terça-feira, maio 15, 2018

ZÉ DA LUZ, DALTON TREVISAN, SCHOPENHAUER, JULIETTE BELMONTE, PLOTINO, VITAL CORRÊA, ANDRÉ MEHMARI & YEOL EUM SON

O FAZ-TUDO, A BRONCA & A BORREIA! - Imagem: arte da artista plástica porto-riquenha Juliette Belmonte. - O Marquito Ladeira endoidou o cabeção quando viu aquela linda mulher descer reboladeira de um mimoso fusquinha. Grudou os olhos nela e a seguiu todo o trajeto. Ao retornar, ele aviou-se e foi lá, passou a maior cantada e levou o maior fora. A senhora não está me entendendo! Senhorita, mais respeito! É que eu quero comprar seu carro! Não está a venda. Pode pedir quanto for. Tanto! Pronto, partiu pra comprá-lo, nem justou, tome lá dê cá, fechado. A lindeza jogou-lhe as chaves, dizendo que o documento estava no porta-luvas e fosse buscar o recibo na casa dela. Saiu sem nem dar bom dia. Não deu certo de um jeito, mas deu de outro. Ao apossar-se da direção, engatou primeira e saiu todo feliz. Foi até o Doro, o seu faz-tudo. Chegando lá, ordenou: Quero que faça um carro de som incrementado e todo estilizado. O Doro ficou remoendo as catracas do quengo, enquanto olhava pro danado. Olhou, envergou o pescoço, plantou bananeira, enfiou-se debaixo, saiu do outro lado, subiu no teto, desceu deslizando pelo capô, fez careta e disse: Tá certo, xá comigo. Foram então até a garagem de depósito do Marquito e o Doro começou a trabalhar na mesma hora: arrancou os acentos, os pneus, portas, lataria, motor, e saiu depenando o veículo, até deixá-lo só no chassi. O dono só olhando: Que droga esse cabra tá fazendo! Será que esse doido vai saber remontar tudo? Tô arrependido. Viu o Doro sair, desaparecer. Pronde esse porra foi? Armado de um molho de ferramentas, Doro retorna e começa o maior baticum, pei bufe, teibei. O que este doido está fazendo, meu Deus? Depois de um tanto de hora, Doro parou, serviu-se de uma prancheta, armou-se de caneta e papel e começou a escrever sem parar. O Marquito só olhando. Ao concluir umas cinco laudas, dirigiu-se ao proprietário: Pronto, tá aqui a relação do que precisa ser comprado. O que? O Marquito quase teve um troço. Isso é o material necessário pro carro de som. E você vai saber remontar tudo isso? Xá comigo, doutor. Pra não morrer do coração, o Marquito foi providenciar a compra do material solicitado. Não previa tanta coisa. Não discutiu e, no outro dia, botou um caminhão com tudo dentro no depósito. O Doro espantou-se: Já? Comigo é assim, tudo na hora. Agora vamos, quero ver tudo montado. Lá vai um dia, dois, três, uma semana, quase duas, ele lá conferindo o teitei do Doro. O carro estava irreconhecível e cheio de pitocos, fios, arames, o escambau. Mais um dia e já nos acabamentos, o carro parecia outro. Começaram as ligações, a maior gambiarra com circuitos, choques elétricos, pipocos e até um princípio de incêndio. Pega, apaga. O Marquito depois do susto, falou: Esse cara quer me matar do coração. E quase mesmo. Mais dois dias, a tronchura estava pronta, parecia uma árvore de natal ambulante, toda enfeitada e piscando, tudo funcionando: a buzina, um arroto com o hino do Flamengo; a acelerada produzia peido e peidadas; a armação do som, um compartimento de madeira maior que o cumprimento e a largura do automóvel, cheio de caixas de som de todos os tamanhos, lâmpadas que piscavam no ritmo, papagaiadas e sustos; o som, um estrondo e microfonias. Que porra é essa, Doro? Estou testando, aguarde. Quero ver é esse mondrongo andar. Depois de zis testes, fogaréu, estalos, roncos, estouros, a coisa estava pronta. Doro acionou o motor, ligou o som e deu uma volta. O Marquito só olhando: Isso não vai dar certo. Mas funcionou. Pronto, pode levar. Tá doido é? Vou trazer um especialista. E trouxe mesmo. O cara cobrou logo a consulta antecipada e foi examinar. Chegou lá, olhou, intrigou-se, conferiu, re-conferiu, balançou com a cabeça negativamente, esbugalhou os olhos, foi prum lado e pro outro, tomou susto, refez toda conferência e depois de horas, voltou pro Marquito e disse: Preciso levar prum elevacar mais próximo? Tá doido? Oxe, é só dizer que a gente leva agora. O especialista olhou pro Doro e duvidou. Quer ir mesmo? Sim, preciso concluir meu relatório. Então vamos. Doro montou e saiu guiando a borreia para a oficina mais próxima, enquanto o especialista seguia com o empresário arrependido desde a hora que nasceu. Lá chegando, suspenderam o veículo e o especialista ficou conferindo tudo por baixo. Minutos, horas depois, ele, então, virou-se pro dono e disse: Nunca vi tanta loucura junta, não presta, está condenado, mas funciona. Não sei como essa maluquice toda dá certo, só milagre mesmo. Não sei se o Inmetro vai autorizar essa coisa transitando por aí, recomendo isso e aqui estão meus honorários. Outro baque pro Marquito, uma fortuna! E o cara não fez nada. E virou-se pro profissional: O que você mais sabe fazer pra compensar essa careira conta? Eu só confiro, sou doutor no assunto, quem faz é ele e o senhor quem paga, mais nada. Isso é um roubo! Mesmo assim pagou e solicitou do Inmetro a fiscalização. Quando os fiscais chegaram, teve de retornar pra oficina e amontar o carro no elevacar. Os fiscais olharam, conferiram, testaram, examinaram, se espantaram, condenaram, futucaram, balançaram, cascavilharam tudo e no final o relatório: É uma doidice, mas funciona. Terá de pagar uma taxa extra, com reconfiguração do veículo no Detran e tudo o mais para colocá-lo dentro dos conformes legais. Mais dinheiro? Se cumprir essas exigências, essa piração pode transitar. Vôte! O Marquito se arrependeu de novo pela milésima vez, de ter inventado uma insanidade dessas. O Doro com a cara mais lisa, ainda cochichou: Pronto, agora o senhor tem a coisa mais ineivada da paróquia! Pra compensar, vou bolar a sua propaganda, xá comigo! Oh, não! O possuinte saiu arretado, injuriado até os astros, de não querer mais nunca aquela porqueira toda. Ah, qual não foi surpreendido dois dias depois, quando viu a população morrendo às gaitadas com as propagandas e aquele estrupício zanzando na rua. Foi aí que ele segurou o gênio e admitiu que apesar de doido, o Doro havia feito um bom serviço: Acho que estou ficando lelé da cuca mesmo, num é que o negócio deu certo mesmo!?! Virou a sensação em todo lugar que passasse. O problema era a meninada e os cachorros correndo atrás. Mas isso é outra história, o que vale, de mesmo, é que funciona e ele está só contando lucros no pé do cipa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do pianista, compositor e arranjador André Mehmari: Lacrimae, Angelus & Al we needs is Beatle; da pianista clássica sul-coreana Yeol Eum Son: Songs Stravinsky, Concerto nº 2 Prokofiev & Concerto nº 2 Chopin; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Se a Arte consegue produzir obras que estejam conformes a sua essência constitutiva [...] ela ainda tem, pela posse da beleza que lhe é essencial, uma beleza maior e mais verdadeira que aquela que passa nos objetos exteriores. [...] Todo princípio criador é sempre superior à coisa criada: é não a privação da música mas a própria música que cria o musicista; é a música inteligível que cria a música sensível. [...]. Pensamento extraído da obra Enéadas (Polar, 2000), do filósofo grego Plotino (204-270). Veja mais aqui.

REFLEXÕES PARA ONTEM - [...] O coito é principalmente coisa do homem; a gravidez, inteiramente da mulher. Do pai, o filho adquire a vontade, o caráter; da mãe, o intelecto. Este é o princípio da redenção; a vontade é o elemento de ligação. A evidência da constante existência do querer-viver no tempo, apesar de todo incremento da iluminação através do intelecto, é o coito: a evidência da luz do conhecimento novamente associada àquela vontade, mantendo em aberto a possibilidade da redenção, e isto no grau mais elevado da clareza, é o renovado tornar-se humano do querer-viver. Seu sinal é a gravidez, que por isto se apresenta franca e livremente, mesmo orgulhosamente, enquanto o coito se oculta como um criminoso. [...] Quem, mediante tais considerações, torna presente quão necessários para nossa salvação são na maior parte das vezes a necessidade e o sofrimento, reconhecerá que nós outros não deveríamos invejar a sorte, mas a desgraça. [...]. Como poderia este ser melhorado por meio dos sofrimentos, se, envolto numa grossa casca pétrea, seque os percebe? [...]. Trecho extraído da obra Paregma e Paralipomena, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). Veja mais aqui.

ABISMO DE ROSA[...] Velha conhecida minha, essa minissaia xadrez. – Teu vulcão está aí. Não quer despertá-lo? Defendeu-se, agarrando-lhe a mão com força. – Que mão fria... – Teu beijinho, hum, gostinho de bolacha Maria e geleia de uva. – Não gostei da última vez. Como você me tratou. [...] Quero você nuazinha. A blusa pela cabeça sempre despenteia. – Vire para lá. Senão não tiro. Menos uma pecinha. A blusa. A saia. O sutiã. – A calcinha não. – Coisinha mais linda. – Para combinar com o colar. O riso furtivo do colar vermelho. – Tire, amor. De costas, sem olhar. – Parece um menino. Só que cabeludo. Toda nua, de salto alto. – Correntinha também é roupa? Sem poder cobrir os três seios com duas mãos. – Essa cruzinha o que é? O crucifixo barato, presente do noivo. – É enfeite. O velho Jesus, quem diria, piedosamente virou-lhe o rosto. [...] um corpo nu de mocinha. Tão aflito não sabia onde agarrar. – Veja como é quentinho. Pegue. Ela pegou sem entusiasmo. – Relaxe, meu bem. Não fique de pescoço duro. – Ai, meus ossos. Você me machuca. Arre, que tanto. – Dê um beijinho. Só um. – Ah, não. Ah, não. – Por um beijo eu dou o dobro. – Olhe que sou cigana. – Também sou. – Se eu der, você quer mais. [...] – Agora um beijinho. Ela deu. – Mais um. Mais outro. Já aos gritos. – Só mais este. Ai, amor. Agora no tapete. [...] Ela, quieta. – Eu dou o dobro. – O doutor é atiçadinho. – Agora sente-se. Abra a perna. É aqui, amor. Aqui é o bom. Sem ele pedir: - Ai, que é bom. [...] Ela pôs só a pontinha: entrar a uma virgem é perder-se no abismo de rosas. [...]. Extraído da obra Continhos galantes (L&PM, 2007), do escritor Dalton Trevisan. Veja mais aqui.

AMÔ DE CABÔCO - Seu moço. Não vale a pena, / eu alembrá as paxão, / qui eu tive pelas morena / das terra do meu sertão. / Era uma históra cumprida / qui eu tinha de insminhunçá. / E dessas coisas da vida / nunca se deve alembrá. / Pruquê a gente alembrando, / dessas antiga amizade, / o passado qui tá morto, / cá dento im nós, invivésse, / se ajunta cum a sodade, / e o peito é quem padece. / Abasta só le conta, / é o pruquê da razão, / da históra duma caboca / das terra do meu sertão, / que me butou freio na na boca / e peia dos pés pras mão: / vá ouvindo, meu patrão: / caboco disingonçado / sambado de profissão, / eu sempre fui condado / pra toda festa e fonção. / Fui mestre daqueles samba! / dansei tanto cum as caboca, / qui fiquei de perna bamba! / E ainda digo ao sinhô, / qui outro dote eu piçuía: / - Fui o maió marcado, / dos marcado de quadrilha! / Quando nos samba eu chegava, / uvía o batê-de-boca, / das morena, das caboca, / num cuxixo, num zunzun, / ta-li-qua cumo uns bizouro, / qui dizia umas pras outra: - Lá chegou o mestre-sala, / lá chegou o pé-de-ouro! / Entoce, pruvia disso / nos samaba qui eu sambavam / as increnca, os principiço, / pra riba d’eu avuava! / Vi munto a morte na frente, / mas porem, não recuava! / Quando eu já carregava / nas costa, uns trinta janero, / cum uns quinze de sambado, / dois oinho traiçuêro, / fizero eu dansá o samba, / fizero meu coração / dansá o samba do amô! / Eu vou conta prô sinhô: / Duma feita, num pagode, / no Riacho da Priguiça, / o caboco Xico Hanoro, / ruendo paxão, prumode / a Quinoia e a Simpiliça, / só cum eu querê dansá, / me instranhou, e foi preciso, / nós imendá os bigode / e brigá pra se acabá! / O samba virou um frege, / numa bagunça inferná! / Adispois do aquéta-arreda, / o caboco Xico Hanoro, / tinha levado três queda, / tava de venta quebrada! / Mas isso não vale nada. / O cabra tinha razão. / Pruquê as duas morena, / era duas tentação! / Era as fulô mais bonita / qui infeitava esse salão! / Adispois da ingrizia, / Quinoia, qui cunhicia / quanto eu gostava dela, / quage chorando, pedia, / qui eu dexasse de sambá! / Qui essas coisa só dizia, / pruquê me tinha amizade; / qui era munto mais mió, / qui eu precurásse u’a moça, / pra cum ela me casá! / Eu maginei... maginei / na preposta da muié! / Dispois eu considerei: / - Concêio toma quem qué! / Manginando nessas coisa, / andei pra traz quinze ano!.../ dansei no premero samba / qui eu sambei – lá no Ingano! / Meu juízo foi sambando, / im todo samba, patrão, / qui eu sambei na minha vida! / E a Quinoia, imbibida, / oiava pra eu, oiando / cumo quem tá isperando / a Santa Bença da missa! / Oiava pra Simpilíça, / qui tomem me oiava munto, / ta-li-quá cumo um parente / oia a cara de um difunto! / Eu entonce, arrisurvi / dá um adeus à pagodera! / Dos samba me adispidi, / pro resto da vida intera! / Garrei na mão de Quinoia, / qui ainda tava amarela / cum as mão tremendo e suando / qui nem tampa de panela / quando o feijão tá frevendo, / e falei assim pra ela: / - Quinoia. Eu te premeto, / pelo nome do meu pai, / qui meus pé e minhas perna, / pra sambá numa baderna, / de sua casa não sai! / - E agora, pra compretá / a minha felicidade, / tu que sê minha muié, / tu me dá tua amizade? / E ali, naquele momento, / cum as jura de amô na boca, / eu e Quinoia – a caboca, / contratemo casamento! / Hoje eu vivo satisfeito. / E quando as vez, su sujeito, / passa lá pelo meu rancho / e cum falta de arrespeito, / me pregunta todo ancho: / - Tem hoje uma padadera, / um samba, na Pitombera, / você não vai dansá, não? / - É esse aqui o meu samba, / é essa a minha fonção. / Eu orguioso arrespondo, / ao cujo dito amostrando, / deitadinha na tipoia, / um batorezinho sambudo, / um caboquinho barrigudo, / paricido cum a Quinoia!!! Poema extraído da obra Brasi caboco e Sertão em carne e osso (Litoral,1999), do poeta Zé da Luz (Severino de Andrade Silva, 1904-1965). Veja mais aqui, aqui e aqui.
  
A ARTE DE JULIETTE BELMONTE
A arte da artista plástica porto-riquenha Juliette Belmonte.


50 poemas escolhidos pelo autor, de Vital Corrêa de Araújo & muito mais na Agenda aqui.
&
As trelas do Doro aqui e aqui.
Uma vez & todas as vezes, o pensamento de Jacques Rancière, a música de Adriana Calcanhoto, a arte de Zorávia Bettiol, o cinema de Betse de Paula & Dira Paz aqui.

MÓNICA OJEDA, BORA CHUNG, AZA NJERI & DÉBORA LAÍS FERRAZ

  Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos concertos Nights from the Alhambra (2007), A Mediterranean Odyssey (2010), Troubadours On The Rhine...