quinta-feira, fevereiro 01, 2018

GABRIELA MISTRAL, NOLL, LENINE, FRANCASTEL, CERTEAU, ROBERTO AGUILAR, LUANDA JONES, LEONA CAVALLI & ZÉ CORNINHO.

A SENSABORIA DE ZÉ-CORNINHO – Imagem: Arte do pintor, escultor, performer e artista multimídia José Roberto Aguilar. - Zé-Coninho andava ultimamente meio que sorumbático, todo desencorajado, queixando-se de dores nos quartos, no bucho, nas gaias, no muque, nos pulsos, enfim, dizia não ser mais gente que prestasse pra nada, era só dor da alma pro retrato. Onde é que está aquele que levava tudo nos peitos, hem? Ah, mô fio, já trelei muito, toquei fogo nos quatro cantos do mundo, fui até onde o beiço virava, pro fim do mundo que não tem porque é redondo e dei volta como a peste! Mais longe fosse, mais ia de nem cansar tão cedo, emendava noite pelo dia e nem, nem, subia o tanto de riba como se fosse descida ajudada, os cambitos à toda, nada de fraquejar, sou lá bicho de me acovardar? Ora, ora. Levanta o moral, Zé! Dá mais não, a idade chegando, a coisa complica. Que é isso, rapaz? Tão jovem, ainda. Nada, os anos pesam, sem destreza, a gente vale mais o quê? Segura a onda, hômi! Ah, rapaz, estou mais pra lá do que pra cá, na noite sem glória ou honra, não sirvo nem mais prum caldo, muito menos prum pum, ora, ora. Parecia mais que ele se entregava, sem ter nada desabonador – excetuando-se a tuia de gaia que já havia levado pra desespero da filharada que crescia cada dia mais e ter atrapalhado a vida de muita gente com seu arranco desmedido -, a angústia, o tédio, tomava conta do sujeito. Pois é, uma gastura comendo tudo por dentro, da gente perder a vontade até de viver. Como é que pode? Tome tento! Já fui bom nisso. O que já dei de carreirão por esse mundo de meu Deus, nem dá pra contar. Desafiei de tudo, peito estufado, barriga pra dentro, coragem na munheca, força nos cardans, pinote pra todo lado, tino na hora, viesse o que fosse, vencia no ânimo. Nem temia nada, estava em alta na cotação da coragem, acostumado a subir em pé de coco, não tinha altura que não ganhasse! Uma vez mesmo, uma enxerida nua no alto do sótão dum casarão gritou perguntando se eu tinha coragem de encarar. Oxe, duvida? E ela viu: comi a subida como quem toma café pequeno e lá estava, ao vivo e em cores, enfiando a macaca no rabicho dela. Tome, danada! Comigo era assim. Provocou, estava vencido. Por isso sempre disse: onde tem um profissional, não há espaço pra amador. Assim era, assim foi. Hoje não, tudo ao contrário: não tem inflação e os preços das coisas subindo todo dia; não tem dinheiro no governo e todo dia um escândalo da roubalheira dos políticos. Como é que pode? Os caras lá de Brasília dizem que a coisa vai mudar, mas nem na marra! Pra minha sorte, tenho ainda onde encostar a cabeça, pegar meu espelhinho e conferir as coisas. Com ele já acendi fogueira, encandeei os peixes na hora da pescaria, vi muita calcinha de mulher metida a besta, só no retrovisor já escapuli de muita malquerença, e sempre conferi as pregas do cu pra ver se ninguém me enrabou ao dormir ou de bobeira. Hoje, não, só ajeito o tuim e fico formoso do jeito que a vida me fez, mais nada. A culpa é minha, não é traição da vida não. Do jeito que vai a vida me despeja e eu vou pra onde? Bater as botas e babau. Bote fé, homem, a vida é pra ser vivida! Eu sei, eu sei, todo homem tem que saber da subida dolorosa até chegar em cima, já cheguei, agora é segurar os freios e a carcaça porque a descida só finda no fundo do abismo. Veja só como é que é, subiu, desceu, não dá outra. Deus me tenha, só Jesus na causa. Nessa hora, fazendo uma careta danada pra se mexer, ele saca do bolso da bunda o espelhinho empunhado, confere o penteado, as remelas dos olhos, os fiapos da venta, algum detrito nos dentes futucando com a unha, dum lado pra outro, a barba feita, as entradas no cocuruto, hem, hem, o cabelo caiu e não tem mais volta. Num descuido, o espelhinho escapuliu e se espatifou no chão. Tá vendo, só? Coisa de véio, não seguro mais nada, tudo cai. Hem, hem, só restou a mulher nua do espelhinho, intacta, pelo menos, num tô dizendo! Véio num serve mais pra nada, vou ter que ir à feira comprar outro, inté mais ver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o cantor, compositor, arranjador, multi-instrumentista, ator, escritor, produtor musical, engenheiro e ecologista Lenine em dois shows ao vivo; a cantora,violonista e compositora Luanda Jones interpretando Aquarela, Desigual & Depois de você; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] O homem não possui somente o poder de reproduzir, de tirar as conseqüências de uma conduta adquirida, ele possui igualmente a capacidade de mudar a ordem relativa de seus atos e de suas representações [...]  Trecho extraído da obra A realidade figurativa (Perspectiva/Edde, 1973) do sociólogo e historiador de arte francês Pierre Francastel (1900-1970), defendendo o valor das culturas visuais a partir do conceito de estrutura, por meio de estudos resultantes de quinze anos de reflexão e pesquisas históricas na Sorbonne, pelos quais entende que só o contato real com a obra de arte permite compreender como esta se incorpora à sociedade, alimentando-a e enriquecendo-a com elementos originais. A obra de arte confere ao historiador e ao sociólogo elementos de informação que de outra forma não teriam. Dentro deste postulado o autor desenvolve pormenorizada análise em torno das artes figurativas, inserindo-as em uma nova problemática do imaginário. As relações teóricas da arte com a técnica, com outros meios de expressão e disciplinas, o confronto entre formas estéticas e sistemas lógicos, os problemas inerentes à iconografia religiosa, constituem alguns dos tópicos esclarecedores para o levantamento dos elementos estruturais próprios de uma Sociologia da Arte.

LEITORES & VIAJANTES - [...] Os leitores são viajantes; circulam em terras alheias; são nômades que caçam furtivamente em campos que não escreveram. [...] a atividade silenciosa, transgressora, irônica ou poética, de leitores (ou telespectadores) que consevam uma reserva de distância na intimidade, sem que os ‘amos’ o saibam [...] A escrita acumula, estoca, resiste ao tempo pelo estabelecimento de um lugar e multiplica sua produção pelo expansionismo da reprodução. A leitura não se protege contra o desgaste do tempo (nos esquecemos de nós mesmos e esquecemos dela), não conserva ou conserva mal sua conquista, e cada um dos lugares por onde passa é repetição do paraíso perdido. [....]. Trecho da obra A Invenção do Cotidiano (Vozes, 1998), do historiador francês Michel de Certeau (1925-1986), no qual examina as maneiras em que as pessoas individualizam a cultura de massa, alterando coisas desde objetos utilitários até planejamentos urbanos e rituais, leis e linguagem, de forma a apropriá-los.

MARILYN NO INFERNO - [...] Raia o arvoredo. No front os soldados se concentram e rezam com a mão sobre a Bíblia. É a agonia de John Ford, diz o mais valente. Quando começará a cena ninguém sabe. Sabem que será uma batalha da Guerra da Secessão e que eles estão preparados. O mais novo se ilude com umas bugigangas compradas na Feira Hippie de Ipanema. À noite terá a companhia de uma garota e dançará. O som frenético das Frenéticas. O mais velho, ancião de longas barbas brancas, ao contra´rio dos bons velhos hollywoodianos, tem uma cara de mau, de profunda insensibilidade. Mora sozinho numa casa de Vila em Botafogo e roi desesperadamente as unhas. Diz que sempre foi assim. A mulher que se maquia na frente do espelho tem origem em indígenas brasileiros, mas faz o papel de uma mexicana. Saboreia o gosto do batom. Sabe que alguém espia mas finge que não vê. É o primeiro western rodado no Brasil, a Baixada Fluminense imitando as pradarias do Arizona. Nenhuma grande estrela. Todos temem o freacasso do filme. Empatei milhões nisso aí, vamos tocar pra frente, grita o produtor acordando um figurante. É um rapazinho de Nova Iguaçu [...] Adora cinema, vê tantas fitas quanto possível pó dia. Às evezes entra às duas e sai à meia-noite. [...] O rapazinho olha-se no espelho da índia que faz a mexicana e ouve o “imbecil” que o diretor lhe jogou para que levantasse a espingarda com vontade contra o céu [...] aí vê um flash explodir sobre seu corpo e banhá-lo de uma luz efêmera como um soluço mas que o deixa iliminado para sempre [...] lá vai o rapazinho agarrado ao pescoço do cavalo, o céu e a terra são uma coisa só, Caxias está perto, muito perto, quase chegando, o rapazinho já vê os primeiros prédios e chaminés [...] é boa a vertigem e ele conseguirá o estrelato na Globo abraçado a Rosamaria Murtinho na capa da Amiga, ele preferia estar ao lado da Aracy Balabanian [...] ele não sabe por que mas gosta da Aracy Balabanian, aquela moça que não é bonita nem feia mas que tem uma simpatia que cativa o coração de todos – na rua principal de Caxias ele galopa veloz entre os canros e ônibus, não respeita os congestionamentos e passa fininho por uma bicicleta assustada [...] o grande cartaz do cinema mostra Kung Fu contra os espadachins de Damasco, Kung Fu! Repete o rapazinho que não agüenta tanta gloria e é cuspido do cavalo contra o cartaz que se rasga e recebe um biolento jato de sangue no olho do Kung Fu. Trechos extraídos da obra O cego e a dançarina (L&PM, 1980), do premiado escritor João Gilberto Noll (1946-2017).

DOIS POEMASO PENSADOR DE RODIN: – Apoiando na mão rugosa o queixo fino, / o pensador reflete que é carne sem defesa: / carne da cova, nua em face do destino, / carne queodeia a morte e tremeu de beleza. / E tremeu de amor, toda a primavera ardente, / e hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza / o “havemos de morrer” passa-lhe pela mente / quando no bronze cai a noturna escureza. / E na angustia, seus músculos se fendem sofredores. / Sua carne sulcada enche-de de terrore. / Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte / Que o reclama nos bronzes. Não há arvore torcida / pelo sal na planície, nem leão de anca ferida, / crispados como este homem que medita na morte. PRIMEIRO SONETO DA MORTE: Do nicho lôbrego onde os homens te pusarem / te levarei à terra humilde e ensolarada / nela hei de adormecer – se os homens não souberem - / e havemos de dormir sobre a mesma almofada. / Te deitarei na terra humilde, te envolvendo / no amor da mãe para o seu filho adormecido. / E a terra há de fazer-se um berço recebendo / teu corpo de menino exausto e dolorido. / Poderei descansar, sabendo que descansas / no pó que levantei azulado e linar / em que presos serão os teus leves destroços. / Partirei a cantar minhas belas vinganças, / pois nenhuma mulher me há de vir disputar / a este fundo descenso o teu punhado de ossos. Poemas da poeta chilena Gabriela Mistral (1889-1957), Prêmio Nobel de Literatura em 1945. Veja mais aqui.

ANNA K & JOSÉ ROBERTO AGUILAR
O drama fantasia Anna K (2015), de José Roberto Aguilar, conta a história de um professor de russo que fica intrigado ao dar aulas para Joana, uma mulher que acredita ser Anna Karenina, personagem que dá título ao romance de Liev Tolstói. O destaque do filme fica por conta da belíssima atriz Leona Cavalli.

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A ARTE DE JOSÉ ROBERTO AGUILAR
A arte do pintor, escultor, performer e artista multimídia José Roberto Aguilar.

DIAS GOMES, MARIA RITA, JANNA SHULRUFER, I-POEMA & MAMÃO

O AMOR DA JUMENTA – Art by Janna Shulrufer - Aquele reles sujeito a quem todos tratavam pelo apelido chistoso de Mamão, era um sujeito se...