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domingo, dezembro 14, 2025

YANICK LAHENS, VENEZIA MAY, SOPHIA KIANNI & FACILITA GONZAGA!

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Chegou a hora de nos adorarmos, de dizermos isso em voz alta, chegou a hora de criarmos memórias... O amor, como eu, parte em uma jornada. Um dia eu o encontrarei. Assim que eu vir seu rosto, eu o reconhecerei imediatamente... É preciso tanto, e tantas lágrimas, para ter o direito de amar... Cada besteira que você fizer nesta vida, você terá que pagar por ela... Use suas falhas, use seus defeitos; então você vai ser uma estrela... Não peço desculpas pela falta de cronologia nas minhas lembranças, pois um incidente evoca outro, então eu as anotei... Não me arrependo de nada!...

Pensamento recolhido da obra The Wheel of Fortune: The Autobiography of Edith Piaf (Chilton, 1958) & ao som do album Edith Piaf: 25 chansons (1982), da cantora e atriz francesa Édith Piaf. Veja mais aqui & aqui.

 

Olha a hora! Lá vai ela... - O frio de junho no reino do presente contínuo de Ftinoporão. Ainda é cedo e a preocupação transcende o cansaço, entre a vigília e o estupor, o insistente choro de um bebê na vizinhança, queimando nas vísceras da madrugada. Lá fora o galo cantou alhures e era como a obrigação de pôr as coisas em dia: quem tem contas pra pagar jamais poderá dar-se ao luxo de folga – logo quem sempre errava na conta e o cálculo se perdia no prazo encurtado, sabe-se lá como. Foi preciso o ânimo de Ferusa e os gemidos de uma gata no cio: difícil é segurar a onda contra o aluamento fortuito noutras elucubrações. Afazeres sumários davam conta da goteira no teto, o pingado na pia e cadê velas e fósforos, a luz apagou subitamente, ampliando as trevas proutras fantasmagorias. É preciso fechar as janelas, um chuvisco demorado alagava o ataque dos insetos que picavam e isso dói e como! E Anatole escondia Auge sob carregadas nuvens e me trazia a lembrança de Laura que lia Virgínia e vivia sufocada pelas circunstâncias das cenas da Dalloway de Marleen Gorris e as frustrações repisadas como em The Hours de Cunningham. Mas, que dia é mesmo hoje? Precisava fechar a torneira, a vasilha enchia a esborrar pra todo lado. A chaleira esquentava no fogão e era só uma semana como outra qualquer. Sim, nublada manhã de Quimão, os encharcados escondiam Talo e não mais brotavam esperanças, nem poderiam, impediram Carpo emergir de Damia e coibiram Auxo e Auxesia, inviabilizações extemporâneas. Nossa! Como podia, a ventania escancarou a porta, ah, emporcalhava tudo e as intrometidas rãs invadiam pro atrapalho do chocho matinal de Acte. Já chuva torrencial anunciando o atraso da saída de casa, difícil assim encarar tumultos e lodaçais, como se sucumbisse ao noticiário: a zoada das tevês, o som violento dos filmes de ação; a liberdade perdida e dela a infância – quebrou o pé pulando muro; a adolescência destruída – cortou-se aparando flores no jardim, o primeiro beijo na esquina, a festa do dia 8, as risadas espalhafatosas e ela se confundia aos buracos e desníveis das calçadas empoçadas, quase voçorocas, prest’enção, doido! Um tombo, nada demais. Segura! Os vazamentos são os mijos da Terra. Será? E o horror destampava a panela cozinhando ódios e mágoas. Parecia trágico sorrir se havia violência iminente – o déjà vu de sempre, a sensação vicariante e as bravatas desmioladas traziam as muitas faces de Virgínia, desde a madrugada. E via Clarissa carregando seu fardo e, com isso, intuía: a gente quer mesmo mais que o impossível, além do extremo, dane-se tudo! E ela evocava peremptória de que estou devendo e muito à Ginastique, quase obeso aos estorvos. Chegava Mesembria insinuando Eiar, enquanto reaparecia Acte sinalizando o estômago carente no meio do caminho e só dava direito à metade de quase nada, para valer-me entre a sanidade e a loucura. Ainda pra onde, vai saber, ardido pelas trapaças e percalços; a censura velada aplacando futuro; e se tudo era meio, como festa/tragédia, riqueza/pobreza, assassinatos, corrupção, precisava mesmo era agarrar a sorte pelos chifres e segurar firme Euporia, quem dera. Assoviava então o tempo passava tapiando o calor esbaforido, o suor pingando testa abaixo e a resignação com as peçonhas recônditas nos olhares vistosos, aquilo tudo mais parecia matagais tomando conta de quintais tão bonitos, terrenos baldios com arame farpado amarrado direito, coisa, hem, pra desvalido: tudo ao tempo vagava e era preciso divergir do exagero - se ganhou o que perdeu, ou era uma vez o ganhado, recombinava o olho no alvo e a mira, o inédito da coisa. Bulhufas! Nem adiantava tapar os ouvidos, evitando o diverso da ventura. E soerguia os trunfos duma insólita mania inglória que vinha desde antes e lá longe acenava remoques. Só podia e valia agora, o imediato; descuido, a vida troçava, danada! Precaver-se aos desembestos, doido varrido, e se esmorecia além do mais com as escolhas, o antes do depois, já era. Convviria precauções e atinava de governança desajeitada com os desacertos: prazeres e pesares. Larga de ser desatento, manzanza! Pensando que o céu é perto? Era comigo, fundo respirado contando até 10 e 20 e 100... – e não era pra nada, como quem jogasse Leão no bicho e desse papalégua, arre égua! É um sinal, será, se avie. Mas, teco! Parece mais aquele mato morrido pela pisada, jamais o ar da graça de Ortosia, porque Disse foi subjugada desde que invocaram Eunomia e se escafederam evadidas. Quase nem sabia do sorriso de Hesperis atarantando a melancolia de Disis, passando a limpo o que fiz de tudo e era nada, noves fora zero e sem café da manhã nem mesmo almoço, e Acte já cobrava o jantar. Refazia a rota estiada de volta como num asco de Teros pelas muitas faces de Virgínia orbitando abantesmas inusitados. Como embaraçado de todo passava batido outra vez, o regaço já prestes e a porta emperrava, a vidraça quebrada, embassou o tempo e quem podia incriminar, se não adiantava maldizer a própria caricatura: dei-me ao aloprado, parece, a careta por conta da mosca na sopa, babau! Uma hora dessas e o grilo cricrilava infinito, com a imposição de Ninfe e a latrina podre, a inhaca de comida estragada, maior catinga de aprisionado na própria obscuridade e data alguma delatava o impostor: se puxasse pelo adágio não ia adiantar nada; se subisse nas tamancas para rodar à baiana, muito menos: só perdia a compostura. Melhor, digitígrado, sair de fininho, murcho. Esse negócio de trancar rua e arrasar quarteirões são coisas de causa perdida de quem não tem a menor noção dos estrupícios. O que era de gosto não só esfolava o peito como deixoava pereba arranhando no couro. E findasse, sei lá, com um tapa-olho daqueles murros bem dados, da roncha na vista inchada, da pestana à bochecha, nada atraente. Melhor seguir em frente maneirando no rebolado, pisando firme o traçado como quem dava triunfal volta por cima, não ligando pra cheleléu, caboeta ou pariceiro, sal grosso no revertério: Saia logo desse atoleiro e pega o bigu que seja na sorte, trepeça! Tem gente que só atina aos empurrões, tropeços do muito pelos catombos: não se afrouxe, nem dê mole, não! Segura a touca como puder, não vestindo alegria com amarguras, nem como a flor em vão despetalada:  fechar a boca é dar-se por si. Já era tarde, ligou, véspera de viagem: quando foi a última vez? A incompletude pinicando quando era pra relaxar com Musique e na libação de Esponde, celebrando ignota Vênus/Afrodite e o domínio distante de Eros, pelo saboreado de Oporá nos júbilos de Teoria, afinal, também sou filho do Universo e ela, oxe, reaparecesse na veneta escapando das cenas de Daldry, porque estava prestes a hora de dormir e não havia nenhum rio Ouse por perto e podia se livrar daquela que desceu o rio como Alfonsina Storni se lançou ao mar... Suspeitávamos ciosos: ninguém ficará pra semente. Todos morremos disso ou daquilo, hora certa; quando não, todo dia. Pra quê se descascar todo se a chuva caia e lavava, o Sol enxugava, assim ia e a doidice sempre comum para todos - só o bicho humano é duro de lascar e o incompreensível era porque dava-se quando a ligeira hestória se alongava e não dava outra: era a morte pertinho sem cochilado, enquanto esquecíamos a pacífica Irene, aos pinotes em pé de guerra, com Elete genuflexa e não se falava mais nisso, ora. Ademais os sonhos sumiram pelos degraus infinitos do horizonte: quem foi, faz tempo; quem vai, apraza; não esqueça de se lembrar: entender-se consigo mesmo e já. Eu mesmo virei a página: escolhi viver - a vida inventada e a se reinventar moto contínuo. Até mais ver.

 

Agnès Varda: O ato de decidir olhar, de decidir que o mundo não é definido por como as pessoas me veem, mas por como eu as vejo... A felicidade é uma fruta linda que tem gosto de crueldade... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Blanca Varela: Deixei a porta entreaberta \ sou um animal que não se resigna \ a morrer a eternidade \ na escura dobradiça que cede \ um pequeno ruído na noite \ da carne \ sou a ilha que avança sustentada \ pela morte ou uma cidade \ ferozmente cercada \ pela vida \ ou talvez não sou nada \ só a insônia \ e a brilhante indiferença dos astros \ deserto destino inexorável o sol dos \ vivos se levanta reconheço essa porta \ não há outra gelo primaveril e um \ espinho de sangue no olho da rosa... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Nazik al-Mala'ika: Nunca saberemos quais mistérios as dobras da vida escondem... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SE MOISÉS FOSSE FILIPINO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Marnie me conta que é nadadora \ que desde que se lembra, \ flutua em águas de enchentes \ que às vezes, quando isso acontece, imagina-se como o bebê Moisés \ flutuando pelo Nilo, \ à espera de uma rainha que a encontre. \ Sob um telhado de metal ondulado enferrujado \ pelas torrentes devastadoras, \ o único refúgio para ela e suas filhas pequenas, \ ela me mostra seu equipamento de natação: \ sua roupa de mergulho para dermatite de contato, \ as cicatrizes de cortes de vidro emoldurando seus olhos \ como um snorkel, seus pés enrugados que, segundo ela, são quase palmados. \ Ela me diz: \ Quando há enchentes na região metropolitana de Manila \ todos os anos e você tem sete anos, \ você fica feliz. \ As aulas acabaram e tudo o que você pensa é em pular na água vermelho-tijolo, \ lutar na lama com a filha da vizinha, \ pular, brincar de sapo para se pendurar nas cestas de basquete \ que você finalmente consegue alcançar. \ Há baratas agarradas à gola da sua camisa, \ ratos se enterrando nos seus bolsos \ e você se imagina como a arca de Noé. \ Mas quando Manila sofre com enchentes todos os anos \ e você se torna mãe de duas filhas de sete anos, \ aprende a guardar tudo o que é precioso em seu corpo. \ Marnie dorme com os pulsos presos \ às tranças das filhas, \ passaportes enfaixados no sutiã esportivo, \ os membros da família tatuados em sua caixa torácica \ — uma filha, um peixinho dourado; outra, um crocodilo — \ todos são animais aquáticos. \ É assim que ela se acalma ao acordar sufocada por seus sonhos, \ sabendo que elas podem nadar. \ Ela imagina suas cicatrizes se transformando em guelras \ e finalmente começa a respirar. \ Quando Manila sofre com enchentes todos os anos, \ você aprende a guardar tudo o que é precioso em seu corpo. \ E qualquer outra coisa que você memorize, \ como a realidade anual dos filipinos na região metropolitana de Manila \ é a luta desesperada para subir do colchão ao telhado, carregando \ uma cadeira \ um bebê, \um bule de chá, uma urna, \ enquanto observam um furioso Faraó líquido \ engolir tudo o que possuem, \ liberando seu mar de homens \ e escravizando-os em sua própria terra. \ Mas Marnie ainda me diz que é nadadora, \ me diz que desde que se lembra, \ flutua em águas de enchente, \ me diz que às vezes, quando isso acontece, \ imagina-se como Moisés \ diante do Mar Vermelho \ e, desta vez, consegue abri-lo.

Poema da ecopoeta e artista singapurense Venezia May.

 

BANHO DE LUA - [...] Ela poderia ter escutado por horas essas palavras arrancadas da avalanche de dias. Porque o tempo gasto conversando assim não é tempo, é luz. O tempo gasto conversando assim é água que lava a alma, o anjo da guarda. [...]. Trecho extraído da obra Bain de lune (Sabine Wespieser, 2014), da escritora haitiana Yanick Lahens, também autora de Moonbath (Deep Vellum Publishing, 2017), no qual expressou que: […] Perdoar, de imediato, naquele instante, com o ódio ardendo como um coração na mão? Não, eles não conseguiam. Porque o ódio fazia você se sentir bem por dentro. Confortava como a fé em Deus. Eles não tinham tempo para julgar. Estavam matando. […]. Sobre o seu país ela afirma: Apesar da pobreza, das convulsões políticas e da falta de recursos, o Haiti não é um lugar periférico. Sua história o transformou em um centro.

 

A CRISE CLIMÁTICA É UMA CRISE DE DIREITOS HUMANOS - [...] Alguns governos e líderes empresariais dizem uma coisa, mas fazem outra. Em que linguagem precisamos colocar os dados climáticos para você agir? Por favor, diga-nos. Porque eu tenho que acreditar que a única razão pela qual você não está tomando medidas climáticas no ritmo e escala necessária é que você não tem a informação. Porque se você tivesse a informação e estivesse apenas fingindo agir que seria imperdoável. Ou nas palavras do secretário-geral, isso seria mentir. Pare de mentir. [...] O que me deu esperança foi ver todos aqueles jovens, que se importam tanto que vieram até o Egito para serem ouvidos. E ser o veículo para comunicar esse entusiasmo. Ter uma plataforma como essa para comunicar como os jovens se sentem para as pessoas que podem implementar e mudar. É um grande passo em frente para a inclusão significativa da juventude. [...] Há tanto trabalho para fazer na alfabetização climática. Veja o painel intergovernamental de referência sobre mudanças climáticas, relatório climático do IPCC. [...] A maioria das informações científicas é em inglês. Essa não é a língua principal para a maioria das pessoas do mundo. O pote de dinheiro ainda está vazio. Somente quando virmos compromissos tangíveis – quando virmos o financiamento começar a ser distribuído – é que eu acho que esses acordos têm sido um sucesso. [...] A crise climática é uma crise de direitos humanos. [...] Tem havido má gestão governamental da água. O que está acontecendo no Irã é uma revolta histórica, liderada por mulheres. A crise climática – particularmente a seca – exacerba a instabilidade no Oriente Médio. Contribui para as lutas de poder e os conflitos. Todas essas coisas estão ligadas. Os direitos humanos são agravados pela crise climática. E a crise climática tem um efeito desproporcional na nossa metade da população. As estatísticas mostram que 80% dos refugiados climáticos – as pessoas que são deslocadas – são mulheres. Um dos meus maiores focos é a moda sustentável A moda rápida é um grande problema para a geração Z. Essas empresas têm como alvo mulheres jovens. Precisamos alavancar a tecnologia para encontrar soluções. Para tornar a moda de segunda mão mais acessível. Estou trabalhando nisso com amigos de Stanford. [...] Trechos da entrevista (CIWEM - The Chartered Institution of Water and Environmental Management, 2023), concedida pela ativista estadunidense Sophia Kianni, que defende: O medo do fracasso é o que impede que as pessoas se envolvam. Precisamos de ativistas climáticos mais imperfeitos. (National Wildlife Federation, 2023).

 

FACILITA, GONZAGÃO: TATARITARITATÁ

Comadre Joana sempre reclamou \ Da mini saia que a filha tem \ O namorado se invocou também \ E certo dia pra ela falou \ Tua saia, Bastiana, termina muito cedo \ Tua blusa, Bastiana, começa muito tarde \ \ Mas ela respondeu, oi facilita \ Pra dançar o xenhenhém, (oi, facilita) \ Pra peneirar o xerém, (oi facilita) \ Pra dançar na gafieira, (oi facilita) \ Pra mandar pra lavadeira, (oi facilita) \ Pra correr na capoeira, (oi facilita) \ Pra subir no caminhão, (oi facilita) \ Pra passar no ribeirão, (oi facilita) \ Tataritaritátá (oi facilita ) \ Pra brincar na cachoeira (oi facilita) \ Rã rã rã rã rãrã (oi facilita) \ Pra dançar na gafieira, (oi facilita) \ Pra correr na capoeira, (oi facilita) \ Pra mandar pra lavadeira, (oi facilita)...

Música do compositor, bibliotecário e professor Luiz Ramalho (1931-1981), inserido no álbum Luiz Gonzaga (Odeon, 1973), do cantor, compositor e multi-instrumentista Luiz Gonzaga (Luiz Gonzaga do Nascimento – 1912-1989), o Rei do Baião. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.



segunda-feira, agosto 10, 2020

BARBARA KRUGER, RAUL PASSOS, MALEBRANCHE, BLANCA VARELA, LÉLIA GONZALEZ, CIRCO & OS ESCRITOS DO RECIFE


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DA QUARENTENA AO OZÔNIO NO TOBA: Olá, gentamiga! Depois duns dias de descanso merecido, nem havia coragem para retomar agora as atividades. Contudo, acontece tanta coisa nesses tantos Brasis aloprados, que não dá para cochilar na risadagem. Sei, de antemão, que não é de bom tom rir da desgraça alheia. Mas a estupidez dos coisominions & o terraplanismo médico passou das contas, que o diga Nicolas Malebranche: A imaginação é a louca da casa. Só é, haja pano pras mangas estupidológicas. Principalmente diante das alarmantes estatísticas dando o teor da nossa tragédia desgovernada. Não dá para resistir diante das recomendações da cloroquina & hidroxicloroquina, ivermectina & outras baboseiras do negacionismo descarado, agora com a prática da ozonioterapia no reto! A ponto de se arvorar batendo nos peitos: Em breve o Brasil todo ozonizado! Coisa de enrustidos que se mostram homofóbicos, só sendo. Ou de quem apela pro benefício emergencial e não deu em nada. Eu que não vou expor meu frosquete e sair com blábláblá feito um pato rouco por aí, nem amarrado! Vou mesmo com o Currículum da Blanca Varela: digamos que ganhaste a corrida / e que o prêmio / fosse outra corrida / que não bebeste o vinho da vitória / mas teu próprio sal / que jamais escutaste ovações / mas latidos de cães / e que tua sombra / tua própria sombra / foi tua única. Aprendi demais, desaprendi de menos para tanto. Veja mais aqui.

DUAS: AQUELA OUTRA DOS DITOS & DESDITOS - A discriminação é altamente nefasta. Parece mais que ninguém se deu conta das previsões constitucionais vigentes, nem o tanto de marco legal para combate. A torto e a direito flagrantes inexoráveis, sem falar do disfarçado Efeito Matilda execrável. Lélia Gonzalez nos dá o tom do descalabro: Estamos cansados de saber que nem na escola, nem nos livros onde mandam a gente estudar, não se fala da efetiva contribuição das classes populares, da mulher, do negro do índio na nossa formação histórica e cultural. Na verdade, o que se faz é folclorizar todos eles. No momento em que começamos a falar do racismo e suas práticas em termos de mulher negra, já não houve mais unanimidade. Nossa fala foi acusada de emocional por umas e até mesmo de revanchista por outras; todavia, as representantes de regiões mais pobres nos entenderam perfeitamente (eram mestiças em sua maioria). É o que nos sobra destes tantos & muitos Brasis arrevirados e de porteiras escancaradas, gentamiga!

TRÊS: DO CIRCO ITINERANTE - Hoje tem espetáculo? Tem, sim senhor! Todo dia terá! O Circo Itinerante flagra tudo do Oiapoque ao Chuí, das beiradas do Atlântico até as bandas do Pacífico. Em cena pode estar o que não é nada agradável aos olhos, o cotidiano das mazelas e o imprevisível. O que nos salva é o solo do piano com Oblivion de Raul Passos: Tua dúvida, minha ciência / - Porque eu me debruço em ti / Pareces não estar ali - / Não fuja! / És uma ilusão cristalizada / Amargo pensamento de amanhã / - Lamento ou lamúria vã - / Não fale! / Madrugada imaterial - tesouro ardente / Tua sombra, vago relance... / Te peço, para que eu descanse, / Não durma! Ou o recado inflamado Barbara Kruger: Ver não é acreditar. A própria noção de verdade tem sido posta em crise. Em um mundo inchado com imagens, estamos finalmente aprendendo que as fotografias de fato são mentiras. Assim, a gente aprende a discernir do que é e não, o que deve ser feito e o necessário para viver e deixar viver neste tempo e mundo.

O RECIFE DOS ROMANCISTAS
A publicação O Recife dos romancistas: paisagens, costumes, rebeliões (FacForm, 2010), organizado por Abdias Moura, reúne textos Clarice Lispector, Josué de Castro, Mauro Mota, Ariano Suassuna, Jorge Amado, Gilberto Freyre, Osman Lins, Paulo Leminski, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Franklin Távora, Aguinaldo Silva, Amílcar Doria Matos, Raimundo Carrero, Gilvan Lemos, Evaldo Cabral de Melo, Luzilá Gonçalves Ferreiras, Josefa de Farias, Luis Jardim, Israel Felipe, Gastão de Holanda, Bernardo Freire, Mário Sette, Luiz Delgado, Jonas Taurino, Bernardo Guimarães, Lucilo Varejão, Perminio Asfora, José Nivaldo, Theotonio Freire, Faria Neves Sobrinho, Zeferino Galvão, Carneiro Vilela, Manoel Arão, entre tantos outros. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, março 12, 2020

NIÈDE GUIDON, MARIANNE WEBER, ALBA BRITO, GERTRUDE KÄSEBIER & RANÚSIA ALVES RODRIGUES


TODO DIA É DIA DA MULHER – UMA: A VIDA EM PRETO-E-BRANCO - As lentes dela e eu a pose entre os comuns e marginalizados, imigrantes desvalidos, outsiders cotidianos da vida noturna, escândalos da arte pelas líricas e doces e belas. Dela a timidez hesitante e eu só podia amá-la enquanto escrevia a riqueza surreal da infância confinada: uma princesa num cenário obscuro da Transilvânia de um péssimo filme. Era ela a fotografar a realidade que não tinha contato, a vida em preto-e-branco, sua crueza e aberrações. E isso era eu no seu jeito nada convencional, beijos e abraços na singeleza do nosso desnudamento, o nosso intenso amor proibido, nossas entregas clandestinas pelos caminhos da vida, entre a hepatite e a depressão, o barbitúrico e a navalha. Nada podia além de nós, eu a sua redenção, ela a minha última chance. Nada mais entre nós na sua Revelations, ainda hoje vive inteira e nua em mim. Quem? Diane Arbus: Uma fotografia é o segredo de um segredo. Quanto mais diz, menos você sabe. Acredito sinceramente que existem coisas que ninguém veria, se eu não as tivesse fotografado. DUAS: O POEMA DA LIBERDADE ERA ELA - Ela chegou com o desejo e o jogo de Ese puerto existe, os desastres das pulsões, a canção e a pintura existencial, transcendência e animalidade. Apenas ouvia sua voz sagrada de Luz de día, enquanto eu podia concebê-la na minha querência vadia, coisas além de morte e de vida. E nos permitimos os íntimos contatos pelas Valses y otras falsas confessiones em que éramos poesia e paixão, queda e incêndio, o tanto de surrealismo de sua alma lírica hispano-americana do Peru à Paris, de Florença à Washington, dela para mim e toda em mim. As lambidas na sua carne iam além do que sou nela e dela, os Ejercicios materialies se perdiam na sua insaciável feitiçaria para o Concierto animal. De mim, El falso teclado nos toques de suas delicadas securas, era além do que sou e podia, era ela. Quem? Blanca Varela: Acredito que a coisa mais importante, o maior presente que pode ser dado a alguém que você ama, é dar a ele a capacidade de escolher o que ele quer, dar-lhe liberdade. TRÊS: A DEUSA ÍTTALA - Quando a vi em um gesto por outro, havia ainda o alarde do Bandido da Luz Vermelha, e ela era a dama de ferro na minha adolescência Pirangi. Desde então sabia que todos os seus milagres estavam desde onde a arte não dormia com as memórias das vivências, anotações, era sempre domingo o retrato de uma deusa. Se eu crescia nem sabia do sonho de Vesta escritos com a alma colegial, eu só a tinha nua, amor e traição. Comigo os sonhos e ela pronta para a caçada de nossa Sagarana, nua tantas vezes e eu me deliciava no teatro, no cinema, na vida: era o amor em campo minado. Eu me valia das possessões, a rainha nua da minha comédia, o amor de meu DNA e esse tempo de desamor na nossa esperança. Quem? Ittala Nandi: Há quem ache que essas minhas histórias são de verdade e há quem duvide. Eu não confirmo nem desminto. A gente conquistou, por exemplo com a pílula, uma liberdade sexual muito avantajada. Porém, a gente perdeu o amor. Estamos vivendo no governo Bolsonaro, ou Bolsolini, como eu gosto de chamar, a falta de amor. Esse é grande problema. Só tem ódio, liberação de armas, menos dinheiro para a educação… O golpe de 64 era político. Este é afetivo. É um problema da perda do amor… Só nos resta amar antes que seja tarde. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Ele não descansará enquanto não estiver constantemente seguro também em sua posição como mestre de sua vida interior mais pessoal. Ele sentirá a necessidade de monitorar suas leituras, suas amizades, seus interesses fora de casa. Essa tendência semiconsciente, que é, em muitos casos, meramente sugerida pela tradição, continua a fazer incontáveis maridos hoje, desconfiados de toda séria ambição por parte das mulheres para serem ativas além dos limites da casa. [...]. Trecho da obra Max Weber: uma biografia (Casa Jorge, 2003), da escritora e feminista alemã Marianne Weber (1870-1954), esposa do biografado que a tratava por Frau Schnitger, autora de uma autobiografia e vários outros livros sobre problemas femininos, expressando-se: A moderna, mulher intelectualmente desperta certamente não precisa remover o ideal de dona de casa alemã do templo, no qual ela presta homenagens do seu próprio esforço. Obviamente, isso deve manter sua validade e poder para todas as gerações futuras. Mas nós destruímos seu poder negativo como um valor absoluto e como uma meta exclusiva de desenvolvimento para o sexo feminino, porque ele sufocou nosso desenvolvimento como seres intelectuais e espirituais e, em geral, nossos poderes humanos e característica comuns. Veja mais aqui e aqui.

CARO COLEGA DO FUTURO – [...] No exercício de minha profissão, encontrei indícios, vestígios, e propus hipóteses sobre como vivia o Homem do passado, como usava suas ferramentas, como preparava suas armas. [...] escrevo-lhe como se estivesse dirigindo-me a um Homem. E escrevo-lhe com a emoção de um Homem. Um Homem desse início de século que nos abriga. [...] No início, todos os Homens viviam como caçadores-coletores. Para adquirir conhecimento e conviver com as outras espécies da natureza, para sobreviver com os parcos recursos biológicos que tinham, esses Homens necessitavam de grande coesão social. O saber era passado dos adultos para os jovens, igualmente. Sabiam que não podiam ter proles numerosas porque, ao contrário dos outros animais, o filhote humano levava anos para aprender e ser capaz de sobreviver só. Todos executavam todas as tarefas, todos eram iguais. Os chefes comandavam com base em sua força física, que, como todos os recursos biológicos, nasce, atinge seu apogeu e definha. Assim, um chefe exercia seu poder durante um tempo limitado, até que um outro membro da tribo, mais jovem, mais forte, o suplantava. Os Homens temiam a natureza, reconheciam seu poder, um poder que, para eles, emanava de entidades sobrenaturais. E essas entidades sobrenaturais comandavam as águas, os ventos, o fogo, os astros. Seres que viviam por sua conta e cuja passagem pela vida dos Homens era eventual. Os espíritos! Em um momento dado de nossa história, alguém imaginou como fazer para garantir um poder mais duradouro, que não dependesse unicamente dos recursos biológicos. Como a morte é um fenômeno que assusta a todos os animais, esse alguém imaginou uma história que tratava do além, da existência de seres sobrenaturais, da boa vontade dos quais dependeria a vida e o destino pós-morte de todos os Homens. Os Deuses! Nesse momento começaram a se diferenciar os Homens. Aqueles que somente sabiam conviver com a natureza, que dependiam de sua força para sobreviver, e aqueles que tratavam com os deuses: os sacerdotes. Os últimos, constituíam uma casta privilegiada, com poder assegurado. Com o poder assegurado, não tinham mais que enfrentar a vida difícil do dia-a-dia, pois recebiam dádivas daqueles que não tinham o poder de tratar com as divindades. Mas como os Deuses eram muitos, havia a possibilidade de tratar com seus intermediários, e o poder se diluía. Como concentrá-lo, então? Como colocar mais elementos de uma família, de um clã, no exercício do poder? Novamente um gênio inventou outra forma de poder. Os Deuses escolhiam e davam a um homem o poder para que ele fosse o chefe de todo seu grupo. E esse privilégio passava de pai a filho. Nasceram, assim, as dinastias. O poder concentrava-se cada vez mais. As sociedades começaram a crescer além dos limites permitidos pela natureza, pois, para que alguns pudessem viver sem fazer nada, além de falar com os Deuses e dar ordens a seus súditos, para que pudessem viver em palácios, mergulhados em rendas e comendo iguarias, deveriam existir milhões de escravos, trabalhando para ter direito ao pão, à água e à procriação, engendrando muitos futuros escravos. Templos, túmulos monumentais e palácios, sempre exigiram multidões de escravos para serem construídos e mantidos. Com o aparecimento da escrita, das castas, o saber ficou concentrado naqueles que dominavam. Não era mais todos ensinando a todos. Assim, começaram a aparecer as classes cultivadas e os ignorantes. Sempre poucos letrados para muitos ignaros. E depois? Depois, um novo passo foi dado para concentrar e tornar o poder definitivamente esmagador. Um espírito genial criou o Deus único, engendrou o monoteísmo. Concentrou-se o poder em um homem que representava Deus, infalível, cuja palavra deveria ser seguida sem discussões. Em torno dele toda uma corte, formando uma estrutura triangular, sempre poucos no alto, muitos na base. O judaísmo, o catolicismo, o islamismo, o protestantismo. Cada grupo inventando seu próprio Deus, único, o certo, o bom, o que devia ser adorado. Quem nele não acreditasse, deveria ser exterminado. Poder religioso e seu derivado, o poder civil, nunca se dissociaram. Juntos escreveram páginas com o sangue de todos os que se rebelavam e poderiam representar a menor ameaça a esse estado de coisas. Assim, durante milênios, a sociedade humana acostumou-se com as guerras, com o extermínio dos que pensavam diferente, dos que não queriam se submeter e ser escravos. Guerras pelo domínio das terras e dos povos, das riquezas do mundo. Guerras e perseguições contra os que negavam ou duvidavam do poder divino. Os que falavam da bondade de Deus, de sua misericórdia, eram os que torturavam, mantinham em masmorras e matavam os que ousavam duvidar de sua palavra. Mesmo aqueles que não duvidavam, mas que representavam uma presa interessante, pela sua fortuna, por sua mulher, por suas terras, também eram perseguidos, eliminados. E como o Poder nunca se sacia, quanto mais baixo encontrava-se o Homem na escala social, mais filhos deveria produzir. Sempre com a idéia de que, para sobreviver, necessitava de muitas mãos, mãos que o ajudariam a trabalhar e, mais e mais, agradar ao Poder. Assim vimos Homens torturando, matando, chacinando outros Homens. Vimos a Idade Média, a Inquisição. A invasão das Américas e o aniquilamento de milhões de seres humanos que compunham os primeiros povos, que partilhavam as terras com todas as outras espécies, que viam o verde das matas e escutavam a algaravia dos bichos. Em um dado momento, alguém se lembrou de um tipo de governo que havia existido em um pequeno país, criador de uma civilização, onde a cultura era difundida e o povo tinha suas tradições, a democracia. Imediatamente, esse alguém pensou nas possibilidades que ela abriria se fosse implantada em países com elites cultas e massas incultas. O povo acreditou que estava elegendo seus representantes. E, assim, o Poder, ao invés de ter que contentar milhões, teve unicamente de enriquecer, dar empregos e acanalhar os representantes desses milhões, algumas centenas de cidadãos que passaram a integrar um novo Poder. Assim nasceram os políticos, prometendo uma vida maravilhosa para os que nele votassem, mas pedindo que esquecessem o que haviam escrito ou prometido no instante em que se viram investidos de Poder. Vimos agir o nazismo, o fascismo, o comunismo. Homens sendo assassinados em câmaras de gás, fuzilados, torturados. Hiroshima e Nagasaki. Os brancos rejeitando os negros e os amarelos, os negros rejeitando os brancos e os amarelos, os amarelos rejeitando brancos e negros. Os capitalistas. As classes trabalhadoras. E cada vez mais os donos do Poder aprimoravam-se. A transmissão do saber, que havia sido concentrada, que havia passado da Igreja para a Universidade, formando jovens capazes de pensar e protestar, tinha de ser demolida. E a Universidade foi destruída. Ao invés do saber, ofereciam-se diplomas. O Poder concentrou-se na tecnologia. Os tecnocratas, sem pensar em algo mais sofisticado, menos simplista, ativeram-se apenas às operações necessárias para conseguir que uma máquina executasse uma tarefa específica, que o computador resolvesse determinado problema. Tudo orquestrado para que a necessidade de consumo aumentasse a cada instante, e mais impostos fossem pagos. Impostos que garantiriam educação para seus filhos, saúde para a família, estradas, cidades limpas e seguras, o direito ao lazer. E o Poder recebia os impostos e decidia o que fazer com eles, mudando seus destinos, oferecendo escola de péssimo nível, saúde que significava morte mais rápida, bandidos ameaçando a todos. O Poder podia solicitar empréstimos, aceitar juros extorsivos, quando precisava de dinheiro para uma fantasia qualquer, como construir uma capital nova! Mas quem pagava os empréstimos, mais os juros, era o povo, cujos filhos já nasciam com uma dívida enorme. O rosário de sandices continuou: abriram a possibilidade para que o Homem fosse diferente dos outros animais de sua família. O Homem poderia viver mais do que seus primos macacos. Que felicidade... Para viver mais, trabalharia mais, e manteria todo o sistema necessário, com isso continuaria arrastando seus males pelo mundo. Num mundo onde só existia espaço para a arrogância, as outras espécies passaram a existir apenas em função das necessidades do Homem. Os animais eram torturados, viviam em pânico, aterrorizados. Por quê? O porquê de tanta atrocidade? É isso que está me perguntando, meu caro colega do futuro? Apenas para produzir mais e para nutrir a espécie que se fez dominante. E não parou por aí, não: milhares e milhares de espécies vegetais foram destruídas, dando lugar apenas àquelas que interessavam ao Homem. Animais e plantas foram modificados geneticamente para aumentar a produtividade. Isso, apesar de continuarem pregando que Deus havia criado o mundo, e tudo o que existia sobre a face da Terra. O Homem corrigia e melhorava o que Deus havia feito! Para culminar, decidiram que nem mesmo os filhos poderiam substituir os pais. O amor ao Poder era tal que criaram a técnica da clonagem, e cada um foi substituído por si mesmo. A reprodução e os riscos de ver nascer um filho que não fosse digno de seu patrimônio ficou relegada aos que não tinham meios para se auto-reproduzir. Destruíram, meu caro colega, a beleza do mundo, o prazer da vida. As primeiras sociedades humanas, pouco numerosas, eram solidárias. A generosidade da natureza podia manter todos saudáveis. As sociedades humanas no início desse nosso século são compostas por bilhões de pessoas. Sociedades, na sua grande maioria, doentes, solitárias. A natureza foi destruída. Todo o alimento tem de ser comprado. A água tem de ser comprada. Os dons da natureza, hoje, têm seus donos: o Poder. O Poder, sob suas inúmeras formas. A competição é a regra da vida, e todos os Homens, mesmo sem ter consciência, odeiam seus semelhantes, potenciais competidores. E a eles atribuem a culpa de não poderem viver melhor. E o que aconteceu com o Homem? É isso que está querendo saber agora, meu caro colega? Infelizmente, não poderei lhe responder a essa pergunta. Parti há muito. Mas tenho algumas curiosidades a respeito do seu tempo. Me diga: o Sol que o aquece agora é o mesmo que vejo brilhar lá fora, ou ele foi substituído por algo artificial? As geleiras dos Pólos degelaram e invadiram territórios hoje ocupados por populações costeiras? O que restou da camada de ozônio? Ela ainda existe? E a Floresta Amazônica, o que foi feito dela? Esvaiu-se em fogo e fumaça? A caatinga sobreviveu? Ou você nunca ouviu falar sobre ela? Você já ouviu falar em macaco-prego? Já ouviu falar em veados-galheiros, vaga-lumes, bem-te-vis? Em tamanduás? Em tatus, araras azuis e vermelhas, sapos, morcegos, onças, cobras, beija-flores, sabiás? Já conjugou o verbo sonhar, sorrir, acreditar? E as mentes? Conseguiram eles, por fim, dominar todas as mentes? Nesse instante, caro colega do futuro, estendo o meu olhar pelo vastidão do que ainda é um pedaço do paraíso - um pedaço do paraíso chamado Serra da Capivara -, que Poderes nada ocultos insistem em ignorar, em destruir, e entrego-lhe este texto para que continue a contar como prosseguiu a nossa história, a história de todos nós. Uma história que, por séculos e séculos, tem sido de amargura, aflição e terror. Trechos da Carta de uma arqueóloga do presente (Carta Maior, 2004), da arqueóloga Niède Guidon, conhecida mundialmente por lutar pela comprovação de sua teoria e preservação do parque Nacional da Serra da Capivara.

UM TEXTO DE ALBA BRITO
[...] creio que estamos num lodo tão horroroso que a questão me parece anterior a monogamia ou a não-monogamia, falando de um relacionamento hétero: há um abismo entre os gêneros. Uma lacuna profunda, aonde uma parte se RESPONSABILIZA EMOCIONALMENTE e a outra não. E isto está tão encrustado e ainda há tanto medo da generalização por parte dos homens-cis que eles permanecem a reproduzir velhos padrões com nomes, talvez, mais moderninhos, como é o caso do AMOR-LIVRE, só que, na prática os caras não sabem AMAR ou na real, nem se interessam por isso. Então eles se defendem e buscam novos nomes, quando na verdade é preciso mudar a postura, a visão, A AÇÃO! Vejo muito mulher maravilhosa adoecendo pois acredita na palavra que é dita, porém os caras blefam coletivamente e a ação está longe de representar a fala. Aí reside o PROBLEMA: uma construção social aonde a mentira impera, aonde a mulher é descartável, aonde o cuidado e o respeito é esporádico. Muitos homens que não bancam uma relação a dois, monogâmica, dizem bancar e traem. Muitos homens ainda colocam em prática a ideia de que uma determinada mulher é pra casar e outra não, entende-se casar aqui como : uma mulher merece “respeito” e outra não. Enfim, muitos propõem relações não monogâmicas aonde a terceira ou quarta pessoa é completamente descartável (e não sabem disso e aí as mentiras aparecerão para que essa coisa mentirosa continue). Ao meu ver vale tudo, desde que sua fala represente sua ação! Quer meter e somente meter loucamente: seja claro! Se apaixonou? Assuma! Quer devorar a pessoa e não dividir com mais ninguém, embarque! Enfim, tira a máscara e a roupa e seja quem você realmente É. Um grande beijo.
ALBA BRITO - Texto da atriz, cantora, compositora, contadora de histórias, artista-educadora e animadora de festas Alba Brito, que é formada pela Escola Livre de Teatro de Santo André, Técnico em Música – canto popular – pela ETEC de Artes. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A chave para a fotografia artística é elaborar seus próprios pensamentos, por si mesmos. A imitação leva a um certo desastre.
GERTRUDE KÄSEBIER - A arte da fotógrafa estadunidense Gertrude Käsebier (1852-1934), conhecida por suas imagens da maternidade, seus retratos de nativos americanos e sua promoção da fotografia como uma carreira para mulheres. Veja mais aquiaqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER PERNAMBUCANA
RANÚSIA ALVES RODRIGUES
A ativista política Ranúsia Alves Rodrigues (1945-1973), era estudante universitária de enfermagem da UFPE e foi assassinada na Chacina de Jacarepaguá ou da Praça da Sentinela, durante a ditadura militar. A sua certidão de óbito foi negada e o seu corpo foi encontrado enterrado como indigente. As informações do Exército dão conta que ela e seus companheiros eram seguidos desde o dia 8 de outubro, sendo presos na manhã do dia 27, quando com ela teria sido encontrada farta documentação política e que sua morte fora resultado de resistência à prisão e consequente tiroteio.
Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido, do educador, pedagogista e filósofo Paulo Freire (1921-1997) aqui & aqui.
Arrelique de Ozi dos Palmares aqui.
Glosas sertanejas do poeta-vaqueiro Luís Dantas Quesado (1850-1930) aqui.
Mistura heterogênea de Sylvia Beltrão aqui.
Frevo, de Márcio Melo aqui.
Abelhas de Cupira aqui & aqui.
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OFICINAS ABI
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terça-feira, março 12, 2019

BLANCA VARELA, ALINE MATHEUS, A DEUSA TRÍPLICE, VIOLINO VERMELHO & O BUMBA DO FECAMEPA


FECAMEPA: O BUMBA DA PATETADA – Era uma vez um bumba-meu-boi, de coisas da gente e bonito de se ver. O bumba na arena do terreiro de Capitão Boca Mole, onde a mão do choro é cana, a mãe do visgo é a kaca, o ananá dos abaganazes. O Capitão montava no cavalo-marinho a fazer mesuras, a chegar mais adiante com as bexigadas de Mateus e Bastião, a Cantadeira louvando os vivas, a Maria-come-ou-não-come, a marmota do Morto-carregando-o-vivo, o Bambá da roda-grande, o Mané-Gostoso que entra e que sai pro Mané Babau armar das suas, a Catirina passar pelo auto entre zambumbas e ganzás, da Zabelinha entre candeeiros de querosene, o Mestre do Tiá ficar enrolando, o Matuto da História contar suas leseiras nunca dada como certas, o Matuto do Fumo levar suas astúcias e assim muita gente brincar com seu boi até a festa acabar tarde da noite. E isso era uma vez de se ouvir A mulher e a galinha não se deixa passear, que a galinha o bicho come e a mulher dá que falar! Se era certo ou não Mateus futucar a viúva Joana, se era decente ou não Bastião bolinar Maria da Ema, pouco caso se fazia, era festa pra se rir: Lá vem a lua saindo com toda galanteria, na boca de quem não presta, quem é bom não tem valia! Se havia decência ou não nas coisas do Engenheiro e seus dois criados, se queria dar certo ou não o Boticário com seus doentes, era coisa de enredo, folia para o povo magar: Sapateiro novo me faz um sapato da sola bem fina do salto bem alto. Se tinha o Diabo ou Caipora. Mané das Batatas ou moça hidrópicas, o Valente ou Caboclo do Arco, valia o dito na hora: Desses montes solitários, aonde alegria me tem, falo ninguém me responde, olho não vejo ninguém. Se da cobra ao vaqueiro, à lorota e o pinica-pau, seja o que fosse, era só um bumba-meu-boi de no fim vamo-no s’imbora, que é de madrugada, o rompê da aurora. Até aí tudo bem, coisa de nossa gente e de mesmo. Mas eis que ditas forças ocultas acharam de destronar o Capitão Boca Mole, assumiram com coisas horrendas à força da enganação, um certo Major Temegolpe e a coisa além de risível, virou drama de quinta categoria. Isso não estava certo não. Quem diria? Queriam por que queriam, na força da enrolação, levar gente sabida para um bumba que logo matou o boi e não só. Valeram-se de um bicho aloprado, que nem deu pra ter nem se sabe o que é que é, de tão desfigurado que ninguém chegou a ver, só se sentia um agigantado pardal ou coisa menos parecida que de tudo comia, de semente a recém-nascido, de ovo à fábrica de dinheiro, encheu o papo de um jeito do tamanho que não se sabia. Como não tinha plateia porque só tinham apupos do muito, logo abriram a porteira para arena da gandaia, um bumba feito Coiso com uma tropa coisada: tudo de cara fechada, fita nos ombros, graúdos topetudos de qualidade duvidosa e besteira cheia de chatura pra todo lado: cada um puxa o seu texto e a coisa é descoisada. Danou-se! Não dá pra saber direito se é o melhor pra todo mundo, ou se o fim do mundo agora. O que é, o que é? O que é aquilo mesmo não dá pra arriscar, se é uma patetada troncha pra se rir ou se é presepada pra chorar, não se tomou pé direito dessa desmantelada. O que se sabe de mesmo é que a coisa é tão desmesurada que ficou sendo na hora o Bumba do Fecamepa que não dá pra aprumar a conversa alguma. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Os últimos 2.500 anos testemunharam a ascensão de poderosas divindades masculinas que dominaram a alma e, não contentes com a metade do Cosmos e da alma humana, usurparam o lugar da deusa no esquema das coisas e tentaram destruir-lhe as manifestações exteriores. [...] As religiões patriarcais triunfaram exteriormente, impondo à humanidade a sua vontade. Esse período patriarcal, que vemos hoje estar prestes a se encerrar, viu o desenvolvimento de várias capacidades da alma humana: o domínio do mundo físico por meio do imperialismo; a evolução de uma tradição científica materialista vinculada com uma cultura tecnológica; a exploração e desperdício dos limitados recursos da Terra; e a organização da agressão na sociedade por intermédio das guerras nacionalistas. Todos podem identificar o legado desse período de patriarcado polarizado. Mas a deusa permaneceu conosco. [...].
Trechos extraídos da obra A deusa tríplice: em busca do feminino arquetípico (Cultrix, 1989), do escritor escocês Adam McLean. Veja mais aqui.

A ARTE DE ALINE MATHEUS
A arte da escultora Aline Matheus que também é bacharel em Direito e atriz formada pela CAL. Em suas obras ela apresenta o corpo humano como veículo expressivo de sua interioridade, propondo com isso o resgate do corpo como matéria sensível e reveladora da essência de cada ser. Ela já realizou exposições nos Estados Unidos e em diversos estados brasileiros. Entre suas exposições individuais e coletivas, estão Meu corpo será sempre meu corpo (2016), entre outras. Veja mais aqui.

O VIOLINO VERMELHO
O drama/mistério O violino vermelho (Le violon rouge/The Red Violin, 1998), dirigido pelo cineasta franco-canadense François Girard, percorre três séculos e cinco países enquanto conta a história de um violino e seus vários donos. Trata de um violino perfeito de 1681, que é leiloado e com a sua posse envolvendo raiva, traição, amor e sacrifício. Foi inspirado em um Stradivarius (The Red Mendelssohn, 1720), que hoje é tocado pela violinista estadunidente Elizabeth Pitcairn, cujo avô o adquiriu para seu aniversário de 16 anos, em um leilão. A nomeação de violino vermelho se deu por conta de que ele foi pintado com o sangue da esposa do criador, que morreu durante o parto, para manter a memória viva da amada do lutier. Veja mais aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A poesia da poeta peruana Blanca Varela (1926-2009).
Veja mais aquiaqui e aqui.
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Fecamepa aqui, aqui & aqui.

 

ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...