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segunda-feira, dezembro 16, 2024

ÉVELYNE TROUILLOT, ANA MARIA MACHADO, JAQUELINE GOES DE JESUS & COSMOVISÕES DE AMOR

 

 Imagem: Zineblog TTTTT - Acervo ArtLAM. Veja mais abaixo & aqui.

Ao som dos álbuns This Land (2024), Love at Last (2023), Reflections: Scott Joplin Reconsidered (2022), Florence Price Piano Discoveries (2020), For Love of You (2019), Holes in the Sky (2019), For Lenny (2018), America Again (2016) e Exiles' Cafe (2013), da pianista e ativista cultural estadunidense Lara Downes.

 

Monólogo de não sei quantas vírgulas... - Olhei para trás e vi o futuro: aonde cheguei uma nova partida. Fiz o que tinha de ser feito, missão cumprida - muito embora ainda me assalte a insatisfação. Por conta própria percorro o quadrado de Sator: estou sempre em curso, em processo pela alquimia do verso na magia poética, a prestar atenção na esotérica natureza experimentando a clarividência e zis sentidos pra tudo. Voo em frente, paro e olho pros lados: mudo de lugar na disforia pela sedução das sereias e de não sei quantos ilusionistas – o vício e a virtude foram embalados no mesmo saco, não há mais como distingui-los ou separá-los, contaminou-se o sangue na abundância dos do contra. Mudo de lugar e me pego morrendo de vergonha o tempo todo: é difícil encarar o reino dos predadores, não consigo conter a indignação, muito menos ao constatar a face fria no espetáculo da agonia de presas manipuladas pelo controle geral. Outro passo pela coleção de incertezas só levou a me deparar com a abundância da dor e nenhuma decência: pioramos o pior, o retrato falado do fim. É tudo tão depressa: o efêmero revoga o definitivo, ainda bem. Ninguém entende e tira proveito disso: todos querem segurança a ponto de esborrar estupidez insuportável beirando o perigo, muitos precedentes para que tudo esteja envenenado pela matança indiscriminada, festivais de escândalos e supérfluos, o entretenimento geral e o que é tão devastador. Decerto, uma confusão na cabeça e o estômago embrulhado pela náusea do mau gosto ornado com uivos selvagens de salves e aleluias. Para escapar alguns tombos pelos catabís, coisas da vida: a buscar onde eu possa me sentir em casa, com a sensação medonha de que, apesar da boa vontade, só piorei as coisas e talvez precisasse reaver o perdido que não sinto falta por conta do patético esquecimento ou mesmo negado, quem sabe um reencontro, sabe-se lá. Não parei por aí, todas as direções e o voo na escolha, a da vez do acerto ou que terei de voltar de novo. É sempre assim e até mais ver.

 

Dalton Trevisan: Os dois degraus da varanda — "Fui justo", repete, "fui justo" —, com mão firme gira a chave. Abre a porta, pisa na carta e, sentando-se na poltrona, lê o jornal em voz alta para não ouvir os gritos do silêncio... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Linda Woolverton: Anime-se, criança. Vai dar tudo certo no final. Você verá... Veja mais aqui & aqui.

Stephenie Meyer: É importante para mim ser livre e sei que estou agindo por mim mesma. Eu faço as coisas porque eu quero, e isso é importante. Você quer ser sua própria pessoa... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

UMA CHUVA DE ESTRELAS

Imagem: Acervo ArtLAM. Veja mais aqui.

I - Em que idioma devo falar com você? \ quando as palavras sob nossos lençóis \ sopre na minha barriga \ a vida me fez guardar rancor \ derramando café em minhas lembranças \ não revelando onde a lua encontra sua água \ Quando as crianças choram \ e não vai parar \ uma após a outra as palavras secam \ na palma da minha mão \ não me deixando batizar a escuridão \ Acredite em mim \ Não sei o que você é: \ Um umbigo que perdeu a corda no meio de um livro de poesia? \ Uma flor de hibisco com um olho doentio? \ Um pássaro com as asas presas nas costas? \ Fiquei surpreso com você \ Eu não sabia quem você era \ Hoje sua boca está virada para cima \ Este grito, mais alto que sua dor.

II - Em que idioma devo falar com você? \ quando a oração se ajoelha diante da pobreza \ e nossas filhas empinam pipas \ pela catedral \ cansados de lavar suas bolinhas de gude \ na sacristia \ Acredite em mim \ Eu não sei seu nome \ quando um mendigo de dez anos \ despe sua fome sob a estátua de Santa Ana \ cada grão de arroz deixa uma cicatriz em nossa pele.

III - O vento faz uma pausa para nos embriagar \ nós carregamos isso nas costas \ nosso caminho é acidentado \ Em que idioma devo falar com você? \ quando o sol perde o seu caminho \ Acredite em mim \ Não me lembro do que mais me dói \ Fico na ponta dos pés para coletar estrelas \ que vira para nunca mais se levantar \ O amor perdeu o seu nome \ os continentes não permanecem estáveis \ um dia selvagem, nos encontraremos \ sem que eu saiba quem você é.

Poema da escritora haitiana Évelyne Trouillot.

 

LEITURA –[...] Como ler - essa é uma grande questão que vamos encontrando a toda hora nesse mergulho pelos livros essenciais. Ler criticamente é uma das respostas. Significa que não se lê para concordar servilmente em atitude reverente, mas também não se lê para discordar e refutar num eterno desafio. [...] Os tempos modernos surgem justamente com esse questionamento sobre o real e o imaginário, essa desconfiança em relação a certezas que vinham sendo aceitas como verdades e que o espírito humano começava a desafiar [...] Uma parte de mim também não se sente nada à vontade diante dessas escolhas tradicionais. Mas não posso mudar o que já passou. E não creio que a forma de mudar o que ainda vem por aí seja ignorando o que se construiu antes. [...]. Trechos extraídos da obra Como e por que ler os clássicos universais desde cedo (Objetiva, 2002), da escritora, jornalista, pintora e professora Ana Maria Machado, que questiona: Por que tantos autores homens? Tantos brancos? Tantos europeus? Por que sempre esses? Por que não fazer outra lista, um cânone alternativo? Por exemplo, uma lista que só admitisse mulheres, não brancas ou autores não europeus... Afinal, esses nunca têm uma chance de serem conhecidos... A primeira é que não conheço o suficiente para propor esses nomes. A segunda é um princípio ético básico: não fazer aos outros o que não gostaria que me fizessem. E sei que me sentiria roubada de algo fundamental se não tivesse lido Homero, Cervantes, Shakespare. Não sei quem se poderia propor para o lugar deles, não consigo me imaginar sem Ulisses, Dom Quixote, Hamelet. Se não quero essa pobreza para mim, não vou me meter a fazer experimentações com os jovens... Veja mais aqui & aqui.

 

LUTA & SOFRIMENTO - Não vejo outra saída! O que dói mais, afinal? Ou fingir que não a sente? Existem pessoas que conseguem te fazer sentir melhor apenas com um toque, um olhar, uma palavra ou um sorriso... Sabemos que muitos são os obstáculos para alcançar este patamar e comigo, mulher negra, não foi diferente. Todas as barreiras que enfrentei foram vencidas com muito sofrimento e eu sou uma pessoa que não romantiza o sofrimento... Não podemos comunicar resultados científicos só entre pares... Me tornar um modelo para novas gerações é provar que através das oportunidades, o talento e a inteligência podem alcançar e gerar frutos positivos para uma nação... Pensamento da biomédica, pesquisadora e doutora em patologia humana Jaqueline Goes de Jesus, que coordenou a equipe de pesquisadores que sequenciou o genoma do Sars-Cov-2 em 48 horas, após o primeiro caso de Covid-19 no Brasil e fez parte da equipe liderada por pesquisadores ingleses que sequenciou o genoma do vírus Zika, razão pela qual tornou-se a primeira mulher negra e nordestina a ganhar tamanha projeção internacional no mundo das Ciências.

 

COSMOVISÕES DE AMOR

Cosmovisões de Amor - 44 autores indígenas compartilham as Cosmovisões de seus Povos como uma contribuição fundamental para este novo tempo. Veja mais aqui & aqui.

 

OFERECIMENTO: MJ PRODUÇÕES ARTÍSTICAS & AMIGOS DA BIBLIOTECA

Apresentam:

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Diário TTTTT aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

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VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.

 


domingo, junho 13, 2021

EINSTEIN, HARRIET STOWE, QUINTETO D’ELAS, CAPIBA & PHILIP GALINSKY

 

 

TRÍPTICO DQP – O que não foi nem nunca aconteceu... - Ao som dos álbuns Louise Farrenc (Paulus, 1999) & Vol. 2 (Paulus, 2001), do Quinteto D’Elas, composto pela violinista Betina Stegmann, a violista Adriana Schincariol Vercellino, a violoncelista Marialbi Trisolio, a contrabaixista Ana Valéria Poles e a pianista Helena Scheffel. – Em plena vigência do genocídio duplamente sindêmico do Fecamepa, tudo isso era real e lá estava eu às voltas com as insólitas aventuras no espelho de Wang Tu. Pelo menos, ao me encontrar envolto pelos labirintos da loucura, aliviava a crueldade premeditada da trágica realidade do cotidiano. Passei por tudo: desde a descarga de um raio no cocuruto até o esfacelamento de veias numa transfusão vampírica do mandatário Coisonário. E toda vez que ele passava a trupe dele gritava: Mico! Mico! Mico! Fico na qual é ou será outra a piada? Não foram poucas e o pior: a constatação de que o país não aconteceu nunca, a reboque do umbigocentrismo dos mamelucos sesmeiros que implicam suas questiúnculas coloniais, uns aos outros, para ver quem mais poderoso na preação fedorenta, só para depois barrunfarem desavergonhados os coprólitos de legítimos cucarachas entre os primeiro-mundistas. Triste constatação e maior cara lisa. Estaria eu pior, não fosse, certa feita, assim do nada, emergir a compreensiva observação de Einstein: Todos somos muito ignorantes. O que acontece é que nem todos ignoramos as mesmas coisas. Eita! Que coisa! Chega arriava entre escombros noitadentro, maior desalento. Vez em quando assediado pela esperança quando quase amanhecia com a presença inopinada da novelista e abolicionista estadunidense Harriet Beecher Stowe (1811-1896): A primeira hora da manhã é o leme do dia. As lágrimas mais amargas derramadas sobre os túmulos são pelas palavras que não foram ditas e coisas que não foram feitas. Uma mão amiga no meio da escuridão em pleno raiar do dia. Ao despertar percebi algo tão estranho e não conseguia identificar. Paredes, teto, cama, lençóis, móveis, objetos, tudo muito familiar. Ah, inadvertidamente percebi, estava lá: era o Travesseiro de Chen-Tsi-Tsi.

 


Duas badaladas do sonho múltiplo... - Os sonhos vinham e se misturavam uns aos outros atravessados por pesadelos terríveis do dia-a-dia, acompanhando a trilha sonora agradabilíssima, até ser interrompida por alguém apressado que nunca vira. Era o maestro estadunidense Julius Fifer: Não precisamos de alguém balançando os braços para entendermos uma frase! Não entendi, mas dizia como se aplaudisse a eloquente apresentação do quinteto. Logo saiu para me sacudir numa espiral vertiginosa de tombar estendido no matagal de uma chã. Em meu socorro apareceu Che Guevara (1928-1967): Sonha e serás livre de espírito... luta e serás livre na vida. Derrota após derrota até a vitória final. Ofereceu-me a sua mão, puxou-me e ajudou-me a ficar de pé. Apontou-me ladeira abaixo alguém que confidenciava para uns presentes. Quem era? O jornalista e advogado francês Jules Ferry (1832-1893): O importante é aprender verdadeiramente aquilo que não se pode ignorar. Prestei atenção e logo notei a presença de alguém querendo saber o que se passava. Dei de cara com Dalton Trevisan: O que não me contam eu escuto atrás das portas. E abri o jogo: a viagem onírica compensava a dolorosa ciência de existir naquele momento tão nefasto, para mim, como para todos os meus. Em todo planeta já se começava a respirar; aqui, não, roubavam o oxigênio e nos empurravam para as emergências indigentes e lotadas, quando não para o sepultamento em covas anônimas. É tudo muito triste.

 


Três tons para enganar a dor... – As surpresas não foram poucas: sobre o travesseiro repousava o volume Maracatu Atômico: Tradition, Modernity, and Postmodernity in the Mangue Movement and New Music Scene of Recife, Pernambuco, Brazil (1999), tese de doutoramento do etnólogo estadunidense Philip Galinsky, tratando sobre o movimento dos mangueboys Chico Science & Cia inspirados no Josué de Castro & a lama recifense & a poeira das faces matagrestelitor&sertão. Se o coração inchava satisfeito, logo passou a bumbar retumbante: os tons familiares e efervescentes que buliam nas veias, vísceras e interstícios. Era o cantor Gonzaga Leal com o seu E sentirás o meu cuidado (Autor, 2004) com os tons de Capiba noutras vozes especiais: Naná Vasconcelos, Teca Calazans, Francis & Olívia Hime, Dalva Torres, Kelly Benevides, e eu só solfejando Lá vai na serra Quando se vai um amor Cem anos de choro Depois Relembrando Nazareth pela Valsa Verde e Azul, Sem pressa de chegar no Cais do Porto ou na Nação Nagô Cantando sem saber cantar Duas janelas da Casinha pequenina porque Tu que me deste o teu cuidado. Isso me faz crer que vale a pena viver. E lá vou eu aos expulso do paraíso aos trancos e barrancos entre inferno e purgatório. Até mais ver.

 

Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 


quinta-feira, fevereiro 28, 2019

DALTON TREVISAN, GEORG SIMMEL, YÊDA BEZERRA DE MELLO, TAVITO & O MONSTRO DO PONTILHÃO DO MATADOURO


O MONSTRO DO PONTILHÃO DO MATADOURO - O que é aquilo? De dia o burburinho do sobe-desce: quem vai pro trabalho, pra fila da previdência, pra vida ou pra morte, pro raio que o parta. Tudo tranquilo, apesar do nome agourento daquelas paragens. Quem vai não está nem aí, como quem vem muito menos. O dia é só tudo ali cheio de pernas pra cima e pra baixo. Bastam os primeiros raios do crepúsculo, a cisma e presságios no arrebol: as sombras da noite libertam os males das funduras do invisível. É a hora que se vê até o não visto, inexistente, o malassombrado. Escureceu e o pontilhão ganhava ar de mistério: tem coisa no matadouro. E é? É. Ninguém sabe, mas que tem, tem. Só uma coisa era dada como certa: as almas dos mortos se libertaram pra se vingar dos viventes. Vixe! Pronto, começava a agonia. E logo um apontava, outro curioso, junta gente: Que coisa é aquela ali no pontilhão, hem? Parece um lobisomem. Nada, uma alma penada. É o filho da Besta Fubana. Tais doido é? Aquilo é o maquinista da Maria Fumaça fantasma. Oxe, é um monstro do inferno! Ou será um alienígena maligno? Não tinha quem passasse de jeito nenhum. Quem subia parava do lado de cá, freio de mão puxado: Vou nada, vai que me ataca. Torava aço, quem não. Do lado de lá, do mesmo jeito, tudo amedrontado, enfincado de pé no chão: Vai que endoida, aí mora o risco. Ninguém ia, ninguém vinha. Que marmota é essa? Quem sabe! Deu merda. O primeiro que chegou perto, olhou no olho, sentiu o calafrio, arrepiou-se, travou a tripa gaiteira, criou coragem e saiu correndo que nem louco: Vôte! O bicho nem se mexeu e o cabra fugiu de medo! Não demorou muito, o segundo a mesma coisa: subisse, chegava perto, conferia e via o que era para sair corrido de pânico. O que é que é, hem? Maldição do matadouro. Hem? E assim o terceiro, outros, muitos. E ninguém vai tomar uma providência não? É coisa do além, mexa não. Agora deu. Aí chegou a polícia, sentido, armas em punho, de longe mesmo começou a mirar, aos pipocos, dum lado pro outro, o alvo se movia até desaparecer noite adentro. Pronto, agora sim. Aí o povo empancado do lado de cá e do lado de lá seguia em paz para casa, guardando a lembrança da má situação. Tem coisa aprontando no matadouro, saíram todos cabisbaixos, pensativos. No outro dia, não deu outra: entre bocas e ouvidos, o assunto da manhã e da tarde, até se confrontarem novamente: Olhele lá, de novo! Isso é uma maldição! Das duas uma: ou quer matar cada um de susto ou vai deixar tudo cagado de frouxo! Cadê a polícia pra tirar essa coisa ruim do caminho da gente, ora. Ah, o dia amanhece e ninguém resolve essa bronca! Mais de hora, tudo atrapalhado, chega a polícia, bala pra cima, a correria, o destino desempancado, todos pra casa, e assim mais um dia, outro. Lá estava ele, no mesmo lugar. Ninguém toma providência não é? Já era uma maldição, todo santo dia, escureceu, a fatalidade. Num disse que era coisa dos mortos do matadouro! Lá só mata boi, cavalo, cabra, cabrito! E gente também, viu? Aquilo é um morto revoltado. E feio que doi! É o monstro do matadouro! Apelaram pra tudo: juiz, prefeito, bispo, polícia, apareceu exorcista, pistoleiro, profeta, força tarefa, tudo para dar cabo daquele causador de temores. Mesmo caçado com tochas, lanternas, luminárias, sumia de só se ver ao por-do-sol. O monstro ganhou prestígio e a antipatia popular. As portas se fechavam, ninguém estava seguro nas ruas, o medo tomou conta de todos. Mas o que seria mesmo, hem? O filho da perna-cabeluda, o enteado do chupa-cabra, que droga é nove? A coisa do matadouro, a criatura ruim. Ninguém conseguia dormir de tanto pavor. Fizeram vigília e só quando o dia amanheceu é que viram. Como é que pode? Também, uma desgraça dessa de ocrídia, nem ogro há mais horroroso. É mesmo, de noite mete medo com tanta feiura. Vai ser desengraçado assim lá longe, feioso! Coitado do Dunga, guardado em si, enjeitado por todos, nunca fez nada de mal, só ali, olhando quem vai e quem vem, até ser confundido com qualquer coisa medonha no lusco-fusco. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Os problemas mais graves da vida moderna derivam da reivindicação que faz o individuo de preservar a autonomia e a individualidade de sua existência em face das esmagadoras forças sociais, da herança histórica da cultura externa e da técnica de vida. [...].
Trecho de A metrópole e a vida mental, extraído de O fenômeno urbano (Zahar, 1967), do sociólogo e professor alemão Georg Simmel (1858-1918), que defende que a sociedade é produto das interações entre os indivíduos, tendo em vista que uma sociedade toma forma a partir do momento em que os atores sociais criam relações de interdependência ou estabelecem contatos e interações sociais de reciprocidade. Veja mais aqui.

DALTON DÁ A RECEITA DE CURITIBANA
O escritor Dalton Trevisan responde ao poeta Vinicius de Morais na peça Receita Curutibana: “o poeta bem me perdoe beleza não é fundamental”. A peça teatral é uma reunião de textos do autor numa observação perspicaz do cotidiano, carregada de provocação e erotismo, com personagens como o professor e a aluna, noiva, o tio, a ninfeta, entre outras. Foi montada pela Cia Máscaras de Teatro, com direção de João Luiz Fiani que adaptou 16 histórias eróticas. Veja mais do autor aqui, aqui e aqui. E mais de teatro aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafam, artista plástica e professora Yêda Bezerra de Mello. Veja mais aqui & aqui.

TAVITO CARVALHO
A edição de hoje é dedicada à memória do amigo cantor, compositor e músico Tavito (Luís Otávio de Melo Carvalho – 1948-2019). Veja mais aqui, aqui e aqui.


quinta-feira, junho 14, 2018

DALTON TREVISAN, YEATS, WALLON, CHRISTOPHER MONROE, SYLVIE GUILLEM, LARISA ILIEVA, JOHAN ONVLEE & HIROMI UEARA


PRA FALAR DAS COISAS & SÓ – Imagem: Buy her time, da artista visual búlgara Larisa Ilieva. - Não tenho nenhuma verdade, nem a petulância de dourar minhas próprias constatações como escorreitas ou inatacáveis. Não preciso da firmeza dos invulneráveis, porque um dia nunca é igual a outro: ontem já não é mais; o futuro, agora. Questiono dúvidas, a verdade é de cada um, que seja. A mim, de mesmo, nenhuma, por favor, prefiro a aleatoriedade de tudo pulsando em todas as direções, nada por definitivo, por isso mesmo incompreensível. A mim me basta sentir, a lógica só serve para quem quer respostas; eu não, voo pela incerteza quântica e natural. Respeito o outro, não sou melhor que nada nem ninguém. Fiz e faço escolhas em todo momento, impossível não fazê-las, mesmo quando nem esperava ou precisasse, empurrado contra a vontade, assumo o tanto de insensato, presa de sensações quais sejam. Nada demais, aprendizagens. Sigo adiante dia a dia para transcender o ego pelo insondável umbral do neófito desde ontem, o meu discipulado eterno, para dar na esfinge de Gauguin: de onde vim, o que estou fazendo aqui, para onde vou, não sei. Alguém sabe, preciso saber sem açodamento do intangível a sentir a essência de todas as coisas. Sentir me basta, e a compreensão por consequência. Respostas nem sempre resistem ao tempo, ou quase, talvez, nunca as esperei, tudo muda; até o que se tem por líquido e certo, o que convinha fazer, logo ou mais tarde rui inexoravelmente. Aprendi desmoronando, nem pude prever. Quantas, ah, já liquidado contumaz, suspenso pelas eternidades dos supostos tão humanos – muitas vezes, nem são -, e pela circunstância, um declive logo ali e o frio na barriga findei hesitante, coração estacado de nem saber explicar e acuado pelos olhares remotos por dias pardos e invernosos. Não temi a má reputação, nem a repugnância excludente; já me vi em palpos de aranha, atravessei zis infernos, esquinas muitas pra sobreviver lidando com convenções canhestras, redomas e coações então legais, patíbulos e execrações, ou se quisesse reabilitado só por favores de subalternidades. Ah, quanto! Foram cães, gatos, cavalos, bichos outros, a lição reveladora: não preciso de leis pro autodomínio, nem para tratar alguém como a mim mesmo, sei o que devo e posso, penso eu, isso não quer dizer que não esteja redondamente enganado em todos os sentidos e expressões. Não sei como o universo funciona, sei que não é de código de ética ou de postura, etiquetas ou agir corretamente, o que precisamos, é de evolução humana. Vou pela espiritualidade na paz corpalma com a harmonia da unidade cósmica. Amém e amem. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor e músico australiano Johan Onvlee: Meditation on piano, Reflexion for the love of nature & Deep relaxation; da pianista e compositora japonesa Hiromi Ueara: Desire, Caravan & Time difference; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A física clássica simplesmente não permite a aleatoriedade… Ou seja, o resultado de qualquer processo clássico pode – em última instância – ser determinado… tendo-se informações suficientes das ‘condições iniciais’. – Apenas processos quânticos podem ser, de fato, aleatórios. Pensamento do físico quântico e professor da University of Maryland, Christopher Monroe. Veja mais aqui, aqui e aqui.

SENTIMENTOS, ATITUDES & REAÇÕES - [...] a coesão de reações, atitudes e sentimentos, que as emoções são capazes de realizar em um grupo, explica o papel que elas devem ter desempenhado nos primeiros tempos das sociedades humanas: ainda hoje são as emoções que criam um público, que animam uma multidão, por uma espécie de consentimento geral que escapa ao controle de cada um. Elas suscitam arrebatamentos coletivos capazes de escandalizar, por vezes, a razão individual. [...]. Trecho extraído da obra As origens do pensamento na criança (Manole, 1986), do filósofo, médico e psicólogo francês Henri Wallon (1879-1962), que em outra obra Do ato ao pensamento: ensaio de psicologia comparada (Vozes, 2008), expressa que: [...] O que permite à inteligência esta transferência do plano motor para o plano especulativo não pode evidentemente ser explicado, no desenvolvimento do indivíduo, pelo simples fato de suas experiências motoras combinarem-se entre si para melhor adaptar-se exigências múltiplas e instáveis do real. O que está em jogo são as aptidões da espécie, particularmente as que fazem do homem um ser essencialmente social. [...] Veja mais aqui.

DINORÁ – [...] Encorajado por este prelúdio, avançou para mim – ai de mim! – que, possuída de terror, tombei de decúbito dorsal, tremula e palpitante sobre o canapé que ele escolhera para o nosso campo de batalha. Mãos postas, implorei que não me profanasse. Palavras serviam apenas para atiçar-lhe a imunda paixão. Meus grandes olhos verdes e cismadores, que lançavam lampejos, não intimidaram o velho corcel que tomara a brida nos dentes. Na confusão rompeu-se um alça do vestido de tafetá branco. Os cabelos esparsos – na luta eu perdera um sapatinho bordado em fio de ouro -, toda a encantadora desordem de minha pessoa excitavam a sua febre criminosa. Submissa aos seus caprichos, antes que madame regressasse, jurou que da cabeça aos pés cobrir-me-ia de joias. - Senhor, é demais a repulsa que me inspira! [...] Tremi pela minha virtude e, com grito abafado de terror, olhei para o infame instrumento de minha tortura que, de joelhos sobre o luxuoso tapete, enquanto assistia ao meu banquete, contentava-se em devorar-me com olhinho lúbrico. Prodigalizando louvores à beleza, afiançou que respeitaria a minha honra, satisfeito em adorar-me a cerimoniosa distância. Vendo-me indefesa, em delicioso abandono, molemente reclinada entre as almofadas de veludo carmesim, acenava-me em frases inspiradas com os ricos tesouros da volúpia. Apresentava-se fogoso campeão nas liças do amor e, se o recebesse como herói, seria instalada na classe da senhora teúda e manteúda. Em troca, renunciam aos míseros consolos da solidão, poderia abrir-lhe as portas do paraíso. Ou então vomitava horrendas injúrias, ridicularizado não seria por suposta menina e moça, em conluio com a viúva desonesta, que, na velhice precoce, exercia o humilhante ofício de rufiã. Incitava-me a provar o néctar da maçã proibida e, arrebatada na torrente avassaladora da sua eloquência, sentia as consequências do primeiro passo na estrada do vício – o rubor que me tingia as faces era antes do frenesi que da modéstia. Embevecido, os olhos ávidos nas minhas vestes em desalinho e nos graciosos caracóis que se espalhavam sobre a testa pálida, sua excelência forcejava por devassar as belezas escondidas. Recitando o seu caviloso discurso, o velho sátiro arrastava-se pelo tapete escarlate. Presto agarrou o pezinho descalço, cobriu-o de beijos úmidos e quentes. Um resto de pudor sustinha-me à beira do precipício, as forças já não respondiam, combalidas pelo inebriante filtro do amor. [...]. Trechos do conto Dinorá, moça de prazer, extraído da obra Cemitério de Elefantes (Record, 1987), do escritor Dalton Trevisan. Veja mais aqui.

A ROSA DO MUNDO - Quem sonhou que a beleza passa como um sonho? / Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho, / Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar, / Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre, / E morreram os filhos de Usna. / Nós passamos e passa o trabalho do mundo: / Entre humanas almas que se agitam e quebram / Como as pálidas águas e seu fluxo invernal, / Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu, / Vive este solitário rosto. / Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada: / Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração, / Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono; / Ele fez do mundo um caminho de erva / Para os seus errantes pés. Poema do poeta, dramaturgo e místico irlandês William Butler Yeats (1865-1939). Veja mais aqui.

ARTE DE SYLVIE GUILLEM
A arte da bailarina francesa Sylvie Guillem.


Exposição Brennand – Mestre dos Sonhos & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual búlgara Larisa Ilieva.
Veja mais aqui.
&
Do possível ao impossível da realização, a poesia de Philip Larkin, a espiritualidade de Robert C. Solomon, o teatro de Mário Bortolotto & Renata Gaspar, a fotografia de Dani Olivier & a arte de Ana Maria Pacheco aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Comércio de Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.


terça-feira, maio 15, 2018

ZÉ DA LUZ, DALTON TREVISAN, SCHOPENHAUER, JULIETTE BELMONTE, PLOTINO, VITAL CORRÊA, ANDRÉ MEHMARI & YEOL EUM SON

O FAZ-TUDO, A BRONCA & A BORREIA! - Imagem: arte da artista plástica porto-riquenha Juliette Belmonte. - O Marquito Ladeira endoidou o cabeção quando viu aquela linda mulher descer reboladeira de um mimoso fusquinha. Grudou os olhos nela e a seguiu todo o trajeto. Ao retornar, ele aviou-se e foi lá, passou a maior cantada e levou o maior fora. A senhora não está me entendendo! Senhorita, mais respeito! É que eu quero comprar seu carro! Não está a venda. Pode pedir quanto for. Tanto! Pronto, partiu pra comprá-lo, nem justou, tome lá dê cá, fechado. A lindeza jogou-lhe as chaves, dizendo que o documento estava no porta-luvas e fosse buscar o recibo na casa dela. Saiu sem nem dar bom dia. Não deu certo de um jeito, mas deu de outro. Ao apossar-se da direção, engatou primeira e saiu todo feliz. Foi até o Doro, o seu faz-tudo. Chegando lá, ordenou: Quero que faça um carro de som incrementado e todo estilizado. O Doro ficou remoendo as catracas do quengo, enquanto olhava pro danado. Olhou, envergou o pescoço, plantou bananeira, enfiou-se debaixo, saiu do outro lado, subiu no teto, desceu deslizando pelo capô, fez careta e disse: Tá certo, xá comigo. Foram então até a garagem de depósito do Marquito e o Doro começou a trabalhar na mesma hora: arrancou os acentos, os pneus, portas, lataria, motor, e saiu depenando o veículo, até deixá-lo só no chassi. O dono só olhando: Que droga esse cabra tá fazendo! Será que esse doido vai saber remontar tudo? Tô arrependido. Viu o Doro sair, desaparecer. Pronde esse porra foi? Armado de um molho de ferramentas, Doro retorna e começa o maior baticum, pei bufe, teibei. O que este doido está fazendo, meu Deus? Depois de um tanto de hora, Doro parou, serviu-se de uma prancheta, armou-se de caneta e papel e começou a escrever sem parar. O Marquito só olhando. Ao concluir umas cinco laudas, dirigiu-se ao proprietário: Pronto, tá aqui a relação do que precisa ser comprado. O que? O Marquito quase teve um troço. Isso é o material necessário pro carro de som. E você vai saber remontar tudo isso? Xá comigo, doutor. Pra não morrer do coração, o Marquito foi providenciar a compra do material solicitado. Não previa tanta coisa. Não discutiu e, no outro dia, botou um caminhão com tudo dentro no depósito. O Doro espantou-se: Já? Comigo é assim, tudo na hora. Agora vamos, quero ver tudo montado. Lá vai um dia, dois, três, uma semana, quase duas, ele lá conferindo o teitei do Doro. O carro estava irreconhecível e cheio de pitocos, fios, arames, o escambau. Mais um dia e já nos acabamentos, o carro parecia outro. Começaram as ligações, a maior gambiarra com circuitos, choques elétricos, pipocos e até um princípio de incêndio. Pega, apaga. O Marquito depois do susto, falou: Esse cara quer me matar do coração. E quase mesmo. Mais dois dias, a tronchura estava pronta, parecia uma árvore de natal ambulante, toda enfeitada e piscando, tudo funcionando: a buzina, um arroto com o hino do Flamengo; a acelerada produzia peido e peidadas; a armação do som, um compartimento de madeira maior que o cumprimento e a largura do automóvel, cheio de caixas de som de todos os tamanhos, lâmpadas que piscavam no ritmo, papagaiadas e sustos; o som, um estrondo e microfonias. Que porra é essa, Doro? Estou testando, aguarde. Quero ver é esse mondrongo andar. Depois de zis testes, fogaréu, estalos, roncos, estouros, a coisa estava pronta. Doro acionou o motor, ligou o som e deu uma volta. O Marquito só olhando: Isso não vai dar certo. Mas funcionou. Pronto, pode levar. Tá doido é? Vou trazer um especialista. E trouxe mesmo. O cara cobrou logo a consulta antecipada e foi examinar. Chegou lá, olhou, intrigou-se, conferiu, re-conferiu, balançou com a cabeça negativamente, esbugalhou os olhos, foi prum lado e pro outro, tomou susto, refez toda conferência e depois de horas, voltou pro Marquito e disse: Preciso levar prum elevacar mais próximo? Tá doido? Oxe, é só dizer que a gente leva agora. O especialista olhou pro Doro e duvidou. Quer ir mesmo? Sim, preciso concluir meu relatório. Então vamos. Doro montou e saiu guiando a borreia para a oficina mais próxima, enquanto o especialista seguia com o empresário arrependido desde a hora que nasceu. Lá chegando, suspenderam o veículo e o especialista ficou conferindo tudo por baixo. Minutos, horas depois, ele, então, virou-se pro dono e disse: Nunca vi tanta loucura junta, não presta, está condenado, mas funciona. Não sei como essa maluquice toda dá certo, só milagre mesmo. Não sei se o Inmetro vai autorizar essa coisa transitando por aí, recomendo isso e aqui estão meus honorários. Outro baque pro Marquito, uma fortuna! E o cara não fez nada. E virou-se pro profissional: O que você mais sabe fazer pra compensar essa careira conta? Eu só confiro, sou doutor no assunto, quem faz é ele e o senhor quem paga, mais nada. Isso é um roubo! Mesmo assim pagou e solicitou do Inmetro a fiscalização. Quando os fiscais chegaram, teve de retornar pra oficina e amontar o carro no elevacar. Os fiscais olharam, conferiram, testaram, examinaram, se espantaram, condenaram, futucaram, balançaram, cascavilharam tudo e no final o relatório: É uma doidice, mas funciona. Terá de pagar uma taxa extra, com reconfiguração do veículo no Detran e tudo o mais para colocá-lo dentro dos conformes legais. Mais dinheiro? Se cumprir essas exigências, essa piração pode transitar. Vôte! O Marquito se arrependeu de novo pela milésima vez, de ter inventado uma insanidade dessas. O Doro com a cara mais lisa, ainda cochichou: Pronto, agora o senhor tem a coisa mais ineivada da paróquia! Pra compensar, vou bolar a sua propaganda, xá comigo! Oh, não! O possuinte saiu arretado, injuriado até os astros, de não querer mais nunca aquela porqueira toda. Ah, qual não foi surpreendido dois dias depois, quando viu a população morrendo às gaitadas com as propagandas e aquele estrupício zanzando na rua. Foi aí que ele segurou o gênio e admitiu que apesar de doido, o Doro havia feito um bom serviço: Acho que estou ficando lelé da cuca mesmo, num é que o negócio deu certo mesmo!?! Virou a sensação em todo lugar que passasse. O problema era a meninada e os cachorros correndo atrás. Mas isso é outra história, o que vale, de mesmo, é que funciona e ele está só contando lucros no pé do cipa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do pianista, compositor e arranjador André Mehmari: Lacrimae, Angelus & Al we needs is Beatle; da pianista clássica sul-coreana Yeol Eum Son: Songs Stravinsky, Concerto nº 2 Prokofiev & Concerto nº 2 Chopin; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Se a Arte consegue produzir obras que estejam conformes a sua essência constitutiva [...] ela ainda tem, pela posse da beleza que lhe é essencial, uma beleza maior e mais verdadeira que aquela que passa nos objetos exteriores. [...] Todo princípio criador é sempre superior à coisa criada: é não a privação da música mas a própria música que cria o musicista; é a música inteligível que cria a música sensível. [...]. Pensamento extraído da obra Enéadas (Polar, 2000), do filósofo grego Plotino (204-270). Veja mais aqui.

REFLEXÕES PARA ONTEM - [...] O coito é principalmente coisa do homem; a gravidez, inteiramente da mulher. Do pai, o filho adquire a vontade, o caráter; da mãe, o intelecto. Este é o princípio da redenção; a vontade é o elemento de ligação. A evidência da constante existência do querer-viver no tempo, apesar de todo incremento da iluminação através do intelecto, é o coito: a evidência da luz do conhecimento novamente associada àquela vontade, mantendo em aberto a possibilidade da redenção, e isto no grau mais elevado da clareza, é o renovado tornar-se humano do querer-viver. Seu sinal é a gravidez, que por isto se apresenta franca e livremente, mesmo orgulhosamente, enquanto o coito se oculta como um criminoso. [...] Quem, mediante tais considerações, torna presente quão necessários para nossa salvação são na maior parte das vezes a necessidade e o sofrimento, reconhecerá que nós outros não deveríamos invejar a sorte, mas a desgraça. [...]. Como poderia este ser melhorado por meio dos sofrimentos, se, envolto numa grossa casca pétrea, seque os percebe? [...]. Trecho extraído da obra Paregma e Paralipomena, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). Veja mais aqui.

ABISMO DE ROSA – [...] Velha conhecida minha, essa minissaia xadrez. – Teu vulcão está aí. Não quer despertá-lo? Defendeu-se, agarrando-lhe a mão com força. – Que mão fria... – Teu beijinho, hum, gostinho de bolacha Maria e geleia de uva. – Não gostei da última vez. Como você me tratou. [...] Quero você nuazinha. A blusa pela cabeça sempre despenteia. – Vire para lá. Senão não tiro. Menos uma pecinha. A blusa. A saia. O sutiã. – A calcinha não. – Coisinha mais linda. – Para combinar com o colar. O riso furtivo do colar vermelho. – Tire, amor. De costas, sem olhar. – Parece um menino. Só que cabeludo. Toda nua, de salto alto. – Correntinha também é roupa? Sem poder cobrir os três seios com duas mãos. – Essa cruzinha o que é? O crucifixo barato, presente do noivo. – É enfeite. O velho Jesus, quem diria, piedosamente virou-lhe o rosto. [...] um corpo nu de mocinha. Tão aflito não sabia onde agarrar. – Veja como é quentinho. Pegue. Ela pegou sem entusiasmo. – Relaxe, meu bem. Não fique de pescoço duro. – Ai, meus ossos. Você me machuca. Arre, que tanto. – Dê um beijinho. Só um. – Ah, não. Ah, não. – Por um beijo eu dou o dobro. – Olhe que sou cigana. – Também sou. – Se eu der, você quer mais. [...] – Agora um beijinho. Ela deu. – Mais um. Mais outro. Já aos gritos. – Só mais este. Ai, amor. Agora no tapete. [...] Ela, quieta. – Eu dou o dobro. – O doutor é atiçadinho. – Agora sente-se. Abra a perna. É aqui, amor. Aqui é o bom. Sem ele pedir: - Ai, que é bom. [...] Ela pôs só a pontinha: entrar a uma virgem é perder-se no abismo de rosas. [...]. Extraído da obra Continhos galantes (L&PM, 2007), do escritor Dalton Trevisan. Veja mais aqui.

AMÔ DE CABÔCO - Seu moço. Não vale a pena, / eu alembrá as paxão, / qui eu tive pelas morena / das terra do meu sertão. / Era uma históra cumprida / qui eu tinha de insminhunçá. / E dessas coisas da vida / nunca se deve alembrá. / Pruquê a gente alembrando, / dessas antiga amizade, / o passado qui tá morto, / cá dento im nós, invivésse, / se ajunta cum a sodade, / e o peito é quem padece. / Abasta só le conta, / é o pruquê da razão, / da históra duma caboca / das terra do meu sertão, / que me butou freio na na boca / e peia dos pés pras mão: / vá ouvindo, meu patrão: / caboco disingonçado / sambado de profissão, / eu sempre fui condado / pra toda festa e fonção. / Fui mestre daqueles samba! / dansei tanto cum as caboca, / qui fiquei de perna bamba! / E ainda digo ao sinhô, / qui outro dote eu piçuía: / - Fui o maió marcado, / dos marcado de quadrilha! / Quando nos samba eu chegava, / uvía o batê-de-boca, / das morena, das caboca, / num cuxixo, num zunzun, / ta-li-qua cumo uns bizouro, / qui dizia umas pras outra: - Lá chegou o mestre-sala, / lá chegou o pé-de-ouro! / Entoce, pruvia disso / nos samaba qui eu sambavam / as increnca, os principiço, / pra riba d’eu avuava! / Vi munto a morte na frente, / mas porem, não recuava! / Quando eu já carregava / nas costa, uns trinta janero, / cum uns quinze de sambado, / dois oinho traiçuêro, / fizero eu dansá o samba, / fizero meu coração / dansá o samba do amô! / Eu vou conta prô sinhô: / Duma feita, num pagode, / no Riacho da Priguiça, / o caboco Xico Hanoro, / ruendo paxão, prumode / a Quinoia e a Simpiliça, / só cum eu querê dansá, / me instranhou, e foi preciso, / nós imendá os bigode / e brigá pra se acabá! / O samba virou um frege, / numa bagunça inferná! / Adispois do aquéta-arreda, / o caboco Xico Hanoro, / tinha levado três queda, / tava de venta quebrada! / Mas isso não vale nada. / O cabra tinha razão. / Pruquê as duas morena, / era duas tentação! / Era as fulô mais bonita / qui infeitava esse salão! / Adispois da ingrizia, / Quinoia, qui cunhicia / quanto eu gostava dela, / quage chorando, pedia, / qui eu dexasse de sambá! / Qui essas coisa só dizia, / pruquê me tinha amizade; / qui era munto mais mió, / qui eu precurásse u’a moça, / pra cum ela me casá! / Eu maginei... maginei / na preposta da muié! / Dispois eu considerei: / - Concêio toma quem qué! / Manginando nessas coisa, / andei pra traz quinze ano!.../ dansei no premero samba / qui eu sambei – lá no Ingano! / Meu juízo foi sambando, / im todo samba, patrão, / qui eu sambei na minha vida! / E a Quinoia, imbibida, / oiava pra eu, oiando / cumo quem tá isperando / a Santa Bença da missa! / Oiava pra Simpilíça, / qui tomem me oiava munto, / ta-li-quá cumo um parente / oia a cara de um difunto! / Eu entonce, arrisurvi / dá um adeus à pagodera! / Dos samba me adispidi, / pro resto da vida intera! / Garrei na mão de Quinoia, / qui ainda tava amarela / cum as mão tremendo e suando / qui nem tampa de panela / quando o feijão tá frevendo, / e falei assim pra ela: / - Quinoia. Eu te premeto, / pelo nome do meu pai, / qui meus pé e minhas perna, / pra sambá numa baderna, / de sua casa não sai! / - E agora, pra compretá / a minha felicidade, / tu que sê minha muié, / tu me dá tua amizade? / E ali, naquele momento, / cum as jura de amô na boca, / eu e Quinoia – a caboca, / contratemo casamento! / Hoje eu vivo satisfeito. / E quando as vez, su sujeito, / passa lá pelo meu rancho / e cum falta de arrespeito, / me pregunta todo ancho: / - Tem hoje uma padadera, / um samba, na Pitombera, / você não vai dansá, não? / - É esse aqui o meu samba, / é essa a minha fonção. / Eu orguioso arrespondo, / ao cujo dito amostrando, / deitadinha na tipoia, / um batorezinho sambudo, / um caboquinho barrigudo, / paricido cum a Quinoia!!! Poema extraído da obra Brasi caboco e Sertão em carne e osso (Litoral,1999), do poeta Zé da Luz (Severino de Andrade Silva, 1904-1965). Veja mais aqui, aqui e aqui.
  
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica porto-riquenha Juliette Belmonte.
Veja mais aqui.


50 poemas escolhidos pelo autor, de Vital Corrêa de Araújo & muito mais na Agenda aqui.
&
As trelas do Doro aqui e aqui.
Uma vez & todas as vezes, o pensamento de Jacques Rancière, a música de Adriana Calcanhoto, a arte de Zorávia Bettiol, o cinema de Betse de Paula & Dira Paz aqui.

RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...