos. / Palavra poética tem
que chegar ao grau de brinquedo para ser séria. / Não preciso do fim para
chegar. / Do lugar onde estou já fui embora. Poema do poeta Manoel de Barros
(1916-2014). Veja mais aqui e aqui.
DOROTHEA TANNING
A arte da pintora, escultora e escritora estadunidense Dorothea Tanning (1910-2012).
AGENDA
&
&
A vida entre livros & leituras, Os ambulantes de Deus de Hermilo Borba Filho, a poesia
de Fenelon Barreto, A urbanização brasileira de Milton Santos, A mulher de Gilberto Freyre, O amor
hoje de Jurandir Freire Costa & A biblioteca de Roger Chartier aqui.