sábado, novembro 07, 2026

SHAILJA PATEL, JAY KRISTOFF, AYAAN HIRSI ALI & MARCELO GOMES

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.



Boboca pelas fantasmagorias do ciclo circadiano… - João Pila tinha muitos sonhos, todos de olhos abertos; nenhum, quando fechados. O primeiro, ainda era garoto recadista na botica dum doutor lá que nem sabia o nome, ocupação em que era pariceiro do Doro: fizeram dupla e muita papagaiada. Voluntarioso, aprendeu com o parceiro a manipular toda a tabela periódica e, tanto foi, que participou da criação dos dois patrimônios mundiais dos biriteiros: a teibei e o mingau de cachorro. Quer dizer, a praga e a panaceia, ao mesmo tempo. Num brinca! Abestalhou-se e o comparsa passou-lhe a perna, ficou a ver navios e de mãos vazias: Que foi? Depois dessa, craque de futebol e um sério problema: não tinha pés às vistas, mas um par de botas por chuteira, com solado de pneu dum trator, resultado: chutava não só a bola, mas beque, zagueiros, juiz, tudo; até, uma vez, errou a pelota e chutou o pau da trave, jogada de bater lá longe, foi banido de vez. Aí artista de cinema, não dava: feiúra braba; líder religioso com o poder das artes mânticas, não enganava ninguém; piloto de corrida, ruim da munheca, travado demais; e foi desastrado entre tantos outros planos pelas décadas da idade, todos os anseios malograram: Só sonho nada que preste! Desapontado, exaurido, sonolento, de tão desanimado dormiu e sonhou de mesmo pela primeira vez na vida. Pelo meio do mundo esgueirou-se, gozando da dádiva de Prometeu: Eita mundo véio, arrevirado e de porteira escancarada! Oxe! Viu iglus coloridos pela aurora boreal na Lapônia e passeou pela Santa Claus Village: Ô vida boa, essa sim! Não demorou muito e conversou com um pinguim-imperador ao pé do Maciço Vison: Só vexame, besta que ficava! Pegou carona num bote de quase naufragar na Fossa das Marianas e, graças a não se sabe quem ou o quê, foi resgatado numa das terras de Galápagos: Parecia bom, destá. Logo assombrou-se com as Moais de Rapa Nui, dando um carreirão de quase se esbagaçar pelas gargantas de Dades e Troda, pegando bigu num camelo azoretado que foi parar na Sibéria, onde levou um chute na bunda até bater em Uunartoq Qeqertaq, quando deu de cara com um dervixe que ia à Margem Equatorial. Vambora. Conversa vai e vem e o estranho falou da argila de Llosa, das civilizações de Antônio Cândido, das narrações de Borges e trelelê tralalá... Êpa, esse sonho é meu, não se meta! Donde vem, pronde vai? Não sei nem onde é que estou, nem o que vim fazer aqui. Ah, perdido? A vida toda. Sozinho? Ah, tem muita gente no meu juízo! Kenopsia pura. O quê? Só nós estamos aqui! Nós e todos os meus detratores que querem me fazer da merda mais espragatada, uma bosta mais que fedida, ô catinga! Isso é occhiolismo! Lá vem você com esses nomes estrambólicos! Deixa pra lá! Sei que vou só é mesmo me estrepar! Aí é lachesism. Quer prestar atenção ao que eu digo ou vai ficar inventando moda? Vá, pode falar, diga! Tudo isso eu já vivi, já estou careca de saber que é o mesmo desde sempre. Um déjà rêvé? O quê? Afinal de contas, o que você quer? Tá na ponta da língua, mas escapole, num lembrando mesmo. Sim, um presque vu. Queria era voltar no tempo, pro que não existe mais e que era bão demais! Pronto, agora hiraeth! Tenho mais tesão algum com o meu agora, sempre lascado, fodido e mal pago! Anedonia. Quer parar de tirar onda com a minha cara, arremedando o que digo com essas coisas escalafobéticas! Ah, vai se catar! Aí, viu-se mergulhado num onirismo feito o de Kurosawa: seguia na neblina quando reparou numa moça linda, que não era o coelho de Alice: Ei, moça! Ela correu. Ei, dona Maria, me espere! Ela mais fugia. Até que deram na beira dum despenhadeiro: Que foi que houve, senhorita? Cortaram as árvores, elas estão chorando... Mesmo? Olhou de lado, realmente, ermo brabo. Cadê-la? Ela seguiu para um túnel e parou, de repente, assustada, tentando se esconder. Qual é a bronca? Veja! Da boca do túnel saiu um bando de urubus alvoroçados e, logo em seguida, apareceram retirantes de Portinari. Ave! Ele criou coragem e foi até eles: Pronde cês vão? A lagoa Mundaú fervia eruptiva por conta da tragédia da Salgema Brasken, um cartão postal da visita do capitalismo: Vem aí atrás toda população atônita, entre boias-frias migrantes, mortos, tudo defunto fugindo da fumaça do canavial que pranteia fumegante. Eita! Vocês são do Maranhão? Foi aí que ele arregalou os olhos, assustado, com uma mão que pousou sobre seus ombros: era o dervixe de novo. Até no meu sonho vem você peiticar de novo, rapaz? Isa al-Masih voltou! Quem é essa? Jesus! Como assim? Jesus voltou! Endoidou, foi? Ele está ali. Onde? No meio daquela multidão de seguidores, venha! Deixe de tiborna! É ele! Vou cair nessa não! Vamos, veja! É não, ele não é quase preto, pardo feito a gente, não! É ele! Vai enrolar macaco, fui! E não havia mais a moça linda, nem os mortos-vivos, nem ninguém. Lorota de vida! Aí acocorou-se na beira do rebentão e ruminou: Vôte! Sempre sonhei de vigia, ligado: um olho no padre, outro na missa, nada deu certo; agora nesse cochilo, arrebentei-me todo, tô mole! Não previa o futuro, num me fizeram nenhum milagre, nem falei com um oráculo ou santinho mínimo que fosse pra remédio, que será de mim? A vida dele era uma só, dormindo ou acordado, fazer o quê? Despertou ou ainda ronca? Sei lá, veja: ele só se arrasta, escapa claudicante, sobrevive quase errante, acha pouco? Até mais ver.

 

José Saramago: O que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca, e é preciso andar muito para se alcançar o que está perto... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Liane Moriarty: Ninguém jamais sabe todos os rumos que nossas vidas poderiam ter tomado, ou talvez devessem ter tomado. E provavelmente é melhor assim. Alguns segredos devem permanecer secretos para sempre. Basta perguntar à Pandora… Veja mais aqui, aqui & aqui.

Damon Galgut: As coisas acontecem apenas uma vez e nunca se repetem, nunca retornam. Exceto na memória... Veja mais aqui & aqui.

 

COMO FUNCIONA...

Imagem: Acervo ArtLAM.

Primeiro eles disseram \ Se isso realmente aconteceu, denuncie à polícia. Você não sabe o quão sérias \ são essas alegações? Você não pode simplesmente vir à comunidade \ sem uma denúncia formal. \ Então eles disseram \ Por que você precisou ir à polícia? Você não sabe o quão triviais \ são essas acusações? Você deveria ter vindo à comunidade \ em vez de registrar queixa. \ Você disse \ qual comunidade? \ Eles disseram: "Cala a boca, vadia, cala ... cala a boca, cala a boca, porra!".

Poema da poeta queniana Shailja Patel.

 

IMPÉRIO DO VAMPIRO - […] Seu passado é pedra, mas seu futuro é argila. E você decide a forma da vida que irá construir. [...] Não há sofrimento tão profundo quanto aquele que se enfrenta sozinho. Não há noites mais escuras do que as que se passa na solidão. Mas você pode aprender a conviver com qualquer fardo. Suas cicatrizes se tornam grossas o suficiente para se transformarem em armadura. [...] Uma vida sem livros é uma vida não vivida. [...]. Trechos extraídos da obra Empire of the Vampire (‎St. Martin's Press, 2021), do escritor australiano Jay Kristoff, autor dos livros Aurora Rising (2019), Godsgrave (2017), Nevernight (2016), Illuminae (2015) e Stormdancer (2012).

 

PRISÃO, IMIGRAÇÃO & EROSÃO DOS DIREITOS DA MULHER - [...] Você precisa lidar com o mundo como ele é, e não como você gostaria que ele fosse. [...] Questões que antes pareciam resolvidas — como a emancipação feminina, os direitos individuais, a liberdade religiosa, a liberdade sexual, os direitos dos animais e a liberdade de expressão — voltam a ser objeto de debate na Europa. [...] As forças policiais nacionais e regionais precisam de unidades especiais dedicadas à proteção de mulheres e meninas, bem como de comunidades judaicas, comunidades LGB e dissidentes do Islã. [...] Evitar a presença de homens, manter-se em alerta, não chamar a atenção para si mesma: essa é a rotina diária das mulheres na África e no Oriente Médio. Quando éramos meninas, crescendo em Mogadíscio e Nairóbi, minha irmã e eu usávamos hijabs para nos esconder do olhar público. Hoje, na Europa, as mulheres precisam avaliar que tipo de vestimenta é mais eficaz para desviar a atenção do número crescente de homens à espreita. [...] Mais do que qualquer outra grande religião, o Islã formaliza a subordinação das mulheres. A lei religiosa islâmica, conforme codificada pelas escolas “oficiais” do direito islâmico sunita (as escolas hanbali, shafi’i, hanafi e maliki), insiste na tutela masculina sobre as mulheres. No Islã, “toda mulher deve ter um ‘tutor’, ou *wali*; seu parente do sexo masculino mais próximo, caso ela não seja casada, ou seu marido, caso seja”. Esse vestígio da cultura árabe do século VII — que, por meio do Islã, se espalhou para outras partes do mundo hoje de maioria muçulmana — jamais foi revisto pelas escolas oficiais do direito islâmico. Atualmente, imãs e outros líderes religiosos islâmicos continuam a repreender mulheres que desobedecem à doutrina da modéstia. Eles citam passagens do Alcorão para atribuir às mulheres, dentro da família, uma posição que exige que sejam dóceis, dependam de parentes do sexo masculino para obter recursos financeiros e se submetam ao domínio de seus maridos sobre seus corpos. O casamento é, via de regra, arranjado, e, nesse processo, frequentemente ocorre uma troca de dinheiro. Sob as normas religiosas do Islã, ainda é comum, nos dias de hoje, que os direitos de uma mulher sejam, essencialmente, vendidos a um homem a quem ela talvez nem sequer conheça. [...]. Trechos da obra Prey: Immigration, Islam, and the Erosion of Women's Rights (Harper, 2021), escritora e ativista somali, Ayaan Hirsi Ali (Ayaan Hirsi Magan), que atua na defesa dos direitos e da autodeterminação das mulheres muçulmanas, opondo-se ativamente aos casamentos forçados, aos crimes de honra e a mutilação genital feminina. A sua história é curiosamente interessante, pois, pouco depois de nascer, o seu pai foi preso e, na sua ausência, aos 5 anos de idade, ela e a sua irmã de 4 anos sofreram a infibulação do clitóris numa cerimônia organizada pela avó, apesar da oposição do pai a esta prática e que é considerada a pior de todas, pois, após a amputação do clitóris e dos pequenos lábios, os grandes lábios são seccionados, aproximados e suturados com espinhos de acácia, sendo deixada uma minúscula abertura necessária ao escoamento da urina e da menstruação. Ela é autora dos livros Heretic: Why Islam Needs a Reformation Now (2015), Nomad: From Islam to America: A Personal Journey Through the Clash of Civilizations (2010), Infidel (2006) e The Caged Virgin: An Emancipation Proclamation for Women and Islam (2004)

 


DARELADAS – No dia 05 de outubro de 2024, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, em Palmares (PE), aconteceu a exposição e o lançamento do livro Dareladas, uma homenagem pelo centenário do gravurista, pintor, desenhista, ilustrador e professor Darel Valença Lins (1924-2017). Confira o registro com fotos & muitas informações aqui.

 


OS SONHOS, A PSICANÁLISE & AS NEUROCIÊNCIAS – Abordando a temática dos sonhos sob as perspectivas da psicanálise e as neurociências, por meio de uma revisão da literatura embasada no pensamento de Freud, Jung, Sidarta Ribeiro, Rahul Jandial e Mark Solms, entre outros, destaca-se a importância do sono e dos sonhos para o desenvolvimento e o equilíbrio humano. Veja detalhes aqui.

 


JUREMA – Este é o 11º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna, contemplando a Jurema no sopé da serra dos Caboclos, todos os encantados pelos juremais dos rios do Feijão, Pirangi e das Paixões, dos riachos Gaiola e Pátio Velho, na festa do dia 11 de setembro, em que todos se tornam juremeiros no Carnaval das Catirinas e do Bumba-meu-boi. Acompanhe aqui.

 


HESTÓRIAS DE GENTE – Reunião de 30 hestórias hilárias com Joões, Manés, Ciuços & outros Zés da vida, pelejando que só, bulindo com muito nó cego, catombos & outras tranqueiras, da gente comum no trastejado do cotidiano. Confira aqui.

 


INSTRUMENTAL LAM – Reunião de 8 canções autorais em formato instrumental. São músicas compostas durante os mais de 40 anos de trajetória artística. Veja aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO!!!

A arte do premiado cineasta, roteirista, produtor, montador, produtor e diretor de cinema e televisão Marcelo Gomes (Marcelo Ferreira de Oliveira Gomes), ligado à retomada do cinema brasileiro, que estreou com o filme Cinema, aspirinas e urubus (2006) e seguindo-se com os filmes Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009), Era Uma Vez Eu, Verônica (2012), O homem das multidões (2013), Joaquim (2017), Estou me guardando para quando o carnaval chegar (2019), Paloma (2022), Retrato de Um Certo Oriente (2024), Criaturas da Mente (2025) e Dolores (2026), todos aclamados pela crítica. Veja mais aqui & aqui.

 


SHAILJA PATEL, JAY KRISTOFF, AYAAN HIRSI ALI & MARCELO GOMES

    Imagem: Acervo ArtLAM . Boboca pelas fantasmagorias do ciclo circadiano… - João Pila tinha muitos sonhos, todos de olhos abertos; n...