terça-feira, novembro 06, 2007

PROEZAS DO BIRITOALDO



Imagem: Child with Toy Hand Grenade in Central Park, New York City, 1962, da fotógrafa norte-americana Diane Arbus (1923-1971).

V

Quando se dá corda, o bocó fica folgado que só boca de sino


O menino era a menina dos olhos de Manoel Bertulino. O pai achava maior graça dos pisoteios dele. Dona Táquia, nem sim, nem não. Neutra. As maiores vítimas das abomináveis presepadas dele, deveras, eram Ancheta e Terência, os bons vizinhos. Era vidro de basculante partido hoje, biscuí estilhaçado, amanhã e, todo dia, ele aprontava uma para cima dos pacientes e calmos limítrofes.
A professora Ilmena era outra que não lhe escapava. E a tia Nevinha já se acostumada com a sebosice do destrambelhado.
A mania dele agora era está de paletó e gravata borboleta.
- Mama, pilitó! Mama, pilitó!
Coitada. Táquia caprichava na indumentária do homenzinho só para ele se sentar no pinico e largar uns tolotes na privadinha. O pinico ou quépe? E o resultado já se imagina: merda, merda e merda. Meladeiro da gota descendo da cara pelo gogó, maior meleca. Descuidasse ele levava o resultado de sua crise intestinal para os pratos, panelas, sapatos dos mais velhos, na calça do tio ou no pé do avô. Surpresa era quando abria a petisqueira e a inhaca do delito no prato enchia a cozinha e a casa toda de um mal cheiro triste.
Outro dia, só para se ter uma idéia da novela, o Nestoldo, um dos tios dele, dormia de boca aberta no chão. Olhando de um lado para o outro, sem dúvidas, o menino cagou na boca dele. Quer outra? Ou, então, adorava mijar nos pés do povo. O elenco de arteirice não pára por aí e tornou-se insuportável durante a gravidez da mãe.
Foi que um dia, uma irmãzinha chegava e o buliçoso parou de atentar o juizo da boa genitora, mexendo com ela, coitadinha, na banheira o tempo todo.
Dona Táquia, por via de todas as dúvidas possíveis, resolveu mandá-lo para o sítio Badalejo, em companhia dos avós maternos. Ah! Agora é que era um mundão para ele atanazar: carro-de-boi, jerico, otário-de-galocha, cercados, mata-burros, porteiras, bom demais para ser verdade. Era cada pinote! Pegando uns fiapos de vassoura ficava enfiando aquilo no fucinho dos animais, era maior zoadeiro na estrebaria. Na bodega da rodagem, onde a avó dele atendia os passantes e precisantes dali, ficou ele sozinho no estabelecimento e ao flagrar a passagem de um piruliteiro, requisitou um.
- Cadê Mãe Nêga?
- Foi cagar. Me dá um pirulito.
- Só dou se Mãe Nêga autorizar.
- Ela foi cagar! Eu pago, quanto é?
- Dez centavos!
Então se avexou, arrudiou o balcão, abriu a gaveta e tirou a primeira cédula que encontrou.
- Tome, agora me dê o pirulito.
O piruliteiro arregalou os olhos e entregou ao requerente o tabuleiro todo e deu no pé.
Todo pabo, Biritoaldo se apossou ancho do tabuleiro e começou a chupar um a um, ora oferecendo aos transeuntes o seu presente.
- Eu comprei um e ganhei o tabuleiro todo!
Momentos depois, Mãe Nega chega no batente e de lá fica admirando o menino ali, devotado em dar conta dos pirulitos.
Lá para as tantas, o piruliteiro com a consciência pesada, delatou o fato nos mínimos detalhes. A velha ficou irada, apoderou-se de um chicote e saiu à caça do inominado. Biritoaldo desconfiado que só ele só, já se deu conta que uma trovoada malsinada cairia para as suas bandas, correndo logo pro brejo, buscando se esconder. Ela chegou a alcançá-lo na carreira, deu-lhe um golpe só. Por onde o chicote passou fez uma bolha de sangue no corpo dele. Bicudo, olhos chorosos, ele ameaçou contar tudo ao avô assim que ele chegasse da cidade. Sabia ele que se enredando disso com o avô, ele tomaria uma providência de castigá-la na mesma moeda.
Depois disso, descuidasse a velha, ele se aproveitava do que tivesse de dinheiro da gaveta, mangando das costas dela.
Quando se deu conta dos pintos a velha estornou-lo de volta. Dona Táquia quase teve um colapso com o que ficou sabendo. Nem contou ao Manoel Bertolino, fazendo vista grossa e prometendo dar-lhe uns sopapos bons para endireitá-lo. Mas o bicho era sortudo, passava por tudo impune, desde a chicotada da avó ele nunca mais soubera do que se tratava uma pisa, só beliscões, esporros, cascudos, coisas de menor valia. Desta vez a pisa estava prometida, ele jurou enrolar todo mundo e dar-se tudo por encerrado.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais Proezas do Biritoaldo!

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