sexta-feira, maio 25, 2018

JAMES BALDWIN, ANTÔNIO TORRES, LÉVINAS, HABERMAS, ANGÉLICA FREITAS, CRISTINA RIPPER, EDUCAÇÃO, LUIZ TATIT & LUIZA POSSI


CARTA DE CONDOLÊNCIAS - Imagem: arte da escultora e artista visual Cristina Ripper. - A cada passo eu piso em falso pela paisagem embaraçada em pleno meio dia e para que a tarde seja tão imprevisível quanto a noite confusa no céu impossível. Para quem perdeu o sono, o amanhecer é escasso como aqueles que fazem o pequeno número no rol do apreço, de contar nos dedos e quase nem vê-los escapulindo por trás dos montes do desprezo. Assimilo à contraluz a insensatez – oh, humanidade canhestra -, o reverso da medalha e os golpes contínuos no abrigo dos vivos, confinado aos gestos e atitudes que passam lá longe e alheios aos acontecimentos, e absortos pela negra venda da ignorância cega à vasilha do destino e ao recipiente da morte, para nos mostrar as misérias da fortuna. Estou só, quem não está nessa hora, eu bem sei. Nunca esperei nada, nem do merecido, muito menos o prometido, e para quem não sabe o que fazer na vida, lançado ao fogo ou abandonado à própria sorte e à explosiva força centrífuga dos desenganos, o meu abraço fraternal. Estou peito aberto para quem foi pro fundo do poço e não saiu de lá, porque ainda há tempo, e Thiago canta versos do coração diante do inevitável desfecho suspeito de proibições formais e sujeito a toda sorte de calamidade, aqui estou eu. Sou mãos de peito aberto para quem restou apenas o telhado a céu perdido e os males voando por todos os lados, cansado já de agitar os braços infelizes por socorro, rendendo-se de cócoras e desafortunado, com menos de meia dúzia de opções baldadas, na sua ignorância-plutão de vê-se condenado desde o pecado original até ao mais recente decreto municipal, para cumprir mais esmerado a sua tarefa sobre a tampa de um tonel inflamável com a dádiva das coisas, aqui estou, estamos. Sou abraço de peito aberto para quem perdeu a esperança, como se Pandora trouxesse uma nuvem negra e o Sol deixasse de eclodir no Leste, mesmo que ela pareça que voou e foi embora com suas vestes esvoaçantes, nada mais de nada mais, sou coração solidário para que juntos possamos irromper foco de luz capaz de mostrar que somente a esperança permanece dentro, e aqui estou, estamos, vamos juntos. E mesmo que soem condolências, não olho pra trás, nem posso ou deva, sou mãos postas e braços peito aberto para que a saibamos desencontrados, lamentando a distância regulamentar pela correria no afã do ouro com seus laços dissolutos, aqui estou, estamos. Aqui estou a desculpar da pressa do relógio com sua lâmina afiada degolando sentimentos e a lamentar do corte na ternura para quem hasteou a soberba de bloco do eu sozinho na pisada de uns sobre outros, pela competitividade e conquistas de nada, aqui estou, estamos. Aqui estou a perdoar dos ardis com seus toques de arrodeio só para chegar antes que todos ao pódio, com todas as comemorações dissimuladas de sabedoria ádvena da lealdade, aqui estou, estamos. Aqui estou e só nos resta, nada mais, só as mãos postas, espalmadas, o peito aberto e o abraço, agora vamos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do músico, linguista e professor universitário Luiz Tatit: Rodopio, Depois melhora & A companheira; da cantora e compositora Luiza Possi: Sobre o amor e o tempo, A vida é mesmo agora & Seguir cantando; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A questão não é a de saber se conseguimos esgotar um potencial disponível ou a ser ainda desenvolvido, mas a de saber se escolhemos aquilo que podemos querer para os fins de uma pacificação e satisfação da existência. [...]. Trecho extraído da obra Técnica e ciência enquanto ideologia (Edições 70, 1968), do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas. Veja mais aqui.

LÉVINAS & A EDUCAÇÃO – [...] Pensar a educação como acontecimento ético implica fazer da experiência educativa um lugar de encontro com o Outro; significa, de modo contrário à relação que visa à objetivação do Outro na educação, estar disposto a lançar-se a novos horizontes desconhecidos, expondo-se, com isso, ao inesperado, ao imprevisível, ao irredutível do Outro, com todos o riscos que o encontro exige e toda insegurança e inquietação que ele provoca. Na educação, o sujeito que não se expõe ao desconhecido é incapaz de sentir a força transformadora do encontro com o Outro, a qual está na base da experiência educativa. Lá onde acontece a educação, produz-se um encontro do professor (não como um sujeito que sabe) com o aluno (não como aquele que não sabe). Uma relação que não pressupõe o exercício de transmissão de saberes, mas o encontro do que se sabe responsável pelo outro, obrigado a dar-lhe uma resposta na situação de radical alteridade. [...]. Trecho extraído do artigo Lévinas e a reconstrução da subjetividade ética aproximações com o campo da educação (Revista Brasileira de Educação, 2014), de José Valdinei Albuquerque de Miranda. Veja mais aqui e aqui.

GIOVANI - [...] Impaciente, fico imaginando o motivo pelo qual ela parece tão preocupada. Mas a mulher sorri assim que abro a porta, num sorriso que emana a coquete e a matrona. Ela já é bastante idosa e, na realidade, não é francesa. Veio para a França já muitos anos, “quando era muito novinha, senhor”, cruzando a fronteira e saindo da Itália. Como a maioria das mulheres dali, parece ter entrado em luto assim que o último filho deixou de ser criança. Hella achava que eram todas viúvas, mas verificamos que a maioria tinha maridos ainda vivos. Esses maridos pareciam seus filhos e às vezes jogavam belote num campo próximo à nossa casa e seus olhos, quando viam Hella, continham a vigilância orgulhosa de um pai e a especulação vigilante de um homem. [...] Tratavam-me como o filho há pouco iniciado na idade adulta, mas ao mesmo tempo com grande distância, pois eu realmente não pertencia a qualquer um deles, e eles também sentiam (ou eu achava que sim) alguma coisa em mim, coisa essa que não era de sua conta aprofundar. [...]. Trechos extraídos da obra Giovanni (Civilização Brasileira, 1968), do escritor norte-americano James Baldwin (1924-1987), contando a história de dois jovens em Paris para resolverem a relação de todos os problemas da existência, angustiada e cheia de variados sentimentos. Veja mais aqui.

TRÊS POEMAS - RILKE SHAKE: salta um rilke shake / com amor & Ovomaltine / quando passo a noite insone / e não há nada que ilumine / eu peço um rilke shake / e como um toasted Blake / sunny side pra cima / quando estou triste / & sozinha enquanto / o amor não cega / eu bebo um rilke shake / e roço um toasted Blake / na epiderme da manteiga / nada bate um rilke shake / no quesito anti-heartache / nada supera a batida / de um rilke com sorvete / por mais que você se deite / se deleite e se divirta / tem noites que a lua é fraca / as estrelas somem no piche / e aí quando não há cigarro / não há cerveja que preste / eu peço um rilke shake / engulo um toasted blake / e danço que nem dervixe. A MINA DE OURO DE MINHA MÃE & DE MINHA TIA: se chamava / ilha da feitoria / ou ilha do meio / onde as duas vendiam / cosméticos avon / chegavam de bote / motorizado / com fardos de produtos / batons rímeis perfumes / e sobretudo rouges / eram recebidas / pelas donas de casa / cabeludas / bigodudas / panos de prato no ombro / filhos ranhentos no colo / minha mãe & minha tia procediam / ao embelezamento das nativas / devolviam-lhes cores / às faces / todo o espectro de cores / de um céu de fim de tarde / na lagoa dos patos / azuis e roxos e laranjas e rosas / e depois lhes emprestavam / espelhos / as donas de casa da ilha do meio / compravam muita maquiagem / minha mãe & minha tia / enchiam sacos de dinheiro. MULHER DE ROLLERS: no condomínio querem saber / se ela pirou de vez / ou se vai competir / nalguma espécie de jogos olímpicos / porque deu para andar de rollers / na área comum do prédio / prejudicando a saída / e a entrada de veículos / ainda por cima anda mal / nem ganhou velocidade / pirueta é coisa então / para a próxima encarnação / consternação entre condôminos / com seu senso do ridículo / “essa daí vai acabar / como na música do chico ”/ “vai passar na avenida / um samba popular?” / “não, atrapalhando o tráfego”. Poemas da poeta e tradutora Angélica Freitas, autora dos livros Rilke Shake (São Paulo: Cosac Naify, 2007) e um útero é do tamanho de um punho (São Paulo: Cosac Naify, 2013).

A ARTE DE ANTONIO TORRES
O premiadíssimo escritor, jornalista e ocupante da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, Antônio Torres, é autor de diversas obras, entre as quais destacamos Essa Terra, relato emocionante de um homem que retorna à cidade natal depois de vinte anos de ausência, desiludindo-se com tudo que reencontra, enforcando-se, por conta disso no gancho de uma rede. A obra já foi destacada neste espaço, como também alguns dos seus títulos infanto-juvenis. Por conta disso, veja mais aqui, aqui e aqui.


Exposição Em-Cantos de Palmares, do artista plástico José Durán y Duran & muito mais na Agenda aqui.
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A arte da escultora e artista visual Cristina Ripper aqui.
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Tudo dela pra mim, O livro vermelho de Carl Gustav Jung, a música de Livio Tragtenberg & a arte de Luciah Lopez aqui.
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Das coisas & coisas, a literatura de Paul Auster, a coreografia de Luciana Achugar, a arte de Debbie Lee & a música de Marisa Ricco aqui.


MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

    Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do vio...