Mostrando postagens com marcador Zé da Luz.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Zé da Luz.. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, fevereiro 12, 2020

PATRICIA HIGHSMITH, ZÉ DA LUZ, OLGA BENÁRIO, ANTÔNIO NÓBREGA & AMANDA BARROS


É CADA UMA QUE ME APARECE! – LÁ VAI UMA: FUI DORMIR E ALMA FOI VIAJAR, VÔTE! – E foi mesmo. Quando dei fé, estava diante de um castelo suntuoso. A porta abriu-se sem que eu sequer batesse e uma voz me indagou: Sim? Dei de ombros. Não era ninguém, mas falou: Pode entrar, Kerpimanha lhe aguarda, venha! Cá comigo: Quem? E a voz invisível: A mãe do sonho! Vixe! Pensei alto ou esse adivinhou meu pensamento. Destá. Era um ambiente luxuoso indescritivelmente iluminado. Logo vi mais adiante uma belíssima mulher, tão indescritível quanto linda e esbelta, olhos vivos, alvíssima como a manhã, cabelos lisos negros sobre os ombros, assimetria esculturada estonteantemente perfeita, vestes transparentes sobre o corpo nu e uma das mãos estendidas para mim. Cá com meus botões: Sempre ouvi dizer que ela era uma velha que descia do céu, o povo inventa cada uma. Tomou-me uma das mãos e sussurrou: Anabanéri está se aprontando para você. Quem? Ah, tá. Disseram-me certa vez tratar-se de uma moça sem pernas que descia com os últimos brilhos das estrelas, percorrendo o caminho do arco-íris. Ela virou trinco, olhou-me fundo e disse: Pode entrar e aguarde, ela logo aparecerá. Você foi pontual, será premiado por isso. Hem? Sei não. Mais curioso que nunca, fiquei no quarto escuro, com certeza uma alcova celestial confortabilíssima e apaziguadora. Ali fiquei, à espera. Adormeci. Acordei na real com a voz do Harold Rome (1908-1993), solfejando: Pontualidade é uma coisa que, se você segue à risca, não encontra ninguém para apreciá-la. Não era ele, para meus espanto era uma coruja irônica, Murucututu – para quem não sabe, a mãe do sono -, que saiu voando para eu nunca mais dormir. E LÁ VÃO DUAS: ESCATOLOGIA DA PÊGA!– Depois de um sonho deste, usei do recurso da oniromancia para poder entendê-lo. De nada valeu, dei foi de cara com o Fred Allen (1894-1956), caçoando: O neurótico constrói um castelo no ar. O psicótico mora nele. O psiquiatra cobra o aluguel. Vixe! Será o Coisonário? Nada, era só o noticiário da tevê dando conta de milícias entre malícias, óleo nas praias, livros no lixo, a cruzada sectária neopentecostal e o laranjal florido e impune com améns e despautérios, isso afora carestia, desemprego, desmandos e desgraceira geral. Será o fim do mundo? Parecer, parece mesmo. Só despencando pelas tabelas. Até onde? Valha-me. Aonde nós chegamos, se a cretinice parece não ter limites, haja estupidez! O fundo do poço abissal, topou. Só humor barato e sem graça está liberado. Precisamos, pelo menos, salvar a piada, ora! E LÁ VÃO TRÊS: ESSE MUNDO ESTÁ MUITO DOIDO – Barulho desse, não tem sono que chegue! Parece mais que a gente está no maior canjerê. Isso mesmo, coisa-feita. E tem gente pensando que pra cruzeta tem proteção! Ora. E dizem: Só se for na base da arruda com alho, cravo, alecrim, raspas de raízes e chifres, um pouquinho de lixo da encruzilhada para fazer defumação de cupim com pena de galinha preta, depois um banho de sal grosso e vamos ver como é que fica – pelo menos é melhor que berreiro de evangélico, meu! Senão, tomar garapa para afrouxar os nervos. Para mim, melhor mesmo é emendar os bigodes para glosar qualquer outro mote, levando na caixa dos peitos aquela da cantoria violeira do Zé da Luz: Quando eu pego na viola / Qui oiço o gemê das prima, / Os verso sai da cachola / Im cachuêra de rima. Aí, sim. E vamos aprumar a conversa que tem mais lá pra baixo, deixa rolar! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Lembrava-lhe conversas à mesa, ou em sofás, com pessoas cujas palavras pareciam pairar sobre coisas mortas e paradas e que jamais faziam soar corda alguma. E que quando a gente procurava tocar uma corda vibrante, nos olhavam com a mesma máscara rígida de sempre, fazendo algum comentário tão perfeito na sua banalidade que a gente sequer conseguia crer que talvez fosse um subterfúgio. E a solidão, ampliada pelo fato de que na loja sempre se viam os mesmos rostos, dia após dia, os poucos rostos com quem a gente poderia falar, e jamais falou, ou jamais poderia falar. Diferente do rosto que passa no ônibus, parecendo querer exprimir algo, que a gente vê só uma vez e acaba desaparecendo para sempre. Ela ficava pensando todas as manhãs, na fila do relógio de ponto no subsolo, distinguindo sem querer, com o olhar, os empregados permanentes dos temporários, como fora parar ali – respondera a um anúncio, é evidente, mas isto não explicava o destino – e o que viria depois em vez de um emprego de cenógrafa. Sua vida era uma série de ziguezagues. [...]. Trecho extraído da obra Carol (L&Pm, 2015), da escritora estadunidense Patricia Highsmith (1921-1995).

A ÚLTIMA CARTA DE OLGA BENÁRIOAmanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade. Por isso, não posso pensar nas coisas que me torturam o coração, que são mais caras que a minha própria vida. E por isso me despeço de vocês agora. É totalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quisera poder pentear-te, fazer-te as tranças – ah, não, elas foram cortadas. Mas te fica melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte. Deves andar de sandálias ou descalça, correr ao ar livre comigo. Sua avó, em princípio, não estará muito de acordo com isso, mas logo nos entenderemos muito bem. Deves respeitá-la e querê-la por toda a tua vida, como o teu pai e eu fazemos. Todas as manhãs faremos ginástica... Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que esta é a minha despedida. E agora, quando penso nisto de novo, a ideia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte. Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de bom que me destes? Corformar-me-ia, mesmo que não pudesse ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me olhassem. E queria ver teu sorriso. Quero-os a ambos, tanto, tanto. E estou tão agradecida à vida, por ela haver-me dado a ambos. Mas o que eu gostaria era de poder viver um dia feliz, os três juntos, como milhares de vezes imaginei. Será possível que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz te sentes por nossa filha? Querida Anita, meu querido marido, meu Garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça, pois parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível. É precisamente por isso que esforço-me para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nos últimas e difíceis horas. Depois desta noite, quero viver para este futuro tão breve que me resta. De ti aprendi, querido, o quanto significa a força de vontade, especialmente se emana de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão porque se envergonhar de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas... Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte amanhã. Beijo-os pela última vez. Texto da Última carta escrita pela militante política alemã Olga Benário (1908-1942), que, durante a sua militância expressou que: “Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Em momentos difíceis é preciso pensar em alguma coisa bonita. Iluminar, iluminar, essa é minha missão e a do sol”. Veja mais aqui.

A CACIMBA, DE ZÉ DA LUZ
Tá vendo aquela cacimba / Lá na bêra do riacho, / Im riba da ribancêra, / Qui fica, assim, pru dibaxo / De um pé de tamarinêra? / Pois, um magote de môça / Quage toda menhanzinha, / Foima, assim, aquela tuia, / Na bêra da cacimbinha / Tomando banho de cuia! / Eu não sei pru quê razão, / As águas dessa nacente, / As águas qui alí se vê, / Tem um gosto deferente / Das cacimba de bêbê… / As águas da cacimbinha / Tem um gôsto mais mió. / Nem sargada, nem insôça… / Tem um gostim do suó / Dos suvaco déssas môça… / Quando eu vejo essa cacimba, / Qui inspio a minha cara / E a cara torno a inspiá, / Naquelas águas quilara, / Pego logo a desejá… / …Desejo, pra que negá? / Desejo ser um caçote, / Cum dois óio desse tamanho! / Pra vê, aquele magóte / De môça tumando banho!
ZÉ DA LUZ - Poema do poeta Zé da Luz (Severino de Andrade Silva, 1904 —1965). Veja mais aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da bailarina Amanda Barros, formada na Escola do Teatro Bolshoi Brasil e que está na Lamondance, em North Vancouver, no Canadá. Veja mais aquiaqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A música do artista e músico Antônio Nóbrega aqui, aqui & aqui.
A poesia da educadora, jornalista, poeta e ativista feminina Edwiges de Sá Pereira (1884-1958) aqui.
A literatura de Djanira Silva aqui.
Capibaribe, um rio de gente: histórias, causos e lendas do Capibaribe, de Inácio França aqui.
O teatro de Fernando Peltier aqui.
Agroecologia: Hortas do Bem Comum & Felicidade Comunitária aqui.
O cordel do poeta Pica Pau aqui & aqui.
O município de Pesqueira aqui & aqui
&
Pintando na Praça aqui, aqui, aqui & aqui.


terça-feira, maio 15, 2018

ZÉ DA LUZ, DALTON TREVISAN, SCHOPENHAUER, JULIETTE BELMONTE, PLOTINO, VITAL CORRÊA, ANDRÉ MEHMARI & YEOL EUM SON

O FAZ-TUDO, A BRONCA & A BORREIA! - Imagem: arte da artista plástica porto-riquenha Juliette Belmonte. - O Marquito Ladeira endoidou o cabeção quando viu aquela linda mulher descer reboladeira de um mimoso fusquinha. Grudou os olhos nela e a seguiu todo o trajeto. Ao retornar, ele aviou-se e foi lá, passou a maior cantada e levou o maior fora. A senhora não está me entendendo! Senhorita, mais respeito! É que eu quero comprar seu carro! Não está a venda. Pode pedir quanto for. Tanto! Pronto, partiu pra comprá-lo, nem justou, tome lá dê cá, fechado. A lindeza jogou-lhe as chaves, dizendo que o documento estava no porta-luvas e fosse buscar o recibo na casa dela. Saiu sem nem dar bom dia. Não deu certo de um jeito, mas deu de outro. Ao apossar-se da direção, engatou primeira e saiu todo feliz. Foi até o Doro, o seu faz-tudo. Chegando lá, ordenou: Quero que faça um carro de som incrementado e todo estilizado. O Doro ficou remoendo as catracas do quengo, enquanto olhava pro danado. Olhou, envergou o pescoço, plantou bananeira, enfiou-se debaixo, saiu do outro lado, subiu no teto, desceu deslizando pelo capô, fez careta e disse: Tá certo, xá comigo. Foram então até a garagem de depósito do Marquito e o Doro começou a trabalhar na mesma hora: arrancou os acentos, os pneus, portas, lataria, motor, e saiu depenando o veículo, até deixá-lo só no chassi. O dono só olhando: Que droga esse cabra tá fazendo! Será que esse doido vai saber remontar tudo? Tô arrependido. Viu o Doro sair, desaparecer. Pronde esse porra foi? Armado de um molho de ferramentas, Doro retorna e começa o maior baticum, pei bufe, teibei. O que este doido está fazendo, meu Deus? Depois de um tanto de hora, Doro parou, serviu-se de uma prancheta, armou-se de caneta e papel e começou a escrever sem parar. O Marquito só olhando. Ao concluir umas cinco laudas, dirigiu-se ao proprietário: Pronto, tá aqui a relação do que precisa ser comprado. O que? O Marquito quase teve um troço. Isso é o material necessário pro carro de som. E você vai saber remontar tudo isso? Xá comigo, doutor. Pra não morrer do coração, o Marquito foi providenciar a compra do material solicitado. Não previa tanta coisa. Não discutiu e, no outro dia, botou um caminhão com tudo dentro no depósito. O Doro espantou-se: Já? Comigo é assim, tudo na hora. Agora vamos, quero ver tudo montado. Lá vai um dia, dois, três, uma semana, quase duas, ele lá conferindo o teitei do Doro. O carro estava irreconhecível e cheio de pitocos, fios, arames, o escambau. Mais um dia e já nos acabamentos, o carro parecia outro. Começaram as ligações, a maior gambiarra com circuitos, choques elétricos, pipocos e até um princípio de incêndio. Pega, apaga. O Marquito depois do susto, falou: Esse cara quer me matar do coração. E quase mesmo. Mais dois dias, a tronchura estava pronta, parecia uma árvore de natal ambulante, toda enfeitada e piscando, tudo funcionando: a buzina, um arroto com o hino do Flamengo; a acelerada produzia peido e peidadas; a armação do som, um compartimento de madeira maior que o cumprimento e a largura do automóvel, cheio de caixas de som de todos os tamanhos, lâmpadas que piscavam no ritmo, papagaiadas e sustos; o som, um estrondo e microfonias. Que porra é essa, Doro? Estou testando, aguarde. Quero ver é esse mondrongo andar. Depois de zis testes, fogaréu, estalos, roncos, estouros, a coisa estava pronta. Doro acionou o motor, ligou o som e deu uma volta. O Marquito só olhando: Isso não vai dar certo. Mas funcionou. Pronto, pode levar. Tá doido é? Vou trazer um especialista. E trouxe mesmo. O cara cobrou logo a consulta antecipada e foi examinar. Chegou lá, olhou, intrigou-se, conferiu, re-conferiu, balançou com a cabeça negativamente, esbugalhou os olhos, foi prum lado e pro outro, tomou susto, refez toda conferência e depois de horas, voltou pro Marquito e disse: Preciso levar prum elevacar mais próximo? Tá doido? Oxe, é só dizer que a gente leva agora. O especialista olhou pro Doro e duvidou. Quer ir mesmo? Sim, preciso concluir meu relatório. Então vamos. Doro montou e saiu guiando a borreia para a oficina mais próxima, enquanto o especialista seguia com o empresário arrependido desde a hora que nasceu. Lá chegando, suspenderam o veículo e o especialista ficou conferindo tudo por baixo. Minutos, horas depois, ele, então, virou-se pro dono e disse: Nunca vi tanta loucura junta, não presta, está condenado, mas funciona. Não sei como essa maluquice toda dá certo, só milagre mesmo. Não sei se o Inmetro vai autorizar essa coisa transitando por aí, recomendo isso e aqui estão meus honorários. Outro baque pro Marquito, uma fortuna! E o cara não fez nada. E virou-se pro profissional: O que você mais sabe fazer pra compensar essa careira conta? Eu só confiro, sou doutor no assunto, quem faz é ele e o senhor quem paga, mais nada. Isso é um roubo! Mesmo assim pagou e solicitou do Inmetro a fiscalização. Quando os fiscais chegaram, teve de retornar pra oficina e amontar o carro no elevacar. Os fiscais olharam, conferiram, testaram, examinaram, se espantaram, condenaram, futucaram, balançaram, cascavilharam tudo e no final o relatório: É uma doidice, mas funciona. Terá de pagar uma taxa extra, com reconfiguração do veículo no Detran e tudo o mais para colocá-lo dentro dos conformes legais. Mais dinheiro? Se cumprir essas exigências, essa piração pode transitar. Vôte! O Marquito se arrependeu de novo pela milésima vez, de ter inventado uma insanidade dessas. O Doro com a cara mais lisa, ainda cochichou: Pronto, agora o senhor tem a coisa mais ineivada da paróquia! Pra compensar, vou bolar a sua propaganda, xá comigo! Oh, não! O possuinte saiu arretado, injuriado até os astros, de não querer mais nunca aquela porqueira toda. Ah, qual não foi surpreendido dois dias depois, quando viu a população morrendo às gaitadas com as propagandas e aquele estrupício zanzando na rua. Foi aí que ele segurou o gênio e admitiu que apesar de doido, o Doro havia feito um bom serviço: Acho que estou ficando lelé da cuca mesmo, num é que o negócio deu certo mesmo!?! Virou a sensação em todo lugar que passasse. O problema era a meninada e os cachorros correndo atrás. Mas isso é outra história, o que vale, de mesmo, é que funciona e ele está só contando lucros no pé do cipa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do pianista, compositor e arranjador André Mehmari: Lacrimae, Angelus & Al we needs is Beatle; da pianista clássica sul-coreana Yeol Eum Son: Songs Stravinsky, Concerto nº 2 Prokofiev & Concerto nº 2 Chopin; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Se a Arte consegue produzir obras que estejam conformes a sua essência constitutiva [...] ela ainda tem, pela posse da beleza que lhe é essencial, uma beleza maior e mais verdadeira que aquela que passa nos objetos exteriores. [...] Todo princípio criador é sempre superior à coisa criada: é não a privação da música mas a própria música que cria o musicista; é a música inteligível que cria a música sensível. [...]. Pensamento extraído da obra Enéadas (Polar, 2000), do filósofo grego Plotino (204-270). Veja mais aqui.

REFLEXÕES PARA ONTEM - [...] O coito é principalmente coisa do homem; a gravidez, inteiramente da mulher. Do pai, o filho adquire a vontade, o caráter; da mãe, o intelecto. Este é o princípio da redenção; a vontade é o elemento de ligação. A evidência da constante existência do querer-viver no tempo, apesar de todo incremento da iluminação através do intelecto, é o coito: a evidência da luz do conhecimento novamente associada àquela vontade, mantendo em aberto a possibilidade da redenção, e isto no grau mais elevado da clareza, é o renovado tornar-se humano do querer-viver. Seu sinal é a gravidez, que por isto se apresenta franca e livremente, mesmo orgulhosamente, enquanto o coito se oculta como um criminoso. [...] Quem, mediante tais considerações, torna presente quão necessários para nossa salvação são na maior parte das vezes a necessidade e o sofrimento, reconhecerá que nós outros não deveríamos invejar a sorte, mas a desgraça. [...]. Como poderia este ser melhorado por meio dos sofrimentos, se, envolto numa grossa casca pétrea, seque os percebe? [...]. Trecho extraído da obra Paregma e Paralipomena, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). Veja mais aqui.

ABISMO DE ROSA[...] Velha conhecida minha, essa minissaia xadrez. – Teu vulcão está aí. Não quer despertá-lo? Defendeu-se, agarrando-lhe a mão com força. – Que mão fria... – Teu beijinho, hum, gostinho de bolacha Maria e geleia de uva. – Não gostei da última vez. Como você me tratou. [...] Quero você nuazinha. A blusa pela cabeça sempre despenteia. – Vire para lá. Senão não tiro. Menos uma pecinha. A blusa. A saia. O sutiã. – A calcinha não. – Coisinha mais linda. – Para combinar com o colar. O riso furtivo do colar vermelho. – Tire, amor. De costas, sem olhar. – Parece um menino. Só que cabeludo. Toda nua, de salto alto. – Correntinha também é roupa? Sem poder cobrir os três seios com duas mãos. – Essa cruzinha o que é? O crucifixo barato, presente do noivo. – É enfeite. O velho Jesus, quem diria, piedosamente virou-lhe o rosto. [...] um corpo nu de mocinha. Tão aflito não sabia onde agarrar. – Veja como é quentinho. Pegue. Ela pegou sem entusiasmo. – Relaxe, meu bem. Não fique de pescoço duro. – Ai, meus ossos. Você me machuca. Arre, que tanto. – Dê um beijinho. Só um. – Ah, não. Ah, não. – Por um beijo eu dou o dobro. – Olhe que sou cigana. – Também sou. – Se eu der, você quer mais. [...] – Agora um beijinho. Ela deu. – Mais um. Mais outro. Já aos gritos. – Só mais este. Ai, amor. Agora no tapete. [...] Ela, quieta. – Eu dou o dobro. – O doutor é atiçadinho. – Agora sente-se. Abra a perna. É aqui, amor. Aqui é o bom. Sem ele pedir: - Ai, que é bom. [...] Ela pôs só a pontinha: entrar a uma virgem é perder-se no abismo de rosas. [...]. Extraído da obra Continhos galantes (L&PM, 2007), do escritor Dalton Trevisan. Veja mais aqui.

AMÔ DE CABÔCO - Seu moço. Não vale a pena, / eu alembrá as paxão, / qui eu tive pelas morena / das terra do meu sertão. / Era uma históra cumprida / qui eu tinha de insminhunçá. / E dessas coisas da vida / nunca se deve alembrá. / Pruquê a gente alembrando, / dessas antiga amizade, / o passado qui tá morto, / cá dento im nós, invivésse, / se ajunta cum a sodade, / e o peito é quem padece. / Abasta só le conta, / é o pruquê da razão, / da históra duma caboca / das terra do meu sertão, / que me butou freio na na boca / e peia dos pés pras mão: / vá ouvindo, meu patrão: / caboco disingonçado / sambado de profissão, / eu sempre fui condado / pra toda festa e fonção. / Fui mestre daqueles samba! / dansei tanto cum as caboca, / qui fiquei de perna bamba! / E ainda digo ao sinhô, / qui outro dote eu piçuía: / - Fui o maió marcado, / dos marcado de quadrilha! / Quando nos samba eu chegava, / uvía o batê-de-boca, / das morena, das caboca, / num cuxixo, num zunzun, / ta-li-qua cumo uns bizouro, / qui dizia umas pras outra: - Lá chegou o mestre-sala, / lá chegou o pé-de-ouro! / Entoce, pruvia disso / nos samaba qui eu sambavam / as increnca, os principiço, / pra riba d’eu avuava! / Vi munto a morte na frente, / mas porem, não recuava! / Quando eu já carregava / nas costa, uns trinta janero, / cum uns quinze de sambado, / dois oinho traiçuêro, / fizero eu dansá o samba, / fizero meu coração / dansá o samba do amô! / Eu vou conta prô sinhô: / Duma feita, num pagode, / no Riacho da Priguiça, / o caboco Xico Hanoro, / ruendo paxão, prumode / a Quinoia e a Simpiliça, / só cum eu querê dansá, / me instranhou, e foi preciso, / nós imendá os bigode / e brigá pra se acabá! / O samba virou um frege, / numa bagunça inferná! / Adispois do aquéta-arreda, / o caboco Xico Hanoro, / tinha levado três queda, / tava de venta quebrada! / Mas isso não vale nada. / O cabra tinha razão. / Pruquê as duas morena, / era duas tentação! / Era as fulô mais bonita / qui infeitava esse salão! / Adispois da ingrizia, / Quinoia, qui cunhicia / quanto eu gostava dela, / quage chorando, pedia, / qui eu dexasse de sambá! / Qui essas coisa só dizia, / pruquê me tinha amizade; / qui era munto mais mió, / qui eu precurásse u’a moça, / pra cum ela me casá! / Eu maginei... maginei / na preposta da muié! / Dispois eu considerei: / - Concêio toma quem qué! / Manginando nessas coisa, / andei pra traz quinze ano!.../ dansei no premero samba / qui eu sambei – lá no Ingano! / Meu juízo foi sambando, / im todo samba, patrão, / qui eu sambei na minha vida! / E a Quinoia, imbibida, / oiava pra eu, oiando / cumo quem tá isperando / a Santa Bença da missa! / Oiava pra Simpilíça, / qui tomem me oiava munto, / ta-li-quá cumo um parente / oia a cara de um difunto! / Eu entonce, arrisurvi / dá um adeus à pagodera! / Dos samba me adispidi, / pro resto da vida intera! / Garrei na mão de Quinoia, / qui ainda tava amarela / cum as mão tremendo e suando / qui nem tampa de panela / quando o feijão tá frevendo, / e falei assim pra ela: / - Quinoia. Eu te premeto, / pelo nome do meu pai, / qui meus pé e minhas perna, / pra sambá numa baderna, / de sua casa não sai! / - E agora, pra compretá / a minha felicidade, / tu que sê minha muié, / tu me dá tua amizade? / E ali, naquele momento, / cum as jura de amô na boca, / eu e Quinoia – a caboca, / contratemo casamento! / Hoje eu vivo satisfeito. / E quando as vez, su sujeito, / passa lá pelo meu rancho / e cum falta de arrespeito, / me pregunta todo ancho: / - Tem hoje uma padadera, / um samba, na Pitombera, / você não vai dansá, não? / - É esse aqui o meu samba, / é essa a minha fonção. / Eu orguioso arrespondo, / ao cujo dito amostrando, / deitadinha na tipoia, / um batorezinho sambudo, / um caboquinho barrigudo, / paricido cum a Quinoia!!! Poema extraído da obra Brasi caboco e Sertão em carne e osso (Litoral,1999), do poeta Zé da Luz (Severino de Andrade Silva, 1904-1965). Veja mais aqui, aqui e aqui.
  
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica porto-riquenha Juliette Belmonte.
Veja mais aqui.


50 poemas escolhidos pelo autor, de Vital Corrêa de Araújo & muito mais na Agenda aqui.
&
As trelas do Doro aqui e aqui.
Uma vez & todas as vezes, o pensamento de Jacques Rancière, a música de Adriana Calcanhoto, a arte de Zorávia Bettiol, o cinema de Betse de Paula & Dira Paz aqui.

segunda-feira, fevereiro 12, 2018

ZÉ DA LUZ. LOU SALOMÉ, KANT, DARWIN, ANTÔNIO MARIA, COSTA-GAVRAS, TOMIE OHTAKE, LEONARDO KOSSOY & DERY NASCIMENTO.

QUASE NADA PRA DIZER – Imagem: arte da artista plástica nipo-brasileira Tomie Ohtake (1913-2015). – UMA: SAUDADES, DERY NASCIMENTO (1968-2018) - A vida tem dessas coisas! A cada três horas um novo capítulo e o paroxismo com toda chatura nos intervalos comerciais, uma alfinetada insistente nos quibas e trololó pra se engalobar (como seria salutar se alguém fritasse nessa hora: Cala boca, trepeça!). A gente nem se dá conta que morre a cada dia, afinal a gente nasce pra morrer mesmo, esse o riscado e é preciso aprender a conjugar o verbo direitinho. Sem essa taboada, a gente vive na corda bamba pra tirar o atraso como se desse sentido pra boiar nas ondas dos dias, larali laralá, dois pra lá & trocentos pra cá, ou vice-versa que é mais certo e é assim que o samba vai ao ritmo do paradoxo, pisadas no calo do dedo do pé, ai, chutes na canela, ui, vai na força de vontade, zis leões rugindo no maluvido e o mundo cheio de nó pelas costas, sempre a insistir, persistir e, se der – ninguém dos vizinhos ou entre os amigos comeu bosta de cigano pra adivinhar o que é que vai dar depois dali e avisar pra gente - perseverar, de repente: ué! Já era. Vai ver perdeu a hora, passou batido. E foi? Se liga, meu. Tô ligado – em quê mesmo, hem? Sei lá, bola pra frente. Às vezes, aliás, sempre aquela astúcia de dar o toque na intenção do arrodeio, mas cadê pernas? Respira, senão desmonta e a queda livre vai dar de pés juntos, aí acabou-se o que era doce. Nem carpideiras pra consolo. Muitas soube de lambaios que viraram tabuleiro de pirolito no meio de uma saraivada de bala por rajadas de metralhadora, oxe, pelo jeito não escapava, qual, taí vivinho da silva, parece mais nem houve nada de tão ileso. Doutra feita, quantos de boa índole, assim, sem mais nem menos, dá um tropicão, teibei, prazo de validade vencido e já registrado num carrancudo atestado de óbito, com missa de sétimo dia acertada. Como é? Isso mesmo! Parece mais que o céu anda levando logo as boas almas pro seu time e deixar só as trepeças ruins pra torrar o mundo e a humanidade. Duvida? Saudades, Dery. DUAS: DA IMPRENSA & DOS NOTICIÁRIOS – Fogo morro acima, água ladeira abaixo, entra ano e sai ano, a eloquência parece mais hipocrisia. A imprensa anuncia a menor inflação da história e tudo sobe, alardeia a retomada “histórica” (sic, parece mais aquela do milagre de 70) da economia superavitária com a indústria e o comercio vendendo tudo e a gente só sacando crise, crise e crise, com um rombo de bilhões de dólares no déficit público. Que droga é nove? Orwell, Huxley? Vamos lá: as forças armadas subindo o morro dos bandidos nas periferias do Brasil, ora, ora, culatra da braba, os principais e maiores estão em Brasília, sobretudo nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. E mais: agora é pra valer, qualquer ilação vira convicção e isso, pra acusação, sem provas nem nada, exige-se justiça e pei buft: condenação certa, o que tem suas vantagens: boato com cachete denorex ganha patamar de sofisma que, pra quem não sabe, dá pra verossimilhança uma certidão da verdade ou xeque mate jurídico. Ou seja: o que é não é e fica sendo, entendeu? Quantas heurísticas, tantas hermenêuticas. Na dúvida, aparecem os felizardos – tem gente que mente que o cu apita! Enquanto isso era uma vez uma reputação! No meio de cobra criada, quem não é sabido, é alesado. Um recado: quem conhecer alguém preso cumprindo pena em qualquer penitenciária, avisa que tem ministro do STF que é só um bom papo e dindim e o alvará de soltura sai na hora. Uma coisa boa, acho, pelo menos acabará com a superlotação prisional, né não? TRÊS: PRA FRENTE QUE ATRÁS VEM GENTE - Pra quem tanto foi, perdeu a viagem e voltou com mala e cuia, cada partida é um ponto de chegada! Dumas coisas aprendi nas quebradas: quem faz a mala também desiste! Quem casa sabe que o amor não é bem assim e o buraco que era por certo ali é mais embaixo. Quando não é uma coisa, é outra; cuspiu pra cima quem não sai do lugar, finda gongado com o cuspe na cara. Afora isso, nem todo domingo é de páscoa, nem toda segunda é ressaca, nem toda terça é carnaval, nem toda quarta é de cinzas, nem toda quinta é de finados, nem toda sexta é santa, nem todo sábado é Zé-pereira. Por isso a gente sente falta dos mortos, eram mais divertidos. Eu queria era saber o que não sei, aó saberia tudo, ou nada. Que coisa! Brincando de ordenar os termos: que a vida tem valia se a gente é quem faz. Moral da história: duvido, graças a Deus. E vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com Frevo & Folia Caeté mais homenagem ao compositor e maestro Dery Nascimento (1968-2018): Suite Palmares 1 e 2, Qualquer coisa que se pareça com algo 68, Quando o pensamento via, Reencontro, Cais dos meus sonhos & Pianarei com Hermeto & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais da homenagem aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Quando se parte de um pensamento já fundamentado, apesar de não mais ter sido desenvolvido, que um outro nos deixou, pode-se esperar ser possível leva-lo, através da reflexão, mais além do que que o perspicaz homem, a quem se deve a primeira centelha dessa luz, o levou. [...]. Trecho extraído da obra Prolegômenos (Abril Cultural, 1980), do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804). Veja mais aqui.

COISA COM COISA - [...] Posso me aventurar a manifestar minha convicção sobre o grande valor destes estudos [...] Como de cada espécie nascem ainda mais indivíduos dos que podem sobreviver, e como, em consequência disso, há uma luta pela vida, que se repete frequentemente, segue-se que todo ser, se varia, por débil que esta possa ser, de algum modo proveitoso para ele sob as complexas e às vezes variáveis condições da vida terá maior probabilidade de sobreviver e de assim ser naturalmente selecionado. Segundo o poderoso princípio da hereditariedade, toda variedade selecionada tenderá a propagar sua nova e modificada forma. [...] Trecho extraído do livro A origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida (Escala, 2009), do naturalista britânico Charles Robert Darwin (1809 — 1882). Veja mais aqui.

DE AMOR E EROTISMO – [...] no amor, são dois mundos estranhos que se encontram, dois contrários; dois mundos entre os quais não existe e nunca poderão existir essas pontes lançadas entre nós, nem aquilo que aparentemente nos está ligando: algo semelhante, familiar e que nos dá a sensação de caminharmos para nós mesmos e em nossos próprios domínios quando dele nos aproximamos. Não é por acaso que, às vezes, o amor e o ódio se assemelham e tendem, por conseguinte, a se alternar na tempestade da paixão. [...]. Também se diz, e não sem razão, que o amor concede sempre a felicidade, mesmo o amor infeliz; isso com a condição de darmos a essa máxima um sentido suficientemente desprovido de sentimentalidade e, por isso, sem levar em conta o parceiro amoroso. Pois, ainda que pareçamos completamente repletos dele, estamos de fato repletos do nosso próprio estado que, como acontece em todos os estados de embriaguez, nos torna incapazes de nos interessarmos objetivamente por qualquer coisa. O objeto amado limita-se, por isso, a ser o desencadeador de nossa agitação. E o faz do mesmo modo que um som ou um perfume, vindos do mundo exterior e lembrando a existência de mundos plenos, podem vaguear num sonho noturno. [...] Um laço aceito para uma vida inteira só é estabelecido ao preço do apagamento de um afeto anterior, do surgimento de uma vontade posterior e destinada a durar, daquilo que se sabe suficientemente rico para conseguir em tais sacrifícios. Porque o que aí se quer vivido até o fim é uma vida que requer a mesma proteção, as mesmas atenções e o mesmo espírito de sacrifício que o filho engendrado pelos corpos. No fundo, isso não é mais nem menos que aquilo que implicitamente se pretende de quem quer que sededique, contra ventos e marés, a um serviço, a uma causa, a que coraria como jamais antes se tivesse se tornado um desertor no exato momento em que foi colocado em perigo [...]. Trechos extraídos da obra Reflexões sobre o amor e O erotismo (Landy, 2005), da escritora russa Lou Andreas-Salomé (1861-1937). Veja mais aqui.

CONSIDERAÇÕES SOBRE A MORTE - [...] A lamentação da perda de um amigo ou de um parente de sangue é a simples lamentação da presença, da falta, em todos os sentidos, material, que o morto começou a fazer aos que ficaram. Tanto isto é uma indiscutivcl verdade, que o tempo vai desabituando-nos a viver sem os nossos mortos mais queridos, substituindo-os por vivos que, ao nosso afeto, assumem grande importância, causando mesmo a nova impressão de que, se não existissem precisariam ser inventados e, se morressem, seria impossível resistir à sua perda. [...] Dissemos que o que se lamenta na morte do outro é a perda de sua presença. No entanto, o que devia ser mais deplorável, o que mais apropriadamente devia ser considerado perda são os dons e as competências que se levam para o túmulo. São as habilidades intransmissíveis, como por exemplo: o pianista que morre e não deixa para o filho o poder dos seus dedos sobre o teclado. O cantor que sai da vida, sem legar a voz a um irmão ou a um amigo [...] No entanto, estas são as coisas que deviam ser mais pranteadas: o poder, a arte, a magia, o atletismo, que cada um leva para o túmulo. [...] Extraído de Pernoite: crônicas(Martins Fontes/Funarte, 1989), do poeta, radialista e compositor pernambucano Antônio Maria (1921-1964). Veja mais aqui.

A TERRA CAIU NO CHÃOVisitando o meu sertão / Que tanta grandeza encerra, / Trouxe um punhado de terra / Com a maior satisfação. / Fiz isso na intenção, / Como fez Pedro Segundo, / De quando eu deixasse o mundo / Levá-lo no meu caixão. / Chegando ao Rio, pensei / Guardá-lo só para mim / E num saquinho de brim / Essa relíquia encerrei! / Com carinho e com cuidado / Numa ripa do telhado / O saquinho pendurei... / Uma doença apanhei / E, vendo bem próxima a morte, / Lembrando as terras do norte, / Do saquinho me lembrei. / Que cruel desilusão! / As traças, sem coração, / Meteram os dentes no saco, / Fizeram um grande buraco / E a terra caiu no chão. Do poeta Zé da Luz (Severino de Andrade Silva, 1904 —1965). Veja mais aqui e aqui.

CLAIR DE FEMME, DE COSTA GRAVRAS
O filme Clair de femme (Um Homem, uma Mulher, uma Noite, 1979), dirigido pelo cineasta grego Costa-Gavras, conta a história de um capitão que perdeu sua esposa vítima de câncer e uma linda mulher que perdeu sua filha em um acidente de carro, que se conhecem por uma noite e se separarão para nunca mais se encontrar. Destaque para a atuação da atriz austríaca Romy Schneider (1938-1982). Veja mais aqui.

Veja mais:
O milagre do amor na festa do dia e da noite, Oscar Wilde, a música de Richard Strauss & Inga Nielsen, Violante Placido & a arte de Luciah Lopez aqui.
A vida que sou na alma do Recife, a literatura de Osman Lins, a música de Marlos Nobre, a arte de Cícero Dias & André Cunha aqui.
O teatro e a poesia de Bertolt Brecht aqui.
Bacalhau do Batata aqui.
Padre Bidião, o retiro & o séquito das vestais aqui.
Quarta-feira do Trâmite da Solidão aqui.
Mais que nunca é preciso cantar aqui.
Bertolt Brecht, Boris Pasternak, Vanessa da Mata, Bigas Luna, Francesco Hayez, Penélope Cruz & Abigail de Souza aqui.
Clarice Lispector, Luis Buñuel, Björk, Yedda Gaspar Borges, Brunilda, Vicente do Rego Monteiro, Téa Leoni, Doro & Absurdo aqui.
O amor é o reino da surpresa aqui.
O príncipe de Maquiavel aqui.
Personalidade, Psicopatologia & Anexim do Umbigocentrismo, um ditado impopular aqui.
A entrega total do amor aqui.
Psicologia da Personalidade aqui.
Psicanálise aqui.
Boi de fogo aqui.
Poetas do Brasil, Gregório de Matos Guerra, Sheryl Crow, Dalinha Catunda, Yedda Gaspar Borges, Iracema Macedo, Fidélia Cassandra, Jade da Rocha, Psicodiagnóstico, Controle & Silêncio Administrativos aqui.
Eliete Cigarini, Abuso Sexual, Condicionamento Reflexo & Operante aqui.
Poetas do Brasil, Satyricon de Petrônio, Decameron de Boccaccio, Jorge de Lima, Laura Amélia Damous, Sandra Lustosa, Arriete Vilela, Sandra Magalhães Salgado, Celia Lamounier de Araújo & Simone Moura Mendes aqui.
Anna Pavlova, a Psicanálise de Freud & Adoção aqui.
A magia do olhar de quem chega aqui.
A mulher chinesa aqui.
Tarsila do Amaral, Psicopatologia & Transtornos de Consciência, Direito, Consumidor & Internet aqui.
José Saramago, Hannah Arendt, Luís Buñuel, Sérgio Mendes, Catherine Deneuve, Frederico Barbosa, Barbara Sukova, Os Assassinos do Frevo & Gilson Braga aqui.
Skinner, Walter Smetak, Costa-Gavras, Olga Benário, Kazimir Malevich, Irene Pappás, Camila Morgado & Pegada de Carbono aqui.
Marcio Baraldi & Transversalidade na Educação aqui.
Padre Bidião & as duas violências aqui.
A literatura de Rubem Fonseca aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando o banguelo vê esmola grande fica mais assanhado que pinto no lixo aqui.
Big Shit Bôbras & o paredão: quem vai tomar no cu aqui.

ONLY YOU, DE LEONARDO KOSSOY
Arte fotográfica que reúne fotografias, vídeos e instalações do fotógrafo Leonardo Kossoy, baseado no livro homônimo (G. Ermakoff Casa, 2015), de Roberto Tejada, Fernando Azevedo & Leonardo Kossoy, contando a história de um homem e uma mulher desempenhando alegorias incidentais da vida a dois.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

quinta-feira, junho 25, 2009

LUCIAN BLAGA, OLIVIER CADIOT, BAJADO, NOEL ROSA, ARISTÓTELES, THOREAU, TCHAIKOVSKY, NOVALIS, AGNES POCKELS & CORDEL DE ZÉ DA LUZ


A arte do artista plástico, chargista, letreirista, cartazista e muralista Bajado (Euclides Francisco Amâncio – 1912-1996). Veja mais aqui.

SE NÃO HOUVESSE ESSA TERIA DE INVENTAR OUTRAUMA: DA TURMA DO ACHISMO – Tem gente que acha de tudo! Tem gente que acha que a Terra é plana, o mundo é uma droga, a vida é uma porqueira, que o certo está errado e vice-versa, tem até quem ache carteira endinheirada, ora! (E quem devolva com tudo dentro, também, e o que é uma exceção digna de cadeia nacional, pois no Brasil o que deveria ser uma regra, já viu, né?). Tem também os que nasceram com o cu pra Lua! Haja sorte, cagado! Só eu que não acho nada, como naquela do Noel Rosa: Quem acha vive se perdendo. E eu, perdido e meio. Por isso vou cantarolando a Filosofia dele: Quanto a você, da aristocracia, que tem dinheiro, mas não compra alegria, há de viver eternamente sendo escrava dessa gente que cultiva hipocrisia. E vamos nessa! DUAS: SERÁ MESMO?– Aprendi com Aristóteles que: O homem é um animal político. O objeto principal da política é criar a amizade entre membros da cidade. Não era isso, desde menino, que eu via na prática: era um desancando o outro, verdadeira malhação do Judas e o povo em polvorosa: apoiado! Tive que aprofundar e o filósofo grego me esclareceu: A politica não deveria ser a arte de dominar, mas sim a arte de fazer justiça. Ah, tá, deveria. Mas nem na faculdade de Direito a gente sai sabendo o que é direito ou justiça, só o menor prejuízo. Foi aí que Thoreau mandou ver: Os homens hão-de aprender que a política não é a moral e que se ocupa apenas do que é oportuno. Nada é tão útil ao homem como a resolução de não ter pressa. Nunca é tarde para abrirmos mão dos nossos preconceitos. Ah, sim, sábias palavras. TRÊS: VOU ENTRE OS PERDIDOS MESMO – Vou entre os que nunca entenderam certas coisas, avalie. Não é porque não acerto uma e me arrebento em tudo que determino empenho e resolução, que não vou sair por aí matando cachorro a grito, esculhambando a mãe do guarda, nem dando nó em pingo d’água, que nem habilidade para isso eu tenho. Só sei dar mesmo murro em ponta de faca, ao que parece. Mas arriado ao desconsolo, guardo aquela do Tchaikovsky: O que preciso é acreditar em mim novamente - pois minha fé foi grandemente comprometida; parece-me que meu papel acabou. Nada. Também sou filho de Deus, né? Mesmo pau que nasceu torto, anjo de asa quebrada, vou tentando dar um jeito de aprumar na vida! Vamos nessa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.


DITOS & DESDITOS - Cada ser humano é uma pequena sociedade. Nunca nos compreendemos completamente, mas podemos e poderemos fazer muito melhor do que compreendermo-nos. Só há um templo no mundo e é o corpo humano. Nada é mais sagrado que esta forma sublime. Inclinar-se diante de um homem é fazer homenagem a esta revelação na carne. Toca-se o céu quando se toca um corpo humano. Somos sozinhos com tudo o que amamos. O amor é a meta infinita da história do mundo. Para onde vamos? Sempre para casa. Um herói é aquele que sabe como se aguentar um minuto mais. A poesia cura as feridas infligidas pela razão. O pensamento do poeta alemão Novalis (1772-1801). Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: O absoluto é o ponto indiferente de todos os pólos, além da existência e da não existência, além do real e do irreal. Filosofar significa tentar responder através de meios prematuros a perguntas que preocupam as crianças. Pensamento do poeta, dramaturgo e filósofo romeno Lucian Blaga (1895-1961), prêmio Nobel de 1956.

EFEITO MATILDA & A ÁGUA – A pioneira química alemã Agnes Pockels (1862-1935), desenvolveu ao longo de sua trajetória científica um conjunto de observações sobre tensão superficial da água. Ela enviou suas anotações para o colega inglês, Lorde Rayleigh, que desenvolveu a teoria sobre este tema e publicou individualmente o primeiro artigo, apesar de ter lido o trabalho de Agnes antes. Mesmo assim, o trabalho dela foi fundamental para estabelecer a disciplina moderna conhecida como ciência da superfície, que descreve as propriedades de superfícies líquidas e sólidas, descobrindo a influência das impurezas na tensão superficial dos líquidos, sem nunca ter recebido uma nomeação formal. Veja mais aqui, aqui e aqui.

TRÊS POEMASRESUMO: O riacho rega o prado com suas águas / calmo e transparente / Crianças estudiosas aprendem suas lições / Soldado ferido por estilhaços / Os prisioneiros / aluguel trocado pelos dois exércitos / Pierre recebeu um livro magnífico de seu padrinho / - A casa está sendo construída. - Tudo esclarece. CAPÍTULO: Diga-me qual livro você está lendo = / Que livro você está lendo? Diga-me. / Os jardineiros cultivam flores, / podar árvores e manter os caminhos do parque / Eu fiz um livro; Eu fiz uma mesa; Eu fiz um projeto / - pergunto se / você fala seriamente e por que veio? - / Diga-me se é verdade que você a segura contra mim. - / eu poderia saber / se você viria? - Eu não sei para onde você está indo / - Mesmo se você (by- / tiro) eu ficaria. - Mesmo se você (sair), eu vou ficar. EPÍLOGO: o céu é azul; a / semana; o céu é azul; um mês: o céu é azul; um ano / inteiro: / Ele olhou para o céu e o céu estava azul. Poemas do escritor, dramaturgo e tradutor francês Olivier Cadiot.


ZÉ DA LUZ - Zé da Luz, poeta, das terras nordestinas, nasceu em 29 de março de 1904 em Itabaiana, região agreste da Paraíba e faleceu no Rio de Janeiro em 12 de fevereiro de 1965. Veio ao mundo como Severino de Andrade Silva e recebeu a alcunha de Zé da Luz. Nome de guerra e poesia, nome dado pela terra aos que nascem Josés e, também, aos Severinos, que se não for Biu é seu Zé.
Sua poesia é dita nas feiras, nas porteiras, na beirada das estradas, nas ruas e manguezais. Perdeu-se do seu autor pois em livro não se encontra. Se encontra na boca do povo, de quem tomou emprestado a voz, para dividi-la em forma de rima e verso.
Seus poemas têm a cor do nordeste, o cheiro do nordeste, o sabor do nordeste. Às vezes trágico, às vezes humorado, às vezes safado. Quase sempre telúrico como a luz do sol do agreste. (os editores do Blog)
Sua poesia é ímpar. Algumas pérolas:


AS FLÔ DE PUXINANÃ
(Paródia de As "Flô de Gerematáia" de Napoleão Menezes)

Três muié ou três irmã,
três cachôrra da mulesta,
eu vi num dia de festa,
no lugar Puxinanã.
A mais véia, a mais ribusta
era mermo uma tentação!
mimosa flô do sertão
que o povo chamava Ogusta.
A segunda, a Guléimina,
tinha uns ói qui ô! mardição!
Matava quarqué critão
os oiá déssa minina.
Os ói dela paricia
duas istrêla tremendo,
se apagando e se acendendo
em noite de ventania.
A tercêra, era Maroca.
Cum um cóipo muito má feito.
Mas porém, tinha nos peito
dois cuscús de mandioca.
Dois cuscús, qui, prú capricho,
quando ela passou pru eu,
minhas venta se acendeu
cum o chêro vindo dos bicho.
Eu inté, me atrapaiava,
sem sabê das três irmã
qui ei vi im Puxinanã,
qual era a qui mi agradava.
Inscuiendo a minha cruz
prá sair desse imbaraço,
desejei, morrê nos braços,
da dona dos dois cuscús!


Um dia falaram para o escritor Zé da Luz que os textos dele, tinham muitos problemas técnicos verbais, ortográficos, enfim...

Diante desse comentário ridículo ele escreveu "Ai! se sêsse1..." poesia musicada pela banda Cordel do Fogo Encantado:


Ai! Se sêsse!...

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse


Sua poesia às vezes é triste, forte, trágica e interminável...


Confissão de Cabôco


Seu duotô, sou criminoso.
Sou criminoso de morte.
Tou aqui pra mim intregá.
Voimicê fique sabendo:
– Quando a muié traz a sorte
De atraiçoá o isposo
Só presta para se matá.

Nunca pensei, seu doutô
Qui a mão nêga do distino,
Merguiasse as minhas mão
No sangue dos assarcino!

Vô li pidí um favô
Ante de vossamercê
Mim butá daqui pra fora:
– É a licença do doutô
Pr’eu li contá minha histora.

Sinhô dotô delegado,
Digo a vossa sinhuria
Qui inté onte fui casado
Cum a muié qui im vida
Se chamô ROSA MARIA.

Faz dez mês qui se gostemo,
Faz oito qui fumo noivo
Faz sete qui nós casêmo.

Nós casêmo e nós vivia
Cuma pobre, é verdade,
Mas a gente se sentia
Rico de filicidade!

Pras banda qui nós morava,
No lugá Chã da Cutia,
Morava tombém um cabra
Chamado Chico Faria.

Esse cabra, antigamente,
Tinha gostado de Rosa,
Chegaro, inté a sê noivo,
Mas num fizero a “introza”
Do casamento, prumode
Mané Uréia de bode,
Qui era padrim de Maria
Tê dismanchado essa prosa.

Entoce, o Chico Faria,
Adispois qui nós casêmo,
In cunversa, as vez dizia,
Qui ainda mi dava fim
Pra se casá cum Maria.

Dessa coisa eu sabia,
Mas nunca dei importança.

Tinha toda cunfiança
Na muié qui eu tanto amava,
Ou mais mió, adorava...
Cum toda a minha sustança!

Dispois disso, o meu custume
Era vivê trabaiando
Sem da muié tê ciume.

A muié pru sua vez
Nunca me deu cabimento
Deu pensá qui ela fizesse
Um dia um farcejamento.

Mas, seu doutô, tome tento
No resto da minha histora,
Qui o ruim chegô agora:

Se não me farta a mimora,
Já faz assim uns três mêis,
Qui o cabra, Chico Faria,
Todo prosa, todo ancho,
Quage sempre, mais das vêz,
Avistava o meu rancho.

Puralí, discunfiado
Como quem qué e não qué,
Eu fui vendo qui o marvado
Tentava a minha muié.

Ou tentação ou engano,
Eu fui vendo a coisa feia!
Pru derradêro eu já tava
C’a mosca detrás da uréia.

Os tempo foi se passando
E o meu arriceiamento
Cada vez ia omentano.

Seu dotô, vá iscutano:

Onte, já de tardezinha
O meu cumpade, Quinca Arruda,
Mi chamô pra nós dança
Num samba – lá na Varginha,
Na casa do mestre Duda.

Mestre Duda é um cabôco,
Um tocado de premêra.
É o imboladô de côco
Mió daquela rebêra.

Entonce Rosa Maria,
Sempre gostou de samba,
Mas, porém, de tardezinha
Me disse discunfiada,
Qui pru samba ela não ia,
Qui tava munto infadada,
Percisava se deita...

Eu fiquei discunfiado
Cum a preposta da muié!

Dispois qui tomei café,
Cuage puro sem mistura,
Cum a faca na cintura
Fui pru samba, fui sambá.

Cheguei no samba, dotô.
Repare agora, o sinhô,
Quem era qui tava lá?

O cabra Chico Faria.
Qui quano foi me avistando,
Foi logo mi preguntando:
– Cadê siá dona Maria,
Num veio não, pra dançá?

– Não sinhô. Ficô im casa.
Pru cabôco arrispondí.

Senti, entonce uma brasa
Queimano meu coração,
Nunca mais pude tirá
As palavra desse cabra
Da minha maginação.

Perdí o gosto da festa
E dançá num pude não.

O cabra, pru sua vez
Num dançava, seu doutô.
De vez im quando me oiva
Cum um oiá de traidô.

Meia noite, mais ou meno,
Se dispidino do povo
Disse: – Adeus, qui eu já vô.

Quando ele se arritirô,
Eu tombem me arritirei
Atraiz dele, sim sinhô.
Ele na frente, eu atrais.
Se o cabra andava ligêro,
Eu andava munto mais!

Noite iscura qui nem breu!

Nem eu avistava o cabra,
Nem o cabra via eu!

Sempre andando, sempre andando.
Ele na frente, eu atrais.

Já nem se iscutava mais
A voz do fole tocando
Na casa do mestre Duda!

A noite tava mais preta
Qui a cunciênça de Judá!

Sempre andando, sempre andando.
Eu fui vendo, seu doutô,
Qui o marvado ia tumando
Direção da minha casa!

Minha casa!... Sim sinhô!

Já pertinho, no terrero
Eu mim iscundí pru detraiz
De um pé de trapiazêro.

Abaixadim, iscundido,
Prendi a suspiração,
Abri os óio, os ouvido,
Pra mió vê e ouvi
Qua era a sua intenção.

Seu doutô, repare bem:

O cabra oiando pra traiz,
Do mermo jeito, qui faiz
Um ladrão pra vê arguém,
Num tendo visto ninguém,
Na minha porta bateu!

De lá de dentro uma voiz
Bem baixim arrispondeu...

Ele entonce, cá de fora:

– Quem ta bateno sou eu!

De repente abriu-se a porta!

Aí seu doutô, nessa hora
A isperança tava morta,
Tava morto o meu amô...

No iscuro uma voiz falô:

– Taqui, seu Chico, essa carta,
Qui a tempo tinha iscrivido
Pra mandá pra voismicê.
Pru favô num leia agora,
Vá simbora, vá simbora,
Qui quando chegá im casa
Tem munto tempo pra lê.

Quando minhas oiça ouviu,
As palavra qui Maria
Dizia pru disgraçado,
Eu fiquei amalucado,
Fiquei quage cuma loco,
Ou mio, cumo um cabôco
Quando ta chêi de isprito!

Dum sarto, cumo um cabrito,
Eu tava nos pés do cabra
E sem querer dei um grito:

– Miserave! E arrastei
Minha faca da cintura.

Naquela hora dotô,
Eu vi o Chico Faria,
Na bêra da sipurtura!

Mas o cabra têve sorte.

Sempre nessas circunstança
Os home foge da morte.

Correu o cabra, dotô
Tão vexado, qui dêxou
A carta caí no chão!

Dei de garra do papé,
O portadô da traição!

Machuquei nas minha mão,
A honra, douto, a honra
Daquela farsa muié!

Dispois oiando pra carta
Tive pena, pode crer,
De num tê prindido a lê.
Nas letra alí iscrivida
O qui dizia Maria
Pru marvado traidô.

Tive pena, sim sinhô.
Mas, qui haverá de fazê
Se eu nunca prindí a lê?

Maria mi atraiçuô!

Essa muié qui um dia,
Juêiada nos pé do artá
Jurou im nome de Deus
Qui inquanto tivesse vida,
Haverá de mim honrá
E mim amá cum todo amo.

Cum perdão do seu doutô.

Quando eu vi a miserave
Na iscurideza da noite
Dos meu oio se iscondê
Sem dêxá nem sombra inté
Entrei pra dentro de casa
Pra mi vingá da muié.

Douto, qui hora minguada!
Maria tava ajuêiada,
Chorando, cum as mão posta
Cumo quem faz oração.
Oiando pra eu pedia,
Pelo cali, pela osta,
Pru Jesus crucificado,
Pelo amo qui eu li amava
Qui num fizesse isso não.

Eu tava, doutô, eu tava
Cego de raiva e paixão.

Sem dizê uma palavra,
Agarrei nas suas mão,
Levantei ela pra riba
E interrei inté o cabo,
O ferro da parnaíba
Pru riba do coração!

Sarvei a honra, doutô,
Sarvei a honra, apois não!

Dispois qui vi a Maria
Caí sem vida no chão,
Vim fala cum vosmicê,
Vim cunfessá o meu crime
E mim intregá as prisão.

Se o sinhô num acredita
Se eu sô criminoso ou não,
Tá aqui a faca assarcina
E o sangue nas minhas mão.

Cumo prova da traição,
Tá aqui a carta, doutô.

Li peço um grande favô:

Ante de vossa-sinhuria
Mi mandá lá para prisão
Me lêia aqui essa carta
Pr’eu sabê cumo Maria
Perparava essa trição!

A CARTA

“Seu Chico:

Chã da Cutia.

Digo a vossa senhoria
Que só lhe escrevo essa carta
Pru senhor ficar sabendo
Que eu não sou a mulher
Que o senhor tá entendendo.

Se o senhor continuar
Com os seus disbiques atrevidos
O jeito que tem é contar
Tudo, tudo a meu marido.

O senhor fique sabendo
Que com seu discaramento,
Não faz nunca eu quebrar
O sagrado juramento
Que eu jurei nos pés do altar,
No dia do casamento.

Se o senhor é inxirido,
Encontrou u’a mulher forte,
O nome do meu marido
Eu honro até minha morte!

Sou de vossa senhoria,

Sua criada.

MARIA.”

– Doutô! Doutô mi arresponda
O qui é qui eu tô ouvindo?
Vosmicê leu a carta,
Ou num leu, ta mi inludindo?

– Doutô! Meu Deus! Seu doutô,
Maria tava inucente?
Me arresponda pru favo!

Inocente! Sim, senhor!

Matei Maria inucente!

Pru que, seu doutô, pru que?

Matei Maria somente
Pruque num aprendi a lê!

Infiliz de quem num leu
Uma carta de ABC.

Magine agora o doutô,
Quanto é grande o meu sofrê!

Sou duas veiz criminoso,
Qui castigo, seu doutô!

Qui mizera! Qui horrô!
Qui crime num sabê lê!


Pesquisa: Gonzaga Andrade. Fontes pesquisadas: O Porteiro do Portal, Interpoética, Revista Agulha, Escafandro.Org e Gernando Dannemann. Ccolaboração da Ana Cristina Cavalcanti Tinôco.  Veja mais Zé da Luz aqui e aqui.



Veja mais sobre:
A vida, um sorriso, Fernando Pessoa, Charles Chaplin, João Ubaldo Ribeiro, William Shakespeare, Connie Chadwell, Marilyn Monroe, Michael Ritchie, Barbara Feldon, Jeremy Holton & Visão holística da educação aqui.

E mais:
Minha voz aqui e aqui.
Dia Nacional do Riso aqui e aqui.
E se nada acontecesse, nada valeria, Cecília Meireles, Albert Camus, Pierre-Auguste Renoir, Richard Wagner, Sophia de Mello Breyner, Gwyneth Jones, Hal Hartley, Aubrey Christina Plaza, Paul Laurenzi & Princípios de Neurociências de Kandel aqui.
Cordel A chegada de Getulio Vargas no céu e o seu julgamento, de Rodolfo Coelho Cavalcante aqui.
Horário Eleitoral do Big Shit Bôbras, Zé Bilola, Enzonzoamento de Mamão, Ocride, Classificados de Mandús e Cabaços & Previsão meteorológica aqui.
A arte de Karyme Hass aqui.
Dicionário Tataritaritatá – Big Shit Bôbras & Fecamepa aqui.
Richard Bach, Velho Chico, Ísis Nefelibata & Chamando na grande aqui.
Cordel A história de Jesus e o mestre dos mestres, de Manoel D´Almeida Filho aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!!!
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


NORA NADJARIAN, LAUREN WEISBERGER, CAROLINE DEAN, MAGDALE ALVES & CARMEN CAMUSO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som do álbum The Changing Sky (2025), da violonista e premiada compositora britânica Laura Snowden .   ...