quarta-feira, novembro 25, 2020

BA JIN, KATHERINE ANNE PORTER, TRISHA BROWN, CHARLAINE HARRIS & TÂMARA DORNELAS

 

TRÍPTICO DQC: JANELIVRE - Curtindo FandangoTres Canciones Espanola (1951), do compositor, pianista e violonista espanhol Joaquin Rodrigo (1901-1999), na interpretação do premiado violonista Fabio Lima. Fandango vai quase não volta, eita, que coisa boa! Marinheiro nunca fui, só de primeira viagem, avalie. Dos sete mares, só em sonho. Indagora mesmo, depois de uma golada bem dada, navegante das cheganças, ouvi o Gajeiro de lá: O vento é tanto que me faz chorar! Que é que é isso, vamos pelas embaixadas aos versos tantos da Nau Catarineta: Minha mãe bem me dizia / Que eu não fosse me embarcar / Que esta nau se perderia / E eu me lançaria ao mar. Ora, ora, é só se deixar correr pela correnteza das águas. Assim, mesmo perdido, ela ali estava no meio doutras tantas na dança lasciva. E isso entre catraieiros, pescadores, trapicheiros estivadores, armadores e o que mais, aquela mesma que foi proibida por Pombal lá pelos tempos de antanho. Agora não, os tempos nem são tão outros, cuidado nunca é demais. Estou ligado nela, se cochilar fico na mão e era uma vez a possibilidade de um grande amor. Só perdi de mesmo a cisma com a chegada do grande escritor anarquista chinês Ba Jin (1904-2005): Esta batalha para salvar vidas será vencida. Não podemos esquecer o que aconteceu e a história não deve se repetir. Ah, tudo pela amizade e paz, jamais a guerra! Talvez tenha passado da hora, mas nunca é tarde, há sempre o que fazer. Ele se foi e eu cantarolei: Adeus que eu me vou. Meu navio a sorte inventa.

 


MEU CORAÇÃO ESTÁ NA MONTANHA – Curtindo Navilouca Ao Vivo (Universal, 2010), da banda Pedro Luís e a Parede: Segure nave louca / Que eu sou pedra rolando / Que está despencando / Em precipício propício / Pra esse movimento de agora / Esse monumento ao momento / Monumento de hospício / Silêncio na avenida Presidente Vargas / É mergulho bem pra dentro de si / Fotografei você na minha dragoflex / De olhar aceso esperando por mim / Então / Segure nave louca... – Para quem não tem mais paradeiro, no meio da festa toda, feito Net&Salomão, apareceu lá longe a Stultifera Navis de Brant, sem considerar aonde voo. Vão todos ao lado daqueles que se despedaçaram da La Nef des fous de Bosch, com os intemperantes e avarentos. Todos consideram: É melhor seguir sendo laico do que comportar-se mal dentro das ordens. Como não sei das estrelas do céu, nem dos ventos ou estações do ano, ouvi do Ship of Fools (Open Road, 2015), de Katherine Anne Porter: O lugar para onde você vai ainda não existe, você deve construí-lo quando chegar ao ponto certo. E não eram as cenas de Stanley Kramer, nem a pintura de John Alexander. Enfim, todos achavam que o louco era eu. E digo a verdade: ela estava ali e era em Abaton. Não era um totem nem o paraíso cretense de Chersonissos. Não, não era. Era ela reinando num cenário jamais visto. Confesso que nada vi, meus olhos eram dela. Para não mentir, as coisas que lá vi foram duas: Virginia Woolf fugitiva da sua loucura: A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata. E o Eça de Queiroz aborrecido: Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo. O amor eterno é o amor impossível. Os amores possíveis começam a morrer no dia em que se concretizam. A arte é um resumo da natureza feito pela imaginação. Afora isso, todos me diziam que ali era Abaton. Nem sabia mesmo onde é que era e como de lá me safei. Só soube do que se tratava muito depois, quando vi My heart’s in the Highlands (Edimburgo, 1892), do Thomas Bulfinch (1796-1867). Pois é, enquanto todos vagavam em busca daquilo que só sabiam apenas suspensa no horizonte ao anoitecer, completamente inacessível e duvidável, posso dizer, com certeza: fui ao lugar que ninguém nunca foi, nem sabia. E fui levado pelo fandango ao coração dela.

 


ÍSIS INSEPULTA, A MORTA-VIVA - Baseada na história da desaparecida Ísis Dias de Oliveira (1941-1972) – Ao som de Song From the Uproar (2012), da compositora e pianista estadunidense Missy Mazzoli, baseada na vida da exploradora suíça Isabela Eberhardt (1877-1904) – Foi lá que ela bailou com melancolia para encenar o seu texto: Sou Ísis de batismo, nem sei se viva ou morta, apenas que sou e nem sei quem ou onde estou. Não tenho mais familiares, nem o que de mim restou. Da Ilha das Flores o meu voo sem saber para onde ir. Sei apenas que sou desaparecida atravessando décadas para nunca mais. Sou também Dulce e as tantas outras filhas da dor. Ao final, num raio de luz do luar, ela dançou a coreografia de Trisha Brown (1936-2017): Prefiro guardar os meus segredos para mim. Em vez de falar sobre minha dança, prefiro simplesmente dançar. A verdade é que quero dançar a vida toda. Nunca quero parar de dançar. E se trancou em si, envolvida por meu abraço. Um beijo e disse Charlaine Harris: A vida continua. Ou, neste caso, a morte continua. Às vezes, você só precisa se arrepender e seguir em frente. Ali, nosso coração era um, mútuos e siameses, batidas de comunhão. Até mais ver.

 

A ARTE DE TÂMARA DORNELAS

A arte da bailarina Tâmara Dornelas, que é formada na Escola de Dança do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e que atualmente atua na austríaca Europaballett St. Pölten. Veja mais aqui e aqui.


 

 


MÓNICA OJEDA, BORA CHUNG, AZA NJERI & DÉBORA LAÍS FERRAZ

  Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos concertos Nights from the Alhambra (2007), A Mediterranean Odyssey (2010), Troubadours On The Rhine...