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quinta-feira, março 12, 2020

NIÈDE GUIDON, MARIANNE WEBER, ALBA BRITO, GERTRUDE KÄSEBIER & RANÚSIA ALVES RODRIGUES


TODO DIA É DIA DA MULHER – UMA: A VIDA EM PRETO-E-BRANCO - As lentes dela e eu a pose entre os comuns e marginalizados, imigrantes desvalidos, outsiders cotidianos da vida noturna, escândalos da arte pelas líricas e doces e belas. Dela a timidez hesitante e eu só podia amá-la enquanto escrevia a riqueza surreal da infância confinada: uma princesa num cenário obscuro da Transilvânia de um péssimo filme. Era ela a fotografar a realidade que não tinha contato, a vida em preto-e-branco, sua crueza e aberrações. E isso era eu no seu jeito nada convencional, beijos e abraços na singeleza do nosso desnudamento, o nosso intenso amor proibido, nossas entregas clandestinas pelos caminhos da vida, entre a hepatite e a depressão, o barbitúrico e a navalha. Nada podia além de nós, eu a sua redenção, ela a minha última chance. Nada mais entre nós na sua Revelations, ainda hoje vive inteira e nua em mim. Quem? Diane Arbus: Uma fotografia é o segredo de um segredo. Quanto mais diz, menos você sabe. Acredito sinceramente que existem coisas que ninguém veria, se eu não as tivesse fotografado. DUAS: O POEMA DA LIBERDADE ERA ELA - Ela chegou com o desejo e o jogo de Ese puerto existe, os desastres das pulsões, a canção e a pintura existencial, transcendência e animalidade. Apenas ouvia sua voz sagrada de Luz de día, enquanto eu podia concebê-la na minha querência vadia, coisas além de morte e de vida. E nos permitimos os íntimos contatos pelas Valses y otras falsas confessiones em que éramos poesia e paixão, queda e incêndio, o tanto de surrealismo de sua alma lírica hispano-americana do Peru à Paris, de Florença à Washington, dela para mim e toda em mim. As lambidas na sua carne iam além do que sou nela e dela, os Ejercicios materialies se perdiam na sua insaciável feitiçaria para o Concierto animal. De mim, El falso teclado nos toques de suas delicadas securas, era além do que sou e podia, era ela. Quem? Blanca Varela: Acredito que a coisa mais importante, o maior presente que pode ser dado a alguém que você ama, é dar a ele a capacidade de escolher o que ele quer, dar-lhe liberdade. TRÊS: A DEUSA ÍTTALA - Quando a vi em um gesto por outro, havia ainda o alarde do Bandido da Luz Vermelha, e ela era a dama de ferro na minha adolescência Pirangi. Desde então sabia que todos os seus milagres estavam desde onde a arte não dormia com as memórias das vivências, anotações, era sempre domingo o retrato de uma deusa. Se eu crescia nem sabia do sonho de Vesta escritos com a alma colegial, eu só a tinha nua, amor e traição. Comigo os sonhos e ela pronta para a caçada de nossa Sagarana, nua tantas vezes e eu me deliciava no teatro, no cinema, na vida: era o amor em campo minado. Eu me valia das possessões, a rainha nua da minha comédia, o amor de meu DNA e esse tempo de desamor na nossa esperança. Quem? Ittala Nandi: Há quem ache que essas minhas histórias são de verdade e há quem duvide. Eu não confirmo nem desminto. A gente conquistou, por exemplo com a pílula, uma liberdade sexual muito avantajada. Porém, a gente perdeu o amor. Estamos vivendo no governo Bolsonaro, ou Bolsolini, como eu gosto de chamar, a falta de amor. Esse é grande problema. Só tem ódio, liberação de armas, menos dinheiro para a educação… O golpe de 64 era político. Este é afetivo. É um problema da perda do amor… Só nos resta amar antes que seja tarde. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Ele não descansará enquanto não estiver constantemente seguro também em sua posição como mestre de sua vida interior mais pessoal. Ele sentirá a necessidade de monitorar suas leituras, suas amizades, seus interesses fora de casa. Essa tendência semiconsciente, que é, em muitos casos, meramente sugerida pela tradição, continua a fazer incontáveis maridos hoje, desconfiados de toda séria ambição por parte das mulheres para serem ativas além dos limites da casa. [...]. Trecho da obra Max Weber: uma biografia (Casa Jorge, 2003), da escritora e feminista alemã Marianne Weber (1870-1954), esposa do biografado que a tratava por Frau Schnitger, autora de uma autobiografia e vários outros livros sobre problemas femininos, expressando-se: A moderna, mulher intelectualmente desperta certamente não precisa remover o ideal de dona de casa alemã do templo, no qual ela presta homenagens do seu próprio esforço. Obviamente, isso deve manter sua validade e poder para todas as gerações futuras. Mas nós destruímos seu poder negativo como um valor absoluto e como uma meta exclusiva de desenvolvimento para o sexo feminino, porque ele sufocou nosso desenvolvimento como seres intelectuais e espirituais e, em geral, nossos poderes humanos e característica comuns. Veja mais aqui e aqui.

CARO COLEGA DO FUTURO – [...] No exercício de minha profissão, encontrei indícios, vestígios, e propus hipóteses sobre como vivia o Homem do passado, como usava suas ferramentas, como preparava suas armas. [...] escrevo-lhe como se estivesse dirigindo-me a um Homem. E escrevo-lhe com a emoção de um Homem. Um Homem desse início de século que nos abriga. [...] No início, todos os Homens viviam como caçadores-coletores. Para adquirir conhecimento e conviver com as outras espécies da natureza, para sobreviver com os parcos recursos biológicos que tinham, esses Homens necessitavam de grande coesão social. O saber era passado dos adultos para os jovens, igualmente. Sabiam que não podiam ter proles numerosas porque, ao contrário dos outros animais, o filhote humano levava anos para aprender e ser capaz de sobreviver só. Todos executavam todas as tarefas, todos eram iguais. Os chefes comandavam com base em sua força física, que, como todos os recursos biológicos, nasce, atinge seu apogeu e definha. Assim, um chefe exercia seu poder durante um tempo limitado, até que um outro membro da tribo, mais jovem, mais forte, o suplantava. Os Homens temiam a natureza, reconheciam seu poder, um poder que, para eles, emanava de entidades sobrenaturais. E essas entidades sobrenaturais comandavam as águas, os ventos, o fogo, os astros. Seres que viviam por sua conta e cuja passagem pela vida dos Homens era eventual. Os espíritos! Em um momento dado de nossa história, alguém imaginou como fazer para garantir um poder mais duradouro, que não dependesse unicamente dos recursos biológicos. Como a morte é um fenômeno que assusta a todos os animais, esse alguém imaginou uma história que tratava do além, da existência de seres sobrenaturais, da boa vontade dos quais dependeria a vida e o destino pós-morte de todos os Homens. Os Deuses! Nesse momento começaram a se diferenciar os Homens. Aqueles que somente sabiam conviver com a natureza, que dependiam de sua força para sobreviver, e aqueles que tratavam com os deuses: os sacerdotes. Os últimos, constituíam uma casta privilegiada, com poder assegurado. Com o poder assegurado, não tinham mais que enfrentar a vida difícil do dia-a-dia, pois recebiam dádivas daqueles que não tinham o poder de tratar com as divindades. Mas como os Deuses eram muitos, havia a possibilidade de tratar com seus intermediários, e o poder se diluía. Como concentrá-lo, então? Como colocar mais elementos de uma família, de um clã, no exercício do poder? Novamente um gênio inventou outra forma de poder. Os Deuses escolhiam e davam a um homem o poder para que ele fosse o chefe de todo seu grupo. E esse privilégio passava de pai a filho. Nasceram, assim, as dinastias. O poder concentrava-se cada vez mais. As sociedades começaram a crescer além dos limites permitidos pela natureza, pois, para que alguns pudessem viver sem fazer nada, além de falar com os Deuses e dar ordens a seus súditos, para que pudessem viver em palácios, mergulhados em rendas e comendo iguarias, deveriam existir milhões de escravos, trabalhando para ter direito ao pão, à água e à procriação, engendrando muitos futuros escravos. Templos, túmulos monumentais e palácios, sempre exigiram multidões de escravos para serem construídos e mantidos. Com o aparecimento da escrita, das castas, o saber ficou concentrado naqueles que dominavam. Não era mais todos ensinando a todos. Assim, começaram a aparecer as classes cultivadas e os ignorantes. Sempre poucos letrados para muitos ignaros. E depois? Depois, um novo passo foi dado para concentrar e tornar o poder definitivamente esmagador. Um espírito genial criou o Deus único, engendrou o monoteísmo. Concentrou-se o poder em um homem que representava Deus, infalível, cuja palavra deveria ser seguida sem discussões. Em torno dele toda uma corte, formando uma estrutura triangular, sempre poucos no alto, muitos na base. O judaísmo, o catolicismo, o islamismo, o protestantismo. Cada grupo inventando seu próprio Deus, único, o certo, o bom, o que devia ser adorado. Quem nele não acreditasse, deveria ser exterminado. Poder religioso e seu derivado, o poder civil, nunca se dissociaram. Juntos escreveram páginas com o sangue de todos os que se rebelavam e poderiam representar a menor ameaça a esse estado de coisas. Assim, durante milênios, a sociedade humana acostumou-se com as guerras, com o extermínio dos que pensavam diferente, dos que não queriam se submeter e ser escravos. Guerras pelo domínio das terras e dos povos, das riquezas do mundo. Guerras e perseguições contra os que negavam ou duvidavam do poder divino. Os que falavam da bondade de Deus, de sua misericórdia, eram os que torturavam, mantinham em masmorras e matavam os que ousavam duvidar de sua palavra. Mesmo aqueles que não duvidavam, mas que representavam uma presa interessante, pela sua fortuna, por sua mulher, por suas terras, também eram perseguidos, eliminados. E como o Poder nunca se sacia, quanto mais baixo encontrava-se o Homem na escala social, mais filhos deveria produzir. Sempre com a idéia de que, para sobreviver, necessitava de muitas mãos, mãos que o ajudariam a trabalhar e, mais e mais, agradar ao Poder. Assim vimos Homens torturando, matando, chacinando outros Homens. Vimos a Idade Média, a Inquisição. A invasão das Américas e o aniquilamento de milhões de seres humanos que compunham os primeiros povos, que partilhavam as terras com todas as outras espécies, que viam o verde das matas e escutavam a algaravia dos bichos. Em um dado momento, alguém se lembrou de um tipo de governo que havia existido em um pequeno país, criador de uma civilização, onde a cultura era difundida e o povo tinha suas tradições, a democracia. Imediatamente, esse alguém pensou nas possibilidades que ela abriria se fosse implantada em países com elites cultas e massas incultas. O povo acreditou que estava elegendo seus representantes. E, assim, o Poder, ao invés de ter que contentar milhões, teve unicamente de enriquecer, dar empregos e acanalhar os representantes desses milhões, algumas centenas de cidadãos que passaram a integrar um novo Poder. Assim nasceram os políticos, prometendo uma vida maravilhosa para os que nele votassem, mas pedindo que esquecessem o que haviam escrito ou prometido no instante em que se viram investidos de Poder. Vimos agir o nazismo, o fascismo, o comunismo. Homens sendo assassinados em câmaras de gás, fuzilados, torturados. Hiroshima e Nagasaki. Os brancos rejeitando os negros e os amarelos, os negros rejeitando os brancos e os amarelos, os amarelos rejeitando brancos e negros. Os capitalistas. As classes trabalhadoras. E cada vez mais os donos do Poder aprimoravam-se. A transmissão do saber, que havia sido concentrada, que havia passado da Igreja para a Universidade, formando jovens capazes de pensar e protestar, tinha de ser demolida. E a Universidade foi destruída. Ao invés do saber, ofereciam-se diplomas. O Poder concentrou-se na tecnologia. Os tecnocratas, sem pensar em algo mais sofisticado, menos simplista, ativeram-se apenas às operações necessárias para conseguir que uma máquina executasse uma tarefa específica, que o computador resolvesse determinado problema. Tudo orquestrado para que a necessidade de consumo aumentasse a cada instante, e mais impostos fossem pagos. Impostos que garantiriam educação para seus filhos, saúde para a família, estradas, cidades limpas e seguras, o direito ao lazer. E o Poder recebia os impostos e decidia o que fazer com eles, mudando seus destinos, oferecendo escola de péssimo nível, saúde que significava morte mais rápida, bandidos ameaçando a todos. O Poder podia solicitar empréstimos, aceitar juros extorsivos, quando precisava de dinheiro para uma fantasia qualquer, como construir uma capital nova! Mas quem pagava os empréstimos, mais os juros, era o povo, cujos filhos já nasciam com uma dívida enorme. O rosário de sandices continuou: abriram a possibilidade para que o Homem fosse diferente dos outros animais de sua família. O Homem poderia viver mais do que seus primos macacos. Que felicidade... Para viver mais, trabalharia mais, e manteria todo o sistema necessário, com isso continuaria arrastando seus males pelo mundo. Num mundo onde só existia espaço para a arrogância, as outras espécies passaram a existir apenas em função das necessidades do Homem. Os animais eram torturados, viviam em pânico, aterrorizados. Por quê? O porquê de tanta atrocidade? É isso que está me perguntando, meu caro colega do futuro? Apenas para produzir mais e para nutrir a espécie que se fez dominante. E não parou por aí, não: milhares e milhares de espécies vegetais foram destruídas, dando lugar apenas àquelas que interessavam ao Homem. Animais e plantas foram modificados geneticamente para aumentar a produtividade. Isso, apesar de continuarem pregando que Deus havia criado o mundo, e tudo o que existia sobre a face da Terra. O Homem corrigia e melhorava o que Deus havia feito! Para culminar, decidiram que nem mesmo os filhos poderiam substituir os pais. O amor ao Poder era tal que criaram a técnica da clonagem, e cada um foi substituído por si mesmo. A reprodução e os riscos de ver nascer um filho que não fosse digno de seu patrimônio ficou relegada aos que não tinham meios para se auto-reproduzir. Destruíram, meu caro colega, a beleza do mundo, o prazer da vida. As primeiras sociedades humanas, pouco numerosas, eram solidárias. A generosidade da natureza podia manter todos saudáveis. As sociedades humanas no início desse nosso século são compostas por bilhões de pessoas. Sociedades, na sua grande maioria, doentes, solitárias. A natureza foi destruída. Todo o alimento tem de ser comprado. A água tem de ser comprada. Os dons da natureza, hoje, têm seus donos: o Poder. O Poder, sob suas inúmeras formas. A competição é a regra da vida, e todos os Homens, mesmo sem ter consciência, odeiam seus semelhantes, potenciais competidores. E a eles atribuem a culpa de não poderem viver melhor. E o que aconteceu com o Homem? É isso que está querendo saber agora, meu caro colega? Infelizmente, não poderei lhe responder a essa pergunta. Parti há muito. Mas tenho algumas curiosidades a respeito do seu tempo. Me diga: o Sol que o aquece agora é o mesmo que vejo brilhar lá fora, ou ele foi substituído por algo artificial? As geleiras dos Pólos degelaram e invadiram territórios hoje ocupados por populações costeiras? O que restou da camada de ozônio? Ela ainda existe? E a Floresta Amazônica, o que foi feito dela? Esvaiu-se em fogo e fumaça? A caatinga sobreviveu? Ou você nunca ouviu falar sobre ela? Você já ouviu falar em macaco-prego? Já ouviu falar em veados-galheiros, vaga-lumes, bem-te-vis? Em tamanduás? Em tatus, araras azuis e vermelhas, sapos, morcegos, onças, cobras, beija-flores, sabiás? Já conjugou o verbo sonhar, sorrir, acreditar? E as mentes? Conseguiram eles, por fim, dominar todas as mentes? Nesse instante, caro colega do futuro, estendo o meu olhar pelo vastidão do que ainda é um pedaço do paraíso - um pedaço do paraíso chamado Serra da Capivara -, que Poderes nada ocultos insistem em ignorar, em destruir, e entrego-lhe este texto para que continue a contar como prosseguiu a nossa história, a história de todos nós. Uma história que, por séculos e séculos, tem sido de amargura, aflição e terror. Trechos da Carta de uma arqueóloga do presente (Carta Maior, 2004), da arqueóloga Niède Guidon, conhecida mundialmente por lutar pela comprovação de sua teoria e preservação do parque Nacional da Serra da Capivara.

UM TEXTO DE ALBA BRITO
[...] creio que estamos num lodo tão horroroso que a questão me parece anterior a monogamia ou a não-monogamia, falando de um relacionamento hétero: há um abismo entre os gêneros. Uma lacuna profunda, aonde uma parte se RESPONSABILIZA EMOCIONALMENTE e a outra não. E isto está tão encrustado e ainda há tanto medo da generalização por parte dos homens-cis que eles permanecem a reproduzir velhos padrões com nomes, talvez, mais moderninhos, como é o caso do AMOR-LIVRE, só que, na prática os caras não sabem AMAR ou na real, nem se interessam por isso. Então eles se defendem e buscam novos nomes, quando na verdade é preciso mudar a postura, a visão, A AÇÃO! Vejo muito mulher maravilhosa adoecendo pois acredita na palavra que é dita, porém os caras blefam coletivamente e a ação está longe de representar a fala. Aí reside o PROBLEMA: uma construção social aonde a mentira impera, aonde a mulher é descartável, aonde o cuidado e o respeito é esporádico. Muitos homens que não bancam uma relação a dois, monogâmica, dizem bancar e traem. Muitos homens ainda colocam em prática a ideia de que uma determinada mulher é pra casar e outra não, entende-se casar aqui como : uma mulher merece “respeito” e outra não. Enfim, muitos propõem relações não monogâmicas aonde a terceira ou quarta pessoa é completamente descartável (e não sabem disso e aí as mentiras aparecerão para que essa coisa mentirosa continue). Ao meu ver vale tudo, desde que sua fala represente sua ação! Quer meter e somente meter loucamente: seja claro! Se apaixonou? Assuma! Quer devorar a pessoa e não dividir com mais ninguém, embarque! Enfim, tira a máscara e a roupa e seja quem você realmente É. Um grande beijo.
ALBA BRITO - Texto da atriz, cantora, compositora, contadora de histórias, artista-educadora e animadora de festas Alba Brito, que é formada pela Escola Livre de Teatro de Santo André, Técnico em Música – canto popular – pela ETEC de Artes. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A chave para a fotografia artística é elaborar seus próprios pensamentos, por si mesmos. A imitação leva a um certo desastre.
GERTRUDE KÄSEBIER - A arte da fotógrafa estadunidense Gertrude Käsebier (1852-1934), conhecida por suas imagens da maternidade, seus retratos de nativos americanos e sua promoção da fotografia como uma carreira para mulheres. Veja mais aqui & aqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER PERNAMBUCANA
RANÚSIA ALVES RODRIGUES
A ativista política Ranúsia Alves Rodrigues (1945-1973), era estudante universitária de enfermagem da UFPE e foi assassinada na Chacina de Jacarepaguá ou da Praça da Sentinela, durante a ditadura militar. A sua certidão de óbito foi negada e o seu corpo foi encontrado enterrado como indigente. As informações do Exército dão conta que ela e seus companheiros eram seguidos desde o dia 8 de outubro, sendo presos na manhã do dia 27, quando com ela teria sido encontrada farta documentação política e que sua morte fora resultado de resistência à prisão e consequente tiroteio.
Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido, do educador, pedagogista e filósofo Paulo Freire (1921-1997) aqui & aqui.
Arrelique de Ozi dos Palmares aqui.
Glosas sertanejas do poeta-vaqueiro Luís Dantas Quesado (1850-1930) aqui.
Mistura heterogênea de Sylvia Beltrão aqui.
Frevo, de Márcio Melo aqui.
Abelhas de Cupira aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


terça-feira, março 14, 2017

TEMBÉ, DIANE ARBUS, BENEDICTO LACERDA, FERDINAND HODLER, BIFFIGNANDI, CLODOMIRO AMAZONAS & LIGIA TOMARCHIO

PELOS CAMINHOS DA VIDA - Imagem: arte do pintor e restaurador Clodomiro Amazonas (1883-1953).- Quantos caminhos, a gente vê de tudo: um filme que se repete. De um lado, a paisagem da natureza, a imensidão do Universo. De outro, degradações, banalidades, conflitos. A gente até sorri, a despeito das caras fechadas, passos apressados, vidros escuros, portas cerradas. A qualquer demonstração de afeto, um chega pra lá. Quanta gente aniquilando nossa boa vontade. Quantas pessoas negativas, egoístas, destrutivas, a julgar de tudo e todos conforme sua insatisfação e desapontamento com suas próprias tribulações diárias; ignoram a dor alheia como se fosse castigo bem feito para ousados ou metidos, a caçoar de terem ido aonde não foram nem tiveram a capacidade ou coragem de ir; repulsam ao considerar que os outros deram um passo maior que a perna ou se engasgaram com sua felicidade trivial; e assim morrem de inveja ou levam na conta de que se não conseguiram, ninguém mais deve ou pode conseguir. Para fugir do remorso, pedem perdão de joelhos na primeira oportunidade pra mostrar aos outros o quão crédulos fervorosos são, enquanto o coração desfalece arruinado por sentimentos menores, disfarçados na sua volátil caridade. Existe gente pra tudo, infelizmente. Assim são e se negam aos objetivos proveitosos, quem dera encontrar alguém alegre, extrovertida, prestativa, cordial e solidária. Uma mão amiga, apenas, um abraço de coração. Ao contrário, condenam a guerra proclamando a paz, enquanto não percebem o quanto de gente é excluída, estigmatizada, ceifada; defendem a vida a qualquer custo e se omitem diante da injustiça; clamam por justiça e querem ser tratados melhor que os outros; exigem a felicidade pra si e os outros que sejam infelizes. Quantos caminhos, quanto atalhos e vielas, a gente vê de tudo. Quem dera o abraço amigo ensinasse a paz e o desejo intenso no empenho de uma vida criativa e plena. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

Curtindo box (4 cds) Benê, o flautista (Tratore, 2007), com a obra do compositor, flautista e maestro Benedicto Lacerda.

Veja mais sobre:
Aventureiros do Una, Maurice Merleau-Ponty, Carlos Heitor Cony, Castro Alves & Eugênia Câmara, Sergei Rachmaninoff & Yara Bernette, Amália Rodrigues, Jules Joseph Lefebvre, Wolfgang Petersen & Diane Kruger aqui.

E mais:
Autoestima aqui.
O pensamento de Karl Marx aqui, aqui e aqui.
Meu ensino de Jacques Lacan & Disco Friends aqui.
Quadrinhos, a nona arte aqui.
Os catecismos de Zéfiro & O Rol da Paixão aqui e aqui.
O pensamento de Parmênides de Eléia aqui.
O eleatas & Xenófanes de Colofão aqui.
Heráclito de Êfeso aqui.
Husserl & a fenomenologia aqui.
O pensamento de Pitágoras aqui.
O período naturalista do pensamento grego: Os Jônios & Anaxímenes aqui.
O pensamento jônico de Anaximandro aqui.
O pensamento de Benedetto Croce aqui.
O pensamento de Tales de Mileto aqui.
O Budismo aqui.
A pirâmide alimentar aqui.
Dos temores da infância aos arroubos juvenis, Estrella Bohadana, Nuno Ramos, Mariana Aydar & Leonid Afremov aqui.
O verbo no coração do silêncio, Ástor Piazzolla & Eduardo Isaac, Steve Hanks, Wassily Kandinsky & Eliane Potiguara aqui.
Pra quem só vê superfície, todo rio é sempre raso, Zygmunt Bauman, Maria Azova, Anna Ewa Miarczynska & Júlio Pomar aqui.
A vida solta no calor do coração, Teodora Dimitrova, Carlos Baez Barrueto, Claudia Rogge & Robert Delaunay aqui.
Os véus dos céus & o prazer do amor, Djavan, Luciah Lopez, Christine Jeffs & Kirsty Gunn aqui.
Escândalo do coroinha, Ferdinand Hodler, Aldine Müller, Helena Ramos & Zaira Bueno aqui.
Tolinho & Bestinha: quando tolinho bateu pino com o capeta granulado aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

A arte do ilustrador e quadrinista italiano Alessandro Biffignandi (1935-2017).

DESTAQUE: O INCÊNDIO UNIVERSAL E O DILÚVIO
Em tempos mui distantes, certo homem aproximou-se de uma criança que brincava sozinha. Deu-lhe uma tocha acesa e ordenou-lhe que a apagasse na água do rio, desaparecendo em seguida. A criança mergulhou a tocha no rio e este começou logo a arder. A princípio incendiou-se a água, depois a terra começou a levantar altas chamas. O fogo meteu-se por baixo do chão e foi irromper no terreiro de uma aldeia. Então a terra desabou nesse local. Uma mulher grávida escondeu-se com um menino no bananal, que não podia ser destruído pelo fogo. O incêndio aniquilou toda a humanidade. E edepois que o fogaréu se extinguiu os dois saíram de seu esconderijo. Na imensa coivara encontraram cinco raízes de mandioca, que guardaram cuidadosamente. Então choveu muitos dias e muitas noites, sem parar. Ambos sofreram muita fome. Por fim, a água foi baixando vagarosamente e quando a terra ficou descoberta, plantaram as raízes de mandioca. A mulher deu à luz uma menina; desta e do menino, ressurgiu a humanidade.
O incêndio universal e o dilúvio, lenda Tembé extraída da obra Mitos dos indios Tembé do Pará e do Maranhão (Sociologia, vol. III), de Curt Nimuendaju Unkel. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor suíço Ferdinand Hodler (1853-1918)
Veja mais aqui, aqui e aqui.

DEDICATÓRIA: LÍGIA TOMARCHIO
Pétalas se misturam ao ar / rodopiar de cores e odores / envolvem o espírito do amor / agora pleno, na surrealidade / de um momento saboroso. / Doce mel cresce no peito / coração explode em êxtase / não há fronteiras, nem céu e terra / apenas o sentimento maior que o ser./ E me calo, permaneço encantada / tal princesa adormecida de prazer. / Amor, agora sou sua / plena, entrego meu ser... / Quero voar com suas asas / ver com sua alma / sentir planar nossos corpos / nas nuvens róseas e floridas. / Deuses aprovam nossa união / anjos, das liras fazem sinfonia / murmuram as águas dos rios / chovem perfumes e pétalas / cânticos celestiais ouvimos / de pássaros errantes a nos observar / em coro nos juntamos a eles / na alegria e paz do instante... / Nosso momento de amor... (O amor)
A edição de hoje é dedicada à poetamiga Ligia Scholze Borges Tomarchio. Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Peace marchers (1962), da fotógrafa estadunidense Diane Arbus (1923-1971).
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

terça-feira, março 04, 2008

KAFKA, JOSÉ PAULO PAES, VOLTAIRE, DIANE ARBUS, GISELA PANKOW & DEMOCRACIA

 
A arte da fotógrafa e escritora estadunidense Diane Arbus (1923-1971).

PENSAMENTO DO DIA – O artista tem o poder de penetrar no âmago das coisas [...] capta essa ameaça de nossa existência, e é capaz de dar forma a esse perigo. [...]. Pensamento extraído da obra O homem e seu espaço vivido (Papirus, 1988), da neuropsiquiatria e psicanalista francesa Gisela Pankow (1914-1998). Veja mais aqui.


COMO É DIFICIL SER FELIZ - [...] Zadig convenceu-se de que o primeiro mês do casamento, como está escrito no livro do Zenda, é a lua-de-mel, e que o segundo é a lua-de-fel. Pouco tempo depois viu-se obrigado a repudiar Azora,que se tornara difícil de aturar, e procurou satisfação no estudo da natureza. “Ninguém é mais feliz – dizia ele, - que um filósofo que lê o grande livro aberto por Deus diante dos nossos olhos. São suas as verdades que descobre: alimenta e educa a alma, vive tranqüilo; nada receia dos homens, e sua meiga esposa não vem cortar-lhe o nariz.” Cheio destas idéias recolheu a uma casa de campo à beira do Eufrates, onde não se ocupava a calcular quantas polegadas de água correm por segundo sob os arcos de uma ponte, ou se no mês do rato cai uma linha cúbica de chuva a mais do que no mês do carneiro. Não cuidava de fazer seda com teias de aranha, nem porcelana com cacos de vidro, antes estudou sobretudo as propriedades dos animais e das plantas, não tardando a adquirir uma sagacidade que lhe apontava mil diferenças onde os outros homens viam só uniformidade. Certo dia passeando na orla de um bosque, viu aproximar-se um eunuco da rainha seguido de vários oficiais que pareciam tomados da maior inquietação, e corriam de um lado para outro como pessoas extraviadas em busca da maior preciosidade perdida. - Moço – perguntou-lhe o eunuco, - por acaso não viu o cachorro da rainha? Zadig respondeu modestamente: - Creio tratar-se de uma cadela e não de um cachorro. - Tem razão – volveu o eunuco. - É uma cachorrinha de caça que deu cria há pouco tempo; manqueja da pata dianteira esquerda e tem orelhas muito compridas. - Viu-a então? – Tornou o eunuco esbaforido. - Não – respondeu Zadig, - nunca a vi e nem mesmo sabia que a rainha tivesse uma cadela. Justamente nessa ocasião, por um capricho muito comum da sorte, o mais belo cavalo das coudelarias do rei fugira das mãos de um palafreneiro para as campinas da Babilônia. O monteiro-mor e todos os outros oficiais andavam atrás dele com tanta apreensão quanto a do eunuco atrás da cadela. O monteiro-mor dirigiu-se a Zadig e perguntou-lhe se não vira passar o cavalo do rei. - É o cavalo que melhor galopa - respondeu Zadig; - tem cinco pés de altura e os cascos muito pequenos; sua cauda mede três pés de comprimento e as rodelas do seu freio são de ouro de vinte quilates; usa ferraduras de prata de onze denários. - Que caminho tomou ele? Onde está? – perguntou o monteiro-mor. - Não sei – respondeu Zadig; não o vi nem nunca ouvi falar nele. O monteiro-mor e o eunuco ficaram certos de que Zadig tinha roubado o cavalo do rei e a cadela da rainha, e levaram-no à presença do grande Desterham que o condenou ao knut, e a passar o resto do seus dias na Sibéria. Mal havia terminado o julgamento, foram encontrados o cavalo e a cadela. Os juízes viram-se na desagradável contingência de reformar a sentença, mas condenaram Zadig a pagar quatrocentas onças de ouros por dizer que não vira o que tinha visto. Primeiro ele teve que pagar a multa, e só depois lhe permitiram defender a sua causa perante o conselho do grande Desterham onde falou nesses termos: - Estrelas de justiça, abismos da ciência, espelhos da verdade, que tendes o peso do chumbo, a dureza do ferro, o brilho do diamante e muita afinidade com o ouro: já que me é consentido falar diante desta augusta assembléia, juro-vos por Orosmade que nunca vi a respeitável cadela da rainha, nem o sagrado cavalo do rei dos reis. Aqui está o que me sucedeu: andava eu passeando pelo pequeno bosque onde depois encontrei o venerável eunuco e muito ilustre monteiro-mor. Percebi na areia pegadas de um animal, e facilmente concluí serem as de um cão. Leves e longos sulcos, visíveis nas ondulações da areia entre os vestígios das patas, revelaram-me tratar-se de uma cadela com as tetas pendentes, e que, portanto, devia ter dado cria poucos dias antes. Outros traços em sentido diferente, sempre marcando a superfície da areia ao lado das patas dianteiras, acusavam ter ela orelhas muito grandes; e como além disso notei que as impressões de uma das patas eram menos fundas que as das outras três, deduzi que a cadela da nossa augusta rainha manquejava um pouco, se assim posso me exprimir. “Quanto ao cavalo do rei dos reis, sabei que estando a passear pelos carreiros desse bosque, avistei as marcas das ferraduras de um cavalo, todas colocadas a igual distância. ‘Eis aqui – disse comigo, - um cavalo que tem o galope perfeito’. A poeira das árvores. Num caminho não mais de sete pés de largura, mostrava-se um pouco revolvida a direita e a esquerda, a três pés e meio do centro da rota. ‘Este cavalo – tornei a considerar nos seus movimentos para a direita e para a esquerda, varreu essa poeira’. Vi depois sob as árvores, que formavam um docel de cinco pés de altura, alguns ramos cujas folhas tinham caído recentemente, e concluí que o animal as roçara com a cabeça, tendo, portanto cinco pés de altura. Seu freio deve ser de ouro de vinte e três quilates, pois tendo batido numa pedra que verifiquei ser uma pedra de toque, pode em seguida identificá-lo. Enfim, pelas marcas das ferraduras deixadas em pedras de outra espécie, deduzi que estava ferrado com prata fina.” Todos os juízes admiraram o profundo e sutil discernimento de Zadig; a notícia chegou aos ouvidos do rei e da rainha. Só se ouvia falar de Zadig nas antecâmaras, nas salas e gabinetes; e embora alguns magos opinassem que ele devia ser queimado como feiticeiro, o rei ordenou que lhe devolvessem a multa de quatrocentas onças de ouro a que havia sido condenado. O escrivão, os oficiais de justiça e os procuradores foram a sua casa em grande aparato levar-lhe as quatrocentas onças, das quais apenas retiveram trezentas e noventa e oito para as custas do processo, além dos honorários reclamados pelos servidores. Zadig compreendeu que às vezes era perigoso ser demasiado sábio, e prometeu a si mesmo não tornar a dizer o que porventura houvesse visto. A ocasião não tardou a apresentar-se. Um prisioneiro do Estado tendo fugido, passou por baixo das janelas de sua casa. Zadig interrogada nada respondeu, mas provaram-lhe que ele havia olhado pela janela. Por esse crime foi condenado a pagar quinhentas onças de ouro, e ainda agradeceu a benevolência dos juízes, como é costume na Babilônia. – “Santo Deus! – Exclamou para si, - quanto é lastimável ir-se passear a um bosque onde passaram a cadela da rainha e o cavalo do rei! Como é perigoso a gente chegar à janela, e como é difícil ser feliz neste mundo.” [...]. Trecho extraído da obra Zadig ou o destino: história oriental (Saraiva, 1957), do escritor, dramaturgo e filósofo iluminista francês Voltaire (François Marie Arouet/1694-1778). Veja mais aqui e aqui.

O BRASÃO DA CIDADE - [...] No início tudo estava numa ordem razoável na construção da Torre de Babel; talvez a ordem fosse até excessiva, pensava-se demais em sinalizações, intérpretes, alojamentos de trabalhadores e vias de comunicação, como se à frente houvesse séculos de livres possibilidades de trabalho... O essencial do empreendimento todo é a idéia de construir uma torre que alcance o céu. Ao lado dela tudo o mais é secundário. Uma vez apreendida na sua grandeza essa idéia não pode mais desaparecer; enquanto existirem homens, existirá também o forte desejo de construir a torre até o fim... Cada nacionalidade queria ter o alojamento mais bonito, resultaram daí disputas que evoluíram até lutas sangrentas. Essas lutas não cessaram mais... As pessoas porém não ocupavam o tempo apenas com batalhas, nos intervalos embelezava-se a cidade, o que entretanto provocava nova inveja e novas lutas... A isso se acrescentou que já a segunda ou terceira geração reconheceu o sem-sentido da construção da torre do céu, mas já estavam todos muito ligados entre si para abandonarem a cidade. [...] Trecho extraído da obra O brasão da cidade (Folha de São Paulo, 1993), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Veja mais aqui.

INUTILIDADES – Ninguém coça as costas da cadeira. / Ninguém chupa a manga da camisa. / O piano jamais abandona a cauda. / Tem asa, porém não voa, a xícara. / De que serve o pé da mesa se não anda? / E a boca da calça, se não fala nunca? / Nem sempre o botão está na sua casa. / O dente de alho não morde coisa alguma. / Ah! Se trotassem os cavalos do motor... / Ah! Se fosse de circo o macaco do carro... / Então a menina dos olhos comeria / Até bolo esportivo e bala de revólver. Poema do poeta, ensaísta, jornalista e tradutor José Paulo Paes (1926-1988). Veja mais aqui.


A arte da fotógrafa e escritora estadunidense Diane Arbus (1923-1971).


DEMOCRACIA – A democracia, com base nos ensinamentos de Ignácio da Silva Telles, é uma palavra oriunda do grego "Demos", que quer dizer distrito, país, região, aldeia; quanto povo, povo simples, habitantes, homens livres; e "Cratos", que significa força, capacidade, potencialidade. O seu significado também abrange poder político, regra, lei, uma autoridade, um governo. Etimologicamente democracia significa poder, lei ou governo do povo; ou pelo povo; ou para o povo. E uma outra definição se baseia em três idéias básicas: liberdade, igualdade e regime de representação política do povo. A partir disso, observa-se que a democracia já se manifestava na Grécia antiga, por volta do séc. V a.C., caracterizada pelo próprio povo legislando e as pessoas exercendo as leis emanadas do povo. Ao longo dos tempos vários filósofos, cientistas e estudiosos se debruçaram sobre o desenvolvimento da democracia, desde Aristóteles e Platão, na antiga Grécia, como Thomas Hobbes, Imanuel Kant, Montesquieu, Jean-Jacques Rousseau, Aléxis Tocqueville, até Georges Burdeau e Norberto Bobbio, dentre outros.
A democracia já suscitou estudos na Grécia antiga quando os sofistas consolidaram as discussões em nível teórico, tendo se manifestado, segundo Nelson Sandanha, desde a efêmera república hebraica do sinédrio. Na Grécia antiga Platão expressara que a democracia era adoção de um sistema em que o povo seja autor das leis de sua sociedade. Também Aristóteles, no mesmo período, defendia que "não será legítimo o governo senão quando é exercido em proveito dos governados e não apenas em proveito dos governantes". Querendo dizer que a democracia deve estar voltada para a realização do bem comum e para legitimar-se, representando a todos, seja em que nível for, seja nos anseios que se pautar. Neste sentido, ele distingue a oligarquia da democracia, estabelecendo que: O argumento parece mostrar que o número de integrantes do governo, seja ele pequeno como em uma oligarquia ou grande como em uma democracia, é acidental devido ao fato de que os ricos, em qualquer lugar, são poucos, enquanto os pobres são numerosos. Portanto (...) a diferença real entre democracia e oligarquia é a pobreza e a riqueza. Onde quer que os homens governem devido à sua riqueza, sejam eles poucos ou muitos, há uma oligarquia, e onde os pobres governem, há uma democracia. Desta forma, defende o autor que a democracia é o governo constitucional, enquanto a oligarquia é o governo da aristocracia e a tirania é a perversão da monarquia. Para ele ao povo só é licito fazer as leis, as quais necessariamente visam o geral. E a este respeito M. I. Finley observa que: Na antigüidade, os intelectuais, em esmagadora maioria, desaprovavam o governo popular e apresentaram um grande número de explicações para sua atitude e uma variedade de propostas alternativas. Hoje seus congêneres, em especial os do ocidente, mas não apenas estes, concordam, provavelmente na mesma esmagadora proporção, que a democracia é a melhor forma de governo, a mais conhecida e a melhor que se possa imaginar. Contudo, muitos também concordam que os princípios que tradicionalmente a justificaram, na prática, não estão funcionando. Observa-se, com isso, que o regime democrático desenvolvido na Grécia antiga adotou o conceito de um sistema de governo do povo, pelo povo e para povo, recebendo críticas tanto de Aristóteles quanto de Platão.
No período republicano de Roma, assinala M. I. Finley e Nelson Saldanha que houve instituições que podem ser consideradas de tipo democrático com movimentos sociais no sentido de atender as reivindicações igualitaristas,
Na Idade Média, George Burdeau, John Dewey e Nereu Corrêa observam que ocorreu um período em que os diversos povos do ocidente estavam organizados em monarquias e voltados para a ordem social feudal, também pode ser registrado a existência de concepções igualitaristas dentro das heresias religiosas que contestavam as estruturas vigentes.
Na época moderna, G. Jorgensen e Nelson Saldanha registram que mesmo sob a vigência do absolutismo monárquico, ocorreram revoluções liberais combatendo a concentração de poder. E é a partir do Renascimento que Thomas Hobbes identifica a democracia como uma assembléia de todos os que se uniram, mesmo sendo ele o criador da teoria que fundamenta o Estado Soberano com poderes ilimitados e defendendo que este se enfraqueceria com a separação dos poderes. Mais adiante, John Locke, um dos clássicos do liberalismo político, defendeu que todos os homens são livres, iguais e independentes por natureza, e que estes reunidos na constituição de uma comunidade ou governo, são incorporados e formam um corpo político no qual a maioria tem o direito de agir e resolver por todos. Neste sentido, propôs uma articulação entre a igualdade e a liberdade naturais dos homens, dentro do direito individual num governo limitado pelo consentimento e na supremacia da lei, na defesa do regime representativo com separação dos poderes, supremacia da sociedade sobre o governo e a exigência da limitação do poder soberano baseado nos direitos individuais. Foi o filósofo e moralista francês Montesquieu que formulou os princípios fundamentais da democracia moderna ao estabelecer os critérios do governo republicano fundamentado na virtude e das leis relativas à democracia, estabelecendo que o povo como um todo possui o poder soberano, assinalando “(...) uma lei fundamental da democracia que só o povo institua as leis” e a liberdade política garantida pelos poderes fundamentais do Estado: executivo, legislativo e judiciário. Em seguida, o pensador jusnaturalista contratualista francês, Jean-Jacques Rousseau, traz a idéia de que a democracia está sedimentada na construção coletiva da igualdade e da liberdade garantida pelo ideal republicano. No entanto, este defendia a democracia no sentido de que sua existência só é possível quando a comunidade diretamente e sem intermediários tomar as deliberações, sendo, portanto, adversário do modelo democrático representativo por colidir com a lei natural pelo fato da maioria governa minoria. Observa-se, portanto, que desde os ideais do Iluminismo e mesmo depois com pensadores como Hegel, Comte, Marx e Spencer, todos sintetizaram os ideais democráticos na bandeira da bem-aventurança e nos princípios de liberdade e igualdade. Dentre eles havia uma associação de idéias, apesar dos posicionamentos díspares, de que a democracia seria o atendimento real de todas as necessidades humanas. Já Alexis de Tocqueville defendia que as leis da democracia tendem ao bem do maior número, pois emanam da maioria dos cidadãos tendo em vista esta ser um atributo do Estado caracterizada na liberdade e igualdade dos cidadãos. No entanto, ele sinalizava para uma antinomia entre igualdade e liberdade, sob o argumento de que numa estrutura social formada pela primeira suprimirá a segunda totalmente. Isto é, se fundamenta na igualdade de todos e todos devem ser iguais, alguns requererão mais igualdade, e sob essa condição suprimirão a liberdade de alguns. Mais amiúde: se ricos requererem igualdades entre eles próprios, suprimiriam a liberdade de quem não esteja tal qual eles, visto que excluiriam, como ainda hoje excluem quem não se encontre entre as classes abastadas, formando verdadeira segregação. Tal observância é considerada por Georges Burdeau ao observar que: Racionalmente e de fato, a democracia está indissoluvelmente ligada à idéia da liberdade. (...) É um sistema de governo que tende a incluir a liberdade na relação política, isto é, nas relações entre mando e obediência. A autoridade subsiste, sem dúvida, mas de tal maneira conduzida que fundamentada na adesão daqueles que lhe são sujeitos, permanece compatível com a liberdade. Esta condução leva a entender que nem sempre a liberdade está associada à igualdade, quando se postula, contudo, que ambas devam estar juntas para gerar o princípio democrático. No entanto, é conveniente anotar que na França, por exemplo, a democracia foi utilizada apenas para unir o terceiro estamento francês às suas elites durante a revolução, ou seja, aliar a burguesia ao clero e à aristocracia, servindo então à igualdade proferida por Aléxis de Tocqueville que era identificado mais como liberal do que democrata, prezando pela liberdade e igualdade. Por esta razão, G. Jorgensen defende que o princípio democrático está assentado no: (...) processo geral do desenvolvimento tendendo sempre ao maior igualamento das liberdades para sempre mais dilatadas esferas da população. (...) a democracia pode ser conceituada como processo no sentido de igualamento e da libertação. Entende-se, assim, que a democracia é o tipo de governo onde os cidadãos dotados de direito e representando o povo ou a totalidade da população reconhecida nos costumes e na lei, participa efetivamente do controle e das decisões políticas da coletividade. Na esteira de tal análise, encontram-se as idéias expressas por J. A. Schumpeter entendendo a democracia como um método que legitima a competição pela liderança, dando direito a livre concorrência pelo voto e pelo poder e um sistema institucional destinado à tomada de decisões políticas, marcadas por lutas competitivas pelo poder que permite a escolha da liderança em eleições livres e voto livre. Neste sentido, o autor define que o modelo democrático está assentado no mecanismo de escolha e autorização dos governos, a partir da existência de grupos que competem pela governança, associados em partidos políticos e escolhidos por voto; na função dos votantes que não é a de resolver problemas políticos, mas a de escolher homens que decidirão quais são os problemas políticos e como resolvê-los – a política é uma questão de elites dirigentes; na função do sistema eleitoral em criar o rodízio dos ocupantes do poder, tendo como tarefa preservar a sociedade contra os riscos da tirania; no modelo político baseado no mercado econômico fundado no pressuposto da soberania do consumidor e da demanda que, na qualidade de maximizador racional de ganhos, faz com que o sistema político produza distribuição ótima de bens políticos; e na natureza instável e consumidora dos sujeitos políticos obrigando a existência de um aparato governamental capaz de estabilizar as demandas da vontade política pela estabilização da "vontade geral", através do aparelho do Estado, que reforça acordos, aplaina conflitos modera as aspirações. Com isso, para o autor mencionado, o papel do povo é formar o governo diretamente ou através de um corpo intermediário e também de dissolvê-lo. Isto significa a aceitação de um líder ou de um grupo de lideres, uma vez que a função do voto é eleger a liderança, o voto é a marca da aceitação. Já para Anthony Downs entende que a democracia é entendida sob a ótica da teoria da escolha racional, como o método importante para se ter à estabilidade necessária para a racionalidade. Para ele, então, é fundamental a liberdade de expressão, de criticas e de opinião que devem ser respeitadas e fazem parte do jogo político. Na ótica de Robert Dahl, a democracia é o regime de governo que garante aos cidadãos formular, expressar e ter suas preferências consideradas sem discriminação, onde existem instituições democráticas que lhe proporcionam estas funções. Por esta razão, defende ele que a democracia é um regime que lida com conflitos de interesses, oposição, participação, mas que garante as preferências da maioria sem desprezar os interesses da minoria, a relação entre liberalização e inclusividade permite um equilíbrio democrático de opiniões. Desta feita, assinala que a democracia é um regime regulador de conflitos, onde o governo possui o papel de mediador e, por esta razão, defende o autor o modelo poliárquico que a seu ver para isso é fundamental a participação do cidadão e a presença das instituições democráticas para o processo de democratização nas democracias. Chega-se a esta altura dos estudos que o termo democracia é tão rico possibilitando a criação de incongruências conceituais que são levantadas pelo cientista político Norberto Bobbio ao mencionar que "entende-se por democracia quando o poder não está nas mãos de um só ou de poucos, mas de todos, ou melhor, da maior parte". E acrescenta que: Definição mínima de democracia, segundo a qual, por regime democrático, entende-se primariamente um conjunto de regras de procedimento para a formação das decisões coletivas, em que está prevista e facilitada a participação mais ampla possível dos interessados. (...) Se se inclui no conceito geral de democracia a estratégia do compromisso entre as partes através do livre debate para a formação de uma maioria, a definição aqui proposta reflete melhor a realidade da democracia representativa, pouco importando se se trata de representação política ou de interesse, que a realidade da democracia direta: o referendum, não podendo colocar os problemas a não ser sob a forma de excludência, de escolha forçada entre duas alternativas, obstaculiza o compromisso e favorece o choque, e exatamente isto é mais adequado para dirimir controvérsias sobre princípios do que para resolver conflitos de interesse. Vê-se, portanto, a existência de modelos democráticos conferindo uma tipologia específica, tais como a democracia de natureza direta, semidireta e representativa.
A democracia direta é compreendida, conforme Norberto Bobbio, como a "participação de todos os cidadãos em todas as decisões a eles pertinentes". Isto é, a seu ver para que exista uma democracia direta no sentido próprio da palavra, onde o indivíduo participa ele mesmo nas deliberações, é preciso que entre indivíduos deliberantes e a deliberação não exista nenhum intermediário. Com isso, os institutos da democracia direta no sentido próprio da palavra são dois: a assembléia dos cidadãos deliberantes sem intermediários e o "referendum". No entanto, com base nisso deduz-se que nenhum sistema complexo como é o de um Estado moderno pode funcionar apenas com um ou com outro, e nem mesmo com ambos conjuntamente, porque em decorrência da vastidão do território, do número de habitantes e da multiplicidade dos problemas que devem ser resolvidos, não é possível a democracia direta devendo-se então recorrer à democracia representativa.
A democracia representativa foi idealizada pelo abade Emmanuel-Joseph Siéyes ao propor a unidade da nação e do Terceiro Estado, este último representando o povo. E é vista por M. Duverger como aquela que apresenta a democracia como um sistema representativo em que o cidadão escolheria seus representantes para legislar e governar em seu nome: Uma vez que os cidadãos, pessoalmente, não podem participar do governo, designarão entre eles seus representantes, os quais constituirão, e somente eles, a Assembléia Nacional de onde vem o nome de democracia representativa. Já Norberto Bobbio conceitua como sendo a democracia representativa: As deliberações coletivas, isto é, as deliberações que dizem respeito à coletividade inteira, são tomadas não diretamente por aqueles que dela fazem parte mas por pessoas eleitas para essa finalidade (...) As democracias representativas que conhecemos são democracias nas quais por representante entende-se uma pessoa que tem duas características bem estabelecidas: na medida em que goza da confiança do corpo eleitoral, uma vez eleito não é mais responsável perante os próprios eleitores e seu mandato, portanto, não é revogável; e, não é responsável diretamente perante os seus eleitores exatamente porque convocado a tutelar os interesses gerais da sociedade civil e não os interesses particulares desta ou daquela categoria. Mediante tais colocações é conveniente abordar que além da direta e da representativa, ainda se encontra a tipologia democrática semidireta ou participativa que, conforme Anderson Sant’Ana Pedra é aquela que identificada como participativa, caracterizada pela “(...) pela coexistência de mecanismos da democracia representativa com outros da democracia direta (referendo, plebiscito, revogação, iniciativa popular e etc.)”. Entende ele que ela é assim denominada de semidireta porque além da representatividade do sistema político, admite, também, a utilização intervencionista que compreende o referendo, o plebiscito, o veto popular, a iniciativa popular e o recall na direta ação dos governados em certas deliberações dos governantes. Defende ele que a democracia representativa não encontra legimitidade no Estado Moderno, principalmente no Brasil, pela insatisfação dos representados face ao comportamento dos seus representantes, que, em regra, se comportam como substitutos do povo. Já Maria Victoria Benevides traz a tipologia da democracia republicana, conceituando-a como o regime da soberania popular, fundada no exercício da liberdade, no respeito à res pública - isto é, ao que é comum a todos e insuscetível de apropriação provada - e na afirmação da igualdade. Por fim, encontra-se que, remontando os estudos até agora realizados, Aristóteles já na antiga Grécia defendia que o carro-chefe da sociedade não poderia ser entregue ao povo em todas as suas funções e minúcias, pois, a existência de um grupo pensante e elitizado é fundamental para que a condução ao menos pragmática da sociedade fosse mantida, o que remonta a idéia de que a democracia, com sua ênfase da palavra, jamais poderia existir. Em Jean-Jacques Rousseau há a perspectiva de que "(...) uma verdadeira democracia jamais existiu nem existirá", argumentando que "(...) se existisse um povo de deuses, governar-se-ia democraticamente. Mas um governo assim perfeito não é feito para os homens". Tal assertiva rousseauneana traz a dimensão utópica que se encontra impregnada no princípio de conceituação democrática. Nesta discussão, Norberto Bobbio assinala que: As transformações da democracia sob a forma de promessas não cumpridas ou de contraste entre a democracia ideal tal como concebida por seus pais fundadores e a democracia real em que, com maior ou menor participação, devemos viver quotidianamente (...) daquelas promessas não cumpridas - a sobrevivência do poder invisível, a permanência das oligarquias, a supressão dos corpos intermediários, a revanche da representação dos interesses, a participação interrompida, o cidadão não educado ou mal-educado - algumas não podiam ser objetivamente cumpridas e eram desde o início ilusões; outras eram, mais que promessas, esperanças mal respondidas, e outras por fim acabaram por se chocar com os obstáculos imprevistos. Todas são situações a partir das quais não se pode falar precisamente de degeneração da democracia, mas sim da adaptação natural dos princípios abstratos à realidade ou de inevitável contaminação da teoria quando forçada a submeter-se às exigências da prática. Também Robert Dahl observa que a democracia em seu ponto máximo não existiu em nenhum regime atual ou contemporâneo e que o ideal democrático se parece muito com conceito de "tipo ideal" proposto por Max Weber, servindo para avaliar os regimes quanto a seu processo de democratização. Desta forma, ele considera as democracias existentes pobres aproximações do ideal democrático, por este motivo sugeriu que estas democracias fossem chamadas de poliarquias, tendo em vista que estas são as formas da democracia no mundo moderno, caracterizadas pelas diversidade das condições sociais, culturais e econômicas dos indivíduos e pela multiplicidade de interesses em jogo e as condições necessárias e suficientes para o seu desenvolvimento. Assim, a sua teoria oferece um modelo de democracia para a produção de políticas publicas, para a participação e representação política e, para a responsabilidade e responsividade do governo assentada num modelo pluralista que se caracteriza pela diversidade de interesses no mundo moderno e de que o individuo orienta suas ações para o calculo máximo de seus interesses. E que a existência de associações e partidos políticos é considerada necessária para a vigência da democracia em larga escala, uma vez que eles são o veiculo da participação dos cidadãos nas democracias modernas. Em suma, há de ficar entendido que a democracia está fundamentada nos direitos civis, sociais e políticos, inseridos pela liberdade do cidadão que engloba segurança, locomoção, trabalho, salário justo, saúde, educação, habitação, liberdade de expressão, de voto, de participação em partidos políticos e sindicatos, dentre outros. E, a partir disso, tem-se a visão mais completa e não menos controversa do que se possa conceituar o preceito democrático, onde, indubitavelmente, se aliaria a liberdade à igualdade e aos direitos e deveres do cidadão. E tal condução está articulada com as idéias expressas por T.H. Marshal quando este assinala que o período de formação democrático surge com os anseios da cidadania, tendo seu começo no início do século XIX, quando os direitos civis ligados ao "status" de liberdade, já haviam conquistado substância suficiente para justificar que se fale de um "status" geral de cidadania, formulando que as bases democráticas da cidadania está assentada nos direitos civis surgidos no século XVIII, nos políticos surgidos no século XIX e os sociais, no século XX. Assim, a democracia, pois, significa de forma geral a autonomia de um povo. Como tal, a idéia democrática está indissoluvelmente ligada ao valor de liberdade, concebida esta, justamente, como a faculdade de todos e de cada um se definirem ou agirem segundo sua própria determinação de totalidade, compelindo para a participação da igualdade e à consciência solidária de conjunto que resulta, impreterivelmente, na cidadania.
Ao efetuar uma abordagem analítica acerca da democracia ao longo dos séculos, desde a Grécia antiga até a contemporaneidade, encontra-se uma diversidade no seu desenvolvimento, desde a manifestação direta dos gregos, até os modelos representativos e semidiretos ou participativos dos tempos atuais. A grande discussão gira em torno das questões utópicas debatidas, quando desde a antiguidade o pensamento aristotélico já mencionava a não possibilidade de existência da democracia com a força de sua significação, chegando à expressão das promessas não cumpridas contemporaneamente, defendida por Norberto Bobbio, merecendo, pois, um aprofundamento necessário nos estudos acerca do desenvolvimento da democracia. É claro que o entendimento acerca do significado do termo democrático remonta a idéia de sua emanação do povo e de ser exercido o seu poder para este mesmo povo, a exemplo do que ficou estabelecido como Estado Democrático de Direito instituído no Brasil pela Constituição Federal de 88, a tão propalada carta cidadã. Com isso, há que se observar que o Estado se constitui no povo, território e governo com a finalidade do bem comum. A partir disso, surge o Estado de Direito assentado na legalidade e na juridicidade estatal. A democracia, por seu turno, traz implícita a efetiva participação popular visando decidir sobre os destinos do Estado, traduzindo, portanto, que o verdadeiro titular do poder é o povo, mesmo que este seja representado por aqueles que foram submetidos à vontade popular. A partir de tais conceitos, chega-se a entender que o Estado Democrático de Direito, em suma, evidencia a idéia de um Estado legitimado que seja administrado e governado em obediência à lei e aos principais democráticos da soberania popular, propiciando a superação das desigualdades e implantação da justiça social. Com isso apreende-se que a democracia traduz o respeito à pluralidade das idéias, etnias e culturas na convivência livre, justa e solidária da sociedade, emanando do povo e exercido em seu proveito.

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