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segunda-feira, maio 25, 2015

DANTE, EMERSON, MÁRIO DE ANDRADE, PIRANDELLO, CREPAX, HÄRKIN & GERTLER.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – Hoje é Dia da Costureira! Salve, salve, todas as costureiras do planeta! Também é o Dia Mundial dos Vizinhos! Salve, salve, todos os vizinhos. Ah, é hoje o Dia Nacional da Adoção por força da Lei 10447/2002 (o que no meio de tantas leis é mais uma para tema tão importante!). E, por fim, é Dia do Trabalhador Rural (será que aí se incluem fazendeiros, parceleiros, rendeiros, agricultores ou somente os andorinhas?). Cá pra nós: para mim todo dia é dia de comemorar a vida, todas as profissões e tudo que a gente imagine crer. Ou a comemoração em um dia para cada coisa significativa que o resto do ano seja só pé goela e língua de fora? Sei não, cada dia vejo mais o completo desrespeito reinando entre os seres humanos. Vamos aprumar a conversa: por isso me mantenho entoando a minha Crença pelo direito de viver e deixar viver. E aprume aqui.

Imagem: Study of a Female Nude, do pintor britânico Mark Gertler (1891-1939)

Curtindo Symfonia, In Paradisum (2011), do tecladista finlandês Mikko Härkin.

DIVINA COMÉDIA – A obra Divina Comédia (1321- Ateneu, 2011), é a obra prima do poeta e político italiano Dante Alighieri (1265-1321), é um poema narrativo com trinta e três cantos cada uma das três partes que passam pelo Inferno, Purgatório e Paraiso, rigorosamente simétrico narrando a odisseia guiada por Virgilio e pela musa Beatriz. Da obra destaco o trecho Paraíso que é dividido em duas partes, sendo uma material e a outra espiritual, com os seguintes fragmentos: Canto I: Pois, ao excelso desejo se acercando, / A mente humana se aprofunda tanto / Que a memória se esvai, lembrar tentando. Canto V: Se má cobiça o peito vos vicia, / Homens sede, e não brutos animais. / Que entre vós o judeu de vós não ria. Canto XIV: Quem sempre reina, é uno, é duplo, é trino, / Em três, em dois, em um sempre perdura, / Não abrangido — e tudo abrange — em hino. Canto XIX: Nossa vista, de alcance tão finito, / Posto seja um dos raios dessa Mente, / Que as cousas todas enche no infinito... Canto XXX: Ao centro áureo da Rosa sempiterna, / Que em degraus dilatada recendia / Louvor ao Sol da Primavera Eterna. / Canto XXXIII: Muitos desejam a Salvação; / mas não largam mão da orgia / e nem da 'surubalização'. / Muitos rogam pela Salvação; / mas, de mais-valia em mais-valia, / ensurdecem para a Voz do Coração. / Muitos pensam que a Salvação / é uma espécie de aposentadoria / que os livrará da infernalização. / Ó tolos: não há Salvação! / Não pode ser substituída a Via / Que obriga que se aprenda a lição. Veja mais aqui e aqui.

ENSAIOS – Na obra Ensaios (Imago, 1994), do escritor e filósofo estadunidense Ralf Waldo Emerson (1803-1882), recolhi algumas das suas célebres frases: Deus constrói o seu templo no nosso coração sobre as ruínas das igrejas e das religiões. A sabedoria consiste em compreender que o tempo dedicado ao trabalho nunca é perdido. A liberdade é um fato de experiência que não pode ser negado. Não se trata contudo de uma liberdade absoluta. Como tudo o que diz respeito so homem, ela é limitada e parcial. A literatura é o esforço do homem para se indenizar pelas imperfeições da sua condição. A natureza e os livros pertencem aos olhos que os vêem. A natureza está constantemente a misturar-se com a arte. A maior das homenagens que podemos prestar à verdade é utilizá-la. A glória da amizade não é a mão estendida,nem o sorriso carinhoso,nem mesmo a delicia da companhia. É a inspiração espiritual que vem quando você descobre que alguém acredita e confia em você. Um amigo é a obra-prima da natureza. A única maneira de ter um amigo é sendo um. Habilidade só se ganha fazendo. Faça aquilo que você mais teme. A verdade sem dúvidas é linda; assim como as mentiras. Deviam parar com a demagogia sobre as massas. As massas são rudes, sem preparação, ignorantes, perniciosas em suas reivindicações e influências. Não precisam de lisonjas mas de instrução. Insiste em ti mesmo: nunca imites. Nada se obtém sem esforço; tudo se pode conseguir com ele. Nunca é cedo para uma gentileza, porque nunca se sabe quando poderá ser tarde demais. O homem é livre, enquanto pode pensar. Os homens são o que as mães fazem deles. Rir muito e com freqüência; ganhar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; merecer a consideração de críticos honestos e suportar a traição de falsos amigos; apreciar a beleza, encontrar o melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma saudável criança, um canteiro de jardim ou uma redimida condição social; saber que ao menos uma vida respirou mais fácil porque você viveu. Isso é ter tido sucesso. Veja mais aqui , aqui e aqui.

SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR – A comédia Seis personagens à procura de um autor (1921), do dramaturgo e escritor siciliano Luigi Pirandello (1867-1936), relata um ensaio de teatro que é invadido por seis persongens que, rejeitadas por seu criador, tentam convencer o diretor da companhia a encenar suas vidas. Destaco o trecho inicial da peça teatral: [...] Apagada a platéia, vê-se o Maquinista entrar pela porta do palco, de macacão azul e com o saco de ferramentas à cintura. Apanha alguns sarrafos, num canto do fundo, levando-os para a baixa e pondo-se a pregá-los, ajoelhado no chão. Ao barulho das marteladas, entra, apressado, pela porta dos camarins, o Assistente de direção. O ASSISTENTE Eh, você aí , que está fazendo?... O MAQUINISTA Martelando. O ASSISTENTE A esta hora? (Olha o relógio) Já são dez e meia. Daqui a pouco chega o Diretor para o ensaio. O MAQUINISTA Mas eu também preciso de tempo para trabalhar. O ASSISTENTE Você vai ter, mas não agora. O MAQUINISTA Quando?... O ASSISTENTE Quando não for mais hora de ensaio. Vamos, vamos, leve embora tudo isso, e deixe-me arrumar a cena para o segundo ato de A Cada Qual Seu Papel. O Maquinista, indignado, resmungando, pega os sarrafos e vai embora. Entretanto, começam a entrar os Atores da companhia, homens e mulheres, pela porta do palco; primeiro um, depois outro, mais dois, juntos, como quiserem; nove ou dez, quantos se supõe serem necessários para o ensaio da comédia. Entram, cumprimentam o Assistente e uns aos outros, dando-se bons dias. Alguns irão para os camarins, outros, entre os quais o Ponto, que tem o texto enrolado debaixo do braço, ficam no palco, à espera do Diretor, para começar o ensaio, sentados em grupos ou de pé, conversando entre si. Um acende um cigarro, outro se lamenta por causa do papel que lhe foi distribuído, um terceiro lê para os colegas, em voz alta, notícias de um jomalzinho teatral. Será conveniente que, tanto as Atrizes como os Atores, estejam vestidos com roupas claras e alegres, e que esta primeira cena improvisada tenha, na sua naturalidade, muita vida e movimento. Num dado instante, um dos Atores senta-se ao piano e toca um trecho da dança; os Atores e A trizes mais jovens começam a dançar. O ASSISTENTE (batendo palmas para chamá-los à ordem) Vamos, vamos, parem com isso. O Diretor vem aí! O piano e a dança param repentinamente. Os Atores ficam a olhar para a platéia, por cuja porta entra o Diretor que, de chapéu coco na cabeça, bengala debaixo do braço e um charutão na boca, desce pelo corredor entre as poltronas, cumprimentado pêlos Atores, sobe ao palco por uma das escadinhas. O Secretário entrega-lhe a correspondência: alguns jornais, um texto enfaixado). O DIRETOR Cartas?... O SECRETÁRIO Nenhuma. Toda a correspondência está aí. O DIRETOR (entregando-lhe o texto enfaixado) Ponha-o no meu camarim. (Olhando em volta e dirigindo-se ao Assistente) Oh! Não se vê nada. Por favor, mande acender um pouco de luz. O ASSISTENTE Pois não. O Assistente sai para dar a ordem. Pouco depois o palco se iluminará, em todo o lado direito, onde estão os Atores, com uma viva luz branca. Entretanto, o Ponto entrou na sua abertura, acendeu a lampadazinha e abriu o texto diante de si. O DIRETOR (batendo palmas) Vamos, vamos, comecemos. (Ao Assistente) Falta alguém?... O ASSISTENTE Falta a Primeira Atriz. O DIRETOR Como sempre! (Olha o relógio) Já estamos atrasados dez minutos! Faça o favor de pô-la na tabela, assim aprenderá a ser pontual nos ensaios. Mal acaba de falar, e, da porta do fundo da platéia, se ouve a voz da Primeira Atriz. PRIMEIRA ATRIZ Não, não, por favor! Estou aqui, estou aqui! (Vem toda vestida com um chapelâo petulante na cabeça e um cãozinho no braço. Desce correndo pelo corredor e sobe apressadíssima por uma das escadinhas). O DIRETOR A senhora jurou fazer-me esperar sempre!... PRIMEIRA ATRIZ Desculpe-me, procurei tanto um automóvel para chegar a tempo! Mas vejo que ainda não começaram, e eu não entro logo em cena. (Depois, chamando o Assistente pelo nome, entrega-lhe o cãozinho) Por favor, feche-o no meu camarim. O DIRETOR (resmungando) Ainda por cima o cãozinho! Como se fôssemos poucos, os quadrúpedes, aqui. (Bate de novo as mãos e dirige-seao Ponto) Vamos, vamos, o segundo ato de A Cada Qual o Seu Papel. (Sentando-se na poltrona) Atenção, senhores. Quem está em cena?... Os Atores e Atrizes saem da baixa do palco e vão sentar-se a um lado, exceto os três que iniciam o ensaio e a Primeira A triz, a qual, sem prestar atenção à pegunta do Diretor, foi sentar-se diante de uma das mesinhas. O DIRETOR (à Primeira Atriz) A senhora então está em cena? PRIMEIRA ATRIZ Eu? Não, senhor. O DIRETOR (aborrecido) Então saia dai, pelo amor de Deus! A Primeira Atriz levanta-se e vai sentar junto aos outros Atores que já se afastaram. [...]. Veja mais aqui e aqui.

MACUNAÍMA – O romance Macunaíma: o herói sem nenhum caráter (Martins, 1978), do escritor, critico literário, musicólogo e folclorista Mário de Andrade (1893-1945), conta a história de um índio que representa o povo brasileiro e sua atração pela cidade grande e pela máquina. Da obra destaco o trecho inicial: No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia, tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro: passou mais de seis anos não falando. Sio incitavam a falar exclamava: If — Ai! que preguiça!. . . e não dizia mais nada."] Ficava no canto da maloca,  trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaimuns diz-que habitando a água-doce por lá. No mucambo si alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém respeitava os velhos, e freqüentava com aplicação a murua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo. Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho sempre se esquecendo de mijar. Como a rede da mãe estava por debaixo do berço, o herói mijava quente na velha, espantando os mosquitos bem. Então adormecia sonhando palavras-feias, imoralidades estrambólicas e dava patadas no ar. Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto eram sempre as peraltagens do herói. As mulheres se riam muito simpatizadas, falando que "espinho que pinica, de pequeno já traz ponta", e numa pagelança Rei Nagô fez um discurso e avisou que o herói era inteligente. [...] Em 1969, a obra foi adaptada para o cinema pelo cineasta Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), tornando-se ganhadora de diversos prêmios no Festival de Brasília (1969) e no Festival Internacional de Mar del Plata, Argentina (1970). Também a premiada cantora e compositora Iara Rennó, inpirada na obra lançou o cd Macunaó.peraí.matupi ou Macunaíma Ópera Tupi (2008). Veja mais aqui e aqui.

















IMAGEM DO DIA
 
Capa do livro História de “O” (1975 - L&PM, 2013), do artista, ilustrador e autor de história em quadrinhos italiano Guido Crepax (1933-2003)– baseado no romance de Pauline Réage.


Veja mais sobre:
Conselho dum bebão na teibei, A História do Brasil de Cláudio Vieira, Gênero & violência de Heleieth Safiotti, A coluna social de Edu Krieger, a pintura de Salvador Dalí & Por um Brasil democrático de Emir Sader aqui.

E mais:
Cordel Tataritaritatá & livros infantis aqui.
Vamos aprumar a conversa, A arte de viver de Jiddu Krishnamurti, A arte de viver em paz de Pierre Weil, Ação cultural para a liberdade de Paulo Freire, a música de Heitor Villa-Lobos & Bidú Sayão, A grande arte de Rubem Fonseca, a poesia de Camilo José Cela, a pintura de Salvador Dali, O teatro na educação de Paulo Coelho, o cinema de Eduardo Coutinho & a escultura de Jean-Baptiste Carpeaux aqui.
O homem ao quadrado de Leon Eliachar aqui.
Brincarte do Nitolino, Hino ao Sol de Akhenaton, a música de Kitaro, Manifesto Pau Brasil de Oswald de Andrade, Medeia de Eurípedes, Belfagor de Nicolau Maquiavel, a poesia de Percy Bysse Shelley, Fundador de Nélida Piñon, Dicionário do Aurélio, o cinema de François Truffaut, a pintura de Otto Lingner & Nina Kozoriz aqui.
Quando não é na entrada é na saída, O autor como produtor de Walter Benjamin, Carna, A poesia pornográfica: de Gregorio de Matos a Glauco Mattoso, Linguística & Estilo, Fronteiriços de Anna Bella Geiger, a música de Andrea dos Guimarães, a xilogravura de Gilvan Samico, a arte de Matéria Incógnita & Wunderblogs aqui.
Crônica de amor por ela, Os 120 dias de Sodoma de Marquês de Sade, a poesia de Ana Cristina César, Teoria da Literatura de Rogel Samuel, a música de Roberto Carnevale, a pintura de Pablo Picasso, o teatro de Chris Wilkinson & Linda Marlowe, Dia da Prostituta, a arte de Claudia Andujar & Lygia Pape aqui.
Betúlia, a belezura e os restos nos confins do mundo, Uivo & Kadish de Allen Ginsberg, Evolução e sentido do teatro de Francis Fergusson, Porto calendário de Osório Alves de Castro, a pintura de Federico Beltrán Massés & Fayga Ostrower, a música de Consuelo de Paula, a arte de Claudia Andujar & Iemanjá, Mãe D’Água de Petrolina aqui.
Terra do que sou, vida que me cabe, Elogio da madrasta de Mario Vargas Llosa, a poesia de Thiago de Mello, Galalaus & Batorés de Mário Souto Maior, a música de Eduardo Ponti, A pintura de Shelley Bain & Natalia Goncharova, a fotografia de Yan Pierre, Taha Hassaballa Malasi, a arte de Rachel Mascarenhas & Ana Paula Pessoa aqui.
Domingo do que fui e não sou, O erotismo de Georges Bataille, a poesia de Federico Garcia Lorca, Os segredos da ficção de Raimundo Carrero, a música de Laurie Anderson, a pintura de Marta Nael & Cecily Brown, a xilogravura de MS, a arte de Benedict Olorunnisomo & Paula Valéria de Andrade aqui.
Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
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quinta-feira, maio 14, 2015

WATTS, LESSING, MACHADO, EURÍDICE, MÁRIO DE ANDRADE, KILKERRY, COROT, GLUCK, VERA FISCHER E ANIVERSÁRIO DE MEIMEI CORRÊA.

Imagem: Eurydice Wounded (1868-70) do pintor realista francês Jean-Baptiste Camille Corot (1796-1875). Veja mais aqui.

EURÍDICE – (Imagem: Eurydice, do escultor austríaco Joseph Edgar Boehm - 1834-1890) - A ninfa Eurídice encantou o coração do músico Orfeu, filho de uma das nove musas Calíope e do deus Apolo, que por ela se apaixonou e se casaram. Contudo, a beleza da ninfa encantava outros homens e, entre eles, o apicultor que, ao receber a recusa dela, começou a persegui-la. Ela fugiu e na fuga foi picada por uma cobra, findando por falecer. Com a sua morte, Orfeu foi tromado por uma tristeza profunda, entoando tristes melodias que faziam os deuses chorar. Eles então apiedados com a sua lamúria, recomendaram que seguisse ao Hades e convecesse o Rei dos Mortos a devolvê-la. Orfeu partir até descer ao mundo inferior tocando sua maravilhosa Lira que logo conveceu Carante a encaminhá-lo pelo Estige, adormecendo o cão de três cabeças e guarda do submundo, Cérbero, e amansando os monstros que lhe vinham deter sua empreitada. Ao chegar ao Hades tocando a sua lira, o Senhor dos Mortos concedeu que resgatasse a amada, sob a condição de que não deveriam olhar para trás até que chegassem à superficie. Assim Orfeu conduziu-a ao som de melodias lindíssimas de felicidade, até que no meio do caminho Eurídice caiu e o chamou, virando-se para socorrê-la, percebeu um fiapo de fumaça que se esvaia junto com a última lamúria de amor da mulher. A partir de então, Orfeu recusou-se a casar-se com qualquer outra mulher, até ofender com sua recusa as Mênades que, por vingança, depois de muitas tentativas sem êxito, conseguiram mata-lo e esquarteja-lo, atirando a sua cabeça no Rio Hebro, que clamava: - Eurídice! Eurídice! As Musas enterraram-no no Monte Olimpo e ele pôde unir-se à sua amada nos Campos Elisios. Veja mais aqui, aquiaquiaqui, aqui e aqui.

Curtindo a ópera Orfeu e Eurídice (1762 - Verona Records), do compositor alemão Christoph Willibald Gluck (1714-1787), com Kathleen Ferrier e a Orchestra and Chorus of the Netherlands Opera, conducted by Charles Bruck.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – Estava eu cá comigo, as ideias conversando. O que tem que comemorar hoje? – perguntei a mim mesmo. O que? O que há para comemorar hoje? O aniversário da Meimei Corrêa. Ah, tá. Isso é bom, pois a vida é uma celebração cíclica de nascimentos e renascimentos. A cada instante se nasce, morre e renasce. A morte participa da vida e assim vamos até findar a experiência na Terra. Mas não tenho que falar nada disso, afinal hoje é aniversário de Meimei Corrêa. É disso que tenho que falar, não de outra coisa. Pois bem. Há alguns anos atrás, por meio da rede, conheci o trabalho da radialista e poeta Meimei Corrêa. Ela realizava o programa Domingo Romântico, um espaço radiofônico para lá de extraordinário. Virei fã. E tempos depois, pudemos dividir o palco num Sopa de Letras, do Clube Caiuby de Compositores, em São Paulo. Coroamos nossa amizade e daí nasceu a nossa parceria, a nossa deliciosa e promissora parceira. Nisso eu que fui e sou até hoje o premiado. Ela além da sua dedicação e competência no que faz, me presenteou por esses últimos anos com prêmios que me fez o homem mais realizado do universo: incluiu minhas músicas na sua programação, transformou em vídeo meus poemas e canções, fez painéis e baners para minhas coisas, ampliou meu universo de amizades, enfim, se sou alguma coisa de valia hoje devo ao trabalho, dedicação, carinho e afeto dessa mulher que merece toda a felicidade do universo. Sou o premiado. Hoje é aniversário dela e eu que sou todo dia e o dia todo premiado por sua existência. Por isso sou devedor inadimplente nesta encarnação e, acredito, que endividado até as minhas próximas, duas ou outras reencarnações. E ser devedor dessa forma é bastante aparazível, afinal ela merece todos os meus aplausos, toda minha gratidão e, como não tenho nada para presenteá-la nesta data, dou o meu coração. Feliz aniversário, queridamada Meimei Corrêa. Aproveitem e confira aqui e aqui.

CONSUMAÇÃO: O HOMEM, A MULHER E A NATUREZA – No livro O homem, a mulher a natureza (Record, 1958), do filósofo e escritor inglês Alan Wilson Watts (1915-1973), trata da relação homem e natureza, o urbanismo e o paganismo, a ciência e a natureza, o homem e a mulher, amor sagrado e profano, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho da parte Consumação: [...] Tudo isso é peculiarmente verdadeiro no que se refere ao amor e à comunhão sexual entre o homem e a mulher. É por isso que o amor, quando espontâneo, tem um caráter tão fortemente místico e espiritual e, quando forçado, é tão degradante e frustrativo. É por essa razão que o amor sexual é tão problemático nas culturas em que o ser humano é fortemente identificado com a entidade separada abstrata. A experiência não se comporta de acordo com as expectativas, tampouco satisfaz o relacionamento do homem e da mulher; é, ao mesmo tempo, fragmentariamente, bastante compensatória para ser desejada cada vez mais inexoravelmente pelo alivio que parece prometer. O sexo é, portanto, a religião virtual de uma numero considerável de pessoas, o fim a que dedicam mais devoção que a qualquer outro. Para a mente convencionalmente religiosa, esta veneração ao sexo é um substituto perigoso e positivamente condenável da veneração de Deus. Mas isso ocorre porque o sexo, como qualquer outro prazer, da forma normalmente desejada, jamais chega a ser verdadeiramente uma satisfação. E é exatamente por essa razão que ele não é Deus e não absolutamente por ser simplesmente físico. O conflito entre Deus e a natureza se desvanece quando sabemos como experimentar a natureza, pois aquilo que os mantem separados não é uma diferença de substância, mas sim uma divisão mental [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

AMAR, VERBO INTRANSITIVO – O romance Amar, Verbo Intransitivo (1927 – Vera Cruz, 1995), do escritor, critico literário, musicólogo e folclorista brasileiro, Mário de Andrade (1893-1945) conta a estória de Fraülein e Carlos, quando ela é contratada pelo pai dele, um rico burguês de origem portuguesa, para ensinar a arte do amor ao filho. As preocupações do pai dirigem-se à possibilidades do filho perder-se em encontros com prostitutas comuns ou mesmo ficar doente. Fraülein é introduzida na casa da família como governanta e procura manter uma postura discreta diante dos familiares, principalmente por causa das irmãs do rapaz. Segue suas atividades ensinando alemão e piano para as moças e para Carlos. Aos poucos vai se insinuando para o rapaz, que acaba sendo tomado de amores pela governanta. Dona Laura, mãe de Carlos, percebe o envolvimento do filho e conversa com Fraülein. Sousa Costa acaba contando para a mulher o trato feito e o motivo de suas preocupações com o filho. O casal decide pela permanência da governanta. Carlos e Fraülein vivem um idílio amoroso, mantido em segredo. O rapaz aproveita as horas de estudo sozinhos na biblioteca do pai para amar a governanta. Depois passa a encontra-la em seu próprio quarto. Com o flagrante do pai, manda a governanta embora e cada um segue o seu caminho. Da obra destaco o trecho: [...] É coisa que se ensine o amor? creio que não. pode ser que sim. Fräulein tinha um método bem dela. o deus paciente o construíra, talqual os prisioneiros fazem essas catitas cestinhas cheias de flores e de frutas coloridas. Tudo de miolo de pão, tão mimoso! o amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores. espirituais, pensava. Os dois se sentem bem juntos. a vida se aproxima. Repartem-na, pois quatro ombros podem mais que dois. a gente deve trabalhar... os quatro ombros trabalham igualmente. Deve-se ter filhos... os quatro ombros carregam os filhos, quantos a fecundidade quiser, assim cresce a Alemanha. de noite uma ópera de Wagner. Brahms. Brahms é grande. que profundeza, seriedade. Há concertos de órgão também. e a gente pode cantar em coro... os quatro ombros frequentam a sociedade coral. têm boa voz e cantam. Solistas? Só cantam em coro. Gesellschaft. Porém isso é para alemães, e prós outros? Sim: quase o mesmo... apenas um pouco mais de verdade prática e menos Wagner. E o serviço dela entende só da formação dos homens. O homem tem de ser apegado ao lar. Dirige o sossego do lar. Manda. Porém sem domínio. Prove. É certo que a mulher o ajudará. O ajudará muito, dando algumas lições de línguas, servindo de acompanhadora pra ensaios na panzschuele, fazendo a comida, preparando doces, regando as flores, pastoreando os gansos alvos no prado, enfeitando os lindos cabelos com margaridinhas... Fräulein engole quase um remorso porque se apanha a divagar. Queixumes do deus encarcerado. O homem-da-vida quer apagar tantas nuvens e afirma ríspido que não trata-se de nada disso: a profissão dela se resume a ensinar primeiros passos, a abrir olhos, de modo a prevenir os inexperientes da cilada das mãos rapaces. E evitar as doenças, que tanto infelicitam o casal futuro. Profilaxia. Aqui o homem-do-sonho corcoveia, se revolta contra a aspereza do bom senso e berra: profilaxia, não! mas porém deverá parolar, quando mais chegadinho o convívio, sobre essas "meretrizes"que chupam o sangue do corpo sadio. O sangue deve ser puro. vejam por exemplo a Alemanha, que-dê raça mais forte? Nenhuma. E justamente porque mais forte e indestrutível neles o conceito da família. Os filhos nascem robustos as mulheres são grandes e claras. são fecundas. O nobre destino do homem é se conservar sadio e procurar esposa prodigiosamente sadia. de raça superior, como ela, Fräulein. Os negros são de raça inferior. Os índios também. Os portugueses também. Mas esta última verdade Fräulein não fala aos alunos. Foi decreto lido a vez em que um trabalho de Reimer lhe passou pelas mãos: afirmava a inferioridade dos latinos. Legítima verdade, pois quem é reimer? Reimer é um grande sábio alemão. Os portugueses fazem parte duma raça inferior. e então os brasileiros misturados? Também isso Fräulein não podia falar. Por adaptação. só quando entre amigos de segredo, e alemães. Porém os índios, os negros quem negará sejam raças inferiores? Como é belo o destino do casal superior. sossego e trabalho. Os quatro ombros trabalham sossegadamente, ela no lar, o marido fora do lar. Pela boca da noite ele chega da cidade escura... vai botar os livros na escrivaninha. Depois vem lhe dar o beijo na testa... beijo calmo... beijo preceptivo... todo de preto, com o alfinete de ouro na gravata. nariz longo, quase diáfano bem raçado... todo ele é claro, transparente... tossiria, arranhando o óculos sem aro... tossia sempre... e a mancha irregular do sangue nas maçãs... jantariam quase sem dizer nada... como passara?... assim, e ele?... talvez mais três meses e termina o segundo volume de o apelo da natureza na poesia dos minnesänger... lhe davam o lugar na universidade... a janta acabava... ele atirava-se ao estudo... ela arranja de novo a toalha sobre a mesa... temos concerto da filarmônica amanhã. Diga o programa. abertura de spohr, a pastoral de Beethoven, Strauss, hino ao sol de Mascagni e Wagner. a pastoral? A pastoral. que bom. e de wagner? Siegfried-idill e götterdãmmerung. Siegfried-idill? Siegfried-idill. ah! Podiam dar a heróica... já ouvimos cinco vezes a pastoral, este ano... podiam levar a heróica... mas a heróica... Napoleão... em todo caso a gente não pode negar: napoleão foi um grande general... morreu preso em Santa Helena. aqui Fräulein repara que aos poucos o homem-do-sonho se substituíra de novo ao homem-da-vida. É porque este aparece unicamente quando trata-se de viver mover agir. o outro é interior, eu já falei. Ora,  pois o pensamento é interior, nem sequer é volição, que participa já do ato. O homem-da-vida age não pensa. Fräulein está pensando. Nem o homem-da-vida, propriamente, lhe disse que ela ensina apenas os primeiros passos do amor, dá a entender isso apenas, pela maneira com que obstinada e mudamente se comporta. Franqueza: o que pratica é isso e apenas isso. [...] Veja mais aqui.

SOB OS RAMOS, ISNABEL – O livro ReVisão de Kilkerry (Brasiliense, 1985), do poeta, tradutor e ensaísta Augusto de Campos, traz uma revisão da poesia e da cronologia das obras do jornalista, advogado e poeta simbolista brasileiro Pedro Kilkerry (1885-1917), os sonetos da Harpa Esquisita, recriações, poemas, sátiras, manuscritos, notas trêmulas e outras, prosa esparsa e apêndices com declarações de Jackson Figueiredo, Carlos Chicacchio, , subsídios biográficos, casos, entre outros. Do livro, inicialmente destaco o soneto Sob os ramos: É no Estio. A alma, aqui, vai-me sonora, / No meu cavalo — sob a loira poeira / Que chove o sol — e vai-me a vida inteira / No meu cavalo, pela estrada a fora. / Ai! desta em que te escrevo alta mangueira / Sob a copada verde a gente mora. / E em vindo a noite, acende-se a fogueira / Que se fez cinza de fogueira agora. / Passa-me a vida pelo campo... E a vida / Levo-a cantando, pássaros no seio, / Qual se os levasse a minha mocidade... / Cada ilusão floresce renascida; / Flora, renasces ao primeiro anseio / Do teu amor... nas asas da Saudade! Também merece destaque o seu Isnabel: Fosse este amor vergel desabrochando em sonhos, / da esperança ao luar, virgem de mágoa e dor, / onde o riso salmeasse em salmeios risonhos, / e este amor, Isnabel, bem que seria amor. / Mas se minh´alma é toda um pedaço de noite, / sem que pirimpeie uma estrela sequer, / onde brame o rancor e passa o ódio, em açoite, / como na tempestade os maus ventos, mulher... / maldize-o. conserva a candidez do arminho, / abrindo ao sol da vida, à vida rindo – flor. / Nunca merecerei, por ser mau, teu carinho / e este amor, Isnabel, não pode ser amor. / Maldize-o eternamente. E, eternamente, nega / do palácio do beijo a porta rosicler; / deve minh´alma ser eternamente cega, deves eternamente esplendecer, mulher. Veja mais aqui.

TU, SÓ TU, PURO AMORA comédia Tu, só tu, puro amor, do escritor Machado de Assis (1839-1908), trata sobre o desfecho dos amores palacianos de Camões e de D. Catarina de Ataíde. Da peça teatral destaco o acena VIII: [...] CAMÕES, D. CATARINA DE ATAÍDE - CAMÕES, com uma reverência. - Irei eu. Adeus, minha senhora D. Catarina de Ataíde! (D. Catarina dá um passo para ele.) Mantenha-vos Deus na sua santa guarda. D. CATARINA - Não... vinde cá... (Camões detém-se.) Enfadei-vos? Vinde um pouco mais perto. (Camões aproxima-se.) Que vos fiz eu? Duvidais de mim? CAMÕES - Cuido que me quereis ausente. D. CATARINA - Luís! (Inquieta.) Vede esta sala, estas paredes... falarmos a sós... Duvidais de mim? CAMÕES - Não duvido de vós; não duvido da vossa ternura: da vossa firmeza é que eu duvido. D. CATARINA - Receiais que fraqueie algum dia? CAMÕES - Receio; chorareis muitas lágrimas, muitas e amargas... mas, cuido que fraqueareis. D. CATARINA - Luís! juro-vos... CAMÕES - Perdoai, se vos ofende esta palavra. Ela é sincera: subiu-me do coração à boca. Não posso guardar a verdade; perder-me-ei algum dia por dizê-la sem rebuço. Assim me fez a natureza; assim irei à sepultura. D. CATARINA - Não, não fraquearei, juro-vos. Amo-vos muito, bem o sabeis. Posso chegar a afrontar tudo, até a cólera de meu pai. Vede lá, estamos a sós; se nos vira alguém... (Camões dá um passo para sair.) Não, vinde cá. Mas, se nos vira alguém, defronte um do outro, no meio de uma sala deserta, que pensaria? Não sei que pensaria; tinha medo há pouco, já não tenho medo... amor sim... O que eu tenho é amor, meu Luís. CAMÕES - Minha boa Catarina. D. CATARINA - Não me chameis boa, que eu não sei se o sou... Nem boa, nem má. CAMÕES - Divina sois D. CATARINA - Não me deis nomes que são sacrilégios. CAMÕES - Que outro vos cabe? D. CATARINA - Nenhum. CAMÕES - Nenhum? - Simplesmente a minha doce e formosa senhora D. Catarina de Ataíde, uma ninfa do paço, que se lembrou de amar um triste escudeiro, sem se lembrar que seu pai a guarda para algum solar opulento, algum grande cargo de camareira-mor. Tudo isso havereis, enquanto que o coitado de Camões irá morrer em África ou Ásia... D. CATARINA - Teimoso sois! Sempre essas idéias de África... CAMÕES - Ou Ásia. Que tem isso? Digo-vos que, às vezes, a dormir, imagino lá estar, longe dos galanteios da corte, armado em guerra, diante do gentio. Imaginai agora... D. CATARINA - Não imagino nada; vós sois meu, tão só meu, tão-somente meu. Que me importa o gentio, ou o Turco, ou que quer que é, que não sei, nem quero? Tinha que ver, se me deixáveis, para ir às vossas Áfricas... E os meus sonetos? Quem mos havia de fazer, meu rico poeta? CAMÕES - Não faltará quem vo-los faça, e da maior perfeição. D. CATARINA - Pode ser; mas eu quero-os ruins, como os vossos... como aquele da Circe, o meu retrato, dissestes vós. CAMÕES, recitando. Um mover de olhos, brando e piedoso. Sem ver de que; um riso brando e honesto, Quase forçado um doce e humilde gesto De qualquer alegria duvidoso... D. CATARINA - Não acabeis, que me obrigareis a fugir de vexada. CAMÕES - De vexada! Quando é que a rosa se vexou, por que o sol a beijou de longe? D. CATARINA - Bem respondido, meu claro sol. CAMÕES - Deixai-me repetir que sois divina. Natércia minha, pode a sorte separar-nos, ou a morte de um ou de outro; mas o amor subsiste, longe ou perto, na morte ou na vida, no mais baixo estado, ou no cimo das grandezas humanas, não é assim? Deixai-me crê-lo, ao menos; deixai-me crer que há um vínculo secreto e forte, que nem os homens, nem a própria natureza poderia já destruir. Deixai-me crer... Não me ouvis? D. CATARINA - Ouço, ouço. CAMÕES - Crer que a última palavra de vossos lábios será o meu nome. Será? Tenha eu esta fé, e não se me dará da adversidade; sentir-me-ei afortunado e grande. Grande, ouvis bem? Maior que todos os demais homens. D. CATARINA - Acabai! CAMÕES - Que mais? D. CATARINA - Não sei; mas é tão doce ouvir-vos! Acabai, acabai, meu poeta! Ou antes, não, não acabeis; falai sempre, deixai-me ficar perpetuamente escutar-vos. CAMÕES - Ai de nós! A perpetuidade é um simples instante, um instante em que nos deixam sós nesta sala! (D. Catarina afasta-se rapidamente.) Olhai; só a idéia do perigo vos arredou de mim. D. CATARINA - Na verdade, se nos vissem... Se alguém aí, por esses reposteiros... Adeus... CAMÕES - Medrosa, eterna medrosa! D. CATARINA - Pode ser que sim; mas não está isso mesmo no meu retrato?  Um encolhido ousar, uma brandura, Um medo sem ter culpa; um ar sereno, Um longo e obediente sofrimento... CAMÕES -  Esta foi a celeste formosura Da minha Circe, e o mágico veneno Que pôde transformar meu pensamento. D. CATARINA, indo a ele. - Pois então? A vossa Circe manda-vos que não duvideis dela, que lhe perdoeis os medos, tão próprios do lugar e da condição; manda-vos crer e amar. Se ela às vezes foge, é porque a espreitam; se vos não responde, é porque outros ouvidos poderiam escutá-la. Entendeis? É o que vos manda dizer a vossa Circe, meu poeta... e agora... (Estende-lhe a mão.) Adeus! CAMÕES - Ides-vos? D. CATARINA - A rainha espera-me. Audazes fomos, Luís. Não desafiemos o paço... que esses reposteiros... CAMÕES - Deixa-me ir ver! D. CATARINA, detendo-o. - Não, não. Separemo-nos. CAMÕES - Adeus! (D. Catarina dirige-se para a porta da esquerda; Camões olha para a porta da direita.) D. CATARINA - Andai, andai! CAMÕES - Um instante ainda! D. CATARINA - Imprudente! Por quem sois, ide-vos meu Luís! CAMÕES - A rainha espera-vos? D. CATARINA - Espera. CAMÕES - Tão raro é ver-vos! D. CATARINA - Não afrontemos o céu... podem dar conosco... CAMÕES - Que venham! Tomara eu que nos vissem! Bradaria a todos o meu amor, e a que o faria respeitar! D. CATARINA, aflita pegando-lhe na mão. - Reparai, meu Luís, reparai onde estais, quem eu sou, o que são estas paredes... domai esse gênio arrebatado, peço-vo-lo eu. Ide-vos em boa paz, sim? CAMÕES - Viva a minha corça gentil, a minha tímida corça! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus! D. CATARINA - Adeus! CAMÕES, com a mão dela presa.  – Adeus D. CATARINA - Ide... deixai-me ir! CAMÕES - Hoje há luar; se virdes um embuçado diante das vossas janelas, quedado a olhar para cima, desconfiai que sou eu; e então, já não é o sol a beijar de longe uma rosa, é o goivo que pede calor a uma estrela. D. CATARINA - Cautela, não vos reconheçam. CAMÕES - Cautela haverei; mas, que me reconheçam, que tem isso? embargarei a palavra ao importuno. D. CATARINA - Sossegai. Adeus! CAMÕES - Adeus! (D. Catarina dirige-se para a porta da esquerda, e pára diante dela, à espera que Camões saia. Camões corteja-a com um gesto gracioso, e dirige-se para o fundo. - Levanta-se o reposteiro da porta da direita, e aparece Caminha. - D. Catarina dá um pequeno grito, e sai precipitadamente. - Camões detém-se. Os dois homens olham-se por um instante.). Veja mais aqui e aqui.

AMOR, DE NOVO – O romance Amor, de novo (Companhia das Letras, 2003) da escritora britânica Doris Lessing (1919-2013), conta a história de um amor impossível, envolvendo a paixão da sexagenária Sarah Durhan pelo jovem ator Bill e o sisudo diretor de teatro, Henry: loucuras e incertezas com o primeiro, pacificidade com o segundo. Da obra destaco o trecho a seguir: [...] Fácil pensar que aquilo era um quarto de despejo, silencio - so e abafado numa cálida penumbra, mas uma sombra se moveu, alguém veio à tona para afastar as cortinas e abrir as janelas. Era uma mulher, que em passos rápidos saiu por uma porta, que deixou aberta. Assim revelado, o quarto estava sem dúvida cheio demais. Junto a uma parede, todas as evidências de evolução técnica — um aparelho de fax, uma copiadora, um computador, telefones —, quanto ao resto, porém, aquele lugar podia facilmente ser tomado por um depósito de teatro, com o busto dourado de uma mulher romana, muito maior que o natural, máscaras, uma cortina de veludo carmesim, pôsteres e pilhas de partituras, ou melhor, cópias que reproduziam fielmente originais amarelecidos e desbeiçados. Na parede acima do computador, uma grande reprodução do Mardi Gras, de Cézanne, também desgastada: rasgada ao meio e remendada com fita colante. A mulher na sala ao lado se dedicava com energia a alguma coisa: objetos eram deslocados. Então ressurgiu e ficou olhando a sala. Não era jovem, como seria fácil imaginar pelo vigor de seus movimentos quando ainda entrevista nas sombras. Uma mulher de certa idade, como diriam os franceses, ou mesmo um tanto mais velha, e pouco apresentável no momento, vestindo calça velha e camisa. Era uma mulher alerta, cheia de energia, mas não parecia contente com o que via. Mesmo assim, afastou esse pensamento e foi para o computador, sentou-se, estendeu a mão e pôs uma fita para tocar. Instantaneamente a sala se encheu com a voz da Condessa Dié, vinda de oito séculos antes (ou pelo menos uma voz capaz de convencer o ouvinte de que era a Condessa), cantando os seus eternos lamentos: Devo cantar, queira ou não: Quanta mágoa por aquele de quem me fiz amiga, Pois o amo mais que tudo neste mundo... A mulher, sentada, mãos prontas para atacar as teclas, tinha consciência de sentir-se superior a essa irmã antiga, para não dizer que a condenava. Não gostava disso em si mesma. Estaria ficando intolerante? [...]. Veja mais aqui.
  
AMOR ESTRANHO AMOR – O polêmico filme Amor estranho amor (1982) do cineasta Walter Hugo Khouri, traz o cenário do momento político às vésperas do golpe militar, contando a história de um homem da meia idade relembrando a situação de como foi quando garoto, deixado por sua avó diante de um palacete de luxo, onde se encontrava sua mãe Anna, uma prostituta, que vivia com um poderoso político paulista. Nesse ambiente ele passa a conviver com garotas de programa, enquanto é iniciado por uma delas, a Tamara. Por esse filme a atriz Vera Fischer ganhou dois prêmios: Melhor Atriz no Festival de Cinema de Brasilia e no Prêmio Air France de Cinema, ambos em 1982. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 
Foto: Eurydice, de Patrick Nicholas
  

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Brincarte do Nitolino, Holismo & evolução de Jan Christiaan Smuts, a poesia de Joseph Brodsky, a música de Bob Dylan, o teatro de Gianfracesco Guarnieri, o cinema de Leon Hirszman, a pintura de Jacopo Pontormo & a arte de Helena Ranaldi aqui.
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Sulina, a opulência da beldade, Viventes das Alagoas de Graciliano Ramos, Mídia & cultura de Douglas Kellner, a música de Ronaldo Bastos, o pensamento de Horácio, Rede de Arame de Wanda Cristina da Cunha, o teatro de Lavinia Pannunzio & Regina França, o cinema de Andrew Niccol Uma Thurman, a pintura de André Derain & Cindy Sherman, Todo dia é dia da mulher & a arte de Thaís Motta aqui.
Todo dia é dia da mulher, a literatura de Mário Quintana, Os contos tradicionais de Luís da Câmara Cascudo, o pensamento de Voltaire, A comunicação de Juan Diaz Bordenave, o teatro de Sérgio Roveri & Tuna Dwek, o cinema de François Truffaut & Jeanne Moreau, a música de Daniela Spielmann, a poesia de Gerusa Leal, a pintura de Anita Malfatti & Hans Temple aqui.
A mulher na antiguidade, Berenice de Edgar Allan Poe, O fio da navalha de Louise Glück, A quântica de Max Planc, O diário de Adão & Eva de Mark Twain, Foco & sucesso de Daniel Goleman, a música de Shirley Horn, o cinema de Alain Berliner & Demi Moore, a arte de Alessandra Cavagna, a pintura de Edouard Manet & a gravura de Johann Theodor de Bry aqui.
Leolinda Daltro & Todo dia é dia da mulher aqui.
A mulher nos primórdios da humanidade, A mulher grega de Friedrich Engels, A época da inocência de Edith Wharton, Sou a flor de Maria Polydouri, Virginia Woolf & Paula Picarelli, a música de Sainkho Namtchylak, o pensamento de Horácio & Jean de La Fontaine, o cinema de Michael Haneke & Juliette Binoche, A instrução dos amantes de Inês Pedrosa, a pintura de Jean-Léon Gérôme & a arte de Hanna Cantora aqui.
Derluza & a saúde na Justiça, Jardim morto de Federico García Lorca, Filosofia na alcova de Marquês de Sade, a poesia de Robert Burns, O sexo na História de Reay Tannahill, a música de Radamés Gnatalli & Fernanda Chaves Canaud, o pensamento de Virgílio, o cinema de Jean-Luc Godard, a pintura de Sebastian Llobet Ribas, a arte de Jules Ralph Feiffer & Chilica Contadora de Histórias aqui.
A mulher na Roma Antiga, Uma rosa para Emily de William Faulkner, A mulher e o patriarcado Helena Iara Bongiovani Saffioti, a música de Jacqueline Du Pre, o pensamento de Victor Hugo, Elizabeth Short & Mia Kirshner, a arte de Carmen Tyrrel, a escultura de Jean-Baptiste Pigalle, Lenita Estrela de Sá & Lia Helena Giannechini aqui.
As duas mortes de Dona Zezé, Violência contra a mulher de Maria Amélia de Almeida Teles e Monica Melo, a música de Jane Birkin, o pensamento de Jacques-Antoine-Hyppolyte, a pintura de Rafael Hidalgo de Caviedes, a poesia de Diva Cunha, o teatro de João Caetano dos Santos, o cinema de Joel Coen & Frances McDormand, a arte de Frank Miller & Maria de Medeiros, Fernando Fiorese, Regina Souza Vieira & Deize Messias aqui.

A mulher no Cristianismo, O caso das camas de Fernando Sabino, A responsabilidade dos relacionamentos afetivos de Ana Cecília Parodi, a música de Francisco Mignone & Lilian Barreto, a poesia de Germana Zanettini, o teatro de Adrienne Lecouvreur, o cinema de Júlio Bressane & Bel Garcia, Teodora & Marózia, a arte de Rodrigo Luff & Manoela Afonso aqui.
As sombras de Gilvanícila, O barão de Itararé de Fernando de Brinkerhoff Torelly, a música de The Dresden Dolls, o pensamento de Juvenal & Voltaire, Heloisa de Paráclito, a poesia de Claudia Pastore, o teatro de Mademoiselle Clairon, o cinema de Rainer Werner Fassbinder & Rosel Zech, a pintura de Ângelo Cantú, a arte de Demócrito Borges & Isabela Morais aqui.
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