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domingo, novembro 23, 2025

CONCEIÇÃO EVARISTO, PIEDAD BONNETT, ANITA PRESTES & ARTE AFRO NA ESCOLA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de J. Brahms: Symphony n.4 in E minor Op. 98 (Teatro B32 -SP, 2025) & Mozart: Piano Concerto n.23, K. 488 (Anfiteatro Camargo Guarnieri USP, 2023), com a SP Chamber Orchestra, sob a regência da maestra e pianista Giovanna Elias.

 

Fábula em ata: o doce com gosto de guarda-chuva velho no paladar... - Quando padre Quiba pisou pela primeira vez o chão de Alagoinhanduba, logo foi embalado por uma revelação feita visagem que julgou premonitória: teve a convicção de que ali estava o local para sua ascensão aos céus. Ficou inebriado ao visualizar claramente seu próprio nome inscrito na hagiografia celestial, como um recipiendário escolhido e santificado pela hagiologia sagrada, no panteão da hierarquia católica. O devaneio era mais que real e via-se nitidamente ocupando a santa ceia, ao lado direito de Deus e à esquerda da santa Maria, com Jesus do outro lado. Impava de satisfação ao prever ali o monsenhor que seria além de protonotário apostólico: o prelado de honra de sua santidade, ou até mesmo capelão, ou quem sabe cônego, realizando o sonho de ser um presbítero que logo chegaria a vigário-geral, alcançaria o episcopado para posar de bispo numa diocese para chamar de sua; e dela galgar para arcebispo e ser um primaz, um patriarca e cardeal, até se tornar: o papa Quiba I, o dono da porratoda do clero. Eita! Chega ofegava de empáfia, levitando na quimera de realizar prodígios de repartir bênçãos e fabulosas riquezas entre todos. Não previa ele, evidentemente, catombos pelo caminho, claro. E logo o primeiro: foi surpreendido já na chegada pela recepção calorosa da irmã Eufêmia. Vixe! Um despropósito: deu-lhe na hora um arrepio de ficar paralisado diante daqueles olhos graúdos mimosos, aqueles lábios formosos naquela boca bem talhada, a pele sedosa, a fala mansa, minha nossa! Cruz-credo! Viu-se tomado por um prurido que lhe subiu pelas pernas e explodiu numa agonia pélvica incontida. Valha-me, Deus! Que é que é isso? Viagem longa, dissimulou; mas por dentro: Isso é um pedaço de mau caminho, valei-me! Julgara coisa de mil demônios num só ser a consumi-lo de uma sarna da moléstia. Recuperou-se do mal estar e, com um pé na frente e outro atrás, desconfiado e aos tropicões, ele foi levado pela generosíssima sóror à casa paroquial, local em que era aguardado por séquito de fiéis pendurados por todo ambiente, com regabofe suntuoso e festivo, de vivas e salves. Foi surpreendido e vibrava porque tudo aquilo convalidava sua fantasia, tudo a favor e se enchia de ar, levando corda com os aplausos e louvações. Na hora do discurso, ele estava tão eufórico – não era pra menos, sabia, havia chegada a sua vez! -, ao abrir a boca para abafar idolatrado e segurando o microfone na maior pregação, tinha tanto pra dizer entusiasmado e repetiu seu nome diversas vezes, Quiba Quiou, e engasgou-se, enrolou a língua, arregalou os olhos e quase aos gritos de tão arrebatado, despencou de vez aos prantos: Nunca fui tão bem tratado na minha vida! Óóóóóóóó! Só se recompôs disso uns cinco ou seis meses depois, a ficha foi caindo e tomou pé da situação ao tombar num monte de quebra-molas, um em cima do outro, tome catabi. Danou-se! Ih, a coisa começava a catingar na trepidação. Partiu ineivado aos solavancos e, como não era lá muito achegado a monges e frades, fossem beneditinos, dominicanos, jerônimos ou mesmo basilianos, muito menos com franciscanos, salesianos ou scalabrinianos, deu logo um chega-pra-lá! Pronto, faxina feita! Menos um. Seu negócio mesmo era com as freiras e seria a partir delas que faria dali uma cidade cristã por excelência, aspirando domínio total sobre os fiéis e, assim, o levariam, indubitavelmente, à redenção da glória venerada. Procurou intimidade com elas, quando deparou com outro óbice: Quem é esse? Ah, esse é o nosso Bidião, o coroinha – Consigo repugnou: Ah, o cheleléu das freiras! Ô cabra de pêia! Gostou disso não: Isso é um desaforo! E com o tempo teve justificada sua antipatia, tendo de engolir indigestos ossos, caroços, amargores, purgantes e pedras inchadas de tão repugnantes, tudo atravessado goela abaixo. A coisa começou mesmo de véspera e foi tangendo tudo pras colisões que sucederam com o sacristão. De primeira: As poltronas da Marocas - A vida imita a arte! Logo o auxiliar que já não era lá bem quisto que se diga, passou a ser tratado por hagiômaco, quando não néscio ou parvo: Isso é um desgraçado! Nem foram superadas as primeiras intrigas, um novo escarcéu medonho inchou de mesmo: o padroeiro da cidade! Isso é um vitupério! E o pároco partiu pra cima do assessor, quando outro estouro estilhaçou e não conseguiu segurar a espoletada: Os milagres de Gideão! Isso é embuste do anticristo! Mas a coisa pegou de juntar gente pro fuxico, da bola dele murchar de tanto se espremer: Que asco! Mal teve fôlego para se restabelecer direito e outra cipoada lascou fedendo: a hagiomaquia do Zebedeu! Será o Benedito? Foi o ponto alto e fedeu, aí: fodeu tudo! É a besta-fera! Bastava ouvir alguém mencionar ou ele mesmo dar de cara com o nome de Bidião, que tinha logo um troço incontrolável e se danava a dar logo um sinal quiasmático de desaprovação: Esse abominável! E agitava o bastão inseparável que carregava consigo, o Calígula, prometendo pisas bem dadas nas costelas do malcriado: Vai ver! A coisa chegou ao ponto máximo na temperatura, quando soube que falavam da burrinha que ele arrastava pronde fosse: diziam que era um jumento. Como? Aí enfureceu-se de quase revolver-se dentro da batina, movendo céus e infernos, vociferando: Vou capar esse safado e excomungá-lo de vez! Oxe! As irmãs caíram em pânico e acharam por bem poupar o afilhado: providenciaram traslado e manutenção eterna longe dali. Cadê-lo? Quem? O salafrário? Alistou-se no serviço militar. Ainda pego aquele fi-duma-égua, ah, se pego! Esse esconjurado ainda me paga! O seu lugar está garantido nos quintos dos infernos, cheleléu! Benzodeus! Pax tecum! Aí as pinguins se perfilaram clementes ao seu redor e, para acalmá-lo encheram-no de ocupações que o fizeram sonhar de novo, como no primeiro dia que ali chegou, esquecendo os percalços que desnortearam até então. Com as sugestivas contribuições delas, logo ele retomou com afinco os seus propósitos superiores. Vexou-se cismado, pois, dizia ver as inteiras coisas ocultas e, de antemão, cheio-de-não-me-digas, estreitou convívio às risadagens com as beatas mais achegadas e outras aliadas pro seu plantel. E como passou a ver o capeta por todo canto e coisas, botou gosto ruim nas saias e decotes das moças e senhoras, passou a visitar rearrumando enfermos e apenados, mudou o fardamento das escolas, definiu o horário e o montante das esmolas, escolhia os pretendentes e maridos pras solteiras e viúvas desimpedidas, organizava a fila de cegos, aleijados, enfermos, precisados e até ufanos abastados para receberem a hóstia consagrada; determinou a criação dum conselho de orações perenes de manhã, de tarde e de noite na igreja, pelas casas, rua afora, todo mundo no rosário, como um apostolado para quem comprasse títulos de sócios do santuário ou adquirentes dos cargos e das indulgências dispostas para abrir as portas do paraíso, enquanto aplicava benzeduras, penitências, cânticos e orações; definia quem seria admitido para integrar os peregrinos de santas e santos – Quem der mais, tá dentro! -, a hora e o preço dos batizados, o dia das novenas, o sacramento dos casórios, as procissões, os benditos diários, as confissões regulares – aliás, as confissões é que eram seu álibi, sabia, cavilava. Suas pregações levaram-no a realizar procissões meia-noite em ponto, saindo da capela do cemitério e percorrendo todos os logradouros da localidade, findando ao amanhecer do dia, prum brevíssimo descanso, mera cochilada  e retomava probo logo todo santo dia, de segunda a domingo, ininterruptamente, sob argumento ameaçador: O céu é inacessível! Prometia o purgatório: O peso do pecado é enorme. Só entraria no céu quem desse uma joia e comprasse não sei quantos frascos de água-benta, um tanto de litros da garrafada, caixas de licores e vinhos, crucifixos, broches, amuletos e brebotes vários, tudo por ele fabricado para salvação de sua gente e manutenção da paróquia. Afora isso, vendia e trocava de tudo, quando não chantageava uma ou outro empancando suas resoluções. E vangloriava-se do tanto que fez e mais fará para não sei quantos moribundos, quantas almas pecadoras veladas foram e seriam ainda salvas por sua intervenção, e se metia no ofício das trevas, maldizendo de gente despeitada - catimbozeiros, xangozeiros, crente evangélico, espírita e falsos profetas, arreda escoria funesta do fim do mundo! E providenciava as quatro festas do ano e que duravam meses, desde a Folia de Reis até o pastoril do Natal pro Ano Novo: Aqui é pra louvar Deus todo dia e o ano todo! E virava a noite insone a rondar pelos quatro cantos da cidade com suas visitas inicialmente bem-vindas e, com o tempo, passaram a inoportunas no café da manhã, no lanche das 10, no almoço, nos petiscos da tarde, na ceia e na hora de pegar no sono, lá estava ele suspendendo casais no vucovuco, com o sermão de que sexo era só pra reprodução e, armado do crucifixo afugentava o demônio e exigia mil rezas de joelhos e ele ali conferindo o cumprimento inarredável: - Esse homem num dorme não é? Fala baixo, ele vive no ar direto feito cantiga de grilo! Santa paciência! Tornou-se assim vigilante da fé fazendo serão todo dia, sempre de plantão e, invariavelmente, de sopetão flagrava deslizes, beijos insolentes, mãos bobas no cós das saias, agarramentos afetados e inferninhos que combatia todo diverso e ardido da fúria. E se achasse uma alma doida, sacudia água benta e aplicava exorcismo persignando-se a obrigar todos os presentes arrodearem a endemoninhada para acuá-la com remelexos de varar a madrugada por uns três dias encarreados e sem bater pestana. Quando não era isso e, como o cemitério era limítrofe com o baixo meretrício, convocava todos numa vigília diuturna barrando os que quisessem passar pros chambregos pecaminosos ou quem ousasse pular o muro pego no flagra. E mais: por conta de seu inexorável capricho, ganhou vasta titulatura antipática nos cochichos secretos dos fiéis: Empata-foda, Boca-de-ponche, Trinca-colhão, Missionário entrão, Má-notícia, Sá-porra-afoita, e como invariavelmente inchava com uma prisão de ventre eterna, vez em sempre aliviava-se soltando uns peidinhos nababescos, de deixar todo mundo inturido por anos: Eita, cu-fedorento da praga! Isso pega, cagão-besta-fera! Ninguém aguentava mais e ele, todo adiantado, nem se dava conta de que caía nas graças e desgraças do povo, de quase ninguém mesmo nem mais se lixar pra sua presença folclórica, cortando caminho, evitando-o, dele beiço dobrado, bicudo, escorado choramiando: Ih, acabou-se o que era doce, parece! Até mais ver.

 

Duília de Mello: Começamos a ver o Universo como nunca tínhamos visto antes... O futuro é agora!... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Anne Rice: Temos medo do que nos faz diferentes... O mundo não precisa de mais mediocridade ou apostas protegidas... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Charlaine Harris: Há anos vivo à beira da loucura. Sou rápida e precisa em identificar instabilidades em outras pessoas... Sou autodidata e aprendi através de livros de gênero... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DO FOGO QUE EM MIM ARDE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Sim, eu trago o fogo, \ o outro, \ não aquele que te apraz. \ Ele queima sim, \ é chama voraz \ que derrete o bivo de teu pincel \ incendiando até às cinzas \ O desejo-desenho que fazes de mim. \ Sim, eu trago o fogo, \ o outro, \ aquele que me faz, \ e que molda a dura pena \ de minha escrita. \ é este o fogo, \ o meu, o que me arde \ e cunha a minha face \ na letra desenho \ do autorretrato meu.

Poema da escritora e linguista Conceição Evaristo (Maria da Conceição Evaristo de Brito), que é autora dos romances: Ponciá Vicêncio (2003), Becos da Memória (2006) e Canção para Ninar Menino Grande (2022) e do livro Poemas da recordação e outros movimentos (2017), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

O QUE FAZER COM OS PEDAÇOS... - [...] Às vezes, a dor é elétrica. Como um choque que atravessa a carne. "Quanto, de zero a dez?", pergunta o médico em todas as consultas. "Às vezes cinco, às vezes sete, às vezes nove", ela responde, mas o que ela realmente quer dizer é nunca um, nunca dois, nunca menos que cinco. Sempre dor. Outras vezes, a dor é ardente, aguda. Como um prego quente. Ou profunda, como uma espátula raspando o osso. Mas ela parou de reclamar há muito tempo. Porque reclamar exige ouvidos, palavras, compaixão. E, em vez disso, encontra apenas silêncio, um gesto de irritação, uma acusação. Quando a dor é insuportável ou constante, ela nos isola. [...] Porque uma história — qualquer história — é algo que sempre vence o vazio, que cria um vínculo ou sustenta aquele que ainda existe. [...] Porque aos vinte anos, uma biblioteca é uma ilusão, aos quarenta um lugar de realização, e aos sessenta um lembrete constante de que a vida não será longa o suficiente para ler todos os livros. [...] Sim. Sempre há um "sim". Quando fechamos uma porta, quando nos viramos depois de dizer adeus, quando terminamos um trabalho que levou horas, meses ou anos, quando uma cortina se fecha. [...]. Trechos extraídos da obra Qué hacer con estos pedazos (Alfaguara, 2021), da poeta, professora e dramaturga colombiana Piedad Bonnett, autora de obras tais como Lo que no tiene nombre (2013) e Explicaciones no pedidas (2011). Veja mais aquí & aquí.

 

A LUTA CONTRA O CAPITALISMO - [...] A luta é longa e difícil. Não acho que o que está acontecendo hoje é repetição do passado. [...] A luta é longa, feita de vitórias e derrotas. Para ter vitória final, é demorado, complicado, tem muitos fatores, então eu acho que não foi nada em vão. Tudo isso são forças se acumulando dentro disso tudo, acontecendo derrotas também, não só a vitória. Por isso, às vezes, tem períodos longos que são de derrota, realmente. [...] A gente vê aí a polarização econômica, cada vez mais grupos trilionários acumulam a maior parte da riqueza produzida no mundo e as grandes massas trabalhadoras com dificuldades crescentes. [...] O capitalismo está em crise econômica, em primeiro lugar, mas não só. Crise política, social, quer dizer, as coisas não funcionam mais como funcionavam. Isso leva a uma desigualdade social crescente. São os trilionários acumulando riqueza gigantesca e as grandes massas populares cada vez com uma parcela reduzida do que se gera no mundo. [...] A burguesia mundial e a brasileira pagam muito bem seus intelectuais para produzir uma história falsificada. Isso não é só no Brasil, é no mundo inteiro. Isso não é só no Brasil, é no mundo inteiro. Quer dizer, a história oficial, que inclusive é apresentada às crianças nas escolas, uma grande parte é falsificação [...]. Trecho da entrevista (A União, 2025), concedida pela química, professora e historiadora Anita Prestes (Anita Leocádia Benário Prestes), que noutra entrevista (PCB, 2015), sobre Getúlio Vargas ela expressou: [...] Uns endeusam, outros atacam. A verdade é que o Getúlio Vargas foi uma figura muito complexa. Ocupou uma posição importante na história do Brasil do século XX e que deve ser avaliada nas suas condições. Ele era representante da elite brasileira. Entrou para a política porque fazia parte da oligarquia agrária do Rio Grande do Sul. Foi muito influenciado na década de 1930 por ideologias de caráter autoritário e fascista que estavam em ascensão no mundo. E, claro, foi o que serviu de base para atingir os objetivos propostos pelo grupo que ele representava. No entanto, a cabeça pensante do grupo era o general Pedro Aurélio de Góes Monteiro, criador da chamada doutrina Góes Monteiro, hoje pouco conhecida. O objetivo da doutrina era a reconstrução do Brasil a partir de um estado autoritário centralizador e corporativista. E foi o que colocaram em prática com a Revolução de 1930, chegando ao auge com o Estado Novo. Uma das promessas da doutrina era fazer com que o Estado desse um salto no processo de industrialização. Até 1930, tínhamos um país com indústrias leves. A partir dessa política, o Brasil começou a investir em indústrias pesadas, o que era muito importante para a defesa nacional. O Góes Monteiro viu isso também como um instrumento de combate às manifestações. Para criar um cenário favorável à industrialização, o governo estabeleceu um arrocho salarial e uma série de medidas prejudiciais a maior parte da população e benéfica ao desenvolvimento capitalista. Houve resistência dos setores populares e as insatisfações foram combatidas com bastante repressão. [...]. É autora dos livros Os militares e a Reação Republicana: As Origens do Tenentismo (1994), A Coluna Prestes (1997), Tenentismo pós-30: continuidade ou ruptura? (1999), Anos Tormentosos (2002), Olga Benário Prestes - uma comunista nos arquivos da Gestapo (2017) e Viver é tomar partido: memórias (2019), entre outros.

 

ARTE DA CONSCIÊNCIA NEGRA NA ESCOLA

Os alunos do 9º B e 8º C da Escola Caic, sob a supervisão da professora Fátima Portela, e os alunos do 7º ano A, da Escola Ivonete Ferreira Lins, sob orientação da professora Luciana Girlan, realizaram atividades de Arte Afro, por ocasião das comemorações do Dia da Consciência Negra, em Palmares (PE). Foram atividades de pinturas em telha, confecção de máscaras e pequenos quadros com a temática. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.



 


domingo, setembro 21, 2025

MARY OLIVER, TATIANA DE ROSNAY, BRENDA MILNER, OVOS DA RAPOSA & CONTEMPLA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Scriabin: Sinfonia nº 2 - The Poem Of Ecstasy (2023), Danielpour: Passion of Yeshua (2020), Concerto para Piano 'Spiritualist'; Poems Of Life; Glacier; Rush (2019) e Mr. Tambourine Man: Seven Poems of Bob Dylan – John Corigliano (2009), da maestrina estadunidense JoAnn Falletta.

 

A pedra da tarde mormaçada ou a princesa & o plebeu... - Naquela tarde domingueira Virginácia, ou melhor, Gigi queria ser a princesa Jenny, um sonho alentado desde o dia do repentino noivado e um inusual presente: um livro. Isso? É uma linda história de amor. Você é comunista? Não. Mas? Ora, é história de uma princesa de verdade e um plebeu filósofo – quase como nós dois -, foram escorraçados e se amaram até a morte. Ih, não venha com coisas bizarras pra minha banda, sou achegada não, viu? Ah, meu amor! Ela resistiu, mas logo dissipou sua intransigência vencida pelos agradinhos e ajeitados, findaram aninhados. Galante vira-lata cheio das pregas, ele logo se apaixonou por ela a ponto de ficar girando em torno de si, aos rodopios. Tá doido? Não sabia, coitada, era a forma dele afastar os seus 600 diabos e todos os demônios, para mantê-la íntegra ao decoro. Vixe! Aqui tem história. E tinha mesmo. Prest’enção! Ela lídima nívea mimada, uma Lulu da Pomerânia, menina dos olhos paternos, agora tomada pelas delícias de Cápua, aos devaneios da felicidade. De súbito foi assaltada pelo entusiasmo do casal Shih Tzu, os seus padrinhos para a cerimônia, com uma torrente ruidosa de simpatia. Logo também envolvida pelo eufórico par Chow Chow, paraninfos do noivo, acenando pro Monge de batina, lá no altar em posição Padmasana – a Postura do Lótus, enquanto aguardavam convidado ilustre para a solenidade: o Padre Bidião. Não demorou muito a saudação da distinta dupla chihuahua, Peanut e Cashew, vindos do Texas acompanhados de extensa comitiva, exclusivamente para prestigiarem o desponsório. Entre os convivas estava o excitado duo Beagle, na convocação de todos para o compadrio na divertida pulada de fogueira. Um Golden Retriever tocou fogo e o Akita Inu gritou: Quem quer ser o primeiro? Tiraram no ímpar ou par, e o Pastor Belga Groenendael foi o primeiro a saltar. Depois pinotou o Dálmata desajeitado, o Yorkshire Terrier seguiu atrás, juntamente com o Bulldog que refugou da pulada e o Poodle que se disse indisposto. Preferiram estes na acolhida aos recém chegados Lhasa Apso e Pug, dando conta que o Dachshund delatou o comparecimento de celebridades famosíssimas por ali. Mesmo? O Rottweiler logo destacou a presença do leal Hachiko, aquele mesmo que esperou o dono falecido por anos na estação de comboio. Ao lado, o husky Balto ostentava sua bengala e rica indumentária, contava do que foi ter liderado uma equipe na entrega de cura para a epidemia. Que xique! Olha lá os astronautas Laika, Belka e Strelka! Vê ali o terrier Stubby, herói da primeira guerra! Minha nossa! Enquanto uns saltavam, os que já haviam pulado passaram para a corrida do anel. Entre dobradas ovações e simpáticas aclamações, os partícipes logo formaram um círculo, definiram o passador e escolheram quem ia adivinhar. O escolhido fechou os olhos e ao se passar a argola veio o sinal: Adivinhe agora com quem está o anel! Justo na ocasião em que fora anunciada a atração do momento: o condecorado viajante vira-lata Oscar! Também deu as caras o célebre labrador Rupee, que papeava com a bela yorkshire Smoky, arrodeados pelos não menos notáveis Chips, o border collie Pickles, o pug Pongo da Donna Tartt, o Ulisses da Clarice Lispector, o K do Kafka, a Pinka da Virginia Woolf, a Baleia do Graciliano Ramos, o Biruta da Lygia Fagundes Telles, o Bruno Linchtenstein e o Zig do Rubem Braga, e o Firififi do Dalton Trevisan. Uma roda de eminentes, hem? Mais abrilhantaram o pagode o glamour de Misty da Dorothy Parker, o da Cegueira e o do Cerco de Lisboa do Saramago, o Pingo-de-ouro do Guimarães Rosa, Tusca de Marina Colasanti, o mascote Bi que driblou Garrincha, o arqueólogo Robot, a salva-vidas Safira, até o Rhodesian ridgeback – o famoso cheira-cu leão-da-rodésia caçando o rei da selva. Por aqui? Pois é. O faro falhou, errou o caminho e resolveu entrar no fuzuê. Depois se juntaram a todo tipo de perros, sabujos, galgos, rafeiros e guenzos. Menos Kratin que se perdera na festa do céu. A patuscada foi muito badalada, noticiada em todas as colunas sociais do mundo. Nada mais concorrido, pois, mais chegaram de parecer não acabar mais, todos sobrecarregados de muitas congratulações. Foi quando o noivo deu sinal de vida, logo se dirigindo à sogra, com um buquê de flores e graciosamente galanteou: Minha noiva é muito linda, tem a quem puxar. De fato: bastou avistar a moça que seu coração imediatamente suspirou. Tonou-se poeta de última hora para a mais bela que havia na face da terra, segundo seus esbugalhados olhos. E logo se enamorou de fazer plantão à porta dela. Providente, atencioso, prestativo. Até que ela cedeu e se enrabicharam. Quando ele falou namoro a ela, a coitada engasgou-se, dele ter de fazer uso da Manobra de Helmlich e toda sua experiência de paramédico. Salvou-lhe a vida. Quem era esse herói? (Suspense! BG: Introdução da Sinfonia do Destino de Beethoven). O pároco esperado logo chegara, acompanhado de um séquito de sacerdotisas bidiônicas que logo se ocuparam em preparar a noiva para o conúbio. O sacerdote despertou o Monge, abraçaram-se efusivamente e passaram a saudar quem aparecesse. Depois dos cumprimentos, acenaram pro maestro e todo mundo passou a ser embalado pelo trio pé-de-serra do MarcAntonho - que, com o seu trio de pequineses amestrados, era chute no bombo, dedo na sanfona arreganhando o fole e amolegado no tilingo-tingo-lingo-tingo no triângulo. Eita, que esse trupé é ineivado todo! No meio da folia toda, deu-se a chegada da noiva acompanhada pelo pai e na mais requintada elegância - e o trio atacou castigando na marcha nupcial xoteada. Era chegada a hora. Com um estrondo demorado parou o som e Padre Bidião convocou a todos para a hierogamia: Adeste Fideles! O Monge, ao seu lado, voltou a meditar, quando ele fez menção solene ao microfone: Ad bene placitum! Oxe! Nessa hora caiu o maior toró. Valei-me! O vigário foi ao topo do altar e, diante dos esponsais defrontados, nas bençãos do deus Xolotl, despiu-se seguido por todas as pítias nuas ajoelhadas. E tome chuvada! Era hora do ritual e a consorte ajeitou-se sentando-se sobre o ventre do prometido, passando os braços por seu pescoço – fez como as Adoradoras de Amon, em homenagem às graças dos muitos seios da corpulenta deusa etrusca da Fescênia, Tellus -, e recitou pra ele: Somos receptáculos no rito da Sacralização da Vida. Ele retribuiu com um beijo afetuoso em seus lábios, disposto a se sacrificar por ela na libação da Fordícia. Seguindo toda ritualística, o ápice da liturgia foi com o momento em que ambos haviam de selar o juramento: atravessarem juntos o seu Canal da Mancha. Sim, E tome temporal! O clérigo então sentenciou: Jacinto Tobi e Virginácia Tetéia, eu, pelos poderes a mim conferido, os declaro esposos por toda duração deste enlace! Agora pode beijar a noiva! Viva! E, afinal, estiou: Alá seja louvado! E se dirigiram todos para a inauguração do monumento providenciado pelos sogros: uma enorme escultura feita de pedra branca para selar a felicidade dos cônjuges. Houve uma salva de tiros de rifle, foguetões e vivas. Os cantadores louvaram os pretendentes, anunciando que já era a hora da quadrilha. MarcAntonho deu o grito de guerra pra bicharada: Viva Hermeto, Sereiarei! Às lapadas no festejo. Como manda o figurino, o eclesiástico perfilou-se ao lado do Monge e gritaram em uníssono: En avant tous! Todos responderam: Alavantu! En arrière! E todos: Anarriê! MarcAntonho agarra o microfone e sapeca tonitruante: O furor da contradança \ onde todos nós se vê \ já se escuta a sanfoninha \ já se sabe o balancê. E lá iam todos ensaiando no balanço 6/8 e 2/4. Os pares perfilados de braços dados e os noivos defronte da fila, era o caminho da festa e eles no idílio de Dáfnis e Cloé. Anarriê! E era como se fossem ali Endimião ao lado de Selene. As damas cumprimentavam os cavalheiros – eram eles Eurídice e Orfeu. Saudação geral e foram pro balancê! E gingavam feito Brunehilde e Gunther, dele pra ela: À primeira vez que lhe vi... ah, sentiam-se: Florentino & Fermina da Cólera de Garcia Márquez. MarcAntonho gritou logo: Vamos dançar fandango no chumbregado! Olha o túnel! – e atravessaram como se fossem Filemon e Baucis. Olha o grande passeio! – e passearam como se fossem Paulo e Virginia. Damas ao centro! Aí começou o tititi delas e soube, então, da vida dupla dele... Como é que é? Coroa de rosas! Descoroar! Damas procuram seus cavalheiros e qual enamorados Tristão e Isolda, ela sussurrou: Hei de escrever teu nome \ na folha de bananeira \ és o moço mais bonito \ da província brasileira. Caracol! Caminho da roça e eles: Alfeu & Aretusa, dele pra ela: Sou o herói pirogenético, o senhor do fogo, e quero com você enfrentar tudo, como Artur e Isadora, da Pedra do meio dia, de Bráulio Tavares. Olha a chuva! – e se protegeram como se fossem Hero e Leandro. Já passou! Aaaah! – e se sentiam Pigmalião e Galateia. Olha a cobra! Deu-se um pandemônio. Calma gente, já mataram! Aaaah! – e folgaram como Kremilda e Sigefredo. A ponte quebrou! E agora? Meia volta! – e voltaram como Píramo e Tisbe. Já consertou! E dançavam enlevados, dele pra ela: Você é a minha Thêmis e já vejo nossas filhas: Irene, Eunomia e Dirce, brincando no terreiro. Agora é a vez do galope! Agitê! Os noivos saíam de mãos dadas, todos acompanhavam seus passos. Preparar para o viva, viva os noivos: viva! Viva os convidados: viva! Preparar para o grande baile! Dancê – e foram embalados pela Valsinha de Vinicius&Chico. Coisa quase interminável. Lá pras tantas, ao final rolou de tudo: pandeirinha, dança da saia, rala o côco mexe a canjica e outras que só pararam no grito de ordem: Agora, a despedida! Padre Bidião fez a vez do Lázaro santo e abençoou os festejos. Muitos salves e vivas, quem fez promessa teve sua graça na hora. Quase anoitecia e era a hora do banquete, um suntuoso regabofe preparado por renomado Cordon Bleu, que foi trazido a peso de ouro para o luxuoso repasto. Só tem ração? Destamparam as panelas e a comida farta de montão. A mundiça voou em cima estraçalhando a farta refeição: galinha caipira, carne de porco e carneiro; feno e alfafa; batata-doce, cenoura, abobrinha, mandioca, inhame e cará. As verduras benéficas: couve, espinafre e brócolis, banana, pera e maçã, tudo de montão. E mais, pros convivas: a decoração estava um primor; enfeites, ração de todo tipo, petiscos e ossos, bifinhos, cremosos, biscoitos, bolos e chocolates, bebidas e molhos, E arrocharam nos adereços: tapetes, fraldas e banheiros, cones, farmácia para medicamentos, antipulgas e carrapatos, banho terapêutico, roupas cirúrgicas, colares elizabetanos, brinquedos, frisbees, mordedores, coleiras, guias e peitorais, perfumes e colônias, pentes, escovas e rasqueadeiras, lenços umedecidos, máquina de tosa e acessórios, eliminador de odores e desinfetantes, repelentes e atrativos, camas e cobertores, almofadas e colchonetes, casas e tocas, comedouros, bebedouros, jogo americano, mamadeiras, bolsas de transporte, carrinhos, cintos de segurança, cadeirinhas, portões, grades e escadas, canil, roupas, focinheiras e enforcadores, gaiolas e viveiros, criadeiras, aquários e beteiras, serragens e granulado. Era o paraíso! E enquanto todos se empanturravam com os comes & bebes, ela pensativa: só nesse dia soubera quem era mesmo aquele que havia se apossado do seu coração. Sim, aquele que chegara de supetão com um poema Coup de foudre, querendo casar a fim da força, às pressas como aquele da Irremediavelmente felizes, do Fernando Sabino - e mostrando o nome dela escrito no solado do sapato. Queria desposá-la e foi de fio a pavio com todos os rr e ss e um pé nas costas. Foi num vupe só! Só que ele tinha uma identidade secreta. E apesar de ser um imenso vira-lata, não só latia, farejava e balançava o rabo que não mais havia. Ele sabia de tudo, até filosofava estoicamente poético por se achar incumbido de tomar conta de tudo e do mundo todo, responsável vigilante, com seu quepe de sempre e um distintivo no peito. E ria da desgraça porque era bombeiro nos incêndios, salva-vidas nas praias, mecânico, eletricista, borracheiro, mais tivesse e aparecesse. Controlava as estações e quando o dia nublava cobrava a responsabilidade do Sol que logo fulgurava atendendo suas ordens. Supervisionava e onde houvesse injustiça agia como um super-herói na defesa das vítimas. Gerenciava a Lua e as estrelas, zelava pelo pacífico descanso noturno. Ordenava estiar a chuva torrencial, advertia o rio e, quando este ameaçava transbordar acabava com a festa da maré cheia limitando-lhe o avanço. Como via almas do outro mundo, botava os fantasmas nos conformes e desconfiava de vaticínio suspeitoso e funestas ameaças. Combatia qualquer situação de risco e perigos, desabamentos, perturbações, epidemias, atos de vandalismo e terrores; judicava pendengas e rixas, aviava pedidos e pendências, salvava suicidas, levava as crianças à escola e ensinava a elas a lição; ministrava os primeiros socorros nos acidentes, atravessava velhinhos nas esquinas, surpreendia o sono dos porteiros e vigias noturnos, limpava as ruas e calçadas, mantinha os parques e praças em ordem, examinava o desenvolvimento de plantas e árvores, o comportamento das pessoas e animais; inspecionava a temperatura, conferia as horas; passava em revista todos os moradores, vistoriava encontros conjugais e namoricos, monitorava o voo dos pássaros e insetos. Se o semáforo pifasse, ele mantinha o trânsito; se um ladrão surrupiasse algum transeunte, ele o capturava, levando-o à prisão, devolvendo os pertences à vítima; se algum bêbado trocasse as pernas e saísse da normalidade, ele o guiava até local seguro. Alguém adoecesse, ele providenciava ambulância e atendimento médico, organizava filas, admoestava passantes, enfim, um arsenal de competências e habilidades tão incomuns e reunidas num só ser. Assim mantinha sua identidade secreta e tudo corria normalmente. Ela pensava consigo: Como conviver com ser tão extraordinário? Entre elucubrações foi surpreendida com o padre Bidião, que presenteou ao casal uma lua de mel inesquecível: hóspedes da Caverna do Amor, na Cornualha, Inglaterra, convidados pelo anfitrião Gottfried von Strassburg. U-hu! Ao se despedirem anunciaram o Almoço da Boda para quando retornarem. Seguiram sob o manto de Vênus Afrodite aos rituais da corte de Citera. Antes, porém, ela o fez jurar que morreria talqualmente a princesa Jenny: aos beijos. E o amor fez a festa enquanto duraram apaixonados. Até mais ver.

 

Nicola Griffith: Ler é a porta de entrada para tantas coisas que torna possível que sete bilhões de pessoas vivam juntas em um planeta. A literatura é a grande guardiã extrassomática do nosso conhecimento sobre o que é ser humano. Ler nos eleva. Lemos para sermos a melhor versão de nós mesmos... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Laura Esquivel: Cada um de nós nasce com uma caixa de fósforos dentro de si, mas não conseguimos acendê-los sozinhos; assim como no experimento, precisamos de oxigênio e de uma vela para ajudar. Neste caso, o oxigênio, por exemplo, viria da respiração da pessoa que você ama; a vela poderia ser qualquer tipo de alimento, música, carinho, palavra ou som que gere a explosão que acende um dos fósforos... Veja mais aqui & aqui.

Eleanor Catton: O amor não pode ser reduzido a um catálogo de razões, e um catálogo de razões não pode ser reunido no amor... Uma mulher caída não tem futuro; um homem ressuscitado não tem passado... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

CONVITE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ah, você tem tempo \ para ficar \ um pouco \ longe da sua correria? \ e um dia muito importante \ para os pintassilgos \ que se reuniram \ num campo de cardos \ para uma batalha musical, \ para ver quem consegue cantar \ a nota mais alta \ ou a mais baixa, \ ou a mais expressiva das alegrias, \ ou a mais terna? \ Seus bicos fortes e rombudos \ bebem o ar \ enquanto eles se esforçam \ melodiosamente \ não por você \ e nem por mim \ e não por uma questão de vitória, \ mas por puro deleite e gratidão – \ acredite, dizem eles, \ é uma coisa séria \ apenas para estar vivo \ nesta manhã fresca \ neste mundo quebrado. \ Eu imploro a você, \ não passe \ sem parar \ para assistir a essa \ performance um tanto ridícula. \ Poderia significar alguma coisa. \ Poderia significar tudo. \ Poderia ser o que Rilke quis dizer quando escreveu: \ Você precisa mudar sua vida.

Poema extraído da obra A Thousand Mornings (Penguin Books, 2013), da premiada poeta estadunidense Mary Oliver (Mary Jane Oliver - 1935—2019).

 

OBSERVADORA DA CHUVA – [...] Quando a natureza se irritava não havia nada que o homem pudesse fazer. Absolutamente nada... [...] Começarei pela árvore. Porque tudo começa e termina com a árvore. A árvore é a mais alta. Foi plantada muito antes das outras. Não sei exatamente quantos anos tem. Talvez trezentos ou quatrocentos anos. É antiga e poderosa. Resistiu a tempestades terríveis, protegeu-se contra ventos desenfreados. Não tem medo. A árvore não é como as outras. Tem seu próprio ritmo. A primavera começa mais tarde para ela, enquanto todas as outras já estão florescendo. No final de abril, as novas folhas ovais brotam lentamente, apenas nos galhos superiores e do meio. Caso contrário, parece morta. Nodosa, cinzenta e murcha. Gosta de fingir que está morta. É assim que ela é inteligente. Então, de repente, como uma enorme explosão, todos os brotos florescem. A árvore triunfa com suas copas verde-claras. [...] Eu não conseguia entender a morte. Não sabia o que era. A única maneira de medi-la era pelo fato de não conseguir mais ouvir a risada do meu avô. [...]. Trechos extraídos da obra The Rain Watcher (Large Print Pr, 2020), da escritora francesa Tatiana de Rosnay, autora de obras como The Other Story (2013), The House I Loved (2011), A Secret Kept (2009) e  Sarah's Key (2006).

 

FAÇA O QUE GOSTA - [...] Se você está na carreira errada, não hesite em mudar. Eu poderia ser um professor de matemática medíocre no ensino médio hoje. [...] Comecei a realizar pesquisas no MNI e soube imediatamente que esse era o tipo de trabalho que eu queria seguir, independentemente das dificuldades práticas. [...]. Trechos da entrevista I'm still nosy, you know (The Neuro - Montreal Neurological Institute-Hospital, ), concedida pela neuropsicóloga canadense Brenda Milner, que contribuiu com sua pesquisa na área de neuropsicologia clínica, razão pela qual é considerada como a fundadora da neuropsicogia, tornando-se membro da Royal Society, em 1979. Veja mais aqui.

 

OS OVOS DA RAPOSA

A premiada série Os ovos da raposa foi escrita e dirigida por Valdir Oliveira, com produção da Cabra Quente Filmes e consultoria de 3 Brasis, contemplada com o prêmio Brasil de Todas as Telas, da Ancine. Trata-se de uma sátira política inspirada no anedotário popular do Nordeste brasileiro e que se desenrola na fictícia cidade de Bakatu. São 13 capítulos de 26 minutos de duração cada, totalizando 318 minutos de uma obra que foi rodada nas cidades de Paudalho, Igarassu e Recife. O autor é escritor, roteirista, diretor e jornalista, atua em diversas linguagens, inclusive teatro, cinema, televisão. Ele é autor de inúmeras peças teatrais encenadas em palcos do Recife, como também de livros publicados destinados ao público infanto-juvenil e adulto, com trabalhos exibidos na Rede Globo, Globo Nordeste, SBT e TV Brasil. É diretor e roteirista de telefilmes, como A Promessa de Jeremias (Globo, 1990) e do vídeo sobre a Sulanca (Fantástico, Globo), além das séries Santo Por Acaso, Cruzamentos Urbanos, do curta Tocaia Para Jacó, entre outros documentários. Veja mais  aqui.

&

CONTEMPLA

A exposição Contempla reúne 150 artistas visuais, fotógrafos e poetas na Galeria Mario Schenberg, do Centro Cultural da Funarte São Paulo. A abertura ocorrerá próximo dia 27 de setembro, com presença de artistas de diversos Estados, além de momento de Poesia e Performance com poetas presentes. O evento conta com curadoria geral de Isabela Simões, produção cultural de Augusto Herkenhoff e curadoria literária: Tchello d’Barros. A exposição ficará até 26 de outubro, de quarta a domingo, das 14 às 19h, a visitação é gratuita. Veja mais aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

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terça-feira, julho 13, 2021

PAULINA CHIZIANE, RÓMULO GALLEGOS, TERESINHA GONZAGA, BRENDA MARQUES PENA & IMERSÃO LATINA

 

 

TRÍPTICO DQP –- Da arte vida... Imagens: Arte do artista visual & poeta Tchello D’Barros, ao som do tema de Impressões Seresteiras, de Villa Lobos, com arranjo e adaptação para violão de Silvio Santisteban. - Geruzilda enviuvou ainda jovem, só lhe restava o filho que era os pés da doida: todo mundo aparecia com reclamações por conta das suas travessuras. Ao chamá-lo para a reprimenda, a cara mais lisa dele amolecia o coração dela. Até que a parentalha pegou pesado. Ora, o menino tinha os maus bofes do pai: Veja se não é, cagado e cuspido! A todo instante ela conferia: parecia mesmo que o defunto esculpia nele todas as maledicências. Ela entristeceu com isso: não havia nele nada dela, era incorrigível, puxava em tudo ao pai. Encostada na desolação do canto da casa, guardava o sono dele. Eis que aparece a madrinha, Gelcidália: Que é que há comadre? Ao tomar ciência de tudo, olhou pro afilhado, virou-se para ela e parecia copiar o ocorrido d’O escultor invisível, do escritor venezuelano Rómulo Gallegos (1884-1969): - Que coisa tão esquisita! – disse. – Você não reparou que esta criança tem duas caras? Uma quando está acordado: cara de mau; outra, quando está adormecida. Então, parece-se muito com você. Repare: é o seu vivo retrato quando era pequena. Aí ela animou-se: É mesmo, comadre? Ora se é, anime-se. Pelo menos; então, tem jeito num tem? Sossegue, é só um menino. E assim disse com aquele tom poético de Paulina Chiziane: A vida é como a água, nunca esquece o seu caminho. A água vai para o céu, mas volta a cair na terra. Vai para o subterrâneo, mas volta à superfície. A vida é um eterno ir e voltar. O corpo é apenas uma carcaça onde a alma constrói a sua morada... Pois é, a vida passa e ao mundo tudo se revela.

 


Ah, a vida imita a arte sempre... - Essa foi a primeira entre as colisões do Bidião com o padre Quiba. E se deu no dia em que a matriarca Maroca bateu as botas. Foi assim: certa manhã lá ia o menino de calças curtas e seboseira nas ventas, passando pela casarão da ricaça. Estranhou as portas abertas, pulou o muro, roubou umas pitangas e foi entrando casa adentro. Procurou dos empregados e deu com o lugar mais limpo. Ouviu um choramingado distante e seguiu procurando onde, bateu pra todo lado e seguiu escadaria acima, até o quarto suntuosíssimo da baronesa. Passou pela porta entreaberta e lá estava ela deitada na sua enorme cama. Ao vê-lo chamou com um gesto de mão, pediu que se aproximasse e com dificuldade disse para ele chamar o padre urgentemente. Que foi? Ela insistia. Assim foi num pé e voltou no outro. Aboletou-se do lado dela: Vou morrer, meu filho, cadê o padre que não chega para a extrema-unção. Depois de horas chegou o vigário todo afobado, expulsando-o do ambiente. Saiu a contragosto, sentou-se na escadaria e ali ficou matutando. Não demorou muito o pároco saiu às pressas revirando tudo dentro da casa. Ao se livrar das passadas avexadas do religioso, ele levantou-se e foi até ela que dava os últimos suspiros. Ao percebê-la imóvel, resolveu ir embora e na saída o padre mandou-o carregar uma poltrona velha e jogar no lixo. Tentou pegá-la e não conseguia de tão pesada. Saiu e voltou com um carro-de-mão. Muito esforço para conduzir aquela cadeira grandiosa. Até que conseguiu colocá-la sobre a sua condução e, ao invés de sacudi-la, levou pro seu próprio quarto e aboletou-se como o barão. Ali ficou ajeitando canto para ela. No outro dia seguiu pro enterro postando-se na cabeceira do caixão. Nisso, percebeu que o olho da defunta abria e fechava. Psiu! Era ela, estava viva. Foi conferir de perto e, antes que pudesse gritar, ela sussurrou um segredo ao seu ouvido e, depois da revelação, morreu de vez. Seguiu toda cerimonia até se certificar de que fora mesmo sepultada. Pronto, acabou-se. Aquilo remoía sua cabeça e preferiu transparecer, ficando o resto da tarde toda intrigado com o que ela disse. Chegou a noite, resolveu passear. Ao passar pelo cinema estava em cartaz a comédia The Twelve Chairs (1970), do Mel Brooks, anunciada como Banzé na Rússia. Juntou os trocados do bolso e foi assistir. Não sabia ele que era uma entre as dezoito adaptações da película de 1928, da dupla Ilya Ilf e Yevgeny Petrov e que ganhara, inclusive, uma versão brasileira intitulada Treze cadeiras (1957), estrelada por Oscarito e produzido pela memorável Atlântida. Olhos grudados na tela, bastaram as primeiras cenas: matou a charada. No outro dia a cidade em peso acordava com um manuscrito embaixo da porta: O padre Quiba surrupiou as poltronas da Maroca! Pense numa bronca!

 


Vidarte & vice-versa... - Ao desembarcar no aeroporto do Recife, oriundo do Rio de Janeiro, ao invés de seguir o meu roteiro, fui levado por um desvio de percurso, atendendo um pedido irrecusável: conhecer a arte da ceramista e artesã Teresinha Gonzaga, lá no Alto do Moura, em Caruaru. Gente! Diante daquilo tudo, fiquei sabendo que era de uma família de louçeiros que vendiam peças utilitárias confeccionadas em barro, para serem vendidas na feira da cidade, o que a fez iniciar no ofício desde menina. Herdou o nome do marido artesão, substituindo o sobrenome familiar de Gonçalves Simões, e junto com seus filhos expõe peças decorativas, figurativas e utilitárias. Pense no monte de potes, jarras, panelas, pratos, luminárias, bonecos de barro e o cotidiano nordestino. Tudo muito surpreendente. Acontece que, ao mesmo tempo, sou contemplado com outra grata surpresa: a de conhecer a arte da ativista-imersiva-poeta-baterista-jornalista, Brenda Marques Pena, que se assina sujeita coletiva multifacetária, que me chegou com um mote bem glosado: O que podemos fazer é ter bastante paciência e aproveitar para ler muito, fazer o que gosta em casa e também nos comunicarmos virtualmente. Nós estamos separados por hora e quanto mais nos isolarmos agora, estaremos em breve juntos. Aproveitemos para aprender com este momento que tem muitas lições para a humanidade. Podemos aprimorar nós mesmos sempre. Seja solidário. Há muita gente que precisa de apoio e uma ligação, um carinho, mesmo que virtual, faz muita diferença! Curioso como sou, fiquei logo sabendo que ela é a fundadiretora do Instituto Imersão Latina (IMEL), do Círculo de Poetas e Narradores do Mercosul e da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB), em Minas Gerais, afora ser integrante dos coletivos de escrituras Migrante e o Nós da Poesia. Não perdeu tempo e me convidou para participar do Semanário Latinoamericano, produzido e apresentado por ela e Raúl Larrosa, no Imersão Migrante, em homenagem aos 85 anos do Hermeto Pascoal, com participação de Lucia Helena Issa (Rio de Janeiro/RJ), Alexandre Santos (Recife/PE), Nelson Giles (São Lourenço/RS) e Izabel Gadelha (Acará/PA). Tudo muito bom. Infelizmente não pude entrar ao vivo, mas a minha martelada Tataritaritatá se fez presente, com a intervenção luxuosa do Tchello d’Barros. Muito obrigado, beijabrações paratodos & até mais ver.

 

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quarta-feira, agosto 15, 2018

MALLARMÉ, SÉRGIO FRUSONI, ALTAMIRO, MANZONI, AUROBINDO, TRACEY EMIN & BIDIÃO


EXORCISMO NA HORAGÁ – Imagem: arte da artista inglesa Tracey Emin. - Assim do nada, chegou de repente a notícia de uma mulher que corria bicho. Como é que pode? Autoenlouqueceu-se. Assim, sem mais nem menos. Depois, envultou-se! Trela pra linguarudos: Oxente, ainda ontem ela estava toda catita espalhada aos suspiros do sarro, coração de beija-flor na maior das liberdades no namorico!?! Pois é, aluou-se. Quem vai ver? O primeiro a pisar por aquelas bandas foi o Doro. Quando viu o desmantelo, vôte, picou a mula e foi ter com o padre Quiba, tintim por tintim. Meio mundo de gente acompanhando os detalhes. Não deu outra, o vigário ao ficar a par da coisa, abriu da vela na hora. Pediu arrego e arribou. Quem é doido? Eita! E foram ter com catimbozeiro, espírita, profetas e munganguentos. Nenhum topou a parada. Aí, o Bidião que não era ainda padre nem nada, logo encarou a bronca. Danou-se! Lá vai o noivo das pinguins de convento todo serelepe. Era a sua hora e, no caminho, todo precavido, ensaiou logo umas orações fortes, armou-se de uma cachaça boa – santo remédio, dizia, pressas ocasiões, quebradora de malditas bruxarias -, uma carranca pequena em cada bolso, peito estufado e a coragem se acovardando. E o povo atrás. Era chegado o momento. A mulher estava nua no cio e mirando o rio. Ao vê-lo chegar, ela deu um ronco de balançar o mundo todo. Segurando-se como podia, diante do estrupício, os santos não vogaram, ficou no aperto. Cada vez que ela olhava pra ele, a bosta apertava pra sair tripa gaiteira afora. Fechou o bocal da quartinha e jurou que não ia cagar fora do caco, jeito maneira. Ou era homem ou não era, a prova dos nove. A carne é fraca, tremeu-se todo, torou um aço da pega! A mulher amuada esfumaçava pelas ventas, soltava raio pelos olhos vermelhos como tição, rogando pragas, ameaçando tudo. Ele, então, todo cheio das tretas usou da malícia, aplicando uns truques que nem sabia e abriu uma pauta com a diaba na encruzilhada do ribeirão. Rolou o maior lero: ele macio e ela aos brados ruidosos de dar catabí na terra. Segura o tombo senão a casa cai. Ao chegar perto dela, ela agarrou-se nele da poeira subir no saçaricado de só se ouvir a voz dele: tico-tico, cirico, selerico, não tem pé, nem tem bico. Só eu cisco pra pegar no seu priquito. E dançou agarrado, maior rastapé. Tu te bole e eu me mexo, tiro fora e dentro deixo. Um pra lá, outro pra cá, pega aqui, pega acolá. Entro enxuto e saio molhado, não tem quem me segure no proseado. O vuque-vuque medonho, ninguém podia ver no meio da ventania, trovões, relâmpagos e estouros. Só deu pra ver em dado momento ele com o espinhaço envergado e ela afoita, montada nas partes pudendas dele como se num cavalo rompedor, cavalgando aos urros e ele gritando: Ninguém pode com os poderes de Deus! Foi pra mais de hora na peleja e só ao baixar da poeira que viram a dita cuja estirada, os quartos de banda, toda oferecida, de deixar se levar cela e cabresto pelo jeitoso todo ancho que, ainda por cima, fazia careta pra todo mundo. Foi aí que se apagaram as luzes do firmamento, o mundo escureceu com trovoadas faiscantes e um fumaceiro desgraçado com uma catinga de enxofre de ninguém aguentar. Diziam ser a hora do desencantamento. O cabra é macho mesmo, mandou ver na medida. É mesmo. O povo pasmado. De dentro dela saiu um vulto enorme espocando raio pra todo lado. Calmamente Bidião ajeitou o pingolin que estava mole do lado de fora, guardou no ajeitado e fechou o zíper. Depois ele pegou do bolso as duas carrancas, e no chão uma em cada lado, abriu o frasco, tomou de um gole e cuspiu fora. Uma cusparada certeira, bem no toitiço do cabrunco. Oxe, o coisa-ruim na hora soltou um grito fino e foi se desmanchando, ais e uis, virou fumaça e estourou. Ploft. Pronto, não deu outra: a partir de então começou o falatório com as façanhas do Bidião. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor e flautista Altamiro Carrilho (1924-2012): Clássico em chorinho, Revive Pattápio, É o sucesso & Ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Para caminhar pela vida protegido contra todo medo, perigo e desastre, só duas coisas são necessárias, duas que andam sempre juntas — a Graça da Mãe Divina e, ao seu lado, um estado interior composto de fé, sinceridade e entrega. Que tua fé seja pura, cândida e perfeita. Uma fé egoísta no ser mental e vital, contaminada por ambição, orgulho, vaidade, arrogância mental, vontade própria vital, exigência pessoal, desejo pelas pequenas satisfações da natureza mais baixa, é uma chama baixa e enfumaçada que não pode queimar erguendo-se ao céu. Olhe tua vida como dada a você somente para o trabalho divino e para ajudar na manifestação divina. Não deseje nada a não ser pureza, força, luz, amplitude, calma, Ananda da consciência divina e sua insistência para transformar e aperfeiçoar tua mente, vida e corpo. Não peça nada a não ser a Verdade divina, espiritual, supramental, sua realização sobre a terra, em você e em todos que são chamados e escolhidos , e as condições necessárias para sua vinda e sua vitória sobre todas as forças que se opõem. Que tua sinceridade e entrega sejam genuínas e inteiras. Quando se der, dê-se completamente, sem exigência, sem condições, sem reserva, de modo que tudo em você possa pertencer à Mãe Divina e nada seja deixado ao ego ou dado a algum outro poder. [...]. Pensamento do escritor e filósofo indiano Sri Aurobindo (1872-1950).

MANIFESTO: ARTE & ESPAÇO DE LIBERDADE - A arte não é verdadeira criação e fundação senão quando cria e funda lá onde as mitologias têm seu próprio fundamento último e sua própria origem. Para poder assumir o significado da própria época a questão é, portanto, chegar à própria mitologia individual, no ponto em que ela consegue identificar-se com a mitologia universal. A dificuldade está em liberar-se dos fatos estranhos, dos gestos inúteis: fatos e gestos que poluem a arte usual de nossos dias, e que por vezes são tão evidenciados que chegam ao ponto de se transformar em emblemas de modos artísticos. O crivo que permite tal separação entre o autêntico e a escória, que nos leva a descobrir, em uma sequencia incompreensível e irracional de imagens, um complexo de significados coerentes e ordenado é o processo de autoanálise. É através dele que nos reconectamos a nossas origens, eliminando todos os gestos inúteis, tudo aquilo que em nós é pessoal e literário no pior sentido da palavra: recordações nebulosas da infância, sentimentalismos, impressões, construções intencionais, preocupações pictóricas, simbólicas e descritivas, falsas angústias, fatos inconscientes que não afloram à superfície, a imensa iluminção de sábado a noite, a repetição contínua em sentido hedonista de descobertas exauridas – tudo isso deve ser eliminado. Através desse processo de eliminação, o originário humanamente atingível vem manifestar-se, assumindo a forma de imagens que são nossas imagens primeiras, nossos “totens”, nossos e dos autores e espectadores, pois são as variações historicamente determinadas dos mitologemas primordiais (mitologia individual e mitologia universal identificam-se). Tudo deve ser sacrificado a essa possibilidade de descoberta, a essa necessidade de assumir os próprios gestos. A própria concepção habitual de quadro deve ser abandonada; o espaço-superfície só interessa ao processo auto-analítico como “espaço de liberdade”. E também não deve preocupar-nos a coerência estilística, pois nossa única preocupação possível é a pesquisa contínua, a contínua auto-análise, com a qual, apenas, podemos chegar a fundar morfemas “reconhecíveis” por todos no âmbito de nossa civilização. Manifesto do artista italiano Piero Manzoni (1933-1963), extraído da obra Escritos de artistas: anos 60/70 (Jorge Zahar, 2006), organizado por Gloria Ferreira e Cecília Cotrim.

IGITUR – [...] Este conto se endereça à Inteligência do leitor que põe as coisas em cena, ela mesma. [...] Certamente subsiste uma presença de Meia-noite. A hora não despareceu por um espelho, não fugiu em tapeçarias, evocando uma mobília por sua vacante sonoridade. [...] E da Meia-Noite permanece a presença na visão de uma câmara do tempo onde a misteriosa mobília para um vago frêmito de pensamento, luminosa quebra do retorno dessas ondas e de seu alargamento primeiro, enquanto se imobiliza (num movente limite), o lugar anterior da queda da hora numa calma narcótica de eu puro longamente sonhado [...] Desta vez a hora não cai mais fora de mim, para tornar pesado o tempo refugiado nas cortinas, nem, quando eu lhe [o] imploro, fugir pelo espelho, é em mim que ela cai acordando esta consciência de mim pela lembrança, ela recria meu ser e me devolve a sensação do que tenho que fazer. [...] Pareceu-me ouvir o som especial de uma Meia-noite. A hora é [ela?] O que lança o relógio não foi, indefinido, encher as cortinas ou se perder pela fuga de um espelho, deixando-me sempre exterior [a ela.] Não, ao som muito certeiro de uma Meia-noite, reconheci primeiro que o instante era aqui e, como um único instante pode ser [...], e me lembro de mim mesmo. [...] Meu pensamento foi portanto recriado; mas e eu, tê-lo-ei sido? Sim, sinto que esse tempo versado em mim me devolve este eu, e vejo-me semelhante à onda de um narcótico tranquilo cujos círculos vibratórios vão e vem, fazendo um limite infinito que não atinge a calma do meio. [...] E antes de tudo esta inteligência deve voltar-se para o Presente. [...] Trechos extraídos da obra Igitur ou A loucura de Elbehnon (Nova Fronteira, 1985), do poeta e crítico literário francês Stéphane Mallarmé (1842-1898). Veja mais aqui, aqui e aqui.

TRÊS POEMASAPRESENTAÇÃO - Dêem-me licença. Vim cá pagar / Uma dívida de saudade e de amor. / E como a saudade e o amor são amigos da cantiga / Passem-me um violão: quero cantar! / Sim, cantar. Nesse toada nossa: / Ora triste, ora alegre… / Consoante o coração mandar!... / Quem eu sou? Um filho de San Vicente. / Nascido, criado, lá na Ponta da Praia. / Lá onde o mar se espreguiça debaixo dos botes, / Como a barra duma saia. / O que eu quero? Cantar a minha terra! / Acompanhá-la na sua dor; / na nobreza da sua alma; / na pobreza da sua vida! / Dizer-lhe na hora da despedida: / Eis o meu corpo: estruma o teu chão! / Eis o meu sangue: rega o teu milho! / Irmão: eis o teu irmão! / Mãe: eis o teu filho!.. PARA FRENTE É QUE É O CAMINHO - Escuta. / Eu não sou daqueles / que andam a rimar amor com flor, / nem daqueles que andam a procurar / como peixe na rede, / um buraco para fugir. / Ideia de embarcar / nunca me passou pela cabeça. / Nunca gostei de andar depressa, / Nem de arrepiar caminho. / Se é para ir viver vida de galinha choca / em terras aonde o sol / vê-mo-lo só aos bocadinhos, / se é para ir sentir o pão amargar-me na boca, / na terra dos mandingas e dos landins. / Antes de ficar por cá a gozar deste mar / E deste céu. / Não, compadre, não vou na troca! / Para frente é que é o caminho!... DIANTE DO MAR DE SAN VICENTE - Coitados daqueles / que não quiseram ouvir mar, e foram / para terra longe, / perder a lembrança deste sol, / e a aprender estórias / que ninguém quer contar. / Coitado daqueles!... / Mas cada um deles / levou, na concha do ouvido, / a voz da tua ressaca, mar, / para os guiar, / como o tino guia a pomba, / na hora de voltar. / Eis-me diante de ti, mar, /— filho diante do pai — / a querer acatar a tua palavra / e ouvir os teus conselhos. / Eis-me diante de ti, mar, / pedaço de retalho / vindo a boiar na ribeira / esvaziar a impureza que catei no mundo. / A querer ir na enxurrada de lama a cascalho   / que hás-de voltar a arremessar nestas bordeiras / juntamente um dia com a areia e o limo do teu fundo. Poemas do poeta cabo-verdiano Sérgio Frusoni (1901-1975). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista inglesa Tracey Emin.
Veja mais aqui.

AGENDA
O livro (Ab)sinto de Madalena Zaccara & muito mais na Agenda aqui.
&
A saga do padre Bidião aqui e aqui.
&
Políticas em debate, A dialética de Antonio Gramsci, As experiências de John Hagelin, o pensamento de Comenius, O homo ludens de Johan Huizinga, Diálogos de Reginaldo Oliveira & a arte de Nicomedes Gómez aqui.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...