Boboca pelas fantasmagorias do ciclo
circadiano…
- João Pila tinha muitos sonhos, todos de olhos abertos; nenhum, quando
fechados. O primeiro, ainda era garoto recadista na botica dum doutor lá que
nem sabia o nome, ocupação em que era pariceiro do Doro: fizeram dupla e
muita papagaiada. Voluntarioso, aprendeu com o parceiro a manipular toda a
tabela periódica e, tanto foi, que participou da criação dos dois patrimônios
mundiais dos biriteiros: a teibei e o mingau de cachorro. Quer dizer,
a praga e a panaceia, ao mesmo tempo. Num brinca! Abestalhou-se e o comparsa passou-lhe a
perna, ficou a ver navios e de mãos vazias: Que foi? Depois dessa, craque de
futebol e um sério problema: não tinha pés às vistas, mas um par de botas por
chuteira, com solado de pneu dum trator, resultado: chutava não só a bola, mas
beque, zagueiros, juiz, tudo; até, uma vez, errou a pelota e chutou o pau da
trave, jogada de bater lá longe, foi banido de vez. Aí artista de cinema, não
dava: feiúra braba; líder religioso com o poder das artes mânticas, não
enganava ninguém; piloto de corrida, ruim da munheca, travado demais; e foi
desastrado entre tantos outros planos pelas décadas da idade, todos os anseios malograram:
Só sonho nada que preste! Desapontado, exaurido, sonolento, de tão desanimado dormiu
e sonhou de mesmo pela primeira vez na vida. Pelo meio do mundo esgueirou-se, gozando
da dádiva de Prometeu: Eita mundo véio, arrevirado e de porteira
escancarada! Oxe! Viu iglus coloridos pela aurora boreal na Lapônia e passeou
pela Santa Claus Village: Ô vida boa, essa sim! Não demorou muito e conversou com
um pinguim-imperador ao pé do Maciço Vison: Só vexame, besta que ficava! Pegou carona
num bote de quase naufragar na Fossa das Marianas e, graças a não se sabe quem
ou o quê, foi resgatado numa das terras de Galápagos: Parecia bom, destá. Logo assombrou-se
com as Moais de Rapa Nui, dando um carreirão de quase se esbagaçar pelas
gargantas de Dades e Troda, pegando bigu num camelo azoretado que foi parar na
Sibéria, onde levou um chute na bunda até bater em Uunartoq Qeqertaq, quando
deu de cara com um dervixe que ia à Margem Equatorial. Vambora. Conversa vai e vem
e o estranho falou da argila de Llosa, das civilizações de Antônio Cândido, das narrações de Borges e trelelê tralalá... Êpa, esse
sonho é meu, não se meta! Donde vem, pronde vai? Não sei nem onde é que estou,
nem o que vim fazer aqui. Ah, perdido? A vida toda. Sozinho? Ah, tem muita gente
no meu juízo! Kenopsia pura. O quê? Só nós estamos aqui! Nós e todos os
meus detratores que querem me fazer da merda mais espragatada, uma bosta mais
que fedida, ô catinga! Isso é occhiolismo! Lá vem você com esses nomes
estrambólicos! Deixa pra lá! Sei que vou só é mesmo me estrepar! Aí é lachesism.
Quer prestar atenção ao que eu digo ou vai ficar inventando moda? Vá, pode falar,
diga! Tudo isso eu já vivi, já estou careca de saber que é o mesmo desde
sempre. Um déjà rêvé? O quê? Afinal de contas, o que você quer?
Tá na ponta da língua, mas escapole, num lembrando mesmo. Sim, um presque vu.
Queria
era voltar no tempo, pro que não existe mais e que era bão demais! Pronto,
agora hiraeth! Tenho mais tesão algum com o meu agora, sempre lascado, fodido
e mal pago! Anedonia. Quer parar de tirar onda com a minha cara, arremedando o
que digo com essas coisas escalafobéticas! Ah, vai se catar! Aí, viu-se
mergulhado num onirismo feito o de Kurosawa: seguia na neblina quando reparou
numa moça linda, que não era o coelho de Alice: Ei, moça! Ela correu. Ei, dona
Maria, me espere! Ela mais fugia. Até que deram na beira dum despenhadeiro: Que
foi que houve, senhorita? Cortaram as árvores, elas estão chorando... Mesmo? Olhou
de lado, realmente, ermo brabo. Cadê-la? Ela seguiu para um túnel e parou, de
repente, assustada, tentando se esconder. Qual é a bronca? Veja! Da boca do
túnel saiu um bando de urubus alvoroçados e, logo em seguida, apareceram retirantes
de Portinari. Ave! Ele criou coragem e foi até eles: Pronde cês vão? A
lagoa Mundaú fervia eruptiva por conta da tragédia da Salgema Brasken, um cartão
postal da visita do capitalismo: Vem aí atrás toda população atônita, entre
boias-frias migrantes, mortos, tudo defunto fugindo da fumaça do canavial que pranteia
fumegante. Eita! Vocês são do Maranhão? Foi aí que ele arregalou os olhos,
assustado, com uma mão que pousou sobre seus ombros: era o dervixe de novo. Até
no meu sonho vem você peiticar de novo, rapaz? Isa al-Masih voltou! Quem é essa? Jesus! Como assim? Jesus voltou! Endoidou, foi? Ele está ali. Onde? No meio daquela multidão de seguidores, venha! Deixe de tiborna! É ele! Vou cair nessa não! Vamos, veja! É não, ele não é quase preto,
pardo feito a gente, não! É ele! Vai enrolar macaco, fui! E não havia mais a
moça linda, nem os mortos-vivos, nem ninguém. Lorota de vida! Aí acocorou-se na
beira do rebentão e ruminou: Vôte! Sempre sonhei de vigia, ligado: um olho no
padre, outro na missa, nada deu certo; agora nesse cochilo, arrebentei-me todo,
tô mole! Não previa o futuro, num me fizeram nenhum milagre, nem falei com um oráculo
ou santinho mínimo que fosse pra remédio, que será de mim? A vida dele era uma
só, dormindo ou acordado, fazer o quê? Despertou ou ainda ronca? Sei lá, veja: ele só se arrasta, escapa claudicante, sobrevive quase errante, acha pouco? Até mais ver.
José Saramago: O que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca, e é preciso andar muito para se alcançar o que está perto... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Liane Moriarty: Ninguém jamais sabe todos os rumos que
nossas vidas poderiam ter tomado, ou talvez devessem ter tomado. E
provavelmente é melhor assim. Alguns segredos devem permanecer secretos para
sempre. Basta perguntar à Pandora… Veja mais aqui,
aqui & aqui.
Damon Galgut: As coisas acontecem apenas uma vez e
nunca se repetem, nunca retornam. Exceto na memória... Veja mais aqui &
aqui.
COMO FUNCIONA...
Imagem: Acervo ArtLAM.
Primeiro eles disseram \ Se isso
realmente aconteceu, denuncie à polícia. Você não sabe o quão sérias \ são
essas alegações? Você não pode simplesmente vir à comunidade \ sem uma denúncia
formal. \ Então eles disseram \ Por que você precisou ir à polícia? Você não
sabe o quão triviais \ são essas acusações? Você deveria ter vindo à comunidade
\ em vez de registrar queixa. \ Você disse \ qual comunidade? \ Eles disseram:
"Cala a boca, vadia, cala ... cala a boca, cala a boca, porra!".
Poema da poeta queniana Shailja
Patel.
IMPÉRIO
DO VAMPIRO - […] Seu passado é
pedra, mas seu futuro é argila. E você decide a forma da vida que irá construir. [...] Não há sofrimento tão
profundo quanto aquele que se enfrenta sozinho. Não há noites mais escuras do
que as que se passa na solidão. Mas você pode aprender a conviver com qualquer
fardo. Suas cicatrizes se tornam grossas o suficiente para se transformarem em
armadura. [...] Uma vida sem livros é uma vida não vivida. [...]. Trechos extraídos da obra Empire of
the Vampire (St.
Martin's Press, 2021), do
escritor australiano Jay Kristoff, autor dos livros Aurora Rising
(2019), Godsgrave (2017), Nevernight (2016), Illuminae
(2015) e Stormdancer (2012).
PRISÃO, IMIGRAÇÃO & EROSÃO DOS DIREITOS DA MULHER - [...] Você precisa
lidar com o mundo como ele é, e não como você gostaria que ele fosse. [...] Questões que antes pareciam resolvidas — como a emancipação feminina, os
direitos individuais, a liberdade religiosa, a liberdade sexual, os direitos
dos animais e a liberdade de expressão — voltam a ser objeto de debate na
Europa. [...] As forças policiais nacionais e regionais
precisam de unidades especiais dedicadas à proteção de mulheres e meninas, bem
como de comunidades judaicas, comunidades LGB e dissidentes do Islã. [...] Evitar
a presença de homens, manter-se em alerta, não chamar a atenção para si mesma:
essa é a rotina diária das mulheres na África e no Oriente Médio. Quando éramos
meninas, crescendo em Mogadíscio e Nairóbi, minha irmã e eu usávamos hijabs
para nos esconder do olhar público. Hoje, na Europa, as mulheres precisam
avaliar que tipo de vestimenta é mais eficaz para desviar a atenção do número
crescente de homens à espreita. [...] Mais do que qualquer outra grande
religião, o Islã formaliza a subordinação das mulheres. A lei religiosa
islâmica, conforme codificada pelas escolas “oficiais” do direito islâmico
sunita (as escolas hanbali, shafi’i, hanafi e maliki), insiste na tutela masculina
sobre as mulheres. No Islã, “toda mulher deve ter um ‘tutor’, ou *wali*; seu
parente do sexo masculino mais próximo, caso ela não seja casada, ou seu
marido, caso seja”. Esse vestígio da cultura árabe do século VII — que, por
meio do Islã, se espalhou para outras partes do mundo hoje de maioria muçulmana
— jamais foi revisto pelas escolas oficiais do direito islâmico. Atualmente,
imãs e outros líderes religiosos islâmicos continuam a repreender mulheres que
desobedecem à doutrina da modéstia. Eles citam passagens do Alcorão para
atribuir às mulheres, dentro da família, uma posição que exige que sejam
dóceis, dependam de parentes do sexo masculino para obter recursos financeiros
e se submetam ao domínio de seus maridos sobre seus corpos. O casamento é, via
de regra, arranjado, e, nesse processo, frequentemente ocorre uma troca de
dinheiro. Sob as normas religiosas do Islã, ainda é comum, nos dias de hoje,
que os direitos de uma mulher sejam, essencialmente, vendidos a um homem a quem
ela talvez nem sequer conheça. [...]. Trechos da obra Prey: Immigration,
Islam, and the Erosion of Women's Rights (Harper, 2021), escritora e
ativista somali, Ayaan Hirsi Ali (Ayaan Hirsi Magan), que atua na defesa
dos direitos e da autodeterminação das mulheres muçulmanas, opondo-se ativamente
aos casamentos forçados, aos crimes de honra e a mutilação genital feminina. A sua
história é curiosamente interessante, pois, pouco depois de nascer, o seu pai
foi preso e, na sua ausência, aos 5 anos de idade, ela e a sua irmã de 4 anos
sofreram a infibulação do clitóris numa cerimônia organizada pela avó, apesar
da oposição do pai a esta prática e que é considerada a pior de todas, pois,
após a amputação do clitóris e dos pequenos lábios, os grandes lábios são
seccionados, aproximados e suturados com espinhos de acácia, sendo deixada uma
minúscula abertura necessária ao escoamento da urina e da menstruação. Ela é autora dos livros Heretic: Why Islam Needs a Reformation
Now (2015), Nomad: From Islam to America: A Personal Journey Through the
Clash of Civilizations (2010), Infidel (2006) e The Caged Virgin:
An Emancipation Proclamation for Women and Islam (2004)
DARELADAS – No dia 05 de outubro de 2024, na
Biblioteca Pública Fenelon Barreto, em Palmares (PE), aconteceu a exposição e o
lançamento do livro Dareladas, uma homenagem pelo centenário do gravurista,
pintor, desenhista, ilustrador e professor Darel Valença Lins (1924-2017).
Confira o registro com fotos & muitas informações aqui.
OS SONHOS, A PSICANÁLISE & AS
NEUROCIÊNCIAS – Abordando
a temática dos sonhos sob as perspectivas da psicanálise e as neurociências,
por meio de uma revisão da literatura embasada no pensamento de Freud, Jung,
Sidarta Ribeiro, Rahul Jandial e Mark Solms, entre outros, destaca-se a
importância do sono e dos sonhos para o desenvolvimento e o equilíbrio humano. Veja detalhes aqui.
JUREMA – Este é o 11º episódio das Aventuras do Nitolino no
Valuna, contemplando a Jurema no sopé da serra dos Caboclos, todos os
encantados pelos juremais dos rios do Feijão, Pirangi e das Paixões, dos
riachos Gaiola e Pátio Velho, na festa do dia 11 de setembro, em que todos se
tornam juremeiros no Carnaval das Catirinas e do Bumba-meu-boi. Acompanhe aqui.
HESTÓRIAS DE GENTE – Reunião de 30
hestórias hilárias com Joões, Manés, Ciuços & outros Zés da vida, pelejando
que só, bulindo com muito nó cego, catombos & outras tranqueiras, da gente
comum no trastejado do cotidiano. Confira aqui.
INSTRUMENTAL LAM – Reunião de 8 canções autorais em
formato instrumental. São músicas compostas durante os mais de 40 anos de
trajetória artística. Veja aqui.
ISTO É PERNAMBUCO!!!
A arte do premiado cineasta,
roteirista, produtor, montador, produtor e diretor de cinema e televisão Marcelo Gomes (Marcelo Ferreira de Oliveira Gomes), ligado
à retomada do cinema brasileiro, que estreou com o filme Cinema, aspirinas e
urubus (2006) e seguindo-se com os filmes Viajo porque preciso, volto
porque te amo (2009), Era Uma Vez Eu, Verônica (2012), O homem das
multidões (2013), Joaquim (2017), Estou me guardando para quando
o carnaval chegar (2019), Paloma (2022), Retrato de Um Certo
Oriente (2024), Criaturas da Mente (2025) e Dolores (2026), todos
aclamados pela crítica. Veja mais aqui & aqui.










