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sábado, julho 11, 2026

DRUMMOND, DAD SQUARISI, LENINE & STELLA MARIS REZENDE

 

Imagem: Acervo ArtLAM.


 

Interlúnio do inominado marupiara pé-frio... - Insosso não tinha nome, só sobrenome e duplo: os finados pais, Maria Combreia e Zé Caralâmpio, compuseram, às turras, o batizado: Caralâmpio Combreia; vingou-lhe o apelido desenxabido, colecionando remoques, outro Zé à toa. Isso há muito tempo, até tinha perdido as feições avoengas, desconhecia até então qualquer parentesco. Era amanhecido vistoso quando aventou, na curva da ideia, névoas oníricas, repisando pretéritos; se duvidava, segurou o espirro, escamoteava, acocorado matutando, tanto retardava coisas de sua, nem podia do dever. Cismava sozinho no mundo, ressuscitando olvidadices, o protelado na urgência da hora, irrespondível. Sentia-se viver noutras situações nunca vista, coisas estranhas que nem eram suas, de quem seria, ignorava; só que passava com ele, destá. Providenciou tirar a prova dos 9 fora e acelerou a ida. Foi a pé, mochila ao sovaco pendurada nos redondos ombros, água na moringa, toda pressa no dia arejado de um céu da rotina, pelo capinzal das ervas, a poeira do chão na areia dos pés, as alpercatas nos vestígios de passagens, as folhas e a passarada, sombreada jaboticabeira, as flores na brisa que vinha dos morros limítrofes, as moitas pelas nuvens dos arredores. Saboreava serelepe vasta fruteira farta pelas beiradas da estrada, ah, jaboticabas, chupava, se enchia. Subiu a serra, desceu o morro, esticou as orelhas: o ermo longe ia pelo demais. Deu em Catuama, o portão. Naquela instância as lápides, benzeu-se, cerrou os punhos, quanto tempo, nenhuma data, jaziam no sacrilégio do seu quase esquecimento. Deteve-se com gastura, tossiu seco, prosternado no primeiro batente, serôdio, soçobrava. Puxou do bisaco um par de velas, acendeu-as e o tempo amoitou nas escurezas de Deus, instantaneamente. Cegou paradeiro e um redemoinho medonho, danou-se! Aos giros, perdia-se, de cabeça pra baixo; de tanto rodar, foi jogado, estendido. Onde estou? Diante da Pedra Letrada: Já estive aqui? Parece. Deu fé de recorrentes anemoias: Será que só sou eu que tenho esses pantins, ou essa paranoia é geral? Cada qual sua loucura. Era seu paradoxo do ônibus: Vou ou não vou, lascou. Viu-se aos trocentos pedaços, desassossegado. Coçava a palma da mão: Sarna da moléstia, essa; será que estou com mau-olhado? Subitamente a coisa mudou de figura: o céu atroou, trovões ribombaram aos raios e o diabo pintou assombração. Estarrecido, comediu-se. O chio das coisas. Era o tempestuoso Bicho do Vau: Leia! Lufadas de tornado iminente. E agora? Leia, vá! A ameaça, o alerta. O prenúncio de um ciclone, já quase tragado e alguém o puxou pela beca. Volteava desgovernado, derreou. Pisou o chão ignorado, apaziguou-se e, ao levantar a vista, outro susto, de escorregar desajeitado em fuga afora. Peraí. De novo? Torou aço, um frio na coluna, arrepiou-se: Ave! Era gente ou bicho mesmo? Sou teriana! E fala? Vamos, aqui não é seguro. Hem? Vem logo! Foram rasgando matadentro: ela ágil rojava aos voos pelos galhos e troncos, ele amedrontado seguindo-a, aos pinotes, pés na bunda. Deram numa clareira e ela atrepada, na copa dum eucalipto gigante, gesticulava, como sinais de avisos aos apitos e guturais. Obrigou-o a esconder-se. Refugiou-se no medo e esperou arfante. Logo apareceram muitos outros seres esquisitos: Que é que é isso? Ela desceu ladina: Venha, são aliados. Aí foi tomando pé do que pra ele era maior bizarrice, uma tropa interminável de furries, kingêneros, queers, cosplays, goblincores e otherkins - fadas, goblins, elfos e duendes, mesmo? -, licantropos, vampiros, nefilins, nunca tinha visto do tanto, ora. Mais tulpamancistas, zentais, otakus, kawaiis, clowncores divertidos, pastafarianos da Igreja do Monstro do Espaguete Voador, haul girls, biohackers – Eita! Gente com antena na cabeça, smartwatches, pitocos nos dedos -, vaporwaves, neo-tribalistas, plankings, Barbies e GothLolis, tecktoniks, sílfides, ironistas – Ué, passadores radicais de roupa? -, esportistas de quadribol, skinheads, hardcore punks, metaleiros, grunges, emos, bod-mods – Vôte! Tem até com implantes de chifres, língua bífida, tatuagens e piercings! -, sneakerheads, caçadores de fantasmas, dândis, fetichistas, colecionistas estranhos – do tipo colecionador de escova de dentes usada, avalie -, sugestionados, adeptos da pneuteologia, sobreviventes afetivos, retrôs – preservacionistas do passado, pode? -, imperadores das cócegas, mergulhadores de lixeira, fashionistas, Toy Voyagers, fantasistas disfuncionais, delirantes, disforistas, paleoterios, fictórios, teriomíticos... Deu o créu! Havia quem incorporasse o Kholstomér do Tolstói, ou o urso-polar da Tawada, o polvo da Despret, a sardinha do Bill François, maior piração! Seria coisa de outro mundo que estava metido ou falseamentos, tudo perdido, modelos com figurinos excêntricos, cada qual mergulhados na sua sandice, ora! Boba da peste! Plantassem batatas, penteassem macacos, lambessem sabões nos seus folguedos exóticos, dislates, tinha de tudo! Eita, pêga! Logo um boi solene mugia Guimarães Rosa: O homem é um bicho esmochado, que não devia haver. Depois recitava o de Drummond quando se deparava com humanos. E lá estavam Quidim & marquês Rabicó, quem Orlando de Woolf, o furacão da Hilda, as diminutas criaturas de Lilipute de Swift, quem falasse do Magnum Opus nos portais de Tlön, do Mutus Liber, do poema celta do Graal, de Atlântida, até personagens de Arantza Sestayo. Quem? Que carnaval é esse? Agora sabia: bicho gente é um bocado de doidices arrodeado de perigo por todos os lados. Céus, em que fui me meter? À caça, aos gritos, muitos correram, alguns pouquíssimos ficaram. Tremia: Pronde foram? Caçar, já já voltam pra comilança, fica aí. Ela tinha ido com os outros, hem hem. Sozinho cismou: Com certeza era mais fácil entender a razão áurea ou a sequência de Fibonacci, do que sacar maluquice dessa. Não dava pra entender essa gente. Com o tempo foi se acostumando, quase pariceiros íntimos. Ela retornou da caça com os que foram e sorria na chegada. Aí ele virou-se do lado, ao mais próximo, puxou conversa para enturmar-se: Como é mesmo o nome dela? Sei-que-lá-de-tal! Fodeu! Ouvindo a conversa, ela soletrou: Meu nome é N-o-no-r-i-ri-e-l-a-la, Noriela Hentai, euzinha aqui, muito prazer, de novo! E o seu? Ih!... Ela riu-se do insípido, contida. É mesmo? Alcunha. E como se chama de mesmo? Uh!... Gracejou irônica: Também, com um nome desse, melhor o pseudônimo! Quem fala, ó, e o seu, hem? Acomodou-se relaxado ao lado dela e matutou consigo: Ela é coisa de bicho da muita estimação, maior xerimbabado, cheia das amorosidades. Mesmo insólita, a alma dela conjugava certinho com a sua, airosa no seu jeito peculiar, toda sacudida, dócil, os dentes de fora, recheada de franqueza e amabilidades. Diante dela todo inédito ímpeto, precipitava-se, saltava aos olhos, timidez dele apreciou, aliás e talvez, conjugou o verbo direitinho, zelava por ela, tomava conta, ela destinatária, ele insulso encurralado respeitoso, premente. Era o que podia fazer ali. Embevecia-se aos palmos dela, o traje, o quiasma: zilhões de anos-luz do seu sorriso, ô garapa boa! Cabeça sempre ocupada com chamegos de xodó, pouco importando se de segunda mão. Pronde vocês estão indo? Pra Pasárgada. Fazer o quê lá? Somos amigos do rei! Como assim? Ciclones devastadores se anunciam prenunciando um gigantesco tufão! O quê? Vem com a gente! Quando? Depois do repasto a gente vai zarpar, no certo, o mundo está ficando inabitável! O quê? Ora, você não sabe? Não. Vamos encher a pança logo, depois explicarei. Para quem desdenhava agouros, abolia crendices e conspirações extravagantes, estar ali no meio de tão tribais tão diversos, dava-lhe a impressão de já ter vivido ou sonhado com aquilo. Será? Além do mais: o que Deus num quis, não se deve dar ao diabo, né! Se revivia ou ressonhava, não sabia se por serendipidade entusiasmada ou desdita amaldiçoadora, só saberia no depois qual. A bem dizer, decerto, suspeitou do havido, encardiu-se, às pausas, comprava fiado o futuro. Um lampejo e decidiu-se: Vou virar bicho! Seria mais uma vazada das quantas jornadas, vezes quisesse até nenhum enfim. Já era tarde, oxe, ela partiu com muitos. Ih! Foi? Foi. Apartou-se, a ideia nascia do absurdo fortuitamente encadeada com movimento do impalpável e da ausência dela ali compondo silêncios ensurdecedores. Hem, hem. Néscio, afeiçoou-se dela à socapa e uma saudade arroxeava já dentro dele: Seria ingrata ao tanto da desconsideração, em paga devagar, sem socorro à vista, como se o dia de anteontem não passasse desde ontem até agora, o quanto pudesse suportar de se doer, mais condoía! Não era mais Pernambuco dali por diante, outro lugar que não sabia, era capaz de ser doutra banda desconhecida, uma confusão dentro de si. E ela já tinha ido, ficava só com os outros desapegados, afora o repuxo tristonho da ausência dela. E se ali o verão era longo, o inverno seria pior, precavia-se. Como proceder: este mundo dá medo, as leviandades, o verossímil, o abandono, as sobras, aos desperdícios, ninguém está a salvo, tudo do contra, a dor das coisas retine seu ricocheteado na gente mesmo. Aí desancou-se de todo, por enquanto, episódio custoso aquele, meios vãos, só faltava sair puxando a venta alheia a cada motejo pela feiúra. Cadê-la! Abscônditas evocações suas. Ela escapuliu furtiva, foi-se o que era doce. Devia a vida a ela, fujona, creditava. Roía-se por dentro, macambúzio, o que havia avinagrado em demasia sua existência tão pantagruelicamente. Ainda não seria daquela vez, que pena. Pesaroso: Era provável que as desventuras fosse só um brinquedo da sorte, era a vida e suas consequências. Reconhecia a exatidão da tristeza: Mas por quê? O futuro trazia respostas aos pouquinhos, o que haveria de vir? Por derradeiro a áspera, bis e tris, quantos mais à infinitude, dava baixa, até que a morte astuta viesse à tona das perpetuidades. Ficava o escrito pelo não dito: perdia o coração no mal resolvido. Não havia prazo pras descobertas, bastava o momento entroutros e pronto, se desvelando aos pouquinhos, o esmiuçado, só nas tristecências, o comum. Revivescente marupiara, quem dera. Ouviu longe: Vai ficar aí quarando com a morte da bezerra, ou vem com a gente! Hem? Até mais ver.

 

Vladimir Maiakóvski: Antigamente, eu acreditava que os livros eram feitos assim: um poeta chegava, entreabria os lábios e o tolo inspirado irrompia em canto — vejam só! Mas parece que, antes de poderem lançar uma canção, os poetas precisam caminhar por dias com os pés calejados, enquanto o peixe lento da imaginação se debate suavemente na lama do coração. E, enquanto eles cozinham um caldo de amores e rouxinóis ao som de rimas que chilreiam, a rua muda apenas se contorce, na falta de algo para gritar ou dizer... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Espido Freire: E sempre fora assim. Ninguém dava muita atenção... Na verdade, ninguém ouvia ninguém... Escrevemos e lemos para fugir, para viajar além dos nossos meios... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Denise Stoklos: Não dá pra fazer nada pela metade ou por três quartos ou um tanto ou se proteger de entregar. A entrega tem que ser cem por cento, que grau estiver você dos seu cem por cento. Ela tem que ser os cem por cento que você tenha... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

UM BOI VÊ OS HOMENS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm \ e correm de um para outro lado, sempre esquecidos \ de alguma coisa. Certamente, falta-lhes \ não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres \ e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves, \ até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam \ nem o canto do ar nem os segredos do feno, \ como também parecem não enxergar o que é visível \ e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes \ e no rasto da tristeza chegam à crueldade. \ Toda a expressão deles mora nos olhos — e perde-se \ a um simples baixar de cílios, a uma sombra. \ Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade, \ e como neles há pouca montanha, \ e que secura e que reentrâncias e que \ impossibilidade de se organizarem em formas calmas, \ permanentes e necessárias. Têm, talvez, \ certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem \ perdoar a agitação incômoda e o translúcido \ vazio interior que os torna tão pobres e carecidos \ de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme \ (que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo \ como pedras aflitas e queimam a erva e a água, \ e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Poema do escritor Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), considerado o mais influente poeta brasileiro do século 20. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A FILHA INJUSTIÇADA, DE STELLA MARIS REZENDE

Me inspirei na história verídica de uma mocinha de 15 anos, de Dores do Indaiá, que foi internada à força no Hospital Colônia de Barbacena. Motivo: Não concordava em trabalhar escondida dos fregueses do armazém do pai machista, violento e cruel. Maria da Soledade era obrigada a trabalhar no galpão, cuidando do estoque, carregando peso, sem receber nada, enquanto os três irmãos trabalhavam na loja em frente à rua, e recebiam salário. Ela queria ser respeitada, só isso.

Depoimento da autora sobre o seu recentemente lançado e elogiado romance A filha injustiçada (Faria e Silva, 2026), da premiada escritora e atriz Stella Maris Rezende, mestre em Literatura Brasileira pela UnB, que participa de feiras literárias e ministra a oficina Letras Mágicas. Ela é detentora de 4 prêmios Jabuti, afora outras tantas premiações de sua exitosa carreira. Ela concedeu uma entrevista exclusiva pra gente, falando de sua trajetória, seus livros publicados e estudados no meio acadêmico, da Fada da Palavra, da Oficina Letras Mágicas e de suas perspectivas literárias. Confira a entrevista aqui.

 

ESCREVER É MANDAR RECADO - Redigir é técnica. Pode ser aperfeiçoada. Nem sempre a atração reside no que você diz. Mas no jeito de dizer. Uma frase particularmente elegante, capaz de veicular com clareza e simplicidade a mensagem que você quer transmitir, é conquista pessoal, exercício diário de desapego e humildade. [...] Os segredos do estilo mais eficiente podem ser resumidos em dez preceitos. UM - Seja natural: fique à vontade. Imagine que o leitor esteja à sua frente. Converse com ele. Não fale difícil. Espaceje suas frases com pausas. Confira ao texto um toque humano. Você está escrevendo para pessoas. DOIS - Vá direto ao assunto: não enrole. Comece pelo mais importante. E comece bem, com uma frase atraente, que lhe desperte o interesse e o estimule a prosseguir a leitura. No final, dê-lhe o prêmio – um fecho de ouro, como inesquecível sobremesa a coroar um lauto almoço. TRÊS - Use frases curtas: a pessoa só consegue dominar determinado número de palavras antes que os olhos peçam uma pausa. A frase muito longa dá trabalho, confunde. Por isso, use sentenças de, no máximo, uma linha e meia. Lembre-se: uma frase longa nada mais é do que duas curtas. QUATRO - Prefira palavras breves e simples: vocábulos longos e pomposos funcionam como cortina de fumaça entre você e o leitor. Seja simples. Entre duas palavras, prefira a mais curta. Entre duas curtas, a mais simples. Em vez de falecer, escreva morrer; em lugar de somente, só; de matrimônio, casamento; de féretro, caixão; de morosidade, lentidão. CINCO - Ponha as sentenças na forma positiva: diga o que é, não o que não é. Quer exemplos? “Não ser honesto” é “ser desonesto”; “não lembrar” é “esquecer”; “não dar atenção” é  “ignorar”; “não comparecer” é “faltar”; “não pagar em dia” é “atrasar o pagamento”. SEIS - Opte pela voz ativa: ela é mais direta, vigorosa e concisa que a passiva (a passiva, como o nome diz, parece sem força, desmaiada). Prefira “um raio provocou o blecaute” a “o blecaute foi provocado por um raio” SETE - Abuse de substantivos e verbos: escreva com a convicção de que no idioma só existem essas duas classes de palavras. As demais, sobretudo adjetivos e advérbios, devem ser usadas com a sovinice do Tio Patinhas. Na dúvida, deixe-os pra lá: (Normalmente) ao escrever textos (informativos), use substantivos (fortes) e verbos (expressivos). OITO - Seja conciso: não diga nem mais nem menos do que você precisa dizer. Cultivar a economia verbal sem prejuízo da completa e eficaz expressão do pensamento tem dupla vantagem. Uma: respeita a paciência do leitor. Outra: poupa tempo e espaço. NOVE - Dê clareza às citações: dificultar a compreensão do texto é colocar uma pedra no caminho do leitor. Para quê? Facilite-lhe a vida. Nas declarações longas, não o deixe ansioso. Identifique o autor imediatamente antes da citação ou depois da primeira frase. [...] Nas declarações curtas, identifique o autor no começo ou no fim da fala: “Toda questão tem dois lados”, escreveu Pitágoras. DEZ - Escolha termos específicos [...]. Trechos do artigo Dez ideias úteis para usar a palavra escrita com clareza e eficiência (FilosofiaEsotérica, 2026), da escritora e professora libanesa Dad Squarisi (Dad Abi Chahine Squarisi – 1946-2923), autora do livro Dicas da Dad: português com humor (Contexto, 2003), Mais dicas da Dad: português com humor(Contexto, 2003), Deuses e heróis - mitologia para crianças (LGE, 2004), Manual de redação e estilo para mídias convergentes (Geração, 2011), Sete pecados da língua (Contexto, 2017), entre outros.

 

A ARTE DE LENINE

(Imagem: Alexandre Loureiro/Getty Images)

[...] Não tenho a mínima ideia nem ouso descrever quem é o ser humano contemporâneo. Agora, diante da contemporaneidade em que estou inserido, existe uma constatação para mim que é clara, cristalina: é uma desconstrução da realidade. Isso me causa espanto, porque, não por acaso, a primeira música do disco "Eita" vai nesse tema, da confiança. Nós perdemos a confiança. E isso é um problema, eu acho. Na minha formação, fui educado a confiar na pessoa. Se não conheço alguém, eu confio nela, até que me provem o contrário. Hoje é completamente o oposto. Hoje a gente vive numa época de dissimulação. As pessoas não têm o mínimo escrúpulo, não têm a mínima educação. Falam uma coisa, pregam essa coisa, mas agem de forma oposta, completamente oposta. É muito dissimulado, é muito mentiroso o que a gente está vivendo hoje em dia. É como se a gente tivesse voltado a uma certa Idade Média, desacreditar das coisas que a gente já tinha conquistado. Não sei quem é esse ser humano contemporâneo. Torço para que ele tenha uma tomada de consciência e volte a escolher um caminho do bem comum. [...].

Trecho da entrevista Eita! Uma conversa com Lenine sobre o espanto, o tempo e o futuro (Fast Company Brasil, 2026), concedida pelo premiadíssimo cantor, compositor, arranjador, multi-instrumentista, letrista, ator, escritor, produtor musical, engenheiro químico e ecologista, Lenine (Oswaldo Lenine Macedo Pimentel), autor de mais de 500 canções, 9 álbuns de estúdios e 4 álbuns ao vivo e em vídeo. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


 

MÚSICA: CRIANÇA - O Brincarte do Nitolino conta e canta hestórias para o público infantil e infanto-juvenil, ofertando, ainda, conteúdos de Literatura, Psicologia, Educação, Direito, Teatro, Música, contação de histórias, brincadeiras, artes dos estudantes e uma agenda de recreações, oficinas e palestras para a área. Confira a música & letra Criança & muito mais aqui.

 


TEATRO: HISTÓRIA & AUTORES / DE PALMARES (PERNAMBUCO) PRO MUNDO – No Música, Teatro & Cia um estudo sobre o que é o teatro, abordando a história desta arte milenar, desde os primórdios até a contemporaneidade, destacando autores e peças teatrais, bem como uma abordagem sobre os movimentos no decorrer dos séculos, destacando, sobretudo, a arte no Brasil, em Pernambuco e Palmares, com extensa indicação bibliográfica. Confira clicando aqui.

 


PESQUISA & CIA – No Pesquisa & Cia reflexões de célebres personalidades por meio de suas obras, pensamentos e feitos sobre temas que vão desde das Neurociências, passando por ativismo, injustiça, crise climática, sustentabilidade, violência, ecofeminismo, simbiossexualidade, entre tantos outros, que constituem o debate contemporâneo. Confira aqui.

 


REUNIÃO SETIGONAL – Levado pela provocação dos criadores Admmauro Gommes, José Durán y Durán e Cícero Felipe, cometi alguns setígonos. Gostei. E quando vi uma penca de gente da melhor cepa cultuando e dando pitaco acerca dessa novidade poética, não me fiz rogado e soltei o verbo. Quer saber como é que o setígono? Ora, confira aqui.

  

E veja mais Pernambuco aqui.

 


domingo, dezembro 14, 2025

YANICK LAHENS, VENEZIA MAY, SOPHIA KIANNI & FACILITA GONZAGA!

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Chegou a hora de nos adorarmos, de dizermos isso em voz alta, chegou a hora de criarmos memórias... O amor, como eu, parte em uma jornada. Um dia eu o encontrarei. Assim que eu vir seu rosto, eu o reconhecerei imediatamente... É preciso tanto, e tantas lágrimas, para ter o direito de amar... Cada besteira que você fizer nesta vida, você terá que pagar por ela... Use suas falhas, use seus defeitos; então você vai ser uma estrela... Não peço desculpas pela falta de cronologia nas minhas lembranças, pois um incidente evoca outro, então eu as anotei... Não me arrependo de nada!...

Pensamento recolhido da obra The Wheel of Fortune: The Autobiography of Edith Piaf (Chilton, 1958) & ao som do album Edith Piaf: 25 chansons (1982), da cantora e atriz francesa Édith Piaf. Veja mais aqui & aqui.

 

Olha a hora! Lá vai ela... - O frio de junho no reino do presente contínuo de Ftinoporão. Ainda é cedo e a preocupação transcende o cansaço, entre a vigília e o estupor, o insistente choro de um bebê na vizinhança, queimando nas vísceras da madrugada. Lá fora o galo cantou alhures e era como a obrigação de pôr as coisas em dia: quem tem contas pra pagar jamais poderá dar-se ao luxo de folga – logo quem sempre errava na conta e o cálculo se perdia no prazo encurtado, sabe-se lá como. Foi preciso o ânimo de Ferusa e os gemidos de uma gata no cio: difícil é segurar a onda contra o aluamento fortuito noutras elucubrações. Afazeres sumários davam conta da goteira no teto, o pingado na pia e cadê velas e fósforos, a luz apagou subitamente, ampliando as trevas proutras fantasmagorias. É preciso fechar as janelas, um chuvisco demorado alagava o ataque dos insetos que picavam e isso dói e como! E Anatole escondia Auge sob carregadas nuvens e me trazia a lembrança de Laura que lia Virgínia e vivia sufocada pelas circunstâncias das cenas da Dalloway de Marleen Gorris e as frustrações repisadas como em The Hours de Cunningham. Mas, que dia é mesmo hoje? Precisava fechar a torneira, a vasilha enchia a esborrar pra todo lado. A chaleira esquentava no fogão e era só uma semana como outra qualquer. Sim, nublada manhã de Quimão, os encharcados escondiam Talo e não mais brotavam esperanças, nem poderiam, impediram Carpo emergir de Damia e coibiram Auxo e Auxesia, inviabilizações extemporâneas. Nossa! Como podia, a ventania escancarou a porta, ah, emporcalhava tudo e as intrometidas rãs invadiam pro atrapalho do chocho matinal de Acte. Já chuva torrencial anunciando o atraso da saída de casa, difícil assim encarar tumultos e lodaçais, como se sucumbisse ao noticiário: a zoada das tevês, o som violento dos filmes de ação; a liberdade perdida e dela a infância – quebrou o pé pulando muro; a adolescência destruída – cortou-se aparando flores no jardim, o primeiro beijo na esquina, a festa do dia 8, as risadas espalhafatosas e ela se confundia aos buracos e desníveis das calçadas empoçadas, quase voçorocas, prest’enção, doido! Um tombo, nada demais. Segura! Os vazamentos são os mijos da Terra. Será? E o horror destampava a panela cozinhando ódios e mágoas. Parecia trágico sorrir se havia violência iminente – o déjà vu de sempre, a sensação vicariante e as bravatas desmioladas traziam as muitas faces de Virgínia, desde a madrugada. E via Clarissa carregando seu fardo e, com isso, intuía: a gente quer mesmo mais que o impossível, além do extremo, dane-se tudo! E ela evocava peremptória de que estou devendo e muito à Ginastique, quase obeso aos estorvos. Chegava Mesembria insinuando Eiar, enquanto reaparecia Acte sinalizando o estômago carente no meio do caminho e só dava direito à metade de quase nada, para valer-me entre a sanidade e a loucura. Ainda pra onde, vai saber, ardido pelas trapaças e percalços; a censura velada aplacando futuro; e se tudo era meio, como festa/tragédia, riqueza/pobreza, assassinatos, corrupção, precisava mesmo era agarrar a sorte pelos chifres e segurar firme Euporia, quem dera. Assoviava então o tempo passava tapiando o calor esbaforido, o suor pingando testa abaixo e a resignação com as peçonhas recônditas nos olhares vistosos, aquilo tudo mais parecia matagais tomando conta de quintais tão bonitos, terrenos baldios com arame farpado amarrado direito, coisa, hem, pra desvalido: tudo ao tempo vagava e era preciso divergir do exagero - se ganhou o que perdeu, ou era uma vez o ganhado, recombinava o olho no alvo e a mira, o inédito da coisa. Bulhufas! Nem adiantava tapar os ouvidos, evitando o diverso da ventura. E soerguia os trunfos duma insólita mania inglória que vinha desde antes e lá longe acenava remoques. Só podia e valia agora, o imediato; descuido, a vida troçava, danada! Precaver-se aos desembestos, doido varrido, e se esmorecia além do mais com as escolhas, o antes do depois, já era. Convviria precauções e atinava de governança desajeitada com os desacertos: prazeres e pesares. Larga de ser desatento, manzanza! Pensando que o céu é perto? Era comigo, fundo respirado contando até 10 e 20 e 100... – e não era pra nada, como quem jogasse Leão no bicho e desse papalégua, arre égua! É um sinal, será, se avie. Mas, teco! Parece mais aquele mato morrido pela pisada, jamais o ar da graça de Ortosia, porque Disse foi subjugada desde que invocaram Eunomia e se escafederam evadidas. Quase nem sabia do sorriso de Hesperis atarantando a melancolia de Disis, passando a limpo o que fiz de tudo e era nada, noves fora zero e sem café da manhã nem mesmo almoço, e Acte já cobrava o jantar. Refazia a rota estiada de volta como num asco de Teros pelas muitas faces de Virgínia orbitando abantesmas inusitados. Como embaraçado de todo passava batido outra vez, o regaço já prestes e a porta emperrava, a vidraça quebrada, embassou o tempo e quem podia incriminar, se não adiantava maldizer a própria caricatura: dei-me ao aloprado, parece, a careta por conta da mosca na sopa, babau! Uma hora dessas e o grilo cricrilava infinito, com a imposição de Ninfe e a latrina podre, a inhaca de comida estragada, maior catinga de aprisionado na própria obscuridade e data alguma delatava o impostor: se puxasse pelo adágio não ia adiantar nada; se subisse nas tamancas para rodar à baiana, muito menos: só perdia a compostura. Melhor, digitígrado, sair de fininho, murcho. Esse negócio de trancar rua e arrasar quarteirões são coisas de causa perdida de quem não tem a menor noção dos estrupícios. O que era de gosto não só esfolava o peito como deixoava pereba arranhando no couro. E findasse, sei lá, com um tapa-olho daqueles murros bem dados, da roncha na vista inchada, da pestana à bochecha, nada atraente. Melhor seguir em frente maneirando no rebolado, pisando firme o traçado como quem dava triunfal volta por cima, não ligando pra cheleléu, caboeta ou pariceiro, sal grosso no revertério: Saia logo desse atoleiro e pega o bigu que seja na sorte, trepeça! Tem gente que só atina aos empurrões, tropeços do muito pelos catombos: não se afrouxe, nem dê mole, não! Segura a touca como puder, não vestindo alegria com amarguras, nem como a flor em vão despetalada:  fechar a boca é dar-se por si. Já era tarde, ligou, véspera de viagem: quando foi a última vez? A incompletude pinicando quando era pra relaxar com Musique e na libação de Esponde, celebrando ignota Vênus/Afrodite e o domínio distante de Eros, pelo saboreado de Oporá nos júbilos de Teoria, afinal, também sou filho do Universo e ela, oxe, reaparecesse na veneta escapando das cenas de Daldry, porque estava prestes a hora de dormir e não havia nenhum rio Ouse por perto e podia se livrar daquela que desceu o rio como Alfonsina Storni se lançou ao mar... Suspeitávamos ciosos: ninguém ficará pra semente. Todos morremos disso ou daquilo, hora certa; quando não, todo dia. Pra quê se descascar todo se a chuva caia e lavava, o Sol enxugava, assim ia e a doidice sempre comum para todos - só o bicho humano é duro de lascar e o incompreensível era porque dava-se quando a ligeira hestória se alongava e não dava outra: era a morte pertinho sem cochilado, enquanto esquecíamos a pacífica Irene, aos pinotes em pé de guerra, com Elete genuflexa e não se falava mais nisso, ora. Ademais os sonhos sumiram pelos degraus infinitos do horizonte: quem foi, faz tempo; quem vai, apraza; não esqueça de se lembrar: entender-se consigo mesmo e já. Eu mesmo virei a página: escolhi viver - a vida inventada e a se reinventar moto contínuo. Até mais ver.

 

Agnès Varda: O ato de decidir olhar, de decidir que o mundo não é definido por como as pessoas me veem, mas por como eu as vejo... A felicidade é uma fruta linda que tem gosto de crueldade... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Blanca Varela: Deixei a porta entreaberta \ sou um animal que não se resigna \ a morrer a eternidade \ na escura dobradiça que cede \ um pequeno ruído na noite \ da carne \ sou a ilha que avança sustentada \ pela morte ou uma cidade \ ferozmente cercada \ pela vida \ ou talvez não sou nada \ só a insônia \ e a brilhante indiferença dos astros \ deserto destino inexorável o sol dos \ vivos se levanta reconheço essa porta \ não há outra gelo primaveril e um \ espinho de sangue no olho da rosa... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Nazik al-Mala'ika: Nunca saberemos quais mistérios as dobras da vida escondem... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SE MOISÉS FOSSE FILIPINO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Marnie me conta que é nadadora \ que desde que se lembra, \ flutua em águas de enchentes \ que às vezes, quando isso acontece, imagina-se como o bebê Moisés \ flutuando pelo Nilo, \ à espera de uma rainha que a encontre. \ Sob um telhado de metal ondulado enferrujado \ pelas torrentes devastadoras, \ o único refúgio para ela e suas filhas pequenas, \ ela me mostra seu equipamento de natação: \ sua roupa de mergulho para dermatite de contato, \ as cicatrizes de cortes de vidro emoldurando seus olhos \ como um snorkel, seus pés enrugados que, segundo ela, são quase palmados. \ Ela me diz: \ Quando há enchentes na região metropolitana de Manila \ todos os anos e você tem sete anos, \ você fica feliz. \ As aulas acabaram e tudo o que você pensa é em pular na água vermelho-tijolo, \ lutar na lama com a filha da vizinha, \ pular, brincar de sapo para se pendurar nas cestas de basquete \ que você finalmente consegue alcançar. \ Há baratas agarradas à gola da sua camisa, \ ratos se enterrando nos seus bolsos \ e você se imagina como a arca de Noé. \ Mas quando Manila sofre com enchentes todos os anos \ e você se torna mãe de duas filhas de sete anos, \ aprende a guardar tudo o que é precioso em seu corpo. \ Marnie dorme com os pulsos presos \ às tranças das filhas, \ passaportes enfaixados no sutiã esportivo, \ os membros da família tatuados em sua caixa torácica \ — uma filha, um peixinho dourado; outra, um crocodilo — \ todos são animais aquáticos. \ É assim que ela se acalma ao acordar sufocada por seus sonhos, \ sabendo que elas podem nadar. \ Ela imagina suas cicatrizes se transformando em guelras \ e finalmente começa a respirar. \ Quando Manila sofre com enchentes todos os anos, \ você aprende a guardar tudo o que é precioso em seu corpo. \ E qualquer outra coisa que você memorize, \ como a realidade anual dos filipinos na região metropolitana de Manila \ é a luta desesperada para subir do colchão ao telhado, carregando \ uma cadeira \ um bebê, \um bule de chá, uma urna, \ enquanto observam um furioso Faraó líquido \ engolir tudo o que possuem, \ liberando seu mar de homens \ e escravizando-os em sua própria terra. \ Mas Marnie ainda me diz que é nadadora, \ me diz que desde que se lembra, \ flutua em águas de enchente, \ me diz que às vezes, quando isso acontece, \ imagina-se como Moisés \ diante do Mar Vermelho \ e, desta vez, consegue abri-lo.

Poema da ecopoeta e artista singapurense Venezia May.

 

BANHO DE LUA - [...] Ela poderia ter escutado por horas essas palavras arrancadas da avalanche de dias. Porque o tempo gasto conversando assim não é tempo, é luz. O tempo gasto conversando assim é água que lava a alma, o anjo da guarda. [...]. Trecho extraído da obra Bain de lune (Sabine Wespieser, 2014), da escritora haitiana Yanick Lahens, também autora de Moonbath (Deep Vellum Publishing, 2017), no qual expressou que: […] Perdoar, de imediato, naquele instante, com o ódio ardendo como um coração na mão? Não, eles não conseguiam. Porque o ódio fazia você se sentir bem por dentro. Confortava como a fé em Deus. Eles não tinham tempo para julgar. Estavam matando. […]. Sobre o seu país ela afirma: Apesar da pobreza, das convulsões políticas e da falta de recursos, o Haiti não é um lugar periférico. Sua história o transformou em um centro.

 

A CRISE CLIMÁTICA É UMA CRISE DE DIREITOS HUMANOS - [...] Alguns governos e líderes empresariais dizem uma coisa, mas fazem outra. Em que linguagem precisamos colocar os dados climáticos para você agir? Por favor, diga-nos. Porque eu tenho que acreditar que a única razão pela qual você não está tomando medidas climáticas no ritmo e escala necessária é que você não tem a informação. Porque se você tivesse a informação e estivesse apenas fingindo agir que seria imperdoável. Ou nas palavras do secretário-geral, isso seria mentir. Pare de mentir. [...] O que me deu esperança foi ver todos aqueles jovens, que se importam tanto que vieram até o Egito para serem ouvidos. E ser o veículo para comunicar esse entusiasmo. Ter uma plataforma como essa para comunicar como os jovens se sentem para as pessoas que podem implementar e mudar. É um grande passo em frente para a inclusão significativa da juventude. [...] Há tanto trabalho para fazer na alfabetização climática. Veja o painel intergovernamental de referência sobre mudanças climáticas, relatório climático do IPCC. [...] A maioria das informações científicas é em inglês. Essa não é a língua principal para a maioria das pessoas do mundo. O pote de dinheiro ainda está vazio. Somente quando virmos compromissos tangíveis – quando virmos o financiamento começar a ser distribuído – é que eu acho que esses acordos têm sido um sucesso. [...] A crise climática é uma crise de direitos humanos. [...] Tem havido má gestão governamental da água. O que está acontecendo no Irã é uma revolta histórica, liderada por mulheres. A crise climática – particularmente a seca – exacerba a instabilidade no Oriente Médio. Contribui para as lutas de poder e os conflitos. Todas essas coisas estão ligadas. Os direitos humanos são agravados pela crise climática. E a crise climática tem um efeito desproporcional na nossa metade da população. As estatísticas mostram que 80% dos refugiados climáticos – as pessoas que são deslocadas – são mulheres. Um dos meus maiores focos é a moda sustentável A moda rápida é um grande problema para a geração Z. Essas empresas têm como alvo mulheres jovens. Precisamos alavancar a tecnologia para encontrar soluções. Para tornar a moda de segunda mão mais acessível. Estou trabalhando nisso com amigos de Stanford. [...] Trechos da entrevista (CIWEM - The Chartered Institution of Water and Environmental Management, 2023), concedida pela ativista estadunidense Sophia Kianni, que defende: O medo do fracasso é o que impede que as pessoas se envolvam. Precisamos de ativistas climáticos mais imperfeitos. (National Wildlife Federation, 2023).

 

FACILITA, GONZAGÃO: TATARITARITATÁ

Comadre Joana sempre reclamou \ Da mini saia que a filha tem \ O namorado se invocou também \ E certo dia pra ela falou \ Tua saia, Bastiana, termina muito cedo \ Tua blusa, Bastiana, começa muito tarde \ \ Mas ela respondeu, oi facilita \ Pra dançar o xenhenhém, (oi, facilita) \ Pra peneirar o xerém, (oi facilita) \ Pra dançar na gafieira, (oi facilita) \ Pra mandar pra lavadeira, (oi facilita) \ Pra correr na capoeira, (oi facilita) \ Pra subir no caminhão, (oi facilita) \ Pra passar no ribeirão, (oi facilita) \ Tataritaritátá (oi facilita ) \ Pra brincar na cachoeira (oi facilita) \ Rã rã rã rã rãrã (oi facilita) \ Pra dançar na gafieira, (oi facilita) \ Pra correr na capoeira, (oi facilita) \ Pra mandar pra lavadeira, (oi facilita)...

Música do compositor, bibliotecário e professor Luiz Ramalho (1931-1981), inserido no álbum Luiz Gonzaga (Odeon, 1973), do cantor, compositor e multi-instrumentista Luiz Gonzaga (Luiz Gonzaga do Nascimento – 1912-1989), o Rei do Baião. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

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domingo, novembro 28, 2021

LÁZARO DROZNES, PEDRO JUAN GUTIÉRREZ, VERA ALBERS, BRONOWSKI, ILANA YAHAV, ANITA CARRIJO, AORU AURA, NADIA BATTELLA GOTLIB & FÁTIMA FERREIRA

 

 

TRÍPTICO DQP – É aqui. É agora. O primeiro degrau... Ao som de Violina, do compositor húngaro Frigyes Hidas (1928-2007), na interpretação da premiada violinista argentina Betina Stegmann, integrante do Quinteto D’Elas, com a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, Marcos Sadao Shirakawa, conductor. - Uma escada e não sei onde vai dar. Não é a que dá acesso à minha casa, íngreme e, ao que parece, vai dar por várias camadas e dobras, desconfiado olho entre o falsificador e o autêntico, uma coexistência com as tramas hipercomplexas e híbridas, quando não cíbridas e glocais, prenhe de plurivalência, o que me fazia não poder descurar de sobreposições e complementaridade. Dali me afastei e, de repente, algo parece que havia desprendido do cinturão de asteroides e eu tentei a todo custo voltar para casa, pois sabia que ia piorar aquela situação de fedentina e ar fúnebre que se abateu no meu país inteiro há tanto tempo por conta do golpe que deu no Fecamepa do Coisonário. As ruas desertas de um outro lugar que sequer sabia e, na primeira esquina, esbarrei na criança de Taung que me disse ter vindo para uma conferência dos gorilas de Dian Fossey, a festa dos patos de Lorenz e dos camundongos de Tsien. É? Sim, um evento e tanto, pois haverá um show dos macacos de Jane Goodall, o malabarismo dos ratos de Skinner, a festa do céu do sapo Aderbal com todas as feras e mansas e que o Camonge aprontou e deu a maior treta! Bem movimentado, hem? Ah, sim, bastante. E logo me disse que havia chegado de uma longa viagem feita entre o Taj-Mahal e Machu Pichu, contando-me da experiência de reviver a Utopia de More, a Atlântida de Bacon, da Aurora de Boehme, da Loucura de Erasmo, e com ar de extrema comiseração e mãos de Budha, comentou-me sobre a indecisão do jovem Hamlet. Ela não era mais que uma antropoide do sul, australopithecus, nem parecia e disse-me: Vamos logo que ainda quero ver o acasalamento dos pombos de Dan Lehrman. Quem? Não conhece o psicólogo naturalista estadunidense? Não. Af! E foi me levando até divisarmos com o risonho matemático húngaro John von Neumann (1903-1957) com sua teoria dos jogos: A vida real não é como no xadrez. A vida real consiste em blefes, em pequenas táticas de despistamento, em pergunta a si próprio o que o parceiro está pensando sobre qual será nosso próximo movimento. É esse o tipo de jogo sobre o qual minha teoria se interessa. Ele era engraçadíssimo e logo travou uma conversa animada com ela sobre hestórias. Como? Logo ouvi sobre A escalada do homem (M.Fontes/UnB, 1979), do historiador polonês Jacob Bronowski (1908-1974), no qual estava inscrito que: História não são eventos, mas, sim, pessoas. Além disso, não são pessoas apenas recordando; é o homem vivendo seu passado no presente. História é o ato instantâneo de decisão do piloto, que cristaliza em si todo o conhecimento, toda a ciência, tudo aquilo que foi aprendido desde o surgimento do homem. Conversaram efusivamente e logo saíram os três de braços dados, me deixando sozinho no ermo da rua. Outra escada e resolvi subir: era a vez do próximo degrau.

 


A balança & a gangorra... Imagem: a arte da artista israelense Ilana Yahav. – Umoutro: estava eu perdido, deveras; o que foi e virá, a centopeia das horas e o cheiro da noite na notícia encenada do assassinato da dentistescritora e militante Anita Carrijo (1900-1957) e eu chocado com as condições em que ela foi encontrada em seu apartamento. Tudo registrado como latrocínio na crônica policial, e apenas foram levadas das suas posses uma máquina de escrever, os originais de um livro que estava escrevendo sobre tóxicos em São Paulo envolvendo personalidades da alta sociedade e um pequeno aparelho de diatermia. O principal suspeito, um seu ex-assistente italiano, aspirante a ator e insatisfeito com a sua demissão, justo porque ela defendia os direitos das mulheres, ressaltando a emancipação feminina, o direito ao divórcio, a creche para as crianças de mulheres trabalhadoras. Depois de sua morte, uma forte campanha de difamação logo ocorreu, acusando-a de traficante de drogas e prostituição. E era ela, na verdade, Mira Sorvino ao meu lado a me dizer Virginia Woolf: A liberdade intelectual depende de coisas materiais. A poesia depende da liberdade intelectual. E as mulheres sempre foram pobres, não apenas nos últimos duzentos anos, mas desde o começo dos tempos. As mulheres têm sido menos liberdade intelectual do que os filhos dos escravos atenienses. As mulheres, portanto, não têm tido a menor oportunidade de escrever poesia. E logo me envolveu na trama onírica de Lulu on the Bridge (1998), de Paul Auster, com sua voz suave a me mostrar fotos de beldades sensuais e a me perguntar pelo saxofone. Qual? Ela insistia na indagação e a lhe dizer que jamais tive tal instrumento, quando testemunhamos a cena no bar de frente: um louco que atira no músico e depois se mata. Que coisa! Ela me disse: Era você, felizmente sobreviveu ao atentado. Cadê a pasta? Que pasta? A do número de telefone, a boceta de Pandora e a pedra brilhante que levita? Não sei do que está falando! Você ligou pra mim e me trouxe a pedra! Como assim? Vou embora, preciso ir para as filmagens na Irlanda e quanto a você, se cuide, vai terminar preso. Por que? Deu-me um beijo e saiu. Logo desconhecidos apareceram e me sequestraram: A pedra ou a sentença de traição! Jogaram-me um exemplar do livro De Traidor a Herói: O falsificador de Vermeer de Göring que enganou a Holanda e os nazis (Babelcube, 2019), do dramaturgo e escritor espanhol Lázaro Droznes. Escolha! Como assim? E insistiam no interrogatório. Além da pedra que jamais vira, fora imputado contra mim o crime de Han van Meegeren por falsificar quadros do pintor Vermeers (1632-1675). A pedra ou a condenação por alta traição! Você falsificou para mais de 50 pinturas. E logo me vi nas cenas do The Last Vermeer (2019), dirigido por Dan Friedkin, e tudo parecia um pesadelo interminável. Ao despertar era a atriz inglesa Olivia Grant dizendo-me de Fritz Perls: Se você odeia algo que existe, isso é você, embora seja triste... Ao lado dela, ele emergiu do nada como se me lesse um trecho do seu Escarafunchando. Ouvi atento e ao procurá-la era Jenny Holzer: A propriedade privada criou o crime... Proteja-me do que eu quero. Um homem jamais saberá o que é ser mãe. Justiça eu sei não há nem aqui nem sei onde mais – mera extensão de poder dos sabidos e salafrários, vendida e vendável. De mesmo só gangorra. O tempo apaga os ardis e só resta a ameaça da variante Omicrom. Agarrei-me a ela para me proteger.

 


A aventura humana...- A arte da multiartista Aoru Aura. - Átimímpeto, ela múltipla; se uma ou outra sinuosa jamais a mesma e me pedia perdão porque perdoava tudo ensandecida de paixão e tão vulcânica com suas mãos de artesã na minha pele e um difuso arrepio tocava a alma com a emanação do seu sexo vivo energizando o meu ser desarvorado latejante coma revelação que fez da professora Nadia Battella Gotlib: Estórias há de conquistas e perdas. Estórias que seguem para frente. Ou para frente retornando. Variam de assuntos e nos modos de contar. Até quando? Às vezes invisível na minha obstinação, a incoerência extravasava e evaporava o mistério das asas nas unhas dela a me reter no seu casulo onde escavacou meu ser e me disse do suor na clareira ao contar aos matos verdes e pedras de ponta nossas confidências e queria fazer tudo feito louca fugidia, nômade na verdade, reinventando as ausências nas corredeiras do tempo. Virou-se e foi até à porta, trouxe-me não sei como o escritor e jornalista cubano Pedro Juan Gutiérrez: Gosto de ser belicoso, como bom filho de Ogum. Quando me virem tranquilo, é que já estou apodrecendo. Não entendi direito e logo me presenteou os volumes da sua Dirty Havana Trilogy (FSG, 2001) e arrematou: Não tenho motivos para ser amável, nem para fazer concessões. O escritor no fundo é um sujeito amargurado, confuso, sem explicações para nada, e pouco lhe importa se o compreendem ou não. Se é bem ou mal recebido. Se é simpático ou antipático. Se tem dinheiro ou é um morto de fome. Se você é escritor, tem que saber que essas são as regras do jogo. Do contrário, você é um palhaço. E vai ter sempre alguém por perto tentando transformar você em palhaço. Disse-me e saiu tal como aparecera. Ela foi, trancou a porta e voltou com um trecho do transconto Verba (Reformatório, 2021) da escritora Vera Albers: Existem quatro comportamentos básicos no homem: consumação, gratificação, punição (fuga e luta) e inibição (quando o siri chia)... Existem quatro cérebros no homem: sobrevivência; alimentação e cópula; memória; associação criativa... Sorriu solto e da poeta recitou o poema Vida: Virás ensolarada / pela estrada das pedras. / Postes hão de pontear / os teus passos poeirentos. / E caracóis eternos colarão / sua baba a teu intento. / Arrasto-me no lodo seco / e fujo. / Tu, cão sabujo, / segues-me. Sim, nem sabia que perseguia seus passos e, abraçando-me, recitou-me Fátima Ferreira: Eu vim do mar... “Qual as águas do mais turvo oceano, nada apagará de minha mente a certeza de que te amo”. Lembra? Perguntou-me e prosseguiu terna: Nada como um náufrago tentando salvar-se. Chego sã à margem contrária. Mas já sem fôlego... Disfarço e engulo seco, molhada e turva. Estranhas as cartas de amor que continuam a existência independente do alvo. Amarro-as com uma fita de cetim cor-de-rosa pela delicadeza... Não brinco mais de duvidar. Só brinco agora de ostra guardando pérolas. Esse náufrago não sabia mas era eu mesmo; essas cartas talvez, não sei, minhas... Prestei atenção, encarei toda panorâmica, ela era mais que real e linda, a minha cidade era o embuste e tanto barulho, onde o silêncio? Até mais ver.

 

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ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...