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domingo, novembro 23, 2025

CONCEIÇÃO EVARISTO, PIEDAD BONNETT, ANITA PRESTES & ARTE AFRO NA ESCOLA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de J. Brahms: Symphony n.4 in E minor Op. 98 (Teatro B32 -SP, 2025) & Mozart: Piano Concerto n.23, K. 488 (Anfiteatro Camargo Guarnieri USP, 2023), com a SP Chamber Orchestra, sob a regência da maestra e pianista Giovanna Elias.

 

Fábula em ata: o doce com gosto de guarda-chuva velho no paladar... - Quando padre Quiba pisou pela primeira vez o chão de Alagoinhanduba, logo foi embalado por uma revelação feita visagem que julgou premonitória: teve a convicção de que ali estava o local para sua ascensão aos céus. Ficou inebriado ao visualizar claramente seu próprio nome inscrito na hagiografia celestial, como um recipiendário escolhido e santificado pela hagiologia sagrada, no panteão da hierarquia católica. O devaneio era mais que real e via-se nitidamente ocupando a santa ceia, ao lado direito de Deus e à esquerda da santa Maria, com Jesus do outro lado. Impava de satisfação ao prever ali o monsenhor que seria além de protonotário apostólico: o prelado de honra de sua santidade, ou até mesmo capelão, ou quem sabe cônego, realizando o sonho de ser um presbítero que logo chegaria a vigário-geral, alcançaria o episcopado para posar de bispo numa diocese para chamar de sua; e dela galgar para arcebispo e ser um primaz, um patriarca e cardeal, até se tornar: o papa Quiba I, o dono da porratoda do clero. Eita! Chega ofegava de empáfia, levitando na quimera de realizar prodígios de repartir bênçãos e fabulosas riquezas entre todos. Não previa ele, evidentemente, catombos pelo caminho, claro. E logo o primeiro: foi surpreendido já na chegada pela recepção calorosa da irmã Eufêmia. Vixe! Um despropósito: deu-lhe na hora um arrepio de ficar paralisado diante daqueles olhos graúdos mimosos, aqueles lábios formosos naquela boca bem talhada, a pele sedosa, a fala mansa, minha nossa! Cruz-credo! Viu-se tomado por um prurido que lhe subiu pelas pernas e explodiu numa agonia pélvica incontida. Valha-me, Deus! Que é que é isso? Viagem longa, dissimulou; mas por dentro: Isso é um pedaço de mau caminho, valei-me! Julgara coisa de mil demônios num só ser a consumi-lo de uma sarna da moléstia. Recuperou-se do mal estar e, com um pé na frente e outro atrás, desconfiado e aos tropicões, ele foi levado pela generosíssima sóror à casa paroquial, local em que era aguardado por séquito de fiéis pendurados por todo ambiente, com regabofe suntuoso e festivo, de vivas e salves. Foi surpreendido e vibrava porque tudo aquilo convalidava sua fantasia, tudo a favor e se enchia de ar, levando corda com os aplausos e louvações. Na hora do discurso, ele estava tão eufórico – não era pra menos, sabia, havia chegada a sua vez! -, ao abrir a boca para abafar idolatrado e segurando o microfone na maior pregação, tinha tanto pra dizer entusiasmado e repetiu seu nome diversas vezes, Quiba Quiou, e engasgou-se, enrolou a língua, arregalou os olhos e quase aos gritos de tão arrebatado, despencou de vez aos prantos: Nunca fui tão bem tratado na minha vida! Óóóóóóóó! Só se recompôs disso uns cinco ou seis meses depois, a ficha foi caindo e tomou pé da situação ao tombar num monte de quebra-molas, um em cima do outro, tome catabi. Danou-se! Ih, a coisa começava a catingar na trepidação. Partiu ineivado aos solavancos e, como não era lá muito achegado a monges e frades, fossem beneditinos, dominicanos, jerônimos ou mesmo basilianos, muito menos com franciscanos, salesianos ou scalabrinianos, deu logo um chega-pra-lá! Pronto, faxina feita! Menos um. Seu negócio mesmo era com as freiras e seria a partir delas que faria dali uma cidade cristã por excelência, aspirando domínio total sobre os fiéis e, assim, o levariam, indubitavelmente, à redenção da glória venerada. Procurou intimidade com elas, quando deparou com outro óbice: Quem é esse? Ah, esse é o nosso Bidião, o coroinha – Consigo repugnou: Ah, o cheleléu das freiras! Ô cabra de pêia! Gostou disso não: Isso é um desaforo! E com o tempo teve justificada sua antipatia, tendo de engolir indigestos ossos, caroços, amargores, purgantes e pedras inchadas de tão repugnantes, tudo atravessado goela abaixo. A coisa começou mesmo de véspera e foi tangendo tudo pras colisões que sucederam com o sacristão. De primeira: As poltronas da Marocas - A vida imita a arte! Logo o auxiliar que já não era lá bem quisto que se diga, passou a ser tratado por hagiômaco, quando não néscio ou parvo: Isso é um desgraçado! Nem foram superadas as primeiras intrigas, um novo escarcéu medonho inchou de mesmo: o padroeiro da cidade! Isso é um vitupério! E o pároco partiu pra cima do assessor, quando outro estouro estilhaçou e não conseguiu segurar a espoletada: Os milagres de Gideão! Isso é embuste do anticristo! Mas a coisa pegou de juntar gente pro fuxico, da bola dele murchar de tanto se espremer: Que asco! Mal teve fôlego para se restabelecer direito e outra cipoada lascou fedendo: a hagiomaquia do Zebedeu! Será o Benedito? Foi o ponto alto e fedeu, aí: fodeu tudo! É a besta-fera! Bastava ouvir alguém mencionar ou ele mesmo dar de cara com o nome de Bidião, que tinha logo um troço incontrolável e se danava a dar logo um sinal quiasmático de desaprovação: Esse abominável! E agitava o bastão inseparável que carregava consigo, o Calígula, prometendo pisas bem dadas nas costelas do malcriado: Vai ver! A coisa chegou ao ponto máximo na temperatura, quando soube que falavam da burrinha que ele arrastava pronde fosse: diziam que era um jumento. Como? Aí enfureceu-se de quase revolver-se dentro da batina, movendo céus e infernos, vociferando: Vou capar esse safado e excomungá-lo de vez! Oxe! As irmãs caíram em pânico e acharam por bem poupar o afilhado: providenciaram traslado e manutenção eterna longe dali. Cadê-lo? Quem? O salafrário? Alistou-se no serviço militar. Ainda pego aquele fi-duma-égua, ah, se pego! Esse esconjurado ainda me paga! O seu lugar está garantido nos quintos dos infernos, cheleléu! Benzodeus! Pax tecum! Aí as pinguins se perfilaram clementes ao seu redor e, para acalmá-lo encheram-no de ocupações que o fizeram sonhar de novo, como no primeiro dia que ali chegou, esquecendo os percalços que desnortearam até então. Com as sugestivas contribuições delas, logo ele retomou com afinco os seus propósitos superiores. Vexou-se cismado, pois, dizia ver as inteiras coisas ocultas e, de antemão, cheio-de-não-me-digas, estreitou convívio às risadagens com as beatas mais achegadas e outras aliadas pro seu plantel. E como passou a ver o capeta por todo canto e coisas, botou gosto ruim nas saias e decotes das moças e senhoras, passou a visitar rearrumando enfermos e apenados, mudou o fardamento das escolas, definiu o horário e o montante das esmolas, escolhia os pretendentes e maridos pras solteiras e viúvas desimpedidas, organizava a fila de cegos, aleijados, enfermos, precisados e até ufanos abastados para receberem a hóstia consagrada; determinou a criação dum conselho de orações perenes de manhã, de tarde e de noite na igreja, pelas casas, rua afora, todo mundo no rosário, como um apostolado para quem comprasse títulos de sócios do santuário ou adquirentes dos cargos e das indulgências dispostas para abrir as portas do paraíso, enquanto aplicava benzeduras, penitências, cânticos e orações; definia quem seria admitido para integrar os peregrinos de santas e santos – Quem der mais, tá dentro! -, a hora e o preço dos batizados, o dia das novenas, o sacramento dos casórios, as procissões, os benditos diários, as confissões regulares – aliás, as confissões é que eram seu álibi, sabia, cavilava. Suas pregações levaram-no a realizar procissões meia-noite em ponto, saindo da capela do cemitério e percorrendo todos os logradouros da localidade, findando ao amanhecer do dia, prum brevíssimo descanso, mera cochilada  e retomava probo logo todo santo dia, de segunda a domingo, ininterruptamente, sob argumento ameaçador: O céu é inacessível! Prometia o purgatório: O peso do pecado é enorme. Só entraria no céu quem desse uma joia e comprasse não sei quantos frascos de água-benta, um tanto de litros da garrafada, caixas de licores e vinhos, crucifixos, broches, amuletos e brebotes vários, tudo por ele fabricado para salvação de sua gente e manutenção da paróquia. Afora isso, vendia e trocava de tudo, quando não chantageava uma ou outro empancando suas resoluções. E vangloriava-se do tanto que fez e mais fará para não sei quantos moribundos, quantas almas pecadoras veladas foram e seriam ainda salvas por sua intervenção, e se metia no ofício das trevas, maldizendo de gente despeitada - catimbozeiros, xangozeiros, crente evangélico, espírita e falsos profetas, arreda escoria funesta do fim do mundo! E providenciava as quatro festas do ano e que duravam meses, desde a Folia de Reis até o pastoril do Natal pro Ano Novo: Aqui é pra louvar Deus todo dia e o ano todo! E virava a noite insone a rondar pelos quatro cantos da cidade com suas visitas inicialmente bem-vindas e, com o tempo, passaram a inoportunas no café da manhã, no lanche das 10, no almoço, nos petiscos da tarde, na ceia e na hora de pegar no sono, lá estava ele suspendendo casais no vucovuco, com o sermão de que sexo era só pra reprodução e, armado do crucifixo afugentava o demônio e exigia mil rezas de joelhos e ele ali conferindo o cumprimento inarredável: - Esse homem num dorme não é? Fala baixo, ele vive no ar direto feito cantiga de grilo! Santa paciência! Tornou-se assim vigilante da fé fazendo serão todo dia, sempre de plantão e, invariavelmente, de sopetão flagrava deslizes, beijos insolentes, mãos bobas no cós das saias, agarramentos afetados e inferninhos que combatia todo diverso e ardido da fúria. E se achasse uma alma doida, sacudia água benta e aplicava exorcismo persignando-se a obrigar todos os presentes arrodearem a endemoninhada para acuá-la com remelexos de varar a madrugada por uns três dias encarreados e sem bater pestana. Quando não era isso e, como o cemitério era limítrofe com o baixo meretrício, convocava todos numa vigília diuturna barrando os que quisessem passar pros chambregos pecaminosos ou quem ousasse pular o muro pego no flagra. E mais: por conta de seu inexorável capricho, ganhou vasta titulatura antipática nos cochichos secretos dos fiéis: Empata-foda, Boca-de-ponche, Trinca-colhão, Missionário entrão, Má-notícia, Sá-porra-afoita, e como invariavelmente inchava com uma prisão de ventre eterna, vez em sempre aliviava-se soltando uns peidinhos nababescos, de deixar todo mundo inturido por anos: Eita, cu-fedorento da praga! Isso pega, cagão-besta-fera! Ninguém aguentava mais e ele, todo adiantado, nem se dava conta de que caía nas graças e desgraças do povo, de quase ninguém mesmo nem mais se lixar pra sua presença folclórica, cortando caminho, evitando-o, dele beiço dobrado, bicudo, escorado choramiando: Ih, acabou-se o que era doce, parece! Até mais ver.

 

Duília de Mello: Começamos a ver o Universo como nunca tínhamos visto antes... O futuro é agora!... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Anne Rice: Temos medo do que nos faz diferentes... O mundo não precisa de mais mediocridade ou apostas protegidas... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Charlaine Harris: Há anos vivo à beira da loucura. Sou rápida e precisa em identificar instabilidades em outras pessoas... Sou autodidata e aprendi através de livros de gênero... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DO FOGO QUE EM MIM ARDE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Sim, eu trago o fogo, \ o outro, \ não aquele que te apraz. \ Ele queima sim, \ é chama voraz \ que derrete o bivo de teu pincel \ incendiando até às cinzas \ O desejo-desenho que fazes de mim. \ Sim, eu trago o fogo, \ o outro, \ aquele que me faz, \ e que molda a dura pena \ de minha escrita. \ é este o fogo, \ o meu, o que me arde \ e cunha a minha face \ na letra desenho \ do autorretrato meu.

Poema da escritora e linguista Conceição Evaristo (Maria da Conceição Evaristo de Brito), que é autora dos romances: Ponciá Vicêncio (2003), Becos da Memória (2006) e Canção para Ninar Menino Grande (2022) e do livro Poemas da recordação e outros movimentos (2017), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

O QUE FAZER COM OS PEDAÇOS... - [...] Às vezes, a dor é elétrica. Como um choque que atravessa a carne. "Quanto, de zero a dez?", pergunta o médico em todas as consultas. "Às vezes cinco, às vezes sete, às vezes nove", ela responde, mas o que ela realmente quer dizer é nunca um, nunca dois, nunca menos que cinco. Sempre dor. Outras vezes, a dor é ardente, aguda. Como um prego quente. Ou profunda, como uma espátula raspando o osso. Mas ela parou de reclamar há muito tempo. Porque reclamar exige ouvidos, palavras, compaixão. E, em vez disso, encontra apenas silêncio, um gesto de irritação, uma acusação. Quando a dor é insuportável ou constante, ela nos isola. [...] Porque uma história — qualquer história — é algo que sempre vence o vazio, que cria um vínculo ou sustenta aquele que ainda existe. [...] Porque aos vinte anos, uma biblioteca é uma ilusão, aos quarenta um lugar de realização, e aos sessenta um lembrete constante de que a vida não será longa o suficiente para ler todos os livros. [...] Sim. Sempre há um "sim". Quando fechamos uma porta, quando nos viramos depois de dizer adeus, quando terminamos um trabalho que levou horas, meses ou anos, quando uma cortina se fecha. [...]. Trechos extraídos da obra Qué hacer con estos pedazos (Alfaguara, 2021), da poeta, professora e dramaturga colombiana Piedad Bonnett, autora de obras tais como Lo que no tiene nombre (2013) e Explicaciones no pedidas (2011). Veja mais aquí & aquí.

 

A LUTA CONTRA O CAPITALISMO - [...] A luta é longa e difícil. Não acho que o que está acontecendo hoje é repetição do passado. [...] A luta é longa, feita de vitórias e derrotas. Para ter vitória final, é demorado, complicado, tem muitos fatores, então eu acho que não foi nada em vão. Tudo isso são forças se acumulando dentro disso tudo, acontecendo derrotas também, não só a vitória. Por isso, às vezes, tem períodos longos que são de derrota, realmente. [...] A gente vê aí a polarização econômica, cada vez mais grupos trilionários acumulam a maior parte da riqueza produzida no mundo e as grandes massas trabalhadoras com dificuldades crescentes. [...] O capitalismo está em crise econômica, em primeiro lugar, mas não só. Crise política, social, quer dizer, as coisas não funcionam mais como funcionavam. Isso leva a uma desigualdade social crescente. São os trilionários acumulando riqueza gigantesca e as grandes massas populares cada vez com uma parcela reduzida do que se gera no mundo. [...] A burguesia mundial e a brasileira pagam muito bem seus intelectuais para produzir uma história falsificada. Isso não é só no Brasil, é no mundo inteiro. Isso não é só no Brasil, é no mundo inteiro. Quer dizer, a história oficial, que inclusive é apresentada às crianças nas escolas, uma grande parte é falsificação [...]. Trecho da entrevista (A União, 2025), concedida pela química, professora e historiadora Anita Prestes (Anita Leocádia Benário Prestes), que noutra entrevista (PCB, 2015), sobre Getúlio Vargas ela expressou: [...] Uns endeusam, outros atacam. A verdade é que o Getúlio Vargas foi uma figura muito complexa. Ocupou uma posição importante na história do Brasil do século XX e que deve ser avaliada nas suas condições. Ele era representante da elite brasileira. Entrou para a política porque fazia parte da oligarquia agrária do Rio Grande do Sul. Foi muito influenciado na década de 1930 por ideologias de caráter autoritário e fascista que estavam em ascensão no mundo. E, claro, foi o que serviu de base para atingir os objetivos propostos pelo grupo que ele representava. No entanto, a cabeça pensante do grupo era o general Pedro Aurélio de Góes Monteiro, criador da chamada doutrina Góes Monteiro, hoje pouco conhecida. O objetivo da doutrina era a reconstrução do Brasil a partir de um estado autoritário centralizador e corporativista. E foi o que colocaram em prática com a Revolução de 1930, chegando ao auge com o Estado Novo. Uma das promessas da doutrina era fazer com que o Estado desse um salto no processo de industrialização. Até 1930, tínhamos um país com indústrias leves. A partir dessa política, o Brasil começou a investir em indústrias pesadas, o que era muito importante para a defesa nacional. O Góes Monteiro viu isso também como um instrumento de combate às manifestações. Para criar um cenário favorável à industrialização, o governo estabeleceu um arrocho salarial e uma série de medidas prejudiciais a maior parte da população e benéfica ao desenvolvimento capitalista. Houve resistência dos setores populares e as insatisfações foram combatidas com bastante repressão. [...]. É autora dos livros Os militares e a Reação Republicana: As Origens do Tenentismo (1994), A Coluna Prestes (1997), Tenentismo pós-30: continuidade ou ruptura? (1999), Anos Tormentosos (2002), Olga Benário Prestes - uma comunista nos arquivos da Gestapo (2017) e Viver é tomar partido: memórias (2019), entre outros.

 

ARTE DA CONSCIÊNCIA NEGRA NA ESCOLA

Os alunos do 9º B e 8º C da Escola Caic, sob a supervisão da professora Fátima Portela, e os alunos do 7º ano A, da Escola Ivonete Ferreira Lins, sob orientação da professora Luciana Girlan, realizaram atividades de Arte Afro, por ocasião das comemorações do Dia da Consciência Negra, em Palmares (PE). Foram atividades de pinturas em telha, confecção de máscaras e pequenos quadros com a temática. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.



 


segunda-feira, abril 08, 2024

ALICE FLAHERTY, ELMA MURRUGARRA, CHANTAL AKERMAN & ARREIA!...


 Imagem: Acervo ArtLAM.

Costumo chamar meu piano de minha casa, minha primeira morada. Porque depois de comer, dormir e fazer as coisas do dia-a-dia, o que faço há mais tempo na minha vida é tocar piano... Mas ser brasileira e viver no Brasil é estar imersa nesta complexa cultura de muitas misturas e singularidades culturais muito ricas. As músicas, os sons, a corporeidade brasileiros nos habitam...

Ao som de Homenagem a Kilkerry (2005), Tríplice andar (2013), Vivaldiana (2017) e Hinos de Pendências (2022), da compositora e professora Denise Garcia, autora da obra inédita C.A.C.O.S. (Celebração da Arte e Cultura Ocidental Sinfônica). Veja mais aqui.

 

TRAJETÓRIA DO LUGAR, ARREIA!... - Duma margem à outra do Una: tudo podia acontecer. E se do lado de cá os Ambulantes de Deus atravessavam a cidade nos burburinhos de lestoeste ou vice-versa, do lado de lá não só havia Paul: ventos austrais das quenturas equatoriais traziam o pipoco da guerra e peido de véia pelos dias de Sol ou chuva - não era nada daquilo que queriam, mas só o que lhes restavam. Mais que entre parênteses: numa banda o alvoroço de curumins, cunhatãs, curibocas, quilombolas, Ganga Zumba de Amaro, Zumbis de Macaco, andorinhas, calungas, ticoqueiras, todos como se fossem os condenados de Fanon espiando a almadia caeté dum lado pro outro. Na outra se via o povo descendo só pra ver a previsão das enchentes, no meio de açucarocratas e cheleléus, cangalhas e zambetas, tão enfáticos quanto ruidosos e nenhum decoro pra destruição do passado e sucessão de golpes dos bedeguebas de mal-assombro, gente famélica metida a grã-fina que vinha da procissão de homúnculos com seu andor medievo, estupidificados como os que precisam do olhar alheio para se orientar, vida tão mais sem poesia, gente que saía aos montes dos esgotos. Entre os que vinham e iam, topei: Joab, mô fio, pronde cê vai? Tomar uma, a hora está avexada. Logo atrás quase nem vi: Como é que foi, Iolita? A meninada cresceu... E a gente de velho mais menino: será a Besta Fubana? Não, não era. Era o duo de Iara & Ísis Campos no apogeu do espetáculo: Arreia! E a gente renascia caboclinhos do Rabeca, no sopro de Veludo do pife, quantos carnavais da infância e isso era mais que vida. Arreia! E ataviaram jactando-se com itapabas que vinham de Capoeiras, e se enfeitaram de festa com as igapebas das Alagoas, e proveram remelexos com os piperis de Bonito, e folgaram com os candandus de Catende e catamarãs de Pirangi, e arregaçaram arrearre! E adernaram pelas águas pretas até a foz da coroa grande: Arareia! Arreia! Ah-rá! E quando a hestória começou, big bang! O carão das horas, já era tarde, parecia. Havia bem não sei quantos anos, sem o que dizer no porém, para saber de Morgan Llywelyn: Se quiser ter paz, paz genuína, você deve aceitar todos os aspectos da sua personalidade e aprender a se sentir confortável com eles... Entretido com a frivolidade do festeiro, nem dei conta do que dissipava diante do Lobo do Mar de London, com meus naufrágios teratológicos na ilha de outras terras: haveria de passar a noite e o dia depois, e nenhuma lisonja naqueles olhos perturbadores de nunca mais, mas nunca mais mesmo. Arreia! E Simbad não era; a maldição dum pseudo-Anteu, talvez. A vida não terminava com o fechado das portas, cada qual a sua própria escuridão. Quase nem ouvi Charlaine Harris: Não procure problemas; já está procurando por você... Às vezes você só precisa se arrepender das coisas e seguir em frente... Era tarde demais pra isso e o desjejum era meu epítome na catalepsia das escolhas e quase nenhuma alternativa: só desmascarei meus equívocos com os dos outros e, se deu certo, só me arrebentei em todos os evidentes sinais de alerta, os encontros esparsos, a fuga iminente – era uma ameaça que havia deixado pra trás. O que me dizia Ida Lupino: Há beleza na imperfeição. Quero capturar os momentos crus e autênticos que nos tornam humanos. Há sempre mais para descobrir e explorar. Não tenho medo de correr riscos. As maiores recompensas vêm de sair da sua zona de conforto e desafiar a si mesmo... Era uma única vez & alguns dias & sobrevivente náufrago com o castigo da intimidade revelada: era só o Nito da Zezé. Os dias nos olhos, coração adentro jangada de vara eu voo, ressurreto das encruzilhadas... Até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

TERRA - aqui onde a vassoura já não floresce e o altar do fogo sagrado foi extinto pelos ventos do leste, um homem em pura raiva arrancou a perna de outro homem, uma mulher deu à luz silenciosamente o filho de seu pai e uma criança nasceu dormiu. abraçados pelo desgosto, ninguém se conhece, ninguém se reconhece, isso é o terrível, a poeira enterrou quase tudo.

ATANÁSIA - Eu sou a tempestade filha de Hera e Zeus \ que, como seu pai, chronos \ às vezes eles me engoliram vivo \ cansado disso \ certa noite \ Eu roubei uma pedra de Deucalião \ e solicitei a permissão das Moiras \ então eu cortei o fio \ Eu joguei a pedra \ e eu me criei \ Depois do sétimo jejum tomei banho de sol \ nu ao lado de Asclépio \ fora \ às portas do hospital \ até uma quarta-feira \ Subi às colinas agostinianas \ e hoje estou sentado à esquerda de Apolo \ e a partir daí eu zombo dos saudáveis e dos doentes.

Poemas da jornalista e poeta peruana Elma Murrugarra, autora dos livros Jogos (2002), A Função dos Destinos (2004), Al Sur en Caral (2006) e Cuentos de Domingo (2009).

 

UMA FAMÍLIA - [...] Eu sei que isto me cansa mas tudo me cansa de qualquer forma sou uma pessoa cansada exceto quando por vezes me esqueço de mim mesma. [...]. Trecho extraído da obra Una familia en Bruselas (Tránsito, 2021), da premiada escritora e cineasta belga Chantal Akerman (1950-2015), que ainda se expressa: Nunca me considerei estranha ou diferente de alguma forma... Eu apenas tinha um jeito, um jeito que era meu e somente meu. Um jeito que talvez fosse um pouco peculiar, mas gostei disso. Gostei do fato de as outras pessoas não serem estranhas da mesma forma... Senti que ser estranho me convinha... Minha estranheza tinha algo, pensei. Um estilo. Um estilo que me pertenceu. Aí virou um hábito e não pensei mais no meu estilo estranho, era assim que eu era e pronto... Veja mais aqui.

 

DOENÇA DA MEIA NOITE – [...] O cientista que há em mim teme que minha felicidade nada mais seja do que um sintoma de doença bipolar, hipergrafia de um distúrbio pós-parto. O resto de mim pensa que separar artificialmente o cientista que há em mim e o escritor que há em mim é na verdade uma espécie de transtorno bipolar cultural, que muitos de nós temos. O cientista pergunta como posso chamar minha vocação de escritor e não de vício. Não vejo mais por que deveria fazer essa distinção. Sou viciado em respirar da mesma maneira. Escrevo porque quando não escrevo é sufocante. Escrevo porque algo muito maior do que eu entra em mim e enche a página, o mundo, de significado. Embora eu tema constantemente que o que escrevo esteja à beira de ser falso, essa força que me move só pode ser real, ou nada jamais será real para mim novamente. [...] Como a poesia e a literatura poderiam ter surgido de algo tão plebeu quanto o equivalente cuneiforme dos códigos de barras dos supermercados? Prefiro a versão em que Prometeu trouxe a escrita dos deuses ao homem. Mas então lembro a mim mesmo que… não devemos ser muito meticulosos sobre a origem das grandes ideias. Em última análise, todos eles vêm de um órgão enrugado que, quando mais saudável, tem a cor e a consistência de uma pasta de dente e, no final, apenas murcha e morre. [...] O que os prisioneiros fazem? Escreva, é claro; mesmo que tenham que usar sangue como tinta, como fez o Marquês de Sade. As razões pelas quais escrevem, as restrições extremamente frustrantes da sua autonomia e o facto de ninguém ouvir os seus gritos, são todas as razões pelas quais as pessoas com doenças mentais, e mesmo muitas pessoas normais, escrevem. Escrevemos para escapar de nossas prisões. [...] Na medida em que a autoexpressão transmite e reforça o caráter de uma pessoa, ela esclarece a ligação entre arte, excentricidade e doença mental. Quanto mais parecidos com nós mesmos nos tornamos, mais estranhos nos tornamos. [...] O impulso de escrever produz um primeiro rascunho; é o desejo de escrever bem que produz o segundo, o terceiro, o vigésimo. [...] Nunca consigo esquecer a possibilidade de bloqueio. Paradoxalmente, é isso que impulsiona a minha escrita – obrigando-me a deixar todo o resto de lado devido à possibilidade de que hoje seja o último dia em que poderei escrever. É outra maneira pela qual o bloqueio de escritor às vezes não é o oposto da hipergrafia, mas a causa. Talvez os escritores pudessem recuperar o conceito de bloco, já que São Jerônimo, em seu estudo, usou um memento mori (uma caveira, ou uma ampulheta com as areias do tempo escapando) para conduzir seu trabalho, naquelas lindas pinturas renascentistas. [...] Os escritores têm mais depressão unipolar do que o resto da população; os mesmos estudos que encontraram uma incidência dez a quarenta vezes maior de doença maníaco-depressiva em escritores encontraram uma incidência oito a dez vezes maior de depressão unipolar. [...]. Trechos extraídos da obra The Midnight Disease: The Drive to Write, Writer's Block, and the Creative Brain (Harper Paperbacks, 2005), da neurologista, educadora e pesquisadora estadunidense Alice Flaherty. Veja mais aqui.

 

PÓ EXISTENCIAL

Imensidão de vagos \ evacuando na inanidade \ da vacuidade \ em viagem infinda \ de vácuo absoluto. \ Sentido, sem direção. \ Sentido, sem solução. \ Sentido, sem sentido.

Poema Vacuidade de sentido, extraído da obra Pó existencial (Criaart, 2024), do poeta e artista plástico José Durán y Durán. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

&

MEMÓRIA MATA SUL

Autogestão da Memória, Museus Comunitários e Museologia Política - De 11 a 13 de abril de 2024 Cidade dos Palmares, Mata Sul/PE. A oficina-vivência Autogestão da Memória, Museus Comunitários e Museologia Política em Palmares acontecerá na sede da Biblioteca Pública Fenelon Barreto, reunindo 25 articuladores de Movimentos Sociais de Buíque, Escada, Jaboatão dos Guararapes, Jaqueira, Olinda, Palmares, Paudalho, Paulista, Recife, Rio Formoso, Vitória de Santo Antão e São José do Egito. A articulação da ELMP na Mata Sul ocorreu em parceria com o Movimento de Retomada Mata Sul Indígena, Amigos da Biblioteca (ABI) & Semed-Palmares – Biblioteca Fenelon Barreto.

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ARREIA!...

Espetáculo de dança da arte-educadora, bailarina, atriz e performer, Íris Campos, e da artista da dança e do teatro, arte-educadora e produtora cultural, Iara Campos, com enredo que constrói relação entre o universo dos sonhos e a criação da agremiação Caboclinho 7 Flexas do Recife, construindo uma narrativa que honra a ancestralidade indígena, inserindo novos conceitos de preservação da manifestação. O espetáculo conta com a direção de Paulinho 7 Flexas. Arreia. Dias 12 e 13 de abril, 20h, Teatro Cinema Apolo – Palmares - PE. Veja mais aqui.

 

UM OFERECIMENTO: SANTOS MELO LICITAÇÕES

Veja detalhes aqui.

&

Tem mais:

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Curso: Arte supera timidez aqui.

Poemagens & outras versagens aqui.

Diário TTTTT aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.

 

SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...