quinta-feira, novembro 01, 2007

PROEZAS DO BIRITOALDO


IV

Quando o bicho é sonso tira fino até na beira do abismo


Tanta presepada aprontou Biritoaldo de deixar muita gente roxa de raiva, a ponto de se querer sapecar umas lamboradas boas na moleira dele para endireitá-lo duma vez.
- Eu sou a bola que ninguém nunca chutou! -, insultava, chistoso e todo linguarudo, o bocório-mirim!
- Num tem pantim que uma boa pisa num tire! -, ameaçava os indignados parentes, injuriados propínquos e encolerizadas vítimas de suas astúcias.
Pode? Não é pra menos e dá logo para se prever o entortamento: tendo como teve um nascimento tão estapafúrdio quanto um batizado tão vexatório, logo ganhou notoriedade suas estripulias nas fofocagens das línguas ferinas e, não obstante, na antipatia popular, não podendo jamais ficar no desconto do desprezível suas pirraças. Se podia? Nunca, nem que a vaca tossisse ou o gato voasse. Era futuro nefasto, mesmo.
- Sou uma criança, num entendo nada! -, eximia-se cheio das mungangas.
Não bastando as façanhas estropiadas e as gabolices desajeitadas, o pirralho foi crescendo de jeito e botando as manguinhas de fora. Quanto mais taludo ficava, mais cara sem-vergonha exibia. Era aquela índole de cabra fuleiro reinando sem a mínima prudência. Vejam só a petulância: namorou com a tia Nevinha, com empáfia de noivado sério - somente ela não sabia de tal idílio ousado.
Bem, o cabra patusco ia crescendo e despertando seu apetite sexual já aos cinco ou seis anos, sei lá, por aí, com namorico sério, segundo ele, com a própria tia, só dormindo a coçar o umbigo da sóror materna, ou seja, só seguia para cama acompanhado de milhões de acalantos para o peralta cerrar as pestanas e dormir. Que ela contava histórias, contava; ele é que não dormia enquanto não amolegasse nas carnes adormecidas dela. Moral: ela pregava no sono e ele no maior vasculhado por debaixo dos panos, conferindo os guardados secretos dela.
Isso não era pouco, mais desavergonhado que nunca, não passava em branco com a chegada das amigas da mãe, encostasse tititi de qualquer delas na casa dele, o descaradinho inventava tudo para ver a calcinha da visita e, depois, sair gritando a cor que vira. Astuto, só se via ele estirado no chão brechando tudo.
- Êi, ela tem um buraco na caçola! U-ru!
Quantos beliscões, cascudos, descomposturas e corretivos ressoavam e o menino era mesmo perdido e não se emendava engrossando o caldo da arteirice pra banda dos outros.
Visando salvar o futuro dele, a santa materna do sapeca achou de matriculá-lo num educandário público para ver se corrigia o ímpeto do safado, vez que a vitalidade para peraltices mais parecia pilha alcalina, daquelas sem exaustão. Pior foi o susto que a coitada teve ao saber das últimas na escola. Tam, tam, tam, tam!
Pois bem, nem se passou alguns tantos meses, a professora Ilmena teve de deitar reclamações ásperas às ouças maternais. Qual não foi o arrepio ao saber das sandices praticadas pelo desgovernado presepeiro.
A docente, pudica e recatada, iniciou as incriminações em tom ameno, alegando ser seu filho responsável por puxar sutiãs das garotas, levantar a saia da merendeira e jogar insetos e excrementos nos colegas. Ainda era capaz de enrolar o troco do picolezeiro, ficar bisbilhotando a fechadura do banheiro feminino e passar xêxo na cantina do saldo deixá-lo insolvente.
- Doutra feita - continuava a douta em tom pormenorizado -, entrando de supetão na sala de aula, flagrei o discrepante precoce expondo o pingulim para as alunas da primeira série.
Que rebu! Isso só no de menos, ainda, porque o pior mesmo ainda estava por vir.
Atenta às narrações da reclamante, a mãe, adivinhona que só ela sabe ser, já previa onde aquilo tudo tenderia a finalizar. Já desconfiava da paixão avassaladora que o filho dedicara à sua mestra e descortinava, mediante o relato, o emaranhado de aberrações que iriam emergir por conclusão.
Pois bem, Biritoaldo era afeiçoado pelas formas generosas da educadora, admirando seus peitões volumosos, as ancas avantajadas, a ponto de desenhá-la em todas as folhas do caderno. O dever de casa era colorido com todas as cores e formas de sentar, de falar, exprimir, explicar e até do se ajeitar dela. Quantas vezes não fora visto de olho revirado, alisando seu caceitinho, a sussurrar: - quero chupar os peitões dela, tenho sede, sou um menino fraco, quero o peitão, o bundão, as coxonas, as pernonas, ai, Ilmena!
Até aí, tudo bem, mas provou toda impostura quando tomou posse de um espelhinho e, na ocasião que ela passava entre as carteiras durante o ditado, magistralmente colocava por sobre o seu sapato para ver a cor da calcinha da dita. A desconfiança só surgiu porque ele sempre entregava no final da aula uns versinhos para ela combinando sempre com a cor que vestia.
- O mundo é azul, como azul é o céu e o mar!
- Obrigado, filhinho.
- De nada, fessôra.
No dia seguinte outro versinho e, assim, todos os dias repousavam os versos às suas mãos com a denúncia que vira suas intimidades.
- Uma rosa pra fessora ficar mais bonita!
Ilmena já estava intrigada, começou com investigação no birô que mandara trocar já por mais de dez vezes, nenhuma fresta, nenhuma rachadura, tomava cuidado com os requebros, algum buraco na saia, nem cruzada de pernas, nada. Procurou permanecer sentada, com as pernas cruzadas e no final da aula: na batata! Ela então resolveu vestir biquínis da mesma cor a semana inteira. Entregou-se de bandeja. A coincidência era tanta, mas como ocorria? Como? Foram dias, semanas, três meses para descobrir a artimanha, até que um dia, lendo uma história encantada a caminhar pela classe, tropeçou no pé do menino, estilhaçando o espelhinho, produto do crime. Não deu tempo nem de passar um carão, fugira desembestadamente. O menino semanas sem dar o ar de sua graça na classe. A mãe agora estava sabendo o motivo dele não querer ir mais para escola.
Quer mais? Só na outra! Hehehehehehehehehehe!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais Proezas do Biritoaldo aqui.

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