quarta-feira, agosto 15, 2018

MALLARMÉ, SÉRGIO FRUSONI, ALTAMIRO, MANZONI, AUROBINDO, TRACEY EMIN & BIDIÃO


EXORCISMO NA HORAGÁ – Imagem: arte da artista inglesa Tracey Emin. - Assim do nada, chegou de repente a notícia de uma mulher que corria bicho. Como é que pode? Autoenlouqueceu-se. Assim, sem mais nem menos. Depois, envultou-se! Trela pra linguarudos: Oxente, ainda ontem ela estava toda catita espalhada aos suspiros do sarro, coração de beija-flor na maior das liberdades no namorico!?! Pois é, aluou-se. Quem vai ver? O primeiro a pisar por aquelas bandas foi o Doro. Quando viu o desmantelo, vôte, picou a mula e foi ter com o padre Quiba, tintim por tintim. Meio mundo de gente acompanhando os detalhes. Não deu outra, o vigário ao ficar a par da coisa, abriu da vela na hora. Pediu arrego e arribou. Quem é doido? Eita! E foram ter com catimbozeiro, espírita, profetas e munganguentos. Nenhum topou a parada. Aí, o Bidião que não era ainda padre nem nada, logo encarou a bronca. Danou-se! Lá vai o noivo das pinguins de convento todo serelepe. Era a sua hora e, no caminho, todo precavido, ensaiou logo umas orações fortes, armou-se de uma cachaça boa – santo remédio, dizia, pressas ocasiões, quebradora de malditas bruxarias -, uma carranca pequena em cada bolso, peito estufado e a coragem se acovardando. E o povo atrás. Era chegado o momento. A mulher estava nua no cio e mirando o rio. Ao vê-lo chegar, ela deu um ronco de balançar o mundo todo. Segurando-se como podia, diante do estrupício, os santos não vogaram, ficou no aperto. Cada vez que ela olhava pra ele, a bosta apertava pra sair tripa gaiteira afora. Fechou o bocal da quartinha e jurou que não ia cagar fora do caco, jeito maneira. Ou era homem ou não era, a prova dos nove. A carne é fraca, tremeu-se todo, torou um aço da pega! A mulher amuada esfumaçava pelas ventas, soltava raio pelos olhos vermelhos como tição, rogando pragas, ameaçando tudo. Ele, então, todo cheio das tretas usou da malícia, aplicando uns truques que nem sabia e abriu uma pauta com a diaba na encruzilhada do ribeirão. Rolou o maior lero: ele macio e ela aos brados ruidosos de dar catabí na terra. Segura o tombo senão a casa cai. Ao chegar perto dela, ela agarrou-se nele da poeira subir no saçaricado de só se ouvir a voz dele: tico-tico, cirico, selerico, não tem pé, nem tem bico. Só eu cisco pra pegar no seu priquito. E dançou agarrado, maior rastapé. Tu te bole e eu me mexo, tiro fora e dentro deixo. Um pra lá, outro pra cá, pega aqui, pega acolá. Entro enxuto e saio molhado, não tem quem me segure no proseado. O vuque-vuque medonho, ninguém podia ver no meio da ventania, trovões, relâmpagos e estouros. Só deu pra ver em dado momento ele com o espinhaço envergado e ela afoita, montada nas partes pudendas dele como se num cavalo rompedor, cavalgando aos urros e ele gritando: Ninguém pode com os poderes de Deus! Foi pra mais de hora na peleja e só ao baixar da poeira que viram a dita cuja estirada, os quartos de banda, toda oferecida, de deixar se levar cela e cabresto pelo jeitoso todo ancho que, ainda por cima, fazia careta pra todo mundo. Foi aí que se apagaram as luzes do firmamento, o mundo escureceu com trovoadas faiscantes e um fumaceiro desgraçado com uma catinga de enxofre de ninguém aguentar. Diziam ser a hora do desencantamento. O cabra é macho mesmo, mandou ver na medida. É mesmo. O povo pasmado. De dentro dela saiu um vulto enorme espocando raio pra todo lado. Calmamente Bidião ajeitou o pingolin que estava mole do lado de fora, guardou no ajeitado e fechou o zíper. Depois ele pegou do bolso as duas carrancas, e no chão uma em cada lado, abriu o frasco, tomou de um gole e cuspiu fora. Uma cusparada certeira, bem no toitiço do cabrunco. Oxe, o coisa-ruim na hora soltou um grito fino e foi se desmanchando, ais e uis, virou fumaça e estourou. Ploft. Pronto, não deu outra: a partir de então começou o falatório com as façanhas do Bidião. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor e flautista Altamiro Carrilho (1924-2012): Clássico em chorinho, Revive Pattápio, É o sucesso & Ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Para caminhar pela vida protegido contra todo medo, perigo e desastre, só duas coisas são necessárias, duas que andam sempre juntas — a Graça da Mãe Divina e, ao seu lado, um estado interior composto de fé, sinceridade e entrega. Que tua fé seja pura, cândida e perfeita. Uma fé egoísta no ser mental e vital, contaminada por ambição, orgulho, vaidade, arrogância mental, vontade própria vital, exigência pessoal, desejo pelas pequenas satisfações da natureza mais baixa, é uma chama baixa e enfumaçada que não pode queimar erguendo-se ao céu. Olhe tua vida como dada a você somente para o trabalho divino e para ajudar na manifestação divina. Não deseje nada a não ser pureza, força, luz, amplitude, calma, Ananda da consciência divina e sua insistência para transformar e aperfeiçoar tua mente, vida e corpo. Não peça nada a não ser a Verdade divina, espiritual, supramental, sua realização sobre a terra, em você e em todos que são chamados e escolhidos , e as condições necessárias para sua vinda e sua vitória sobre todas as forças que se opõem. Que tua sinceridade e entrega sejam genuínas e inteiras. Quando se der, dê-se completamente, sem exigência, sem condições, sem reserva, de modo que tudo em você possa pertencer à Mãe Divina e nada seja deixado ao ego ou dado a algum outro poder. [...]. Pensamento do escritor e filósofo indiano Sri Aurobindo (1872-1950).

MANIFESTO: ARTE & ESPAÇO DE LIBERDADE - A arte não é verdadeira criação e fundação senão quando cria e funda lá onde as mitologias têm seu próprio fundamento último e sua própria origem. Para poder assumir o significado da própria época a questão é, portanto, chegar à própria mitologia individual, no ponto em que ela consegue identificar-se com a mitologia universal. A dificuldade está em liberar-se dos fatos estranhos, dos gestos inúteis: fatos e gestos que poluem a arte usual de nossos dias, e que por vezes são tão evidenciados que chegam ao ponto de se transformar em emblemas de modos artísticos. O crivo que permite tal separação entre o autêntico e a escória, que nos leva a descobrir, em uma sequencia incompreensível e irracional de imagens, um complexo de significados coerentes e ordenado é o processo de autoanálise. É através dele que nos reconectamos a nossas origens, eliminando todos os gestos inúteis, tudo aquilo que em nós é pessoal e literário no pior sentido da palavra: recordações nebulosas da infância, sentimentalismos, impressões, construções intencionais, preocupações pictóricas, simbólicas e descritivas, falsas angústias, fatos inconscientes que não afloram à superfície, a imensa iluminção de sábado a noite, a repetição contínua em sentido hedonista de descobertas exauridas – tudo isso deve ser eliminado. Através desse processo de eliminação, o originário humanamente atingível vem manifestar-se, assumindo a forma de imagens que são nossas imagens primeiras, nossos “totens”, nossos e dos autores e espectadores, pois são as variações historicamente determinadas dos mitologemas primordiais (mitologia individual e mitologia universal identificam-se). Tudo deve ser sacrificado a essa possibilidade de descoberta, a essa necessidade de assumir os próprios gestos. A própria concepção habitual de quadro deve ser abandonada; o espaço-superfície só interessa ao processo auto-analítico como “espaço de liberdade”. E também não deve preocupar-nos a coerência estilística, pois nossa única preocupação possível é a pesquisa contínua, a contínua auto-análise, com a qual, apenas, podemos chegar a fundar morfemas “reconhecíveis” por todos no âmbito de nossa civilização. Manifesto do artista italiano Piero Manzoni (1933-1963), extraído da obra Escritos de artistas: anos 60/70 (Jorge Zahar, 2006), organizado por Gloria Ferreira e Cecília Cotrim.

IGITUR – [...] Este conto se endereça à Inteligência do leitor que põe as coisas em cena, ela mesma. [...] Certamente subsiste uma presença de Meia-noite. A hora não despareceu por um espelho, não fugiu em tapeçarias, evocando uma mobília por sua vacante sonoridade. [...] E da Meia-Noite permanece a presença na visão de uma câmara do tempo onde a misteriosa mobília para um vago frêmito de pensamento, luminosa quebra do retorno dessas ondas e de seu alargamento primeiro, enquanto se imobiliza (num movente limite), o lugar anterior da queda da hora numa calma narcótica de eu puro longamente sonhado [...] Desta vez a hora não cai mais fora de mim, para tornar pesado o tempo refugiado nas cortinas, nem, quando eu lhe [o] imploro, fugir pelo espelho, é em mim que ela cai acordando esta consciência de mim pela lembrança, ela recria meu ser e me devolve a sensação do que tenho que fazer. [...] Pareceu-me ouvir o som especial de uma Meia-noite. A hora é [ela?] O que lança o relógio não foi, indefinido, encher as cortinas ou se perder pela fuga de um espelho, deixando-me sempre exterior [a ela.] Não, ao som muito certeiro de uma Meia-noite, reconheci primeiro que o instante era aqui e, como um único instante pode ser [...], e me lembro de mim mesmo. [...] Meu pensamento foi portanto recriado; mas e eu, tê-lo-ei sido? Sim, sinto que esse tempo versado em mim me devolve este eu, e vejo-me semelhante à onda de um narcótico tranquilo cujos círculos vibratórios vão e vem, fazendo um limite infinito que não atinge a calma do meio. [...] E antes de tudo esta inteligência deve voltar-se para o Presente. [...] Trechos extraídos da obra Igitur ou A loucura de Elbehnon (Nova Fronteira, 1985), do poeta e crítico literário francês Stéphane Mallarmé (1842-1898). Veja mais aqui, aqui e aqui.

TRÊS POEMASAPRESENTAÇÃO - Dêem-me licença. Vim cá pagar / Uma dívida de saudade e de amor. / E como a saudade e o amor são amigos da cantiga / Passem-me um violão: quero cantar! / Sim, cantar. Nesse toada nossa: / Ora triste, ora alegre… / Consoante o coração mandar!... / Quem eu sou? Um filho de San Vicente. / Nascido, criado, lá na Ponta da Praia. / Lá onde o mar se espreguiça debaixo dos botes, / Como a barra duma saia. / O que eu quero? Cantar a minha terra! / Acompanhá-la na sua dor; / na nobreza da sua alma; / na pobreza da sua vida! / Dizer-lhe na hora da despedida: / Eis o meu corpo: estruma o teu chão! / Eis o meu sangue: rega o teu milho! / Irmão: eis o teu irmão! / Mãe: eis o teu filho!.. PARA FRENTE É QUE É O CAMINHO - Escuta. / Eu não sou daqueles / que andam a rimar amor com flor, / nem daqueles que andam a procurar / como peixe na rede, / um buraco para fugir. / Ideia de embarcar / nunca me passou pela cabeça. / Nunca gostei de andar depressa, / Nem de arrepiar caminho. / Se é para ir viver vida de galinha choca / em terras aonde o sol / vê-mo-lo só aos bocadinhos, / se é para ir sentir o pão amargar-me na boca, / na terra dos mandingas e dos landins. / Antes de ficar por cá a gozar deste mar / E deste céu. / Não, compadre, não vou na troca! / Para frente é que é o caminho!... DIANTE DO MAR DE SAN VICENTE - Coitados daqueles / que não quiseram ouvir mar, e foram / para terra longe, / perder a lembrança deste sol, / e a aprender estórias / que ninguém quer contar. / Coitado daqueles!... / Mas cada um deles / levou, na concha do ouvido, / a voz da tua ressaca, mar, / para os guiar, / como o tino guia a pomba, / na hora de voltar. / Eis-me diante de ti, mar, /— filho diante do pai — / a querer acatar a tua palavra / e ouvir os teus conselhos. / Eis-me diante de ti, mar, / pedaço de retalho / vindo a boiar na ribeira / esvaziar a impureza que catei no mundo. / A querer ir na enxurrada de lama a cascalho   / que hás-de voltar a arremessar nestas bordeiras / juntamente um dia com a areia e o limo do teu fundo. Poemas do poeta cabo-verdiano Sérgio Frusoni (1901-1975). Veja mais aqui.

A ARTE DE TRACEY EMIN
A arte da artista inglesa Tracey Emin.

AGENDA
O livro (Ab)sinto de Madalena Zaccara & muito mais na Agenda aqui.
&
A saga do padre Bidião aqui e aqui.
&
Políticas em debate, A dialética de Antonio Gramsci, As experiências de John Hagelin, o pensamento de Comenius, O homo ludens de Johan Huizinga, Diálogos de Reginaldo Oliveira & a arte de Nicomedes Gómez aqui.


MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

    Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do vio...